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Reflexos de Seda e Algodão
O salão de festas do condomínio de luxo havia sido transformado em um cenário que oscilava entre o deslumbrante e o exagerado. Para o primeiro aniversário de Antonella, Sara não poupou recursos, nem bom senso. O tema era "Realeza Moderna", o que se traduzia em colunas cobertas de rosas importadas, detalhes em dourado por todos os lados e um bolo de cinco andares que parecia prestes a desabar sob o peso das coroas de açúcar.
Emanuel observava tudo de um canto, segurando um copo de uísque que mal havia tocado. Ele detestava a ostentação desnecessária, mas sabia que, para Sara, aquele evento era menos sobre a filha e mais sobre uma demonstração de poder e status social. Ela circulava entre os convidados — empresários, influenciadores e a elite local — usando um vestido justo de paetês dourados que deixava pouco para a imaginação, movendo-se com a confiança de quem sabia que era o centro das atenções.
Antonella, a "mini diva", estava em um cercadinho decorado com seda, usando um vestido bufante que parecia incomodá-la. A bebê já demonstrava traços da personalidade da mãe: ignorava os brinquedos caros e olhava para os convidados com uma expressão blasé, quase esnobe, recusando-se a sorrir para as fotos.
— Você está com cara de quem preferia estar fazendo uma tatuagem de dez horas em uma convenção lotada — a voz de Sara surgiu ao lado dele, carregada de ironia.
— Talvez eu preferisse mesmo — Emanuel respondeu, soltando um suspiro pesado. — Sara, isso tudo é necessário? Ela tem um ano. Ela não vai lembrar de nada disso.
— Eu vou lembrar, Emanuel. E as fotos vão ficar impecáveis no meu feed. A administração do seu império exige que mantenhamos a imagem — ela ajeitou a gola da camisa dele com um toque possessivo. — Sorria, querido. Você é o rei aqui.
Antes que ele pudesse retrucar, o movimento na entrada do salão atraiu seu olhar. Eduarda havia chegado.
Ela parecia um ponto de luz suave em meio ao brilho agressivo da festa. Usava um vestido floral delicado, os cabelos castanhos presos em um meio-preso romântico. Mas o que realmente chamou a atenção de Emanuel foi o que ela carregava nos braços.
Eduarda trazia Alice, a filha de sua prima, que agora também completava um ano. A bebê era o oposto de Antonella. Alice usava um conjunto simples de algodão, tinha as bochechas rosadas e os olhos curiosos, escondendo o rosto no pescoço de Eduarda sempre que alguém passava por perto.
Emanuel sentiu um puxão estranho no peito. Ele caminhou em direção a elas, ignorando o olhar de desdém que Sara lançou para a "convidada humilde".
— Você veio — disse ele, a voz suavizando instantaneamente ao chegar perto de Eduarda.
— Eu prometi, não prometi? — Eduarda sorriu, mas era um sorriso tímido, quase intimidado pelo luxo ao redor. — Emanuel, esta é a Alice. Minha prima teve um imprevisto e eu me ofereci para ficar com ela hoje. Espero que não tenha problema ela participar da festa.
— Problema nenhum — Emanuel estendeu o dedo, e Alice, com um movimento manhoso, agarrou-o, soltando uma risadinha baixa e doce antes de se encolher novamente no abraço de Eduarda.
— Que coisa... comum — Sara comentou, aproximando-se com um sorriso predatório. — Olá, Duda. Vejo que trouxe uma versão em miniatura de você mesma. Tão... discreta.
— Ela é calma, Sara — Eduarda respondeu baixo, sem olhar nos olhos da loira. — Gosta de colo e de silêncio.
— Que tédio — Sara deu de ombros, olhando para a própria filha. — Antonella já sabe posar para fotos. Ela tem presença. Essa aí parece que vai começar a chorar se alguém falar mais alto.
Emanuel sentiu a irritação borbulhar. Ele olhou para Antonella, que agora choramingava porque queria tirar a coroa desconfortável da cabeça, e depois para Alice, que descansava a cabeça no ombro de Eduarda com uma confiança absoluta.
— Ela é fofa, Duda — Emanuel murmurou, observando como Eduarda ninava a bebê com uma naturalidade que ele raramente via em Sara.
Eduarda era carinhosa, intuitiva. Ela não via a bebê como um acessório, mas como um ser que precisava de proteção. Emanuel se pegou imaginando, por um breve e perigoso momento, como seria ter um filho com Eduarda. Imaginou uma criança com os olhos sensíveis dela, vivendo em uma casa onde o silêncio era valorizado e o afeto não era uma performance para as redes sociais.
A irritação dele, no entanto, voltou-se para a situação atual. Ele queria que Eduarda fizesse parte daquela família, mas a distância emocional que ela mantinha — e que Sara impunha — tornava tudo um campo de batalha.
— Duda, por que você não leva a Alice para perto da Antonella? — sugeriu Emanuel. — Queria que elas brincassem um pouco. Queria que você fosse mais próxima da minha filha.
