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O Silêncio da Boneca e o Predador à Mesa
O silêncio do celular de Emanuel pesava mais do que qualquer grito. Eduarda passou o dia inteiro encarando a tela, esperando que o nome dele brilhasse com um pedido de desculpas, uma palavra carinhosa ou até mesmo uma ordem possessiva. Mas não houve nada. Emanuel, imerso no caos administrativo que o jantar desastroso na casa dos pais provocara, dedicara cada minuto de seu domingo a Sara, tentando apagar o incêndio profissional e o ego ferido da loira.
Eduarda sentia-se pequena. Mais do que o habitual. A sensação de ter sido deixada na calçada como uma criança que não soube se comportar no jantar dos adultos corroía seu peito. Ela não era "grossa" como Sara, não sabia se defender com sarcasmo e unhas douradas. Sua única arma era a doçura, e parecia que, para Emanuel, aquela arma tinha perdido o fio.
— Duda, querida, você precisa se animar! — A voz de sua mãe, clara e vibrante, ecoou pelo corredor. — Nossos amigos chegam em uma hora. O Dr. Arnaldo e o filho dele, o Ricardo, vêm jantar conosco. Lembre-se que eles são muito influentes no mercado de arte. Pode ser uma ótima oportunidade para o seu currículo.
Eduarda suspirou, guardando o celular na gaveta da cabeceira. Seus pais eram jovens, modernos e viam a vida com uma leveza que às vezes a sufocava. Eles gostavam de Emanuel, mas não entendiam a profundidade da possessividade dele, nem o quanto Eduarda se sentia dependente daquela atenção.
— Já vou descer, mãe — respondeu ela, a voz saindo num fio manhoso.
Ela escolheu um vestido que Emanuel certamente odiaria. Era um modelo de seda amarela pastel, com alças finas e um decote em "V" que, embora discreto, revelava o início da curva de seus seios macios. Ela não queria provocar ninguém, queria apenas sentir que tinha algum controle sobre sua própria imagem, já que Emanuel a ignorava.
Lá embaixo, a casa estava impecável. O cheiro de risoto de açafrão tomava conta do ambiente. Quando os convidados chegaram, Eduarda foi apresentada a Ricardo. Ele tinha cerca de 28 anos, era advogado, vestia um terno sob medida e tinha um olhar que vasculhava cada detalhe dela com uma confiança invasiva.
— Então esta é a famosa Eduarda? — Ricardo disse, segurando a mão dela por um tempo ligeiramente maior do que o necessário. — Seu pai me disse que você tem um olho clínico para o Renascimento, mas esqueceu de mencionar que você mesma parece uma pintura de Botticelli.
Eduarda sentiu o rosto queimar. Ela recolheu a mão devagar, o gesto tímido apenas servindo para atiçar o interesse do homem.
— Obrigada — murmurou ela, desviando o olhar. — Eu apenas gosto muito de estudar as técnicas da época.
— Eu adoraria ver seus portfólios da faculdade — continuou Ricardo, aproximando-se mais, o perfume amadeirado dele invadindo o espaço pessoal dela. — Ou talvez possamos visitar a nova exposição no MASP juntos? Ouvi dizer que você é uma guia excepcional.
Durante o jantar, a situação escalou. Ricardo sentou-se à frente de Eduarda e não escondia sua admiração. Enquanto os pais conversavam sobre política e economia, ele mantinha o foco nela.
— Você é muito silenciosa, Eduarda. É o mistério que as mulheres bonitas usam para atrair os homens ou você é realmente tão doce quanto parece? — perguntou ele, com um sorriso de lado.
Eduarda sentiu um aperto na garganta. Ela estava acostumada com a proteção de Emanuel, com a forma como ele bloqueava qualquer investida de outros homens apenas com a presença física. Sem ele ali, ela se sentia exposta, como uma presa sem seu guardião.
— Eu sou apenas... eu mesma — ela respondeu, brincando com a comida no prato, a voz saindo num tom baixo e manhoso que Ricardo interpretou como um convite.
— Sabe — disse Ricardo, inclinando-se para frente e baixando o tom para que apenas ela ouvisse —, eu conheço o tipo de homem com quem você anda. Emanuel Cavalcanti, o tatuador, certo? Um homem bruto, cheio de tinta, que vive cercado de mulheres vulgares como aquela sócia dele. Você é delicada demais para esse mundo, Eduarda. Você merece alguém que aprecie a sua sutileza, não alguém que tente te moldar como se você fosse uma de suas tatuagens.
