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O Preço do Pertencimento
A luz da manhã na cobertura de Emanuel não tinha a mesma suavidade do quarto de Eduarda. Era uma claridade técnica, refletida nos vidros fumê e no metal polido da cozinha gourmet. Eduarda estava sentada em uma das banquetas altas, vestindo uma camiseta preta de Emanuel que batia no meio de suas coxas, fazendo-a parecer ainda menor e mais deslocada. Seus olhos estavam levemente inchados, e ela segurava uma xícara de café como se fosse um escudo.
Sara, por outro lado, já estava em plena atividade. Vestia um conjunto de alfaiataria impecável, a maquiagem perfeita ocultando qualquer sinal de que passara a noite ouvindo os gemidos da vizinha de quarto. Ela digitava furiosamente no notebook enquanto falava ao celular via fones de ouvido.
— Não, Tanaka, os termos são claros. Emanuel não assina nada que limite a criação artística dos nossos tatuadores em Tóquio. Ajuste a cláusula dez ou não temos negócio. — Ela desligou e lançou um olhar rápido para Eduarda. — Você parece um fantasma, garota. Se vai morar aqui, precisa aprender a acordar com mais disposição. O Emanuel não gosta de gente lenta ao redor dele.
— Eu só não dormi muito bem — sussurrou Eduarda, a voz rouca e manhosa. — É tudo muito... diferente aqui.
Antes que Sara pudesse retrucar com algum sarcasmo, a campainha tocou com uma violência que fez Eduarda dar um pulo. Emanuel saiu do escritório, abotoando os punhos da camisa, o rosto carregado com a tensão de quem já previa o que estava por vir.
— Quem é a essa hora? — resmungou ele, caminhando até o interfone. Ao ver a imagem na tela, ele soltou um suspiro pesado. — É o seu irmão, Eduarda.
O coração de Eduarda disparou. Lucas, o melhor amigo de Emanuel e seu irmão mais velho, era a única pessoa que conseguia enfrentar Emanuel de igual para igual. Quando a porta do elevador privativo se abriu, Lucas entrou como um raio, os olhos fixos no amigo de longa data.
— Você perdeu a porra do juízo, Emanuel? — Lucas rugiu, ignorando a elegância do ambiente. — Meus pais me ligaram desesperados. Você entrou na casa deles como um animal e arrastou a minha irmã daqui no meio da noite?
— Eu não a arrastei, Lucas. Ela veio porque quis — respondeu Emanuel, a voz baixa e perigosa, cruzando os braços sobre o peito. — E eu fiz o que fiz porque tinha um idiota desrespeitando a sua irmã na frente dos seus pais, e ninguém fazia nada.
— O Ricardo é um imbecil, mas isso não te dá o direito de decidir a vida dela por impulso! — Lucas caminhou até Eduarda e segurou a mão dela. — Duda, olha para mim. Você quer mesmo estar aqui? No meio dessa... desse arranjo?
Eduarda olhou de Lucas para Emanuel. A possessividade de Emanuel a excitava e a protegia, mas a presença de Lucas trazia de volta a realidade da vida que ela conhecia.
— O Manu disse que eu estaria mais segura aqui... — começou ela, hesitante.
— Segura? — Lucas soltou uma risada amarga. — Ela tem vinte anos, Emanuel! Ela está na faculdade, ela tem uma vida que não gira em torno dos seus estúdios ou das suas vontades. Ela não está pronta para morar com você, muito menos para dividir o teto com a sua... — Ele olhou para Sara, que apenas arqueou uma sobrancelha, impassível. — Com esse caos que você chama de relacionamento.
— Eu a amo, Lucas. Eu cuido dela melhor do que qualquer um — afirmou Emanuel, dando um passo à frente, invadindo o espaço de Lucas.
— Você a sufoca! — rebateu o irmão. — Você quer uma boneca para guardar na prateleira e tirar quando sente vontade. Ela ainda é uma menina, Emanuel. Ela precisa de espaço para crescer, não de uma gaiola de ouro.
Lucas virou-se para a irmã, a voz agora mais suave, mas firme.
— Duda, pega suas coisas. Você vai para o meu apartamento. Meus pais estão magoados e você precisa de um tempo para pensar sem o Emanuel rosnando no seu ouvido. Se você quiser voltar para ele depois, que seja uma decisão sua, feita com calma, não no meio de uma crise de ciúmes dele.
