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O Veneno em Família e o Peso da Coroa

O sol de São Paulo parecia mais pálido através das vidraças do escritório de Emanuel naquela manhã. Eduarda estava sentada na poltrona de couro, encolhida, com os joelhos puxados contra o peito e o queixo apoiado neles. Seus olhos castanhos, geralmente tão doces, estavam nublados por uma névoa de incerteza que Emanuel já conhecia bem.

— Eu não sei, Manu... — sussurrou ela, a voz saindo pequena, quase um sopro. — Eu sou só uma estudante. E se eu errar? E se os investidores italianos perceberem que eu não tenho experiência nenhuma? Eu não quero te envergonhar.

Emanuel, que estava em pé diante da mesa, sentiu a mandíbula travar. Ele já tinha passado por aquela conversa três vezes desde que anunciara a nova posição de Eduarda como curadora artística dos estúdios. Para ele, a lógica era simples: ela tinha o talento, ele tinha o poder, e o cargo era dela. Mas a insegurança de Eduarda era uma barreira que parecia crescer a cada minuto.

— Eduarda, olhe para mim — ordenou ele, a voz carregada de uma autoridade que beirava a fúria.

Ela levantou os olhos devagar, estremecendo levemente.

— Eu já disse que você é capaz. Eu não dou cargos por caridade, nem mesmo para as minhas namoradas. Se eu te coloquei nessa posição, é porque sua visão salvou o contrato de Milão. Pare de se comportar como uma criança assustada e aceite que você cresceu.

— Mas a Sara... — ela começou, a voz manhosa e trêmula — a Sara faz tudo parecer tão fácil. Ela é profissional, ela é segura. Eu sinto que todo mundo no estúdio vai rir de mim quando eu tentar dar uma ordem.

Emanuel deu um passo rápido em direção a ela, apoiando as mãos nos braços da poltrona e cercando-a com seu corpo. O cheiro de tabaco e perfume caro dele a envolveu, fazendo seu coração disparar.

— A Sara é a Sara. Você é a alma do que eu faço agora — ele rosnou, o rosto a centímetros do dela. — Eu não admito que você se diminua. Se você me ama, se você quer estar ao meu lado nesse império, você vai aceitar esse cargo. Ou você quer ser apenas a menina que eu escondo no quarto enquanto a vida acontece lá fora?

As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Eduarda. Ela odiava quando ele ficava furioso, mas, ao mesmo tempo, aquela intensidade era o que a fazia se sentir viva, pertencente a ele.

— Eu aceito, Manu... — soluçou ela, envolvendo o pescoço dele com os braços e escondendo o rosto em seu ombro. — Eu aceito, mas não briga comigo. Eu só tenho medo de te perder se eu falhar.

— Você nunca vai me perder por causa de trabalho — Emanuel relaxou o corpo, abraçando-a com uma possessividade protetora. — Mas eu preciso que você seja forte. O mundo que eu vivo morde, pequena. E você precisa aprender a morder de volta.

A cena foi interrompida pelo som de saltos agulha batendo com força no mármore do corredor. A porta se abriu e Sara entrou, mas ela não estava sozinha. Atrás dela, uma mulher loira, de aparência impecável e olhos gélidos como diamantes, observava o ambiente com um desdém magistral. Era Margot, a mãe de Sara.

Margot era a versão de Sara daqui a trinta anos, mas sem a centelha de paixão que a filha ainda possuía. Ela era puro cálculo e status.

— Que cena mais... doméstica — disse Margot, a voz arrastada e carregada de sarcasmo.

Emanuel se afastou de Eduarda, recompondo a postura, embora seus olhos ainda brilhassem com a irritação da conversa anterior.

— Margot. Não sabia que viria a São Paulo este mês.

— Decidi fazer uma visita surpresa à minha filha — Margot caminhou até o centro da sala, ignorando Emanuel e fixando o olhar em Eduarda, que tentava secar as lágrimas rapidamente. — E vejo que a "distração" de que Sara me falou ainda está ocupando espaço no seu escritório, Emanuel.

Sara caminhou até o bar, servindo-se de uma água tônica. Ela tinha um sorrisinho de canto, uma expressão de quem estava prestes a assistir a um espetáculo de entretenimento puro. Ela não odiava Eduarda, mas ver a menina ser testada pela língua afiada de sua mãe era um prazer que ela não pretendia evitar.

— Mãe, não seja indelicada — disse Sara, embora seu tom não tivesse nenhuma repreensão real. — A Eduarda agora é a nossa "curadora artística". Ela é a mente brilhante por trás do conceito de Milão.

Margot soltou uma risada curta e seca, sentando-se na cadeira de convidados como se fosse um trono.

— Curadora? — Ela olhou para Eduarda de cima a baixo, detendo-se no cardigã de lã e na postura encolhida da jovem. — Minha querida, para ser curadora de algo que envolva o nome Cavalcanti, é preciso ter mais do que um rostinho bonito e olhos chorosos. Você sequer tem idade para beber um vinho decente, imagino.

Eduarda sentiu o rosto queimar. A timidez a bloqueava, impedindo-a de encontrar qualquer resposta.

