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O Peso das Escolhas e o Silêncio da Tinta
O sol da manhã entrava pelas janelas do casarão dos pais de Eduarda, iluminando as partículas de poeira que dançavam sobre os livros de arte espalhados pela mesa de carvalho. Eduarda segurava o tablet com as mãos trêmulas, os olhos castanhos percorrendo pela décima vez o e-mail que acabara de receber. O timbre digital era de uma das instituições arqueológicas mais prestigiadas do mundo, sediada no Cairo.
— Eles me escolheram, mãe... — sussurrou ela, a voz carregada de uma mistura de descrença e euforia.
Sua mãe, uma mulher de traços joviais e olhar artístico, aproximou-se e beijou o topo da cabeça da filha, lendo por cima de seu ombro.
— Dois anos no Egito, Duda. É uma oportunidade de ouro para qualquer historiadora da arte. O que você vai fazer?
Eduarda suspirou, sentindo o peso do anel de compromisso que Emanuel lhe dera há poucos dias. O metal parecia subitamente mais pesado em seu dedo.
— Eu já decidi. Não vou — disse ela, embora uma pontada de tristeza lhe apertasse o peito. — Eu assinei com a galeria local na semana passada, é o meu sonho desde o primeiro ano da faculdade. E tem o Emanuel. Nós acabamos de oficializar as coisas. Eu não posso simplesmente sumir por dois anos.
— Você não vai dizer isso a ele agora, vai? — A mãe arqueou uma sobrancelha, conhecendo a natureza observadora da filha.
Eduarda mordeu o lábio inferior, um brilho travesso e ao mesmo tempo inseguro surgindo em seu olhar.
— Não. Eu quero ver como ele reage. Emanuel gosta de ter o controle de tudo, de planejar a vida de todos ao seu redor como se fôssemos desenhos em uma folha de papel. Quero saber se ele me apoiaria ou se tentaria me impedir.
***
Enquanto isso, no centro administrativo dos estúdios de tatuagem, o clima era de eficiência absoluta. Sara estava sentada na ponta da mesa de reunião, usando um vestido justo cor de vinho que realçava seu busto siliconado e sua postura de comando. Valentina estava em um cercadinho luxuoso no canto da sala, cercada por brinquedos de grife, balbuciando ordens incompreensíveis para uma babá que parecia mais uma assistente executiva.
— Emanuel, se não fecharmos esse contrato com os fornecedores alemães até sexta, o custo das agulhas personalizadas vai subir quinze por cento — declarou Sara, batendo com a caneta na mesa. — Eu já fiz a projeção. É assinar ou perder dinheiro.
Emanuel, que analisava um novo design de tatuagem geométrica, levantou os olhos. Ele parecia exausto, mas a presença de Sara sempre o mantinha alerta.
— Faça o que for necessário, Sara. Você sabe que confio no seu instinto para os números.
Sara sorriu, aquele sorriso predatório e satisfeito de quem sabe que é indispensável.
— Ótimo. Agora, mude essa cara. Você está pensando na "pequena", não está? Ela ainda está fazendo bico por causa da mudança?
— Ela não faz bico, Sara. Ela apenas tem o tempo dela — Emanuel respondeu, a voz ficando mais suave, o que sempre irritava Sara sutilmente.
— Tempo é luxo, Emanuel. E luxo custa caro — Sara levantou-se, caminhando até Valentina e pegando a bebê no colo. — Nossa filha já entende mais de logística do que a sua namorada historiadora. Não é, Val?
A bebê soltou um risinho esnobe, agarrando o colar de ouro de Sara. Emanuel apenas suspirou. Ele amava a força de Sara, mas sentia uma necessidade quase física da paz que só Eduarda lhe proporcionava.
***
O encontro entre Emanuel e Eduarda aconteceu naquela noite, em um café calmo e escondido, longe da agitação dos estúdios. Eduarda estava mais quieta que o habitual, mexendo na alça de sua bolsa de couro artesanal.
— Você está aérea hoje, Duda — observou Emanuel, segurando a mão dela sobre a mesa. — Aconteceu alguma coisa na faculdade?
Eduarda respirou fundo e olhou diretamente nos olhos dele, entregando a notícia como se estivesse jogando uma granada sem pino.