Eduarda olhou para Emanuel, buscando uma ordem, um sinal para ficar. Mas Emanuel estava paralisado pela própria ética de amizade. Lucas era seu irmão de alma. Ele viu a verdade nas palavras do amigo: ele tinha agido por impulso, movido pelo ego ferido.
— Manu? — ela chamou, esperando que ele lutasse por ela.
Emanuel fechou os olhos por um segundo. A imagem de Ricardo tocando o ombro dela ainda o queimava, mas a visão de Eduarda, pequena e confusa entre dois homens que a amavam, o fez recuar.
— Vá com ele, Eduarda — disse Emanuel, a voz saindo forçada, quase dolorida. — Pense no que você quer. Mas saiba que nada mudou para mim. Eu ainda quero você aqui.
Eduarda sentiu um nó na garganta. Ela queria a proteção de Emanuel, mas a autoridade de Lucas era o chão que ela conhecia desde a infância. Ela subiu as escadas em silêncio, pegou a mala que mal havia desfeito e desceu.
Lucas a conduziu até o elevador sem olhar para trás. Emanuel ficou parado no meio da sala, os ombros caídos, uma imagem de derrota que Sara nunca imaginou ver no homem que construíra um império.
Quando a porta do elevador se fechou, o silêncio na cobertura tornou-se ensurdecedor. Emanuel caminhou até a varanda, apoiando as mãos no parapeito, olhando para a cidade como se pudesse encontrar Eduarda entre os prédios.
Sara observou-o por um longo tempo. Ela sentiu uma pontada de satisfação inicial — a "intrusa" se fora —, mas aquela sensação foi rapidamente substituída por algo que ela raramente sentia: empatia. Ela via a tensão nas costas de Emanuel, a forma como ele apertava o metal até os nós dos dedos ficarem brancos. Ele estava sofrendo. E, se ele sofria, o império deles também sofria.
Sara deixou o notebook de lado e caminhou até a varanda. Ela não o abraçou; não era o estilo deles. Ela apenas parou ao lado dele, deixando que o vento agitasse seus cabelos loiros.
— Ela vai voltar, Emanuel — disse ela, a voz desprovida de seu habitual veneno.
— Eu a assustei, Sara. O Lucas tem razão. Eu tentei forçar algo que ela ainda não consegue carregar.
— Você é um predador, querido. Está no seu DNA — Sara deu um pequeno sorriso de lado. — Mas você também é um construtor. Você não desiste do que é seu.
Emanuel olhou para ela, surpreso com a falta de sarcasmo.
— Achei que você estivesse feliz por ela ter ido embora.
— Eu estaria, se isso não te transformasse nesse homem sombrio que não consegue focar em uma reunião de milhões — Sara suspirou, olhando para o horizonte. — Escuta, eu não amo a Eduarda. Eu a acho manhosa, lenta e, honestamente, um pouco irritante. Mas eu te amo. E eu percebi que, para você estar completo, você precisa dessa doçura de faculdade de artes tanto quanto precisa da minha agressividade administrativa.
Emanuel franziu a testa, tentando processar as palavras da namorada.
— O que você está dizendo, Sara?
— Estou dizendo que vou dar uma trégua — ela respondeu, virando-se para ele e colocando a mão em seu peito. — Se ela voltar — e ela vai voltar, porque ela é viciada em você tanto quanto eu —, eu vou tentar não ser a "loira má" o tempo todo. Vou aceitar a presença dela aqui, desde que ela entenda que eu sou a dona da agenda e você é o dono do coração.
Emanuel segurou a mão de Sara, levando-a aos lábios.
— Você faria isso? Por mim?
— Eu faria qualquer coisa para manter o meu homem no topo — Sara sorriu, o brilho ambicioso voltando aos olhos. — E se isso significa ter uma "irmãzinha" por perto para te manter calmo e satisfeito enquanto eu cuido do mundo lá fora, que seja. Mas não se acostume com a minha bondade, Emanuel. Eu ainda vou cobrar o preço por isso.
— Eu sei que vai — ele murmurou, puxando-a para um beijo rápido e carregado de gratidão.
Três dias se passaram. Para Emanuel, foram séculos. Ele mandava flores para o apartamento de Lucas, mensagens curtas e respeitosas para Eduarda, e mantinha-se focado no trabalho, impulsionado pela nova postura de Sara, que realmente parecia estar se esforçando para não criticar a ausência da outra.
Na quarta noite, o interfone tocou.
