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Entre o Sangue e a Redenção
O som do impacto não foi algo que Emanuel ouviu; foi algo que ele sentiu. O estalo seco do metal contra o asfalto, o mundo girando em um caleidoscópio de luzes de neon e sombras, e então o silêncio absoluto, apenas interrompido pelo chiado do radiador da sua moto personalizada. Por um breve segundo, antes da escuridão total, ele pensou em Eduarda. Pensou que não tinha respondido à última mensagem dela dizendo que a amava.
A notícia chegou ao apartamento como uma bomba de fragmentação. Sara estava no telefone com um fornecedor de tintas de Berlim quando recebeu a chamada da emergência. Ela não gritou. Sara não era mulher de gritos histéricos. Ela apenas empalideceu, desligou o celular e sentiu, pela primeira vez em anos, o chão sumir sob seus saltos altos.
— Eduarda... — murmurou Sara para as paredes vazias, antes de discar o número da mais nova.
Eduarda estava na biblioteca da faculdade, rodeada por livros sobre o Renascimento Italiano, quando o celular vibrou. Ao ver o nome de Sara na tela, seu coração disparou. Sara nunca ligava.
— Alô? — a voz de Eduarda saiu pequena, já prevendo o desastre.
— Duda, me escuta. O Emanuel sofreu um acidente. Ele está no Miguel Couto. Eu estou indo para lá agora.
O livro que Eduarda segurava caiu no chão com um baque surdo. O mundo dela, aquele mundo protegido que Emanuel havia construído com tanto afinco, acabava de desmoronar.
— Eu estou indo... Sara, por favor, me diz que ele está vivo — Eduarda soluçava, já correndo em direção à saída, ignorando os olhares curiosos dos outros estudantes.
— Ele está, Duda. Mas corre.
As horas seguintes foram um borrão de luzes brancas, cheiro de éter e o som constante de bipes de aparelhos. Quando Eduarda chegou ao hospital, encontrou Sara sentada na sala de espera. A loira, sempre impecável, estava com o rímel levemente borrado e a postura rígida. Ao ver Eduarda, Sara se levantou. Não houve sarcasmo, não houve olhares de superioridade.
Eduarda desabou nos braços de Sara, chorando como a criança que Sara sempre dizia que ela era. E Sara, surpreendentemente, a segurou.
— Shhh, calma, boneca — Sara sussurrou, passando a mão pelos cabelos castanhos de Eduarda. — Ele é duro na queda. Você sabe que ele é teimoso demais para morrer agora.
— A culpa é minha, Sara... — Eduarda soluçava contra o ombro da outra. — A gente discutiu ontem porque eu não queria ir para o estúdio... ele saiu nervoso...
— Para com isso — Sara a afastou um pouco, segurando seu rosto com as mãos frias. — O Emanuel é um inconsequente em cima daquela moto desde os dezoito anos. A culpa não é sua. Agora limpa esse rosto. Ele não pode acordar e ver você desse jeito. Ele precisa que você seja o porto seguro dele hoje.
A trégua foi selada naquele momento. Não por amizade, mas por um amor compartilhado que transcendia a rivalidade. Emanuel era o sol em torno do qual ambas orbitavam, e sem ele, as duas estariam perdidas no escuro.
Emanuel sobreviveu, mas o preço foi alto. Três costelas quebradas, uma fratura exposta na perna direita e uma concussão severa que o manteve inconsciente por dois dias. Quando ele finalmente abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi o teto branco do hospital e a segunda foi o rosto de Eduarda, adormecida em uma poltrona desconfortável ao lado da cama, segurando sua mão como se sua vida dependesse disso.
— Duda... — a voz dele saiu como um sussurro seco, arranhando a garganta.
Eduarda acordou em um salto. Seus olhos castanhos, vermelhos de tanto chorar, brilharam com uma alegria que Emanuel nunca esqueceria.
— Manu! Meu Deus, Manu! — Ela se inclinou sobre ele, cobrindo seu rosto de beijos leves, tomando cuidado com os tubos e curativos. — Você voltou... você voltou para mim.
Emanuel tentou sorrir, mas a dor o impediu. Ele olhou em volta e viu Sara parada à porta, observando a cena com os braços cruzados. Ela deu um nó na garganta ao vê-lo desperto, mas apenas assentiu com a cabeça, mantendo a máscara de controle.
— Você está horrível, Emanuel — disse Sara, aproximando-se da cama. — A moto deu perda total. E eu tive que cancelar três semanas de agenda. Você tem sorte de eu não te matar aqui mesmo.
Emanuel soltou uma risada fraca, que logo se transformou em uma careta de dor.
— Bom te ver também, Sara.
A recuperação foi lenta. Os médicos foram claros: Emanuel precisaria de cuidados constantes por pelo menos dois meses. Ele não poderia andar, teria dificuldade para realizar tarefas simples e precisaria de fisioterapia intensiva.
No dia da alta, o impasse surgiu.
— Ele vai para a casa dos pais? — perguntou Sara, enquanto assinava os papéis da burocracia hospitalar.
