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Entre o Mar e as Sombras do Ego
O sol da manhã de sábado entrava pelas janelas da suíte leste, banhando o quarto de Eduarda com uma luz dourada e suave. O ambiente, antes impessoal e frio, agora tinha o cheiro adocicado de talco e o perfume de flores silvestres que Eduarda tanto gostava. Emanuel estava deitado na cama, observando Eduarda trocar a pequena Alice. Ele se sentia em paz ali. No quarto de Sara, tudo era planejado para ser impactante; aqui, tudo era feito para ser sentido.
— Ela está crescendo tão rápido, Emanuel — comentou Eduarda, fazendo cócegas na barriga da bebê, que soltava gargalhadas cristalinas. — Veja como ela já tenta se firmar nas perninhas.
— Ela tem a sua energia, Duda — disse Emanuel, levantando-se e aproximando-se das duas. — É calma, mas persistente.
Ele envolveu Eduarda pela cintura, descansando o queixo em seu ombro. Nos últimos tempos, Emanuel passava cada vez mais tempo naquele lado da cobertura. Era seu refúgio contra as planilhas, as metas agressivas de Sara e o estresse dos estúdios. Eduarda parecia florescer sob sua atenção constante; estava mais radiante, menos retraída, embora ainda mantivesse aquela doçura manhosa que o desarmava.
— Vamos à praia hoje — decretou ele, beijando o pescoço dela. — Só nós três. Sem babás, sem fotógrafos, sem o caos da cidade.
— A Sara não vai se importar? — Eduarda perguntou, a insegurança habitual nublando seus olhos por um segundo. — Ela comentou que queria levar a Antonella ao shopping para comprar aquela nova coleção de inverno.
— A Sara tem os planos dela, e eu tenho os meus — Emanuel respondeu com firmeza. — Eu quero ver vocês duas no mar. Alice precisa de sol.
A viagem até a casa de praia particular de Emanuel foi silenciosa e tranquila. No banco de trás, Eduarda cantava cantigas de roda para Alice, que balançava os braços gordinhos em entusiasmo. Quando chegaram à areia branca e deserta, Emanuel sentiu como se um peso saísse de seus ombros.
Ele estendeu a esteira sob o guarda-sol e observou Eduarda, que usava um biquíni romântico de babados e uma saída de praia leve. Ela parecia uma ninfa sob a luz do sol. Alice foi colocada na areia morna, seus olhos grandes arregalados com a textura nova entre os dedos.
— Olha, Emanuel! — Eduarda exclamou, sentada ao lado da bebê. — Ela adora!
Emanuel agachou-se à frente delas. Ele pegou uma concha pequena e entregou a Alice. A bebê a pegou, examinou-a com seriedade e depois olhou para Emanuel.
— Pa... pa... — a bebê balbuciou, a saliva escorrendo pelo queixo enquanto ela se esforçava para coordenar os lábios.
O coração de Emanuel deu um salto que nenhuma transação milionária jamais proporcionou.
— O que ela disse? — ele sussurrou, com medo de quebrar o momento.
— Pa-pa! — Alice repetiu com mais força, abrindo um sorriso banguela e esticando os braços para ele.
— Ela chamou você, Emanuel — Eduarda disse, com lágrimas de alegria nos olhos. — Ela chamou o papai.
Emanuel pegou a menina no colo, levantando-a para o alto contra o céu azul. A sensação de ser reconhecido daquela forma, com aquela pureza, era avassaladora. Ele olhou para Eduarda, que o observava com um amor tão transparente que ele se sentiu pequeno diante de tanta entrega.
— Eu vou cuidar de vocês duas — prometeu ele, a voz rouca de emoção. — Nada vai faltar. Nunca.
Enquanto isso, de volta à cobertura na cidade, o clima era diametralmente oposto. No enorme closet espelhado, Sara estava terminando de se arrumar. Ela usava um conjunto de alfaiataria branco impecável e joias pesadas de ouro. Antonella, vestida como uma miniatura da mãe, estava sentada em um pufe de veludo, cercada por cartões educativos de alto padrão.
— Vamos, Antonella. Repita com a mamãe — disse Sara, a voz carregada de uma impaciência mal disfarçada. — Ma-mã-e. Ad-mi-nis-tra-ção. Su-ces-so.
A bebê de um ano apenas olhava para Sara com uma expressão vazia, quase entediada. Ela colocou o dedo na boca e desviou o olhar para um ponto qualquer na parede.
— Não seja difícil, Antonella — Sara insistiu, segurando o queixo da filha com delicadeza, mas firmeza excessiva. — A filha de uma mulher como eu não pode ser atrasada. Você já deveria estar falando frases curtas. A filha daquela... daquela menina já faz sons. Você é uma diva, você precisa liderar.
Antonella soltou um resmungo de insatisfação e tentou se afastar. Sara sentiu uma pontada de frustração que beirava a raiva. Para ela, tudo era uma competição, até o desenvolvimento biológico da própria filha. Se Antonella não fosse a melhor, isso refletia na competência de Sara.
— A senhora quer que eu prepare a mamadeira? — perguntou a babá, entrando cautelosamente no closet.
