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Marcas de Vidro e de Sangue
O silêncio no apartamento de Emanuel no dia seguinte ao jantar era tão denso que parecia palpável. Sara não se dera ao trabalho de esconder sua fúria; ela batia as portas dos armários e falava ao telefone em tons ríspidos, ignorando completamente a presença de Eduarda. Emanuel, por sua vez, estava em seu escritório particular, tentando descontar a tensão em desenhos que saíam mais sombrios do que o habitual.
Eduarda estava sentada na beira da cama, observando a mala que mal havia desfeito. A sensação de inadequação que a corroía desde a chegada de Jéssica havia se transformado em uma certeza fria: ela não pertencia àquele lugar. Não ainda. Talvez nunca. O estilo de vida de Emanuel e Sara era uma engrenagem pesada, feita de excessos, de uma liberdade que a assustava e de uma vulgaridade que ela não conseguia mimetizar.
Quando Emanuel entrou no quarto, ele a encontrou dobrando um de seus vestidos leves com as mãos trêmulas.
— O que você está fazendo, Duda? — perguntou ele, a voz baixa, mas carregada de uma advertência implícita.
Eduarda não olhou para cima. Seus olhos castanhos estavam fixos no tecido.
— Eu vou para casa, Manu.
Emanuel deu um passo à frente, a presença dele preenchendo o espaço de forma esmagadora. Ele segurou o pulso dela, não com força, mas com uma firmeza que exigia atenção.
— Nós já conversamos sobre isso. Você mora aqui agora. O que aconteceu ontem foi um erro, eu já resolvi. A Jéssica não volta mais.
— Não é só a Jéssica, Manu — Eduarda finalmente levantou o rosto, e as lágrimas que ela tentava segurar começaram a cair. — É tudo. É o jeito que a Sara me olha, é o jeito que vocês vivem... eu me sinto como um brinquedo que você tirou da caixa e não sabe onde colocar. Eu não estou pronta para isso. Eu quero o meu quarto, eu quero a minha mãe, eu quero a paz que eu tinha.
Emanuel sentiu uma onda de irritação pura subir pelo seu peito. Ele havia movido montanhas, enfrentado a resistência dos pais dela e até mesmo os caprichos de Sara para tê-la sob seu teto, e agora ela queria recuar.
— Você não vai a lugar nenhum — ele rosnou, a mandíbula travada. — Você é minha namorada, Eduarda. Eu disse que cuidaria de você, e é isso que eu estou fazendo. Deixar você voltar para aquela casa é admitir que eu falhei em te manter aqui.
— Você não falhou, Manu... você só está tentando me forçar a ser algo que eu não sou! — ela exclamou, soltando o pulso e recuando para o canto da cama. — Eu te amo, eu quero estar com você, mas eu não posso morar neste apartamento. Não com a Sara me tratando como uma intrusa e com você tentando me controlar a cada segundo.
— Eu te controlo porque você não tem discernimento! — Emanuel gritou, perdendo a paciência. — Ontem você fez uma cena na frente de uma convidada importante! Se você estivesse na casa dos seus pais, estaria lá agora chorando no colo da sua mãe em vez de enfrentar a realidade.
— E é exatamente lá que eu quero estar! — Eduarda pegou sua mochila e começou a colocar suas coisas de qualquer jeito.
A porta do quarto se abriu e Sara apareceu, com um sorriso irônico e uma taça de vinho na mão, apesar de ainda ser cedo.
— Deixa a menina ir, Emanuel — disse Sara, a voz arrastada e cheia de veneno. — Olha para ela. Ela está tremendo. Você quer uma mulher ou uma criança assustada? Se ela quer a mamãe, deixe que ela vá. Vai ser um alívio não ter que ouvir soluços toda vez que alguém respira mais forte neste corredor.
— Cala a boca, Sara! — Emanuel virou-se para ela, os olhos brilhando de ódio. — Isso é entre mim e a Duda.
— Não, Manu — Eduarda disse, caminhando em direção à porta com a mochila nas costas. — É entre mim e a minha sanidade. Eu volto para te ver no estúdio, a gente pode sair... mas eu não durmo mais aqui.
Emanuel tentou impedi-la, mas a determinação silenciosa de Eduarda era algo que ele raramente via. Ela passou por ele como um sopro, deixando para trás o rastro de seu perfume de baunilha e o som de seu choro abafado. Emanuel ficou parado no centro do quarto, sentindo uma impotência que o deixava possesso. Ele chutou a mesinha de cabeceira, fazendo com que o abajur de cristal se estilhaçasse no chão.
— Parabéns, Emanuel — Sara debochou, encostando-se no batente. — Você conseguiu. Agora tem uma namorada que mora com os pais e uma que te odeia por ter estragado o jantar de ontem.
Emanuel não respondeu. Ele saiu do quarto, pegou as chaves do carro e saiu do apartamento, dirigindo sem rumo, sentindo que o controle que ele tanto prezava estava escorrendo por entre seus dedos tatuados.