— Não — disse Eduarda. Sua voz não era mais manhosa ou hesitante. Era firme. — Ele vai para o apartamento dele. E eu vou com ele.
Sara parou de escrever e olhou para Eduarda. Emanuel, sentado em uma cadeira de rodas com a perna engessada, observava as duas, o olhar cansado, mas atento.
— Duda, você sabe o que isso significa — Sara alertou. — Não vai ser fácil. Ele vai estar insuportável, vai sentir dor, vai precisar de banho, de ajuda para tudo. Você aguenta?
— Eu vou cuidar dele, Sara. Eu não vou deixá-lo sozinho — Eduarda olhou para Emanuel. — Manu, eu estou indo morar com você. De verdade. Se você ainda me quiser lá.
Emanuel estendeu a mão para ela, puxando-a para perto.
— É tudo o que eu mais quis nos últimos meses, pequena. Só não queria que fosse nessas condições.
— As condições não importam — disse ela, beijando-lhe a testa.
A mudança de Eduarda para o apartamento de Emanuel foi um marco. De repente, o ambiente que antes era dominado pela estética fria e executiva de Sara e pelo caos artístico de Emanuel ganhou toques de suavidade. Havia flores frescas nos vasos, o cheiro de comida caseira substituía o delivery constante e a música suave de Eduarda agora competia com o rock pesado que Emanuel costumava ouvir.
A convivência entre as duas mulheres, no entanto, foi o que mais mudou. Sara, apesar de sua natureza vulgar e provocadora, reconheceu a competência de Eduarda nos cuidados com Emanuel. Enquanto Sara gerenciava os estúdios, lidando com os funcionários e a perda financeira do afastamento do "mestre", Eduarda era a enfermeira, a fisioterapeuta e o apoio emocional.
Certa tarde, Emanuel estava frustrado. Ele tentava se levantar do sofá para pegar um livro e a dor na costela o fez cair de volta com um gemido de raiva.
— Inferno! Eu sou um inválido! — ele gritou, jogando uma almofada no chão.
Eduarda entrou na sala rapidamente, vindo da cozinha.
— Manu, calma. O médico disse que...
— O médico não sabe de nada! — ele cortou, a irritação de quem sempre teve o controle e agora se via dependente. — Eu não consigo nem pegar um livro, Duda! Como eu vou voltar a tatuar? Como eu vou manter tudo o que eu construí?
Eduarda sentou-se no chão, ao lado das pernas dele, e colocou as mãos sobre os joelhos de Emanuel.
— Você vai voltar porque você é o homem mais forte que eu conheço. Mas agora, você precisa ser forte de um jeito diferente. Você precisa ter paciência. Deixa eu te ajudar.
Emanuel olhou para ela, a fúria nos olhos diminuindo diante da doçura inabalável de Eduarda.
— Eu sou um peso para você, não sou? — ele perguntou, a voz subindo de tom pela insegurança. — Você deveria estar na faculdade, saindo com suas amigas, não limpando o suor de um tatuador quebrado.
— Eu estou exatamente onde eu quero estar, Manu — ela disse, puxando a mão dele para o seu rosto. — Eu prefiro estar aqui cuidando de você do que em qualquer outro lugar do mundo.
Sara, que acabara de chegar do estúdio, assistia à cena do corredor. Ela entrou na sala jogando as chaves sobre a mesa de centro.
— Chega de drama, Emanuel — disse Sara, servindo-se de uma dose de uísque. — A Duda está sendo uma santa com você. Se fosse eu, já teria te dado um tapa para você parar de reclamar.
Emanuel olhou para Sara e depois para Eduarda. Ele percebeu que, naquele momento de fraqueza, ele tinha tudo.
— Vem cá, Sara — ele pediu, estendendo o outro braço.
Sara hesitou por um segundo, mantendo sua postura de mulher fatal, mas acabou cedendo. Ela se sentou do outro lado de Emanuel no sofá. Pela primeira vez, os três estavam ali, em um silêncio que não era tenso, mas de aceitação.
— A administração está em ordem — disse Sara, sua voz voltando ao tom profissional. — Os estúdios de Madri e Tóquio estão operando bem. Você não precisa se preocupar com dinheiro. Só precisa se preocupar em ficar bom para que eu possa parar de fazer o seu trabalho e o meu ao mesmo tempo.
— Obrigado, Sara — Emanuel disse, sincero. — Eu sei que eu não facilito as coisas.
— Não facilita mesmo — ela sorriu de lado, o brilho irônico voltando aos olhos. — Mas a boneca aqui tem mãos milagrosas. O café que ela faz é horrível, mas ela sabe cuidar de você melhor do que eu.
Eduarda riu, uma risada leve que iluminou o ambiente.
— Meu café não é tão ruim assim!
— É péssimo, Duda. Aceite — Sara brincou, e por um instante, houve uma conexão genuína entre elas.
Com o passar das semanas, a saúde de Emanuel melhorou. Ele começou a dar os primeiros passos com a ajuda de muletas, e o humor dele, embora ainda oscilante, estava mais estável. A presença permanente de Eduarda no apartamento trouxe uma paz que ele nunca soube que precisava. Ele a via estudando na mesa da sala enquanto ele descansava, e a visão dela ali, sob seu teto, era o melhor remédio.