— Manu? — A voz de Eduarda veio pequena, quase um sussurro. — O Lucas me deixou aqui embaixo. Eu... eu posso subir?
Emanuel sentiu um peso sair de seus ombros.
— Sobe, pequena. A porta está aberta.
Quando o elevador abriu, Eduarda estava lá, vestindo um moletom largo e carregando a mesma mala. Ela parecia exausta. Emanuel a recebeu com um abraço que quase a tirou do chão, escondendo o rosto no pescoço dela, inalando o cheiro de baunilha que tanto lhe fizera falta.
— Eu tentei ficar longe — ela disse, chorando contra o peito dele. — Mas o meu quarto parece vazio sem você. O Lucas brigou comigo, disse que eu estou sendo fraca...
— Você não é fraca, Duda. Você só pertence a este lugar — Emanuel a levou para dentro.
Sara estava sentada no sofá, lendo uma revista de moda. Ela levantou os olhos e, por um momento, o antigo instinto de ataque brilhou em suas pupilas. Mas ela olhou para Emanuel, viu a expressão de paz no rosto dele e respirou fundo.
— Olá, Eduarda — disse Sara, a voz neutra, mas não hostil. — Tem um espaço para suas coisas no closet do corredor. Eu mandei a empregada esvaziar algumas prateleiras para você.
Eduarda parou, piscando, surpresa com a recepção.
— Obrigada, Sara... eu não achei que...
— Não se acostume — interrompeu a loira, levantando-se. — Mas se você vai morar aqui, temos que estabelecer regras. Eu não quero ver seus livros de arte espalhados pela mesa de jantar e você não precisa se esconder no quarto quando eu estiver por perto. Entendido?
Eduarda assentiu, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios.
— Entendido.
Emanuel olhou para as duas mulheres à sua frente. O contraste era absoluto: a força vibrante e dourada de Sara contra a doçura pálida e sensível de Eduarda. Ele sabia que o caminho à frente seria um campo minado de ciúmes, egos e necessidades diferentes, mas, pela primeira vez, ele sentiu que o equilíbrio era possível.
— Eu vou levar a mala dela para o quarto — disse Emanuel.
— Vá — respondeu Sara, voltando para sua revista. — Mas não demore. Temos que revisar os orçamentos da convenção de Miami em uma hora.
Emanuel guiou Eduarda pelo corredor. Ao entrarem no quarto, ele fechou a porta e a prensou contra a madeira, como fizera na noite em que a trouxera pela primeira vez. Mas desta vez, não havia raiva ou ciúme bruto. Havia apenas uma fome profunda e uma necessidade de reafirmar a posse.
— Você tem certeza agora? — ele perguntou, as mãos subindo por baixo do moletom dela, encontrando a pele macia que o deixava louco.
— Tenho — ela gemeu, arqueando o corpo para ele, a manha voltando com força total agora que se sentia segura. — Eu sou sua, Manu. Não importa o que o Lucas diga. Eu só quero estar onde você está.
Emanuel a beijou com uma paixão que misturava adoração e domínio. Ele a despiu com cuidado, apreciando cada curva delicada, cada reação sensível ao seu toque. Eduarda entregava-se com uma volúpia silenciosa, seus dedos pequenos cravando-se nas tatuagens das costas dele, buscando o ápice que só ele sabia proporcionar.
Enquanto isso, na sala, Sara ouvia os sons abafados vindos do quarto. Ela apertou a taça de vinho, sentindo uma pontada de solidão, mas logo a afastou. Ela sabia que, em algumas horas, Emanuel sairia daquele quarto e viria até ela. Ele precisaria da mente dela, da força dela, do corpo dela que não pedia permissão, mas exigia igualdade.
Ela era o sol que mantinha o sistema em órbita; Eduarda era a lua que acalmava as marés de Emanuel.
Naquela noite, a cobertura de Emanuel Cavalcanti tornou-se um santuário de desejos complexos. Ele possuía Eduarda com a ternura de um protetor e a ferocidade de um amante, enquanto Sara, no quarto ao lado, planejava o futuro do império que sustentava todos eles.
O triângulo estava fechado. A convivência civilizada fora substituída por um acordo tácito de sobrevivência emocional. Emanuel tinha tudo o que queria: a pureza e o caos, a paz e a guerra. E, enquanto observava Eduarda adormecer em seus braços sob a luz da lua de São Paulo, ele sabia que não importava o preço, ele pagaria cada centavo para nunca ter que escolher entre as duas faces de sua própria alma.