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O Brilho da Herança e o Peso das Pérolas

O salão nobre do hotel cinco estrelas estava impregnado com o aroma de lírios brancos e perfumes caros. Lustres de cristal pendiam do teto, refletindo-se no mármore polido e nas taças de champanhe que circulavam entre a elite empresarial e artística da cidade. Era a noite de gala em celebração à expansão internacional dos estúdios de Emanuel, e o evento era o assunto principal de todas as colunas sociais.

Emanuel caminhava pelo salão com a postura de um monarca. Trajava um terno sob medida, preto e impecável, que contrastava com as tatuagens que subiam discretamente pelo seu pescoço. Em seu braço esquerdo, Sara exibia-se como um troféu de ouro. Ela usava um vestido de lantejoulas prateadas, com um decote que desafiava os limites da gravidade e uma fenda que revelava suas pernas torneadas. Valentina, agora com quase dois anos, estava nos braços de uma babá uniformizada logo atrás, vestida como uma boneca de porcelana em um minivestido de tafetá.

No entanto, todos os olhares da noite — para a surpresa e irritação velada de Sara — não estavam voltados para o brilho metálico dela, mas para a mulher que caminhava ao lado direito de Emanuel.

Eduarda parecia ter saído de uma pintura renascentista. Ela usava um vestido de seda azul-sereno, fluido e elegante, que delineava com suavidade a barriga de cinco meses de gestação. Seus cabelos castanhos estavam presos em um coque baixo e despojado, adornado com pequenas pérolas. Ela não precisava de decotes profundos para prender a atenção; sua beleza era silenciosa, emanando uma serenidade que hipnotizava os convidados.

— Emanuel, meu caro! Que prazer ver você! — exclamou o Sr. Albuquerque, um dos maiores investidores do setor imobiliário, aproximando-se com a esposa. — E esta deve ser a sua esposa, a encantadora Eduarda. Meus parabéns pelo evento e, claro, pelo herdeiro a caminho.

Emanuel sentiu um lampejo de satisfação ao ouvir o termo "esposa". Embora legalmente as coisas fossem complexas, socialmente ele adorava a ideia de que Eduarda ocupasse esse pedestal de respeito.

— Obrigado, Albuquerque — respondeu Emanuel, apertando a mão do homem enquanto sua outra mão pousava protetoramente na base das costas de Eduarda. — Ela é o coração de tudo isso.

— É um prazer conhecê-los — disse Eduarda com sua voz doce e melodiosa, oferecendo um sorriso tímido que fez a esposa de Albuquerque suspirar de encanto. — Emanuel fala muito bem de seus projetos.

Sara, sentindo-se subitamente como parte da decoração, forçou uma risada estridente, ajustando Valentina no colo da babá com um gesto impaciente.

— Eu também estou aqui, Albuquerque — interrompeu Sara, estendendo a mão coberta de anéis de diamante. — Sabe como é, alguém precisa cuidar da administração pesada enquanto a "esposa" se dedica às artes e à maternidade.

O Sr. Albuquerque deu um sorriso educado, mas logo voltou sua atenção para Eduarda.

— Soubemos que você está fazendo um trabalho magnífico na curadoria da nova galeria, minha jovem. É raro ver alguém com tanto tato para o clássico em um mundo tão moderno.

Eduarda corou levemente, inclinando a cabeça de forma manhosa para o ombro de Emanuel, um gesto que ele retribuiu beijando-lhe a têmpora.

— Eu apenas tento preservar a beleza que o tempo insiste em esconder — respondeu ela, ganhando instantaneamente a admiração do círculo de empresários que se formava ao redor deles.

Ao longo da noite, o padrão se repetiu. Eduarda era tratada com uma reverência quase sagrada. As pessoas a cercavam para falar de história, de música e do bebê. Sara, apesar de sua competência administrativa inegável e de sua presença vibrante, era vista por muitos como a "sócia eficiente" ou a "mãe da primogênita", enquanto Eduarda era a figura que todos queriam ter em seus jantares de gala.

Em um momento em que Emanuel se afastou para falar com um fornecedor, Sara puxou Eduarda para perto de uma das colunas de mármore, longe dos ouvidos curiosos.

— Você está adorando isso, não é? — sibilou Sara, ajeitando o batom vermelho vibrante. — A "esposa" perfeita. A santinha grávida. Olhe para eles, estão todos babando na sua simplicidade calculada.

Eduarda olhou para Sara com seus grandes olhos castanhos, sem um pingo de agressividade, o que irritava Sara ainda mais.

— Eu não calculei nada, Sara. Eu só estou sendo eu mesma. E você sabe que eu não pedi para as pessoas me chamarem assim.

— Mas você não os corrige — rebateu Sara, cruzando os braços sobre o busto siliconado. — Você deixa que eles pensem que eu sou apenas a secretária de luxo.

— Você sabe que não é isso — disse Eduarda calmamente, levando a mão à barriga, sentindo um chute leve. — Você é a base dos negócios dele. Mas talvez... talvez as pessoas sintam falta de algo mais humano neste meio.

— Humano? — Sara soltou uma risada sarcástica. — O que eles gostam é de fragilidade, Eduarda. E você exala isso. Mas não se esqueça: quando o bebê nascer e as noites ficarem longas, é para o meu lado da cama que ele vai correr quando quiser resolver problemas de verdade.

Eduarda não respondeu. Ela sentiu uma pontada de cansaço e olhou para o salão, procurando por Emanuel. Ele a encontrou rapidamente, como se tivesse um radar para sua presença. Ele se aproximou, ignorando a tensão entre as duas, e envolveu a cintura de Eduarda.