As palavras dele atingiram o ponto exato da insegurança de Eduarda. Ela pensou em Emanuel e Sara, provavelmente rindo juntos em algum restaurante caro, discutindo negócios, enquanto ela era tratada como uma criança que precisava de "proteção".
— O Emanuel cuida de mim — ela disse, tentando ser firme, mas o choro contido na voz entregava sua fragilidade.
— Ele te esconde, isso sim — rebateu Ricardo, e sua mão, por baixo da mesa, roçou levemente o joelho de Eduarda.
Ela deu um sobressalto, derrubando o garfo. O barulho atraiu a atenção de todos.
— Tudo bem, querida? — perguntou o pai dela.
— Sim... eu só... me distraí — respondeu ela, o coração disparado.
Ela queria sair dali. Queria o cheiro de Emanuel, o peso das mãos dele, a segurança de seu abraço possessivo. Mas, ao mesmo tempo, a mágoa por ele não ter ligado o dia todo ardia.
Enquanto isso, na cobertura, o clima era de celebração profissional. Emanuel e Sara haviam acabado de fechar um acordo de licenciamento que dobraria o valor da marca Cavalcanti Studios no mercado asiático.
— Um brinde ao nosso império, Emanuel — disse Sara, levantando uma taça de cristal. Ela usava uma camisola de seda preta, os cabelos loiros soltos sobre os ombros. — Nós somos imbatíveis quando focamos no que importa.
Emanuel sorriu, mas o sorriso não chegava aos olhos. Ele pegou o celular pela décima vez naquela hora. Nenhuma mensagem de Eduarda. O silêncio dela estava começando a deixá-lo inquieto. Ele sabia que fora duro no carro, mas esperava que ela, com sua manha habitual, viesse pedir carinho. Aquela mudez era atípica.
— Você ainda está pensando nela? — Sara perguntou, o tom de voz mudando do profissional para o ciumento em um piscar de olhos. — Emanuel, aproveite a noite. Ela está lá na casinha dela, protegida pelos pais, provavelmente lendo um livro. Pare de se preocupar.
— Ela não me mandou mensagem hoje, Sara. Isso não é normal.
— Talvez ela esteja aprendendo a ter um pouco de dignidade — provocou Sara, sentando-se no colo dele e passando as mãos pelos braços tatuados. — Esqueça a Duda por uma noite. Eu estou aqui. Eu mereço a sua atenção total depois do trabalho que tive hoje.
Emanuel a beijou, tentando se convencer de que Sara tinha razão. Mas o instinto que o tornara um homem rico e bem-sucedido — o instinto de posse e observação — gritava que algo estava errado. Ele se afastou de Sara devagar.
— Eu vou ligar para ela. Só para garantir.
— Você é patético quando se trata dessa menina — resmungou Sara, levantando-se e caminhando para a varanda com sua taça.
Emanuel discou. O celular de Eduarda tocou, tocou e foi para a caixa postal. Ele tentou de novo. Nada. A irritação começou a dar lugar a uma ansiedade sombria. Ele conhecia Eduarda; ela nunca deixava de atender, a menos que estivesse dormindo ou...
Ele abriu o Instagram. Não havia nada no perfil dela, mas ele viu um "story" postado pela mãe de Eduarda dez minutos atrás. Era uma foto da mesa de jantar. "Noite deliciosa com amigos queridos", dizia a legenda. Na ponta da foto, Emanuel viu o braço de Eduarda e, sentado bem ao lado dela, um homem que ele não reconheceu, mas cuja postura inclinada em direção a ela era óbvia demais para ser ignorada.
O sangue de Emanuel gelou e depois ferveu.
— Eu vou sair — disse ele, já pegando as chaves do carro.
— O quê? Emanuel, são onze da noite! — Sara gritou da varanda.
— Tem um cara na casa dela, Sara. Eu conheço esse tipo de olhar.
— Você está louco! É um jantar de família!
Emanuel não ouviu o resto. Ele desceu para a garagem, o motor do carro roncando como um animal selvagem enquanto ele saía em direção ao condomínio dos Silva.