Eduarda hesitou, olhando para o cercadinho dourado onde Antonella estava cercada por babás e fotógrafos.
— Eu não sei, Emanuel... a Antonella parece tão... ocupada. E a Alice é muito tímida.
— É uma festa de aniversário, não uma reunião de negócios — ele disse, com um tom de voz mais firme do que pretendia. — Vá lá. Tente.
Eduarda caminhou lentamente até o cercadinho. Sara a seguiu com o olhar, uma sobrancelha erguida.
— Você está tentando forçar uma amizade que não existe, Emanuel — Sara disse, tomando um gole de champanhe. — A Eduarda tem medo da própria sombra. Ela nunca vai conseguir lidar com a personalidade da Antonella. Minha filha é uma alfa, como eu.
— Ela é uma bebê, Sara! — Emanuel explodiu em um sussurro ríspido. — Ela precisa de carinho, não de um treinamento para ser CEO.
No cercadinho, o desastre aconteceu de forma silenciosa. Eduarda colocou Alice no chão, perto de Antonella. Alice, manhosa, tentou tocar em um dos ursos de pelúcia gigantes que decoravam o espaço. Antonella, com um movimento rápido e brusco, empurrou a mão da outra bebê e soltou um grito agudo, reivindicando o território.
Alice começou a chorar imediatamente, escondendo o rosto nas mãos e procurando as pernas de Eduarda. Eduarda, visivelmente desconfortável, pegou a bebê no colo na mesma hora, tentando acalmá-la com sussurros doces.
— Viu? — Sara riu, uma risada seca. — Água e óleo.
Emanuel caminhou até elas, o rosto fechado. Ele viu o olhar de desculpas de Eduarda e a expressão de triunfo de Sara.
— Eu vou levá-la para um lugar mais calmo — disse Eduarda, com a voz trêmula. — Ela ficou assustada.
— Não precisa ir embora, Eduarda — Emanuel disse, segurando-a pelo braço. — Fica.
— Eu não pertenço aqui, Emanuel — ela sussurrou, os olhos marejados. — Olha para isso tudo. Olha para a forma como a Sara me olha. Eu só quero um pouco de paz.
— A paz que você quer é uma fuga — Emanuel rebateu, a frustração acumulada dos últimos meses transbordando. — Você usa essa sua timidez como desculpa para não se envolver na minha vida. Eu quero você na minha casa, eu quero você perto da minha filha, e você prefere ficar cuidando do bebê dos outros porque é mais fácil!
Eduarda recuou, como se tivesse levado um tapa físico. A sensibilidade dela era seu ponto forte, mas também sua maior fraqueza.
— Não é que seja mais fácil — ela disse, a voz ganhando uma firmeza rara. — É que aqui, tudo parece de mentira. Até o aniversário da sua filha parece um comercial. Eu não sei ser de mentira, Emanuel.
Ela se virou e caminhou em direção à saída, levando Alice consigo.
Emanuel fez menção de seguir, mas Sara colocou a mão em seu peito, impedindo-o.
— Deixe-a ir, Emanuel. Ela precisa de um tempo para processar que o mundo não é um museu de arte silencioso. Venha, os convidados querem brindar ao sucesso da Antonella.
Emanuel olhou para a porta por onde Eduarda havia saído e depois para a festa barulhenta e dourada à sua frente. Ele sentia-se dividido ao meio. Amava a competência de Sara, a forma como ela impulsionava seus negócios e a força que ela trazia para sua vida. Mas o vazio que a saída de Eduarda deixou era frio e profundo.
Ele se aproximou de Antonella, que agora estava no colo de uma das babás, e tocou o rosto da filha. Ela era linda, mas seus olhos já carregavam aquela frieza observadora de Sara.
— Eu queria que você fosse mais como ela — murmurou ele, tão baixo que ninguém ouviu.
— O que disse, querido? — perguntou Sara, aproximando-se para o brinde.
— Nada — ele respondeu, pegando uma taça de champanhe. — Vamos acabar logo com isso.
A festa continuou, cercada de luxo e risadas superficiais, mas para Emanuel, o brilho havia sumido. Ele se pegou pensando em Eduarda em sua casa simples, com o cheiro de lavanda e o som de respiração calma, e percebeu que, por mais que tivesse todo o dinheiro do mundo, o controle que ele tanto ansiava sobre o coração daquelas duas mulheres era a única coisa que ele nunca conseguiria comprar.
A irritação persistia, uma queimação lenta em seu estômago. Ele queria as duas. Queria a força de uma e a doçura da outra. Mas, naquela noite, ele percebeu que, ao tentar forçá-las a coexistir em seu mundo de excessos, ele corria o risco de perder a única coisa que mantinha sua sanidade: a pureza que Eduarda representava.
Enquanto os fogos de artifício espocavam do lado de fora para celebrar o primeiro ano de Antonella, Emanuel apenas fechou os olhos, desejando o silêncio que só Eduarda sabia proporcionar.