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O Silêncio Quebrado pelo Choro

A casa dos pais de Eduarda, que costumava ser um refúgio de cores claras e música suave, estava mergulhada em um caos silencioso e desesperador. Eduarda estava sentada no chão do quarto de hóspedes, cercada por malas abertas e brinquedos de bebê espalhados. Em seu colo, a pequena Alice, de apenas oito meses, chorava um pranto exausto, as bochechas vermelhas e úmidas.

Nas mãos trêmulas de Eduarda, um pedaço de papel amassado parecia pesar toneladas. As palavras da prima, escritas às pressas, queimavam seus olhos: *"Eu não nasci para isso, Duda. Não me procure. Alice merece alguém que a ame de verdade, e esse alguém é você. Por favor, crie ela como se fosse sua."*

— Como ela pôde? — Eduarda soluçou, apertando a bebê contra o peito. — Como alguém simplesmente vai embora e deixa um pedaço de si para trás?

O som da campainha ecoou pela casa, mas Eduarda não se mexeu. Ela se sentia paralisada, uma menina de vinte anos que mal sabia cuidar de si mesma, agora responsável por uma vida inteira. Momentos depois, a porta do quarto se abriu e a figura imponente de Emanuel surgiu. Ele ainda usava a camisa social da festa de Antonella, mas as mangas estavam dobradas e a expressão rígida de poucas horas atrás havia sido substituída por uma preocupação genuína.

Ele atravessou o quarto em dois passos e se ajoelhou ao lado dela, ignorando a poeira e a desordem.

— Meus pais me ligaram. Disseram que você estava em choque — Emanuel falou baixo, estendendo os braços. — Me dá ela aqui, Duda. Você está tremendo.

Eduarda entregou Alice, sentindo um alívio momentâneo ao ver a força dele sustentar o pequeno corpo da bebê. Emanuel, acostumado com o peso de Antonella, aninhou Alice com uma habilidade que contrastava com sua aparência bruta de tatuador. A bebê, sentindo o calor e a estabilidade, começou a diminuir o ritmo do choro, agarrando-se à gola da camisa dele.

— Ela me deixou, Emanuel — Eduarda disse, as lágrimas escorrendo sem parar. — Ela foi embora. Eu não sei o que fazer. Eu sou só uma estudante, eu não tenho nada...

— Você tem a mim — ele interrompeu, a voz carregada de uma autoridade protetora. — Ouça bem, Eduarda. Eu não vou deixar você passar por isso sozinha. Mas acabou o tempo de esperar. Você não pode criar essa menina aqui, dependendo da boa vontade dos seus pais ou se escondendo do mundo.

Eduarda olhou para ele, os olhos grandes e úmidos buscando uma âncora.

— O que você quer dizer?

— Você vem morar comigo. Agora. Sem "vou pensar", sem "não estou pronta" — Emanuel decretou, os olhos fixos nos dela. — Eu tenho estrutura, tenho segurança, tenho a Sara que, apesar de tudo, sabe gerenciar uma casa. A Alice vai ter tudo o que precisar. E você vai ter a proteção que eu venho tentando te dar há meses.

— Mas e a Sara? E a Antonella? — Eduarda perguntou, a voz manhosa e insegura. — Ela vai me odiar, Emanuel. Ela já me acha um estorvo.

— A Sara vai aceitar porque eu estou mandando — ele disse, embora soubesse que não seria tão simples assim. — E porque, no fundo, ela sabe que você é parte da minha vida. Eu quero minhas duas mulheres e minhas duas filhas sob o mesmo teto. É a única forma de eu ter paz.

Eduarda olhou para Alice, que agora dormia um sono inquieto no colo de Emanuel. A fragilidade daquela criança ecoava a sua própria. Ela sabia que, se ficasse ali, sucumbiria ao medo.

— Tudo bem — ela sussurrou, encostando a testa no ombro dele. — Eu vou. Mas não me deixe sozinha lá, Emanuel. Por favor.

— Nunca — ele prometeu, beijando o topo da cabeça dela.

A chegada à cobertura de Emanuel, na manhã seguinte, foi carregada de tensão. O apartamento era um monumento ao luxo moderno: mármore negro, janelas do chão ao teto e obras de arte contemporâneas que pareciam observar cada movimento. Sara estava na sala de jantar, tomando um café expresso enquanto revisava planilhas em seu tablet. Ela usava um robe de seda carmesim e parecia uma rainha em seu trono de design.

Quando Emanuel entrou carregando as malas de Eduarda, seguido pela própria Eduarda que trazia Alice em um bebê conforto, o silêncio na sala tornou-se cortante.

— Então a ratinha finalmente decidiu sair da toca? — Sara perguntou, sem tirar os olhos da tela. — E trouxe um brinde, pelo que vejo.