Na casa de Eduarda, o jantar havia terminado. Eles estavam na sala de estar, tomando café. Ricardo não saía do lado de Eduarda. Ele aproveitou um momento em que os pais dela foram buscar um licor na cozinha para se aproximar ainda mais.
— Você está tão tensa, Eduarda. Deixe-me ajudar... — Ele estendeu a mão e começou a massagear os ombros dela.
— Por favor, não... — Eduarda pediu, mas sua voz saiu tão baixa, tão manhosa, que Ricardo não recuou. Pelo contrário, ele desceu a mão pela lateral do pescoço dela.
— Você é tão macia. Emanuel não sabe o que tem em mãos.
Nesse exato momento, o som de pneus cantando no asfalto e uma freada brusca ecoaram do lado de fora. Segundos depois, a campainha tocou com uma insistência furiosa.
O pai de Eduarda apareceu na sala, confuso.
— Quem será a esta hora?
Antes que ele pudesse chegar à porta, Emanuel entrou. Ele tinha a chave reserva que Eduarda lhe dera meses atrás, "para emergências". E, para ele, aquela era a maior das emergências.
Emanuel entrou na sala como um furacão. Seus olhos percorreram o ambiente até pararem em Ricardo, que ainda estava com a mão perigosamente perto do ombro de Eduarda. A visão de sua pequena boneca, com aquele vestido amarelo que exibia o colo, sentada ao lado de um estranho, fez o controle de Emanuel ruir completamente.
— Tira a mão dela — a voz de Emanuel não foi um grito. Foi um rosnado baixo, profundo, que fez o Dr. Arnaldo e sua esposa congelarem no lugar.
— Emanuel? O que é isso? — perguntou o pai de Eduarda, chocado com a agressividade.
Emanuel ignorou o sogro. Ele caminhou até Ricardo, que se levantou, tentando manter a postura de advogado confiante.
— E você quem é? O tatuador? — Ricardo perguntou, com um sorriso de escárnio. — Estamos em um jantar privado, se você não percebeu.
Emanuel não deu tempo para mais palavras. Ele agarrou Ricardo pelo colarinho da camisa cara, prensando-o contra a parede com uma força brutal.
— Eu não vou dizer de novo. Se você tocar nela, se você olhar para ela, ou se você sequer pensar no nome dela, eu vou garantir que você nunca mais consiga segurar uma caneta, quanto mais a mão de uma mulher.
— Manu! Para! — Eduarda gritou, correndo até ele e segurando seu braço. — Você está assustando todo mundo!
Emanuel olhou para ela, o peito subindo e descendo com força. A raiva em seus olhos era tão intensa que Eduarda deu um passo atrás.
— Você — ele apontou para Ricardo — fora daqui. Agora. E leve seus pais com você.
O pai de Eduarda tentou intervir, mas Emanuel lançou-lhe um olhar que dizia claramente que a paciência tinha acabado. A família de Ricardo, percebendo que a situação poderia terminar em violência real, retirou-se às pressas, sob pedidos de desculpas constrangidos dos pais de Eduarda.
Quando a porta se fechou, o silêncio na sala era ensurdecedor.
— Emanuel, você perdeu o juízo? — perguntou a mãe de Eduarda, com a mão no peito. — O Ricardo é um rapaz de família, ele estava apenas sendo gentil com a Duda!
— Gentil? — Emanuel riu, uma risada amarga. — Ele estava cercando ela como um abutre. E a filha de vocês estava lá, deixando acontecer porque está com raiva de mim.
— Eu não estava deixando acontecer! — Eduarda protestou, as lágrimas finalmente caindo. — Eu estava com medo! Você não atendeu minhas mensagens ontem, você me ignorou o dia todo! Eu me senti sozinha!
Emanuel caminhou até ela, segurando seu rosto com as duas mãos. Seus polegares limparam as lágrimas com uma agressividade que escondia uma possessividade desesperada.
— Você nunca está sozinha, Eduarda. Você é minha. Eu posso estar no inferno, mas se um homem encostar um dedo em você, eu volto para cortar a mão dele. Entendeu?
— Você me assusta quando fica assim — ela sussurrou, agarrando-se à camisa dele, a manha voltando agora que o perigo passara e o seu "dono" estava ali.
