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O Reflexo da Pérola

A atmosfera na sede administrativa dos estúdios Cavalcanti, em São Paulo, era de uma eficiência quase gélida. O vidro, o aço escovado e o couro preto ditavam o tom do império que Emanuel construíra. No centro de tudo, Sara comandava a equipe de administração com a precisão de um general, suas unhas longas e douradas batendo no teclado enquanto ela revisava os lucros trimestrais das unidades de Londres e Tóquio.

— Eu quero esses relatórios de logística na minha mesa até as quatorze horas — ordenou Sara, sem desviar os olhos da tela. — E avisem ao fornecedor de pigmentos que, se as amostras novas não chegarem amanhã, o contrato de exclusividade será rasgado.

Os funcionários se dispersaram rapidamente. Sara era respeitada e temida; ela era a face pragmática do sucesso de Emanuel. Mas, no andar de cima, em um estúdio privativo que cheirava a sândalo e papel envelhecido, a dinâmica era outra.

Eduarda estava sentada no chão, cercada por catálogos de arte e amostras de tecidos. Ela usava um vestido de algodão branco, leve e curto, que deixava suas pernas delicadas à mostra, e seus cabelos castanhos estavam presos por um lápis. Emanuel estava sentado em sua mesa de desenho, observando-a. Ele estava estressado; uma galeria de renome em Paris estava questionando a "agressividade" de sua nova coleção de flashes.

— Duda, eu não consigo simplificar isso sem perder a essência — resmungou Emanuel, jogando a caneta sobre a mesa. — Eles querem algo mais "palatável", mas meu estilo é o que é.

Eduarda levantou os olhos, aqueles olhos grandes e expressivos que sempre pareciam pedir um abraço. Ela se levantou devagar, caminhando até ele com aquele jeitinho manso, e sentou-se em seu colo, ignorando a pilha de papéis.

— Manu... — ela murmurou, escondendo o rosto no pescoço dele e aspirando o cheiro de tinta e pele. — Você está muito tenso. Suas costas estão parecendo pedras.

Emanuel suspirou, as mãos grandes e tatuadas encontrando automaticamente a cintura fina dela.

— Eu tenho um império para manter, pequena. E esses franceses são difíceis.

— Eles não são difíceis — disse ela, afastando-se um pouco para olhar nos olhos dele, fazendo aquele biquinho que o desarmava completamente. — Eles só estão assustados porque você é muito forte. Você precisa mostrar a eles que sua arte também tem... doçura. Como a pérola dentro da ostra.

Ela pegou um dos desenhos dele — um crânio envolto em espinhos — e, com um lápis macio, começou a sombrear levemente as bordas, transformando alguns espinhos em pétalas de lírios murchos, mas delicados.

— Viu? — sussurrou ela, manhosa, buscando o olhar de aprovação dele. — Continua sendo seu, continua sendo forte. Mas agora eles conseguem olhar sem desviar o rosto.

Emanuel observou o desenho. Era exatamente o que faltava. A sensibilidade intuitiva de Eduarda conseguia traduzir a brutalidade dele para uma linguagem que o mercado de luxo adorava consumir. Não era sobre ela se tornar uma leoa como Sara; era sobre ela ser a seda que envolvia a lâmina.

— Você é brilhante, sabia? — Emanuel a apertou contra si, sentindo a maciez dela acalmar seus nervos.

— Eu só quero que você fique feliz — respondeu ela, dengosa, esfregando o nariz no dele. — Agora, você vai me levar para almoçar? Eu estou com desejo de comer aquele doce de morango...

Emanuel riu, a irritação desaparecendo.

— Você é uma chantagista emocional, Eduarda.

— Sou sua — corrigiu ela, com um sorriso tímido.

Eles desceram para o andar administrativo. Sara estava no telefone, discutindo valores, mas parou assim que viu o casal. Ela notou imediatamente a mudança no semblante de Emanuel. O homem que, há duas horas, parecia pronto para demitir metade da equipe, agora exalava uma calma possessiva.