No entanto, a natureza de Emanuel não mudara completamente. Sua possessividade, agora alimentada pela vulnerabilidade da recuperação, manifestava-se de formas novas.
— Quem era aquele cara que te deixou na porta hoje? — perguntou ele em uma tarde em que Eduarda voltou da faculdade.
— Um colega de grupo, Manu. O nome dele é Rodrigo. Ele só me deu uma carona porque estava chovendo — explicou ela, aproximando-se para dar um beijo nele.
Emanuel segurou o braço dela, não com força, mas com aquela intensidade que o caracterizava.
— Eu não gosto de outros caras te trazendo em casa. Eu disse que mandaria o motorista te buscar.
— Manu, o motorista estava com a Sara em uma reunião — Eduarda disse, mantendo a calma. — Foi só uma carona. Não começa.
— Eu não quero você perto desses moleques de faculdade, Duda. Você é minha. Especialmente agora que você mora aqui.
Sara, que passava pelo corredor, parou e olhou para os dois.
— Deixa de ser paranoico, Emanuel. A menina está aqui cuidando de você o dia todo, indo e voltando da faculdade para não te deixar sozinho, e você vai dar crise por causa de carona?
— Eu não pedi sua opinião, Sara — Emanuel rosnou.
— Pois eu estou dando — Sara caminhou até ele, encarando-o de frente. — A Duda provou que é mais fiel a você do que qualquer um de nós esperava. Se você começar com esse controle doentio agora que ela finalmente se mudou, ela vai embora de novo. E desta vez, eu não vou te ajudar a trazê-la de volta.
Emanuel olhou para Sara e depois para o rosto magoado de Eduarda. Ele soltou o braço dela e suspirou, fechando os olhos.
— Desculpa. Eu só... eu me sinto inútil aqui sentado enquanto você está lá fora.
Eduarda se ajoelhou na frente dele, pegando suas mãos.
— Você não é inútil. Você é o meu Emanuel. E eu não vou a lugar nenhum. Mas você precisa confiar em mim, assim como eu confio em você quando você está cercado de modelos e mulheres lindas no estúdio.
Emanuel assentiu, rendendo-se à lógica dela. Ele a puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto em seus cabelos.
A trégua entre Sara e Eduarda tornou-se uma convivência civilizada e, às vezes, até cúmplice. Sara começou a levar Eduarda para fazer compras, alegando que o guarda-roupa da mais nova era "romântico demais e sem graça", enquanto Eduarda tentava ensinar Sara a ter um pouco mais de paciência com os funcionários mais sensíveis do estúdio.
Em uma noite, após Emanuel finalmente conseguir dar alguns passos sem ajuda, eles decidiram jantar juntos na varanda do apartamento. O céu do Rio de Janeiro estava estrelado e a brisa era suave.
— Um brinde — disse Sara, levantando sua taça de vinho. — Ao Emanuel, por não ter morrido e por ter as duas mulheres mais incríveis da cidade cuidando dele.
— E um brinde à nossa nova vida — completou Eduarda, tocando a taça de Sara.
Emanuel olhou para as duas. Sara, loira, exuberante, com sua inteligência afiada e sua vulgaridade magnética, que mantinha seu império de pé. E Eduarda, tímida, doce, com sua manha que o desarmava e sua lealdade que o salvava de si mesmo.
— Eu sou o homem mais sortudo do mundo — disse Emanuel, a voz carregada de uma emoção rara. — Eu quase perdi tudo, mas o acidente me mostrou que o que eu tenho de mais valioso não está nos estúdios ou nas máquinas de tatuagem. Está aqui.
Ele pegou a mão de cada uma. Naquele momento, as diferenças de personalidade, os conflitos de ego e as disputas de espaço pareciam pequenos. Eles haviam encontrado um equilíbrio precário, mas funcional. Uma família torta, nascida da obsessão e da necessidade, mas mantida por um cuidado que o sangue e a dor haviam solidificado.
Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel, sentindo-se finalmente em casa. Ela sabia que ainda haveria crises, que a possessividade de Emanuel voltaria a sufocá-la e que o sarcasmo de Sara ainda a feriria, mas agora ela tinha um lugar à mesa. Ela não era mais apenas a protegida; ela era a base.
Sara sorriu para Eduarda, um sorriso curto, mas sem veneno. Ela aceitara que Eduarda não era uma ameaça, mas um complemento. Emanuel precisava da fúria de Sara para conquistar o mundo, e da doçura de Eduarda para suportar o peso dessa conquista.
A noite seguiu com risadas e planos para o futuro. Emanuel logo voltaria a tatuar, as marcas de tinta voltariam a cobrir as peles alheias, mas as marcas que aquele período de fragilidade deixara neles eram as únicas que realmente importavam. Marcas de vidro quebrado, de sangue derramado e, finalmente, de uma redenção que só o amor — em todas as suas formas complexas e egoístas — poderia proporcionar.