— Sara, a prima da Eduarda foi embora. A Alice agora está sob nossa responsabilidade — Emanuel disse, colocando as malas no chão com um baque surdo. — A Eduarda vai morar aqui permanentemente. Eu já pedi para a equipe de limpeza preparar a suíte leste.

Sara finalmente levantou o olhar. Seus olhos azuis percorreram Eduarda, que se encolheu instantaneamente atrás de Emanuel, e depois pousaram na pequena Alice.

— Uma órfã de mãe viva? Que dramático — Sara comentou, levantando-se com uma elegância felina. — Você tem consciência do caos que isso vai ser, Emanuel? Uma bebê que não é sua, uma namorada que precisa de babá... Minha casa vai virar uma creche pública.

— Sara, não comece — Emanuel avisou, o tom de voz perigosamente baixo. — Você disse que queria a Eduarda aqui. Pois aqui está ela. A administração dos estúdios está indo bem, a Antonella tem tudo o que precisa. Há espaço de sobra para todos.

Sara caminhou até Eduarda, que apertou o bebê conforto contra as pernas. A loira parou a poucos centímetros dela, o perfume caro inundando os sentidos da mais jovem.

— Escuta aqui, Duda — Sara disse, a voz num tom quase amigável, mas carregada de advertência. — Eu não me importo que você esteja aqui. Na verdade, ter você por perto me poupa o trabalho de ver o Emanuel saindo a cada duas horas para te visitar. Mas esta casa tem regras. Minha filha é a prioridade. Meus horários são sagrados. Se essa coisinha chorar a noite toda e atrapalhar o sono da minha mini diva, teremos problemas. Entendido?

— E-entendido — Eduarda murmurou, sem coragem de sustentar o olhar.

— Ótimo — Sara sorriu, dando um tapinha condescendente no ombro de Eduarda. — Agora, leve suas coisas para o quarto. E, pelo amor de Deus, Emanuel, contrate uma babá extra. A Eduarda parece que vai desmaiar se tiver que trocar uma fralda sozinha.

Emanuel soltou um suspiro de alívio contido. Ele sabia que o "sim" de Sara era uma concessão estratégica, mas era o suficiente por enquanto. Ele guiou Eduarda pelo corredor longo até a suíte que havia sido preparada. O quarto era enorme, decorado em tons de cinza e branco, com uma vista deslumbrante da cidade. Um berço de madeira clara já estava montado em um canto.

— É lindo, Emanuel — Eduarda disse, sentando-se na beira da cama king-size. — Mas eu me sinto tão pequena aqui.

— Você vai se acostumar — ele disse, sentando-se ao lado dela e puxando-a para um abraço de lado. — Eu vou estar aqui todas as noites. Você não precisa mais ter medo de nada.

A primeira semana foi um exercício de paciência e adaptação. O contraste entre as duas crianças era fascinante e perturbador para Emanuel. Antonella, sempre impecável em seus vestidos de grife, circulava pelo andador como se fosse a dona do lugar, exigindo atenção com gritos curtos e imperiosos. Já Alice era uma sombra manhosa. Ela estranhava cada som novo, cada luz mais forte, e só se acalmava quando estava no colo de Eduarda ou quando Emanuel a segurava.

Eduarda, por sua vez, parecia estar sempre em estado de alerta. Ela evitava as áreas comuns quando Sara estava presente, preferindo ficar no quarto estudando História da Arte enquanto Alice dormia.

Em uma tarde de terça-feira, Emanuel chegou mais cedo do estúdio e encontrou uma cena que o fez parar na porta da sala.

Sara estava sentada no sofá, com Antonella no colo, tentando ensinar a bebê a segurar um pequeno espelho de mão. Do outro lado da sala, Eduarda tentava dar papinha para Alice, mas a bebê estava manhosa, recusando a colher e choramingando baixinho.

— Ela está com fome, Eduarda. Pare de ser tão mole e force um pouco — Sara disse, sem desviar os olhos de Antonella.

— Ela está cansada, Sara. O dente dela está nascendo — Eduarda respondeu, a voz embargada.

— Todas as crianças nascem dentes. A Antonella nem chorou quando os dela apareceram. Você mima demais essa menina, por isso ela é tão... murcha.

Eduarda baixou a cabeça, e uma lágrima caiu na tigela de papinha. Emanuel sentiu a tensão vibrar no ar.

— Sara, deixe-a em paz — Emanuel interveio, aproximando-se. Ele foi até Eduarda, pegou a colher da mão dela e a puxou para cima. — Vá lavar o rosto, Duda. Eu termino aqui.

Eduarda saiu apressada, e Emanuel sentou-se para alimentar Alice. A bebê, ao ver o rosto familiar e firme do "pai", abriu a boca e aceitou a comida, embora ainda soltasse suspiros manhosos.