— Vejo que a pequena curadora fez o seu trabalho — comentou Sara, desligando o celular e cruzando os braços, os seios siliconados destacados pelo decote do blazer justo. — Os franceses aceitaram os novos conceitos?

— Eduarda deu o toque final — respondeu Emanuel, orgulhoso. — O faturamento dessa coleção vai dobrar com a curadoria dela.

Sara lançou um olhar para Eduarda. Ela não sentia inveja do talento da menina; pelo contrário, via aquilo como um ativo valioso para a empresa. Sara sabia que sua própria vulgaridade sofisticada e agressividade eram necessárias para o combate, mas a doçura de Eduarda era o que abria portas em círculos que detestavam conflitos.

— Bom trabalho, Duda — disse Sara, de forma civilizada, embora com seu tom superior de sempre. — Mas não se acostume com o descanso. Temos a inauguração da filial de Madri no mês que vem e eu preciso que você selecione as referências clássicas para o catálogo.

— Eu já comecei a ver, Sara — respondeu Eduarda, ainda abraçada ao braço de Emanuel, buscando proteção no contato físico. — Mas são muitas... eu fico cansada.

— Ela vai fazer no tempo dela, Sara — interveio Emanuel, o tom protetor de sempre.

Sara revirou os olhos, mas sorriu.

— Claro que vai. Ela sempre faz.

Enquanto Emanuel se afastava para falar com um gerente, Sara e Eduarda ficaram sozinhas por um breve momento no corredor de vidro.

— Você sabe que ele está mais apaixonado do que nunca, não sabe? — perguntou Sara, retocando o batom vermelho enquanto se olhava no reflexo de uma divisória.

Eduarda baixou o olhar, as bochechas corando.

— Ele é muito bom para mim, Sara.

— Ele é um controlador possessivo, querida. Mas você gosta disso — Sara guardou o batom e olhou para a jovem. — E eu também gosto. Ele precisa de nós duas para não enlouquecer. Eu mantenho os pés dele no chão e você mantém o coração dele batendo suave. Só tente não ser tão manhosa o tempo todo, ou ele nunca vai te deixar sair de casa.

— Mas eu não quero sair — confessou Eduarda em um sussurro. — Eu gosto de quando ele me pede para morar com ele... mesmo que eu diga que não estou pronta. É bom ver que ele me quer por perto.

Sara soltou uma risada curta, balançando a cabeça.

— Você é muito mais esperta do que aparenta, Eduarda. Esse seu jeitinho de cordeirinho indefeso é a coleira mais curta que o Emanuel já usou.

Emanuel voltou, envolvendo Eduarda pela cintura e dando um beijo possessivo em seu pescoço, ignorando quem pudesse estar olhando.

— Vamos? Eu reservei o restaurante.

— Manu... — Eduarda manhosa, se aninhando nele. — Pode ser aquele que tem as poltronas bem fofinhas? Minhas costas doeram de ficar sentada no chão estudando.

— O que você quiser, pequena. O que você quiser.

Sara observou-os sair. Ela sabia que, para o mundo exterior, ela era a namorada principal, a mulher poderosa que administrava o império. Mas ela também sabia que, no silêncio do estúdio e na calada da noite, a fragilidade de Eduarda era o que realmente mantinha Emanuel Cavalcanti sob controle.

As duas não eram amigas, nunca seriam. Eram forças opostas que sustentavam o mesmo homem. E, enquanto os lucros subiam e Emanuel continuava a amá-las com a mesma intensidade doentia e protetora, o equilíbrio permanecia.

Naquela tarde, enquanto Eduarda saboreava seu doce e Emanuel a observava como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo, a jovem lembrou-se de como tudo começara.

— No que está pensando? — perguntou Emanuel, limpando uma mancha de açúcar do canto da boca dela com o polegar.