— Recebi uma proposta hoje, Emanuel. Um convite oficial para um projeto de pesquisa e restauração no Egito. Dois anos de contrato, com tudo pago. É uma das maiores oportunidades da minha área.
O corpo de Emanuel enrijeceu instantaneamente. A mão que segurava a dela apertou um pouco mais os dedos, um reflexo automático de posse.
— Egito? — A voz dele saiu mais rouca do que o pretendido. — Por dois anos?
— É o que diz a proposta — ela respondeu, omitindo deliberadamente que já havia decidido recusar. — Eu ficaria baseada no Cairo, trabalhando diretamente com as relíquias que sempre estudei nos livros.
O silêncio que se seguiu foi denso. Emanuel sentiu um turbilhão de emoções. Por um lado, sentia um orgulho genuíno; ele sabia que ela era talentosa, e o reconhecimento externo confirmava seu gosto refinado. Por outro lado, a ideia de perder o controle sobre a presença dela, de não tê-la por perto para acalmar seus dias caóticos, era insuportável.
— Isso é... inesperado — disse ele, tentando retomar a postura racional que usava nos negócios. — Nós acabamos de oficializar o namoro, Duda. Eu pedi para você morar comigo. E agora você me diz que está pensando em atravessar o oceano?
— Eu não disse que estou pensando, eu disse que recebi a proposta — ela o corrigiu com suavidade, mas seus olhos estudavam cada microexpressão no rosto dele. — O que você acha que eu deveria fazer?
Emanuel soltou a mão dela e recostou-se na cadeira, cruzando os braços. A veia em sua têmpora pulsava levemente, um sinal claro de seu estresse crescente.
— Logicamente falando, é uma oportunidade profissional — ele começou, a voz fria e calculista. — Mas emocionalmente, é um desastre. Eu não acredito em relacionamentos à distância, Eduarda. Eu sou um homem prático. Preciso da minha mulher aqui, comigo.
— "Sua mulher" — ela repetiu, com um meio sorriso triste. — Você fala de mim como se eu fosse uma das suas propriedades, Emanuel. Como um dos seus estúdios ou uma das suas máquinas de tatuar.
— Não seja dramática — ele rebateu, a irritação começando a transparecer. — Eu estou tentando ser realista. Dois anos é uma vida. Eu tenho uma filha, tenho empresas, tenho uma vida montada aqui. Eu não posso ir com você. E você sabe que a Sara nunca aceitaria que eu ficasse longe da Valentina por tanto tempo.
— Então a sua conclusão é que eu devo recusar? — perguntou ela, inclinando a cabeça, o tom de voz tornando-se mais manhoso, quase infantil, uma defesa natural quando se sentia acuada.
— Eu acho que você deveria priorizar o que temos aqui — Emanuel disse, inclinando-se para frente, tentando novamente usar seu magnetismo para convencê-la. — Eu posso te dar tudo, Duda. Quer uma galeria? Eu compro uma para você. Quer estudar arte? Eu contrato os melhores professores do mundo para virem até aqui. Você não precisa ir para o Egito para ser alguém. Você já é a minha namorada.
Eduarda sentiu uma pontada de decepção. Ela esperava que ele, em algum momento, dissesse: "É o seu sonho, vamos dar um jeito". Mas a resposta dele foi baseada em controle e substituição financeira.
— Entendo — disse ela, levantando-se e pegando sua bolsa. — Você quer que eu fique porque é mais conveniente para a sua rotina.
— Eduarda, não distorça as coisas! — Emanuel levantou-se também, chamando a atenção de algumas pessoas no café.
— Preciso de um tempo para pensar, Emanuel — mentiu ela, sentindo que precisava sair dali antes que sua resolução de não ir para o Egito vacilasse por pura mágoa. — Vou para a casa dos meus pais. Por favor, não me siga hoje.
***
Emanuel chegou em casa possesso. A porta da cobertura bateu com força, ecoando pelo mármore. Sara estava na cozinha, vestindo um robe de seda transparente sobre uma lingerie preta provocante, servindo-se de uma dose de uísque.
— Alguém teve uma noite maravilhosa — ironizou ela, observando o rosto transtornado de Emanuel. — Deixe-me adivinhar: a pequena historiadora descobriu que não gosta de tatuagens?