— Eu... eu estudo História da Arte — murmurou ela, a voz saindo quase inaudível.

— Estuda? Que fofo — Margot sorriu, mas não havia calor no gesto. — Emanuel, você sempre foi um homem de negócios astuto, mas confundir caridade com estratégia é um erro de principiante. Essa menina mal consegue sustentar um olhar, como ela vai sustentar uma negociação com os curadores da Galeria Uffizi?

Emanuel abriu a boca para intervir, mas Sara o interrompeu com um olhar divertido, balançando levemente a cabeça. Ela queria ver até onde Eduarda aguentaria.

— Ela tem uma visão sensível, mãe — Sara comentou, encostando-se no balcão do bar. — É um contraste interessante com a minha... agressividade.

— Contraste? — Margot bufou. — Sara, não tente dourar a pílula. Ela é uma criança brincando de adulta nos seus estúdios. Olhe para as mãos dela, Emanuel. Elas tremem. Você quer mesmo confiar o prestígio da sua marca a alguém que parece que vai desmaiar se eu falar um pouco mais alto?

Eduarda apertou as mãos uma na outra, tentando esconder o tremor. A presença de Margot era sufocante. Era como se a mulher estivesse sugando todo o oxigênio da sala, deixando-a pequena e insignificante.

— Eu não estou brincando — disse Eduarda, a voz um pouco mais alta, embora ainda trêmula.

— Ah, ela fala! — Margot fingiu surpresa. — Diga-me, doce Eduarda, o que você acha da influência do maneirismo na tatuagem contemporânea? Ou você só sabe o que o Emanuel te dita entre um carinho e outro?

— O maneirismo é sobre a distorção da realidade para criar emoção — respondeu Eduarda, a memória acadêmica vindo em seu socorro como um reflexo de sobrevivência. — É sobre a tensão. Exatamente o que o Manu faz na pele, mas com uma técnica que busca a perfeição da forma...

— Teórico — Margot a cortou com um gesto de mão. — Palavras de livro. Você não tem presença, menina. Você exala insegurança. Em um evento de gala, você seria confundida com a copeira se não estivesse pendurada no braço dele.

Sara soltou uma risadinha abafada por trás do copo. Ela estava adorando o desconforto da "rival". Para Sara, Eduarda precisava de um banho de realidade se quisesse realmente dividir a vida com eles.

— Chega, Margot — Emanuel interveio, a voz agora como um trovão. — Você é convidada na minha casa e no meu estúdio, mas não tem autoridade para julgar minha equipe ou minhas escolhas pessoais.

Margot levantou-se, ajeitando o casaco de pele falsa com uma elegância gélida.

— Eu não estou julgando, Emanuel. Estou constatando o óbvio. Você e Sara são leões. Esta menina é um cordeiro. E você sabe o que acontece com cordeiros quando o mundo lá fora percebe que eles não têm dentes.

Ela caminhou até a porta, parando por um segundo ao lado de Eduarda.

— Um conselho, querida: compre roupas melhores e aprenda a falar sem parecer que está pedindo desculpas por existir. Ou o Emanuel vai se cansar de te carregar no colo mais cedo do que você imagina.

Quando Margot saiu, o silêncio que ficou era carregado de humilhação. Eduarda parecia que ia desmoronar a qualquer momento.

— Que mulher adorável, não é? — Sara comentou, caminhando até eles com um sorriso cínico. — Ela sempre teve um jeito especial com as pessoas.

— Você não ajudou em nada, Sara — Emanuel disparou, os olhos faiscando de raiva.

— Eu? Eu estava apenas observando — Sara deu de ombros, olhando para Eduarda. — Mas ela tem razão em uma coisa, Duda. Se você quer ser a curadora, vai ter que endurecer. Minha mãe é apenas o aperitivo. Os críticos de arte em Milão são o prato principal.

Eduarda não respondeu. Ela se soltou do braço de Emanuel e caminhou em direção à varanda, precisando de ar. Emanuel fez menção de segui-la, mas Sara segurou seu braço.

— Deixe-a, Emanuel. Ela precisa digerir o veneno. Se você for lá agora e mimá-la, ela nunca vai aprender a se defender.

— Ela é sensível, Sara! Você sabe disso! — ele rugiu.

— E a sensibilidade dela é linda até o momento em que se torna um fardo para o negócio — Sara rebateu, a voz fria e pragmática. — Você quer uma sócia ou uma dependente? Escolha agora, porque Milão não espera.

Emanuel soltou-se de Sara com um gesto brusco e caminhou até a varanda. Ele encontrou Eduarda abraçada a si mesma, olhando para o horizonte. Ele parou atrás dela, sentindo a dor dela como se fosse a sua.

— Ela foi horrível — sussurrou Eduarda, as lágrimas voltando a cair silenciosamente. — Ela me olhou como se eu fosse nada. Como se eu fosse apenas um brinquedo seu.

— Você sabe que não é — Emanuel a virou de frente para ele, segurando seu queixo com firmeza. — Mas a Margot... ela vê o mundo através do poder. Ela não entende o que nós temos.