— Você está cansada, Duda? — perguntou ele, o tom de voz mudando de autoritário para cuidadoso em um segundo.

— Um pouco — confessou ela, recostando-se nele. — O pequeno está agitado hoje.

Emanuel sorriu, um dos poucos sorrisos verdadeiros que ele dava em público, e colocou a mão sobre a mão dela na barriga.

— Ele já quer sair para comandar o evento — brincou Emanuel. — Ele tem o temperamento do pai.

— Ele? — Sara interveio, aproximando-se com Valentina pela mão. A menina olhava para a barriga de Eduarda com uma expressão de tédio idêntica à da mãe. — Você ainda insiste que é um menino? Os exames foram inconclusivos na última vez.

— Eu tenho certeza, Sara — disse Eduarda com uma convicção mansa. — Eu sinto. Vai ser um menino. O pequeno Gael.

Emanuel sentiu um aperto no peito, uma mistura de orgulho e ansiedade. Ter um filho homem, um sucessor para o império de tinta e pele que ele construiu, era um desejo que ele mal ousava admitir para não diminuir a importância de Valentina.

— Se for um menino — disse Emanuel, olhando para o horizonte do salão —, ele terá o melhor de dois mundos. A força para liderar e a sensibilidade para entender a arte.

— E a minha mini diva terá que dividir os brinquedos — comentou Sara, pegando Valentina no colo e ajeitando o laço de fita da menina. — Prepare-se, Emanuel. Se esse menino for metade do que você imagina, esta casa vai virar um campo de batalha.

— Não se houver harmonia — disse Eduarda, olhando para Sara com uma sinceridade que quase desarmou a loira. — Eu não quero que eles compitam, Sara. Quero que eles se apoiem.

Sara desviou o olhar, incomodada com a bondade genuína de Eduarda. Para ela, a vida era uma competição constante, e a chegada de um herdeiro masculino era uma peça nova e perigosa no tabuleiro.

Mais tarde, quando os convidados começaram a se dispersar, Emanuel levou as duas para a área VIP reservada no terraço do hotel. A vista da cidade iluminada era deslumbrante. O vento fresco da noite balançava as cortinas de linho.

Emanuel sentou-se no centro do sofá amplo, com Sara de um lado, bebendo seu uísque caro, e Eduarda do outro, tomando um suco de frutas natural. Valentina dormia profundamente no carrinho ao lado.

— Foi uma noite de sucesso — declarou Emanuel, fechando os olhos por um momento. — O mundo finalmente viu o que eu tenho. A estrutura perfeita.

— Eles viram a sua "esposa", Emanuel — provocou Sara, embora o tom fosse menos ácido do que antes. — Você deveria ter visto a cara das socialites quando a Eduarda explicou a simbologia das cores na Idade Média. Elas se sentiram umas completas idiotas.

Emanuel riu baixo, puxando Eduarda para mais perto.

— Ela é brilhante. E você, Sara, foi impecável nos contratos. A unidade de Tóquio está garantida.

Eduarda bocejou, aninhando-se no ombro de Emanuel.

— Eu só quero ir para casa — sussurrou ela, ficando manhosa devido ao sono. — Emanuel... você ainda quer que eu me mude?

Emanuel parou por um instante. A pergunta era o ponto de discórdia há meses. Eduarda ainda vivia com os pais, embora passasse a maior parte dos fins de semana na cobertura.

— Mais do que tudo — respondeu ele com seriedade. — Especialmente agora. Gael precisa de um quarto ao lado do da irmã. E eu preciso de você por perto, para não enlouquecer com os números da Sara.

Sara revirou os olhos, mas não protestou. No fundo, ela sabia que a presença de Eduarda trazia um equilíbrio que impedia Emanuel de se tornar um ditador insuportável nos negócios.

— Eu vou — disse Eduarda, surpreendendo a ambos. — Depois que o semestre da faculdade acabar. Eu aceito morar com vocês. Mas quero decorar o quarto do bebê do meu jeito. Nada de preto ou cinza, Emanuel.

— Pode pintar de rosa choque se quiser, desde que você esteja lá — cedeu Emanuel, sentindo uma satisfação profunda.

— Rosa não! — exclamou Sara. — Se for um menino, que seja algo clássico. Não quero meu enteado parecendo um algodão-doce.

Eduarda riu, uma risada leve que pareceu dissipar a última tensão da noite.

— Viu? — disse ela para Emanuel. — Nós já estamos decidindo as cores. Vai ser uma convivência interessante.

Emanuel olhou para as duas mulheres. Sara, a força bruta, a inteligência estratégica, a vulgaridade que escondia uma lealdade feroz. Eduarda, a doçura, a intuição emocional, a elegância que desarmava exércitos. E, no centro de tudo, ele e os filhos que carregariam seu legado.

— Vai ser exatamente como eu planejei — afirmou Emanuel, embora soubesse que, com aquelas duas, nada nunca saía exatamente como o planejado.

Ele se inclinou e beijou Sara com paixão, um beijo que falava de parceria e desejo. Depois, virou-se para Eduarda e beijou sua testa e depois seus lábios com uma ternura infinita, um beijo que falava de paz e futuro.

A noite terminou com o silêncio da cidade aos seus pés. O império de Emanuel estava mais sólido do que nunca, não apenas pela tinta nas peles de seus clientes, mas pelos laços complexos, frágeis e estranhamente belos que ele havia conseguido tecer entre as duas mulheres de sua vida. O herdeiro estava a caminho, e com ele, uma nova era de desafios que Emanuel estava mais do que pronto para controlar. Ou, pelo menos, para tentar.