— Você é muito mole com ela, Emanuel — Sara comentou, cruzando as pernas e exibindo as sandálias de salto. — Se continuar assim, a Eduarda nunca vai crescer. Ela vai ser sempre essa sombra chorona pelos cantos.

— Ela está passando por um trauma, Sara. Perdeu a prima, ganhou uma filha da noite para o dia e mudou-se para uma casa onde a "dona" a olha como se ela fosse um inseto — Emanuel respondeu, limpando a boca de Alice. — Eu preciso que você colabore. Você é a mulher mais inteligente que eu conheço. Use essa inteligência para integrar a Eduarda, não para diminuí-la.

Sara deu um sorriso de lado, aquele brilho de desafio voltando aos seus olhos.

— Eu não a diminuo, querido. Eu apenas mostro a realidade. O mundo não é feito de aquarelas. Mas, se isso te faz feliz, eu vou tentar ser mais... "acolhedora".

Naquela noite, Emanuel acordou com o som de um choro baixo vindo do quarto de Alice. Ele se levantou silenciosamente, tomando cuidado para não acordar Sara, que dormia profundamente, o rosto sereno como o de uma estátua de mármore.

Ao entrar no quarto ao lado, ele encontrou Eduarda sentada na poltrona de amamentação, ninando Alice. Ambas choravam. Eduarda balançava o corpo para frente e para trás, sussurrando palavras de conforto que pareciam mais para si mesma do que para a bebê.

— Duda? — ele chamou suavemente.

— Eu não vou conseguir, Emanuel — ela soluçou, olhando para ele com desespero. — Eu olho para ela e sinto tanto amor, mas também sinto tanto medo. Eu tenho medo de falhar com ela. Tenho medo de que ela cresça sentindo que não é desejada nesta casa.

Emanuel ajoelhou-se diante delas, envolvendo as duas em seus braços fortes.

— Ela é desejada. Eu desejo ela aqui. Eu desejo você aqui.

— A Sara... ela é tão forte, tão perfeita — Eduarda continuou, escondendo o rosto no peito dele. — E eu sou só isso. Uma menina manhosa que não sabe nem fazer o próprio filho parar de chorar.

— Você não precisa ser a Sara — Emanuel disse, a voz firme. — Eu já tenho uma Sara. Eu preciso da sua doçura, Duda. Eu preciso dessa sua sensibilidade para equilibrar o caos da minha vida. A Alice não precisa de uma mãe executiva, ela precisa de alguém que sinta o que ela sente. E ninguém faz isso melhor do que você.

Ele ficou ali com elas por um longo tempo, até que o choro de Alice cessasse e Eduarda se acalmasse. Quando finalmente as colocou na cama — Alice no berço e Eduarda sob os lençóis macios —, ele sentiu uma estranha sensação de completude.

Ao voltar para o seu quarto principal, ele encontrou Sara sentada na cama, observando-o.

— Você demorou — ela disse, a voz desprovida de sono.

— Elas precisavam de mim — ele respondeu de forma simples, deitando-se ao lado dela.

Sara se aproximou, deitando a cabeça no peito dele, o corpo curvilíneo e quente pressionado contra o seu.

— Você está criando um ecossistema muito perigoso, Emanuel — ela sussurrou, traçando as tatuagens no braço dele com a ponta das unhas. — Mas eu admito... há algo de interessante em ter aquela menina por perto. Ela faz você parecer menos um monstro de gelo.

— Eu nunca fui de gelo com você, Sara.

— Não, mas você é focado demais. A Eduarda... ela te amolece. Só tome cuidado para não amolecer demais. Eu ainda preciso do meu parceiro de negócios firme e implacável.

Emanuel fechou os olhos, sentindo o perfume de Sara e pensando no cheiro de bebê que ainda impregnava suas mãos. Sua vida agora era um mosaico complexo de necessidades conflitantes. De um lado, a ambição, o poder e a presença avassaladora de Sara e Antonella. Do outro, a vulnerabilidade, o carinho e a dependência doce de Eduarda e Alice.

Ele sabia que o caminho à frente seria cheio de confrontos. Sara não deixaria de testar os limites de Eduarda, e Eduarda continuaria a se apoiar nele para cada pequena decisão. Mas, enquanto ouvia a respiração pesada de Sara ao seu lado e o silêncio finalmente reinava na cobertura, Emanuel sentiu que, pela primeira vez, todas as peças do seu quebra-cabeça pessoal estavam, se não encaixadas, ao menos no mesmo lugar.

O sucesso, para ele, não era mais apenas sobre os estúdios espalhados pelo mundo ou os milhões na conta. Era sobre manter aquele equilíbrio frágil entre a seda e o algodão, garantindo que, no final do dia, nenhuma de suas mulheres se sentisse deixada para trás naquela dança de poder e afeto que ele mesmo havia coreografado.