— E se ela tiver razão, Manu? E se eu for só um peso para você e para a Sara? Ela é tão perfeita para esse mundo... e eu me sinto uma intrusa.

— Escute bem — Emanuel aproximou o rosto do dela, a intensidade de seu olhar quase queimando. — Você é a única pessoa que consegue me dar paz. A Sara me dá o mundo, mas você me dá um motivo para querer voltar para casa. Eu não me importo com o que a Margot pensa, ou com o que os críticos pensam. Eu quero você ao meu lado. Mas eu preciso que você aceite esse cargo. Não por mim, mas por você. Para que ninguém nunca mais se atreva a te chamar de copeira ou de brinquedo.

Eduarda respirou fundo, o peito soluçando. Ela olhou para as mãos de Emanuel, cheias de tatuagens, mãos que criavam e destruíam, e sentiu a força que emanava dele.

— Eu vou fazer isso — disse ela, a voz subindo de tom, ganhando uma nota de determinação que ele raramente ouvia. — Eu vou aceitar ser a curadora. Mas você vai ter que me ensinar a ser... como vocês.

Emanuel sorriu, um sorriso sombrio e satisfeito.

— Eu vou te ensinar tudo, pequena. Mas você nunca vai ser como nós. Você vai ser melhor.

Eles voltaram para a sala. Sara ainda estava lá, terminando seu drink, observando-os com uma curiosidade renovada.

— Então? — perguntou a loira. — A princesa decidiu lutar ou vai voltar para a torre?

Eduarda olhou diretamente para Sara. Havia uma chama nova em seus olhos, uma centelha de desafio que fez Sara arquear as sobrancelhas.

— Eu vou para Milão, Sara. E eu vou fazer aquele contrato ser o maior que a Cavalcanti Studios já viu. E da próxima vez que sua mãe vier aqui, diga a ela para marcar hora. Eu estarei muito ocupada sendo a curadora do império do Emanuel.

Sara soltou uma gargalhada genuína, batendo palmas levemente.

— Ora, ora... parece que o cordeiro tem dentes, afinal. Seja bem-vinda ao jogo, Eduarda.

Emanuel sentiu um orgulho avassalador. Ele puxou as duas para perto de si, uma de cada lado. Ele tinha a força bruta de Sara e agora, finalmente, a força silenciosa de Eduarda começando a despertar.

— Amanhã começamos o treinamento — disse Emanuel. — Sara, você cuida da parte de etiqueta corporativa e negociação. Eu cuido da parte técnica.

— Com prazer — respondeu Sara, lançando um olhar cúmplice para Eduarda. — Vou transformar essa menina em uma arma, Emanuel. Só não reclame depois se ela aprender a usar essa arma contra você.

— Eu corro o risco — ele murmurou, beijando o topo da cabeça de Eduarda e depois os lábios de Sara.

A noite caiu sobre a cobertura, mas a tensão não se dissipou. Eduarda sentia o peso da responsabilidade, mas também sentia, pela primeira vez, que não era apenas uma passageira na vida de Emanuel. Ela era parte da engrenagem.

Mais tarde, no quarto, enquanto Emanuel a possuía com uma urgência que celebrava sua nova força, Eduarda gemia o nome dele, mas sua mente estava em Milão. Ela pensava nas palavras de Margot e em como iria destruí-las, uma por uma.

— Me marca, Manu... — ela pedia, as unhas cravando-se nos ombros dele. — Me faz ser sua em tudo. No quarto e no mundo.

Emanuel a tomou com uma ferocidade que era um batismo. Ele estava moldando-a, transformando a argila doce de Eduarda em algo mais resistente, algo que pudesse brilhar ao lado do ouro de Sara.

Na manhã seguinte, Margot voltou para o café da manhã, esperando encontrar uma Eduarda ainda mais abatida. Para sua surpresa, a jovem estava sentada à mesa, vestindo um blazer preto de corte impecável que Sara lhe emprestara, com o cabelo preso em um rabo de cavalo alto e um tablet em mãos, analisando os portfólios de Milão.

— Bom dia, Margot — disse Eduarda, sem levantar os olhos do tablet, a voz calma e controlada. — O café está na mesa. Por favor, tente não ser indelicada hoje. Eu tenho uma reunião às dez e não tenho tempo para dramas familiares.

Margot parou na porta, os olhos arregalados. Ela olhou para Sara, que apenas deu de ombros com um sorriso vitorioso, e depois para Emanuel, que observava a cena com um orgulho indisfarçável.

— Parece que o veneno da minha mãe teve um efeito colateral inesperado — sussurrou Sara no ouvido de Emanuel.

— Ela precisava de um motivo para morder — respondeu ele. — E a Margot deu a ela o melhor de todos: o orgulho ferido.

A guerra estava apenas começando, e Eduarda Silva, a menina tímida e manhosa, estava prestes a mostrar ao mundo que, sob a suavidade da seda, batia o coração de uma rainha pronta para defender seu lugar no trono de Emanuel Cavalcanti. E Sara, observando tudo de perto, sabia que a vida naquele triângulo nunca mais seria a mesma. O império estava mudando, e o renascimento do caos era a coisa mais bela que Emanuel já havia criado.