— Ela recebeu uma proposta para ir para o Egito — rosnou Emanuel, jogando-se no sofá de couro. — Dois anos.
Sara parou com a taça a meio caminho da boca. Ela piscou, processando a informação, e então soltou uma gargalhada genuína e sonora.
— O Egito? Aquela coisinha delicada no meio do deserto e das múmias? — Sara caminhou até ele, sentando-se no braço do sofá e passando a mão pelos cabelos dele. — Isso é perfeito, Emanuel!
— Perfeito? Você enlouqueceu? — Ele olhou para ela, incrédulo.
— Pense bem, meu amor — disse Sara, a voz carregada de uma malícia inteligente. — Se ela for, ela sai do seu caminho e você para de se distrair com essa bobagem de "namoro romântico". E se ela ficar por sua causa, ela vai se sentir eternamente em dívida com você. Você ganha de qualquer jeito.
— Eu não quero que ela se sinta em dívida, Sara. Eu quero que ela esteja aqui!
— Então dê um ultimato — sugeriu Sara, dando de ombros. — Diga que, se ela for, acabou. Homens como você não esperam, Emanuel. E mulheres como eu não permitem que seus homens fiquem esperando por migalhas de atenção de uma menina que prefere pedras velhas a uma vida de luxo ao seu lado.
Emanuel olhou para Sara. Ela era vulgar, era direta, era implacável. E, naquele momento, as palavras dela alimentavam o lado mais controlador de sua personalidade.
— Ela disse que precisa pensar — murmurou ele.
— Ela não tem o que pensar — Sara inclinou-se, o cheiro de uísque e perfume caro nublando o julgamento dele. — Ela é fraca, Emanuel. Ela vai ceder. Ela gosta do conforto que você oferece, gosta da proteção que você dá. Ela só está fazendo charme para ver até onde você vai.
***
No dia seguinte, Eduarda estava na galeria de arte onde começaria a trabalhar em breve. Ela observava uma tela abstrata, perdida em pensamentos, quando sentiu a presença de alguém. Não era Emanuel.
Era Sara.
A loira entrou no ambiente como se fosse a dona do lugar, os saltos agulha estalando no chão de madeira. Ela usava óculos escuros enormes, que retirou com um gesto teatral assim que parou diante de Eduarda.
— Então, aqui é o ninho da intelectual — disse Sara, olhando ao redor com desdém. — Um pouco sem vida, não acha? Falta cor. Falta impacto.
— O que você está fazendo aqui, Sara? — perguntou Eduarda, tentando manter a voz firme, apesar do coração acelerado.
— Vim te dar um conselho de mulher para... bem, para o que quer que você seja — Sara aproximou-se, ficando a poucos centímetros de Eduarda. A diferença de altura e de presença era intimidadora. — O Egito é longe, querida. E o Emanuel é um homem com necessidades muito presentes. Se você for, não espere que o lugar ao lado dele na cama — ou na vida — continue vago.
Eduarda respirou fundo, sentindo a fragrância invasiva de Sara.
— Você está tentando me assustar para que eu vá ou para que eu fique?
Sara sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos frios e calculistas.
— Eu estou te dizendo que, independentemente da sua escolha, eu sou a constante na vida dele. Eu administro os negócios, eu crio a filha dele, eu conheço cada cicatriz daquele corpo porque eu estava lá quando muitas delas foram feitas. Você é apenas uma fase doce, Eduarda. Se você ficar, será sob as minhas regras. Se você for, será esquecida.
Eduarda sentiu uma onda de revolta. A timidez habitual deu lugar a uma intuição afiada.
— Você está com medo, Sara — disse Eduarda em um sussurro, percebendo a hesitação mínima nos olhos da outra. — Você tem medo de que, se eu ficar, o Emanuel perceba que não precisa de alguém que o trate como um negócio o tempo todo.
Sara soltou uma risada ríspida, mas suas narinas inflaram.
— Medo? De você? Olhe para si mesma. Você é um rascunho de mulher. Eu sou o trabalho finalizado.
— Pois saiba que eu já tomei minha decisão — mentiu Eduarda, sustentando o olhar. — E o Emanuel será o primeiro a saber. Mas não porque você veio aqui me ameaçar.