Dois dias se passaram. Emanuel tentou ligar para Eduarda dezenas de vezes, mas ela não atendia. Ele enviou mensagens, flores, até mesmo um de seus assistentes com um presente caro, mas a resposta era sempre o silêncio. Sua irritação havia se transformado em uma ansiedade corrosiva. No terceiro dia, ele não aguentou mais e dirigiu até a casa dos pais de Eduarda.
A casa era moderna, arejada e cercada por um jardim impecável. Emanuel tocou a campainha e quem atendeu foi Helena, a mãe de Eduarda. Helena era jovem, bonita e tinha um olhar que sempre parecia ler a alma de Emanuel — e, naquele momento, o olhar dela não era amigável.
— Onde ela está, Helena? — perguntou Emanuel, sem rodeios.
— Ela está no quarto, Emanuel. E não está bem — Helena respondeu, cruzando os braços. — Ela pegou uma virose forte. Febre, vômitos... ela está exausta.
Emanuel sentiu um aperto no peito, uma mistura de culpa e preocupação possessiva.
— Eu quero vê-la. Eu vou cuidar dela.
— Não, você não vai — Helena disse com firmeza, impedindo-o de entrar. — Ela me contou o que aconteceu no seu apartamento. Emanuel, nós gostamos de você, conhecemos você desde pequeno, mas o que você está fazendo com a minha filha não é saudável. Ela voltou para cá em frangalhos.
— Eu amo a Eduarda! Tudo o que eu faço é para protegê-la! — ele exclamou, a voz subindo de tom.
— Às vezes a sua proteção parece muito com uma prisão, querido — Helena suspirou. — Ela precisa de paz agora. Precisa de canja, de repouso e de não ter ninguém gritando com ela ou tentando forçá-la a viver uma vida que não é dela.
— Helena, por favor... — Emanuel pediu, sua arrogância desmoronando por um instante. — Eu só preciso saber que ela está bem.
Helena hesitou, mas acabou cedendo espaço para ele entrar.
— Só dez minutos, Emanuel. E se você a estressar, eu mesma te coloco para fora.
Emanuel subiu as escadas que conhecia tão bem. O quarto de Eduarda era o oposto de seu apartamento luxuoso e frio. Era cheio de cores claras, livros, almofadas e tinha um cheiro doce de infância. Ele abriu a porta devagar e a viu.
Eduarda estava deitada, pálida, com uma compressa úmida na testa. Ela parecia ainda menor sob as cobertas pesadas. Ao ver Emanuel, ela não sorriu; apenas fechou os olhos, como se a visão dele fosse dolorosa.
— Duda... — ele sussurrou, sentando-se na beira da cama e pegando a mão dela. Estava quente, febril.
— Por que você veio, Manu? — ela perguntou, a voz fraca e rouca.
— Eu fiquei preocupado. Você não atendia... eu quase enlouqueci.
— Eu estou doente, Manu. Meu corpo não aguentou — ela abriu os olhos, que estavam opacos. — A minha mãe está cuidando de mim. Aqui eu me sinto segura.
— Você está segura comigo também, pequena. Eu posso te levar para os melhores médicos, eu posso...
— Não — ela o interrompeu, retirando a mão da dele. — Você não entende. Segurança para você é ter o controle. Segurança para mim é poder respirar sem pedir licença para a Sara ou sem medo de você ficar bravo porque eu não aguento a sua intensidade.
Emanuel sentiu uma pontada de rejeição que o fez travar a mandíbula. Ele queria pegá-la no colo e levá-la de volta, queria provar que ele era o único que poderia protegê-la de verdade, mas a visão dela tão debilitada o impedia.
— Você vai ficar aqui até quando? — perguntou ele, a voz ríspida tentando esconder a mágoa.
— Até eu me sentir forte de novo. E mesmo depois... eu vou continuar morando aqui, Manu. Eu amo você, mas eu não vou ser a terceira pessoa no seu relacionamento com a Sara dentro daquela casa.
— Você não é a terceira pessoa! Você é a minha namorada!
— Então aja como se eu fosse — Eduarda disse, uma lágrima escorrendo pelo canto do olho. — Me respeite. Respeite o meu tempo.
Nesse momento, Helena entrou no quarto com uma bandeja de chá. Ela olhou para Emanuel com um aviso silencioso.
— O tempo acabou, Emanuel. Ela precisa descansar.
Emanuel levantou-se, sentindo-se um estranho em um território que um dia foi seu. Ele olhou para Eduarda uma última vez, o desejo de possuí-la lutando contra a realidade de que ele estava perdendo a batalha.
— Eu venho te ver amanhã — ele afirmou, mais como uma ordem do que como uma promessa.
— Veremos, Emanuel — Helena respondeu por ela, acompanhando-o até a porta.
Ao sair da casa, Emanuel encontrou o pai de Eduarda, que chegava do trabalho. O homem, jovem e de aparência moderna, apenas acenou com a cabeça, um gesto frio que indicava que ele sabia de tudo. Emanuel sentiu-se pequeno, uma sensação que ele detestava.
Ele voltou para o apartamento e encontrou Sara na sala, bebendo e ouvindo música alta. O contraste o atingiu como um soco.
— Como está a princesinha? — Sara perguntou, sem diminuir o volume. — Já se recuperou do desmaio dramático?