— Naquela noite... na casa do meu irmão — sussurrou ela, os olhos brilhando com uma lembrança pecaminosa. — Quando você entrou no quarto errado.

Emanuel sentiu um calor subir pelo corpo. Aquela cena estava gravada a fogo em sua mente.

— O melhor erro da minha vida — admitiu ele, a voz rouca. — Eu achei que tinha encontrado um anjo, mas encontrei uma tentação que eu nunca mais quis soltar.

— E você não soltou — disse ela, alongando-se na cadeira de forma preguiçosa, o vestido subindo um pouco mais pelas coxas. — Você me tirou tudo naquela noite, Manu. Minha virgindade, minha calma...

— E te dei um império em troca — ele rebateu, segurando a mão dela e beijando os dedos delicados. — E te daria mais, se você finalmente aceitasse morar comigo. Por que ainda nega, Duda? Você passa mais tempo na minha cobertura do que na casa dos seus pais.

Eduarda fez um biquinho, desviando o olhar para a janela.

— Eu gosto de ter o meu espaço, Manu. Se eu morar lá o tempo todo, você vai querer me controlar até na hora de eu ler meus livros. E a Sara já mora lá... eu não quero atrapalhar a rotina de vocês.

Emanuel sentiu aquela irritação familiar subir. Ele odiava não ter o controle total sobre onde ela dormia.

— Você não atrapalha nada. A Sara aceita, ela sabe que eu quero você lá.

— Mas eu ainda não estou pronta — repetiu ela, com aquela voz doce e persistente que encerrava qualquer discussão. — Me dá mais um tempinho? Por favor?

Emanuel suspirou, derrotado pela doçura dela.

— Você me deixa louco, Eduarda. Sabia disso?

— Eu sei — respondeu ela, sorrindo de forma inocente, embora houvesse um brilho de triunfo em seus olhos.

Ela sabia exatamente o que estava fazendo. Manter Emanuel um pouco "faminto" por sua presença total era o que garantia que ele continuasse a tratá-la como uma joia rara. Ela não precisava ser forte como Sara; ela só precisava ser essencial.

Enquanto voltavam para o estúdio, Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel. Ela via os olhares das pessoas na rua para o homem alto, coberto de tatuagens e com expressão séria, e sentia um orgulho secreto. Aquele leão, que todos temiam, era o mesmo homem que, minutos antes, estava implorando para que ela morasse com ele.

Ao chegarem na recepção, Sara os encontrou com um tablet em mãos.

— Emanuel, os sócios de Londres ligaram. Eles querem uma videoconferência agora. E Eduarda, chegaram os livros que você pediu sobre a arte sacra espanhola. Estão na sua mesa.

— Obrigada, Sara — disse Eduarda, soltando-se de Emanuel com um beijinho rápido na bochecha dele. — Vou estudar agora, Manu. Não me atrapalhe, tá?

Emanuel a observou subir as escadas, o olhar possessivo seguindo cada movimento de seus quadris sob o vestido branco.

— Ela é um problema — comentou Sara, parando ao lado dele.

— Ela é a minha solução — corrigiu Emanuel, voltando à sua postura fria e profissional. — Vamos para essa reunião. Eu quero fechar esse acordo antes do jantar.

O império Cavalcanti continuava a crescer. Entre a administração feroz de Sara e a curadoria sensível de Eduarda, Emanuel encontrou o equilíbrio perfeito. Ele tinha a mulher que o ajudava a conquistar o mundo e a mulher que o fazia querer esquecer que o mundo existia.

E, no final do dia, era nos braços manhosos de Eduarda que ele buscava o silêncio, enquanto o ouro de Sara brilhava na sala ao lado, garantindo que o trono onde ele se sentava permanecesse inabalável. O "cordeirinho" continuava a pastar calmamente, mas era o seu rastro de seda que ditava o caminho do sucesso.