Sara colocou os óculos escuros novamente, recuperando a compostura de diva.
— Ótimo. Só não chore quando perceber que o deserto é mais acolhedor do que a realidade de viver na minha sombra.
Ela saiu da galeria com a mesma força com que entrou, deixando Eduarda trêmula, mas com uma certeza renovada.
***
Naquela noite, Emanuel recebeu uma mensagem de Eduarda pedindo que ele fosse até a casa dela. Ele chegou esperando lágrimas, malas prontas ou um pedido de desculpas.
Eduarda o recebeu na varanda, sob a luz suave dos abajures externos. Ela parecia calma, uma serenidade que o deixou desconfortável.
— E então? — perguntou ele, sem rodeios. — Já decidiu se vai me deixar por causa de umas pirâmides?
Eduarda caminhou até ele e colocou as mãos em seu peito, sentindo as batidas aceleradas do coração do tatuador.
— Eu recebi a visita da Sara hoje — disse ela, sentindo-o retesar sob seus dedos. — Ela foi muito clara sobre o que pensa da minha partida. E você também foi muito claro ontem.
— Eu só quero o melhor para nós, Duda — ele tentou se justificar, a voz suavizando ao sentir o toque dela.
— O melhor para "nós" ou o melhor para você, Emanuel? — Ela se afastou um pouco, o olhar sensível fixo no dele. — Eu amo você. E eu amo o que estamos construindo. Mas eu precisava saber se você me via como uma parceira ou como um acessório.
Emanuel franziu a testa, confuso.
— Do que você está falando?
— Eu recusei a proposta do Egito no momento em que li o e-mail, Emanuel — revelou ela, finalmente. — Eu já tinha um compromisso com a galeria e com a minha vida aqui. Eu nunca tive a intenção de ir.
Emanuel sentiu um alívio imenso inundá-lo, seguido rapidamente por uma onda de irritação.
— Então por que me fez passar por tudo isso? Por que me deixou acreditando que você ia embora?
— Porque eu precisava ver a sua reação — disse ela, com uma firmeza que ele raramente via. — E o que eu vi foi um homem que tentou me comprar com galerias e professores para que eu não seguisse meus sonhos, e que permitiu que a outra mulher da vida dele fosse me ameaçar no meu trabalho.
— Eu não enviei a Sara lá! — ele exclamou, embora soubesse que não tinha feito nada para impedi-la de interferir.
— Mas você criou um ambiente onde ela se sente no direito de fazer isso — Eduarda suspirou, abraçando o próprio corpo. — Eu vou ficar, Emanuel. Vou trabalhar na galeria e vou continuar sendo sua namorada. Mas não vou me mudar para a sua casa ainda. E não vou deixar que você ou a Sara ditem o ritmo da minha carreira.
Emanuel olhou para a mulher à sua frente. Ela parecia frágil, mas havia uma força silenciosa nela que ele tinha subestimado. Ele queria ficar bravo, queria exigir que ela se desculpasse pelo teste, mas a ideia de que quase a perdeu — mesmo que apenas em sua mente — o deixou desarmado.
— Você é mais difícil do que parece, Eduarda — ele murmurou, aproximando-se e puxando-a para um abraço apertado.
— Eu sou apenas uma historiadora — ela sussurrou contra o peito dele, fechando os olhos. — Nós sabemos que o passado é importante, mas o futuro precisa ser construído com cuidado. Tenha paciência comigo, Emanuel. Ou você vai acabar descobrindo que algumas coisas não podem ser tatuadas à força.
Emanuel a beijou, uma mistura de posse e súplica. Ele tinha vencido, ela ficaria. Mas, pela primeira vez, ele sentiu que o controle que tanto prezava era apenas uma ilusão delicada, mantida pela vontade de uma menina que ele pensava dominar.
Enquanto isso, em algum lugar da cidade, Sara olhava para o celular, esperando uma mensagem de Emanuel confirmando a vitória. Ela sorriu para Valentina, que dormia em seu berço de seda.
— O papai ganhou hoje, pequena — sussurrou Sara para a bebê. — Mas a mamãe ainda é quem guarda as chaves do reino.
O equilíbrio de vidro continuava intacto, mas agora havia uma pequena rachadura, invisível a olho nu, que prometia mudar todo o desenho daquela história.