Emanuel caminhou até o aparelho de som e o desligou bruscamente.
— Ela está doente de verdade, Sara. E a culpa é nossa. Minha, por ter forçado a situação, e sua, por ser uma vadia cruel com ela.
Sara levantou-se, a fúria brilhando em seus olhos.
— Minha culpa? Eu sou a única que mantém os seus pés no chão, Emanuel! Eu sou a única que trabalha com você, que constrói o seu nome enquanto aquela menina brinca de ler livrinhos de arte. Se ela não aguenta o tranco, o problema é dela!
— O problema é que eu a amo! — Emanuel gritou, aproximando-se de Sara até que seus rostos estivessem a centímetros de distância. — E se você não aprender a conviver com ela sem tentar destruí-la a cada segundo, nós vamos ter um problema muito sério, Sara. Eu não vou perdê-la.
Sara soltou uma risada sarcástica, mas havia uma sombra de medo em seus olhos. Ela sabia que Emanuel era capaz de tudo quando se sentia acuado.
— Você já a perdeu, Manu. Ela voltou para o castelo dos pais. E você sabe que, enquanto ela estiver lá, você nunca terá o controle total.
Emanuel deu as costas e foi para o seu escritório. Ele passou a noite em claro, olhando para as fotos de infância dos três. Eduarda com cinco anos, rindo enquanto ele a empurrava no balanço; Sara com dez, já com aquele olhar desafiador, observando-os de longe. Ele sempre fora o protetor de Eduarda e o parceiro de crimes de Sara. Como as coisas haviam se tornado tão complicadas?
Nos dias seguintes, Emanuel tornou-se uma sombra na casa dos pais de Eduarda. Ele aparecia todos os dias, às vezes com sopa, às vezes com livros, às vezes apenas para sentar-se ao lado dela em silêncio enquanto ela dormia sob o efeito dos remédios. Helena e o marido o toleravam, mas o clima era de uma trégua armada.
Eduarda começou a melhorar lentamente. A cor voltou às suas bochechas e ela já conseguia se sentar na cama para conversar. No entanto, sua postura em relação à mudança permanecia inabalável.
— Eu vou voltar para a faculdade na segunda-feira — disse ela em uma tarde ensolarada, enquanto Emanuel cortava frutas para ela.
— Eu te levo — ele disse imediatamente.
— Não precisa, Manu. O meu pai vai me levar. Eu quero voltar à minha rotina. Minha rotina real.
Emanuel sentiu o ferrão da rejeição novamente.
— Você está me punindo, Duda? É isso?
— Não, Manu — ela pegou a mão dele, os dedos finos entrelaçando-se nos dele, cheios de tatuagens. — Eu estou me protegendo. Eu te amo mais do que tudo, mas eu preciso de um lugar onde eu possa ser apenas a Eduarda, e não a namorada do Emanuel que a Sara odeia.
— Eu posso mudar as coisas no apartamento... — ele começou, mas ela balançou a cabeça.
— Você não pode mudar a Sara. E eu não quero que você mude. Eu só quero que você aceite que, por enquanto, o nosso amor vai ter que acontecer aqui, ou no seu estúdio, ou em qualquer lugar que não seja aquela casa.
Emanuel olhou para ela, sentindo uma mistura de derrota e uma admiração relutante. Eduarda, em sua timidez e manha, estava demonstrando uma força que ele não esperava. Ela estava estabelecendo um limite que ele não podia simplesmente derrubar com sua vontade.
— Tudo bem — ele disse, a voz rouca. — Mas eu vou estar na sua porta todos os dias. E eu não vou desistir de te ter morando comigo, Duda. Um dia, eu vou construir um lugar que seja só nosso, sem interferências.
— Talvez um dia, Manu — ela sorriu, um sorriso doce e triste. — Mas, por enquanto, me dá um pedaço dessa maçã?
Emanuel a alimentou, sentindo que, embora ela estivesse ali, em seus braços, uma parte dela havia escapado para um lugar onde ele não tinha as chaves. Ele voltou para casa naquela noite e encontrou Sara esperando por ele com uma proposta de negócios em Madri.
— Precisamos viajar na semana que vem, Manu. A nova unidade precisa de você — disse Sara, profissional e fria.
Emanuel olhou para ela e depois para o corredor vazio onde Eduarda deveria estar.
— Nós vamos, Sara. Mas eu volto no fim de semana. Eu tenho um compromisso aqui.
Sara apenas deu de ombros, sabendo que a batalha pela alma de Emanuel continuaria. E Emanuel, o homem que queria tudo sob seu controle, percebeu que a única coisa que ele realmente queria — o coração total e a presença constante de Eduarda — era a única coisa que ele teria que aprender a conquistar, dia após dia, sem a força de suas mãos, mas com a paciência que ele nunca teve.
A virose de Eduarda passou, mas a marca que aquela crise deixou no relacionamento deles era permanente. O triângulo continuava, mas agora com uma nova geometria, onde a distância era a única forma de manter a paz, e o amor de Emanuel era testado pela sua capacidade de esperar por uma mulher que ele, pela primeira vez, não podia simplesmente carregar para casa.