— É para assustar mesmo — respondeu ele, olhando para os pais dela. — Com licença, mas eu vou levar a Eduarda.
— Emanuel, já é tarde... — começou o pai.
— Ela vai morar comigo. Hoje. Chega de joguinhos, chega de "não estar pronta". Se ela ficar aqui, outros Ricardos vão aparecer. Na minha casa, ninguém toca no que é meu.
Eduarda olhou para os pais, depois para Emanuel. O medo da mudança ainda estava lá, mas o desejo de ser protegida por aquela força bruta era maior.
— Eu vou pegar minhas coisas — ela disse, subindo as escadas apressadamente.
Vinte minutos depois, Eduarda estava no carro com Emanuel, levando apenas uma mala com o essencial. O trajeto até a cobertura foi feito em um silêncio tenso. Emanuel dirigia com uma mão no volante e a outra apertando a coxa de Eduarda, como se precisasse certificar-se de que ela não desapareceria.
Ao chegarem na cobertura, Sara os esperava na sala. Ela ainda estava com a camisola de seda, uma taça de vinho na mão. Quando viu Emanuel entrando com Eduarda e uma mala, ela soltou uma risada incrédula.
— Então o resgate da princesa foi um sucesso? E ela veio com bagagem.
— Ela vai morar aqui, Sara — disse Emanuel, sem parar. — Prepare o quarto de hóspedes por enquanto. Amanhã decidimos o resto.
— Quarto de hóspedes? — Sara caminhou até Eduarda, olhando-a com um desdém divertido. — Bem-vinda ao mundo real, Duda. Aqui não tem papai e mamãe para te servirem risoto. E aqui, o Emanuel é meu durante o dia. Você acha que aguenta o tranco?
Eduarda se encolheu atrás de Emanuel, segurando a barra da camisa dele.
— Eu aguento — sussurrou ela.
Emanuel levou Eduarda até o quarto. Ele a ajudou a colocar a mala sobre a cama e depois a prensou contra a porta fechada. O desejo, alimentado pelo ciúme e pela adrenalina da briga, era quase insuportável.
— Você nunca mais — ele disse, a voz roca, o rosto a centímetros do dela — vai deixar outro homem chegar perto de você daquele jeito.
— Ele disse que você me escondia, Manu... — ela murmurou, os braços em volta do pescoço dele, o corpo pequeno reagindo ao calor dele. — Ele disse que eu era delicada demais para você.
— Ele não sabe de nada — Emanuel desceu os beijos pelo pescoço dela, as mãos subindo pelo vestido amarelo que tanto o irritara. — Eu vou te mostrar o quanto você é minha. Cada centímetro desse corpo, cada suspiro.
Ele a despiu com uma urgência selvagem. Quando o vestido caiu, revelando a pele alva e os seios que Ricardo tanto cobiçara, Emanuel sentiu uma onda de posse pura. Ele a jogou na cama, cobrindo seu corpo com o dele, as tatuagens escuras contrastando com a brancura dela.
— Chora para mim, Duda — ele ordenou, enquanto sua boca encontrava a dela em um beijo que exigia submissão. — Mostra para mim que você sentiu minha falta.
— Eu senti... — ela gemeu, as pernas se entrelaçando na cintura dele. — Eu senti tanto, Manu. Por favor, não me deixa mais sozinha.
Enquanto Emanuel a possuía com uma intensidade que beirava o castigo e a adoração, Sara, do outro lado da porta, terminava seu vinho. Ela ouvia os gemidos manhosos de Eduarda e os rosnados de Emanuel. Um brilho de inteligência e estratégia surgiu em seus olhos loiros.
— Aproveite sua noite, pequena Duda — sussurrou Sara para a sala vazia. — Porque amanhã, você vai descobrir que morar sob o teto do Emanuel significa viver sob as minhas regras. E eu não sou tão gentil quanto o seu amiguinho advogado.
O triângulo estava finalmente sob o mesmo teto. A paz de Emanuel fora comprada com o fim da liberdade de Eduarda, e a guerra fria entre as duas mulheres estava prestes a se tornar um conflito aberto, onde o prêmio era o coração e o controle do homem que acreditava poder governar a todas. Naquela noite, entre lençóis de seda e promessas de posse, o destino de todos eles foi selado com o suor e o desejo de uma paixão que não conhecia limites.