— Não, ela não precisa de mamadeira agora, precisa de estímulo! — Sara disparou, levantando-se. — Ligue para o fonoaudiólogo particular. Quero uma consulta ainda hoje. Não aceito que minha filha seja medíocre.
Sara caminhou até a janela e olhou para baixo, para a movimentação da metrópole. Ela sabia que Emanuel estava fora com "a outra". Ela permitia, ela tolerava, porque sabia que era a base da estrutura dele. Mas ver a felicidade doméstica e simplória de Eduarda começando a ocupar tanto espaço na mente de Emanuel estava começando a irritá-la.
— Ela pode ter o dengo dele — murmurou Sara para o seu reflexo —, mas eu tenho o controle. E eu vou transformar essa menina em alguém que o mundo tema, não em alguém que o mundo queira abraçar.
Ao final da tarde, Emanuel e Eduarda retornaram da praia. Eles entraram na cobertura rindo, com a pele salgada e os cabelos bagunçados pelo vento. Alice dormia profundamente no ombro de Emanuel.
Ao cruzarem a sala, deram de cara com Sara, que os esperava sentada no sofá principal, com uma taça de vinho na mão e Antonella sentada rigidamente ao seu lado, cercada por brinquedos eletrônicos caros que emitiam sons de idiomas estrangeiros.
— Que cena bucólica — disse Sara, a voz destilando sarcasmo. — Divertiram-se na areia como camponeses?
— Foi maravilhoso, Sara — respondeu Eduarda, tentando sustentar o tom de felicidade, embora sua voz tenha baixado de volume instintivamente. — A Alice amou o mar.
— Tenho certeza que sim. Pobres mentes, pequenos prazeres — Sara levantou-se e caminhou até Emanuel. Ela ignorou Eduarda e tocou o rosto dele. — Você perdeu uma tarde importante, Emanuel. O pessoal de Dubai ligou. Estão prontos para assinar o contrato da nova franquia.
— O contrato pode esperar até segunda, Sara — Emanuel disse, afastando a mão dela com suavidade. — Hoje foi sobre a família.
— Família? — Sara riu, uma risada seca e sem humor. — Engraçado você dizer isso enquanto carrega a filha de outra pessoa e ignora a sua própria, que passou o dia estudando para ser alguém.
— Antonella é um bebê, Sara! Ela não tem que estudar, tem que brincar! — Emanuel rebateu, a irritação voltando a subir.
— Ela tem que ser a melhor. E ela vai ser — Sara aproximou-se de Alice, que começou a acordar com o barulho. — E então, a pequena órfã aprendeu algum truque novo na praia?
Emanuel olhou para Eduarda, que parecia estar prestes a chorar, e depois para Sara, que brilhava em sua arrogância loira.
— Ela falou, Sara — Emanuel disse, com um orgulho que feriu o ego da loira como uma lâmina. — Ela me chamou de papai. Claramente.
O silêncio que se seguiu foi gélido. Sara sentiu o sangue subir ao rosto. Antonella, no sofá, soltou um choro agudo e irritado, como se percebesse a tensão da mãe.
— Que sorte a dela — Sara disse por fim, recuperando a compostura com um esforço hercúleo. — Algumas crianças nascem com sorte, outras nascem com destino. Antonella nasceu para governar, não para balbuciar bobagens para ganhar atenção.
Sara pegou Antonella de forma brusca e caminhou em direção aos seus aposentos, os saltos batendo com força no mármore.
Emanuel suspirou, sentindo o peso daquela casa novamente. Ele se voltou para Eduarda, que estava com os olhos fixos no chão.
— Não ligue para ela, Duda.
— Ela tem razão em uma coisa, Emanuel — Eduarda sussurrou, a voz manhosa e triste. — Eu nunca vou ser como ela. Eu nunca vou saber falar de contratos ou de Dubai. Eu só sei amar você e a Alice.
Emanuel puxou-a para perto, apertando-a contra si enquanto ainda segurava a bebê.
— É exatamente por isso que eu preciso que você fique.
Naquela noite, Emanuel não foi para o quarto de Sara. Ele ficou na suíte leste, ajudando Eduarda a dar banho em Alice e depois deitando-se com ela na penumbra, ouvindo as histórias que ela contava sobre os pintores renascentistas que estava estudando.
Do outro lado da cobertura, Sara permanecia acordada, observando Antonella dormir no berço de ouro. Ela sentia a ameaça. Não era uma ameaça financeira, nem mesmo sexual. Era a ameaça da simplicidade. E Sara sabia que, se não fizesse algo para reafirmar sua posição, a "ratinha de biblioteca" e a bebê "comum" acabariam roubando a única coisa que ela não podia administrar com planilhas: o coração de Emanuel.
— Você vai falar, Antonella — sussurrou Sara na escuridão, as unhas cravadas na palma da mão. — Você vai ser a primeira em tudo. Eu vou garantir que ninguém nesta casa esqueça quem é a verdadeira rainha.
A guerra silenciosa estava apenas começando, e Emanuel, no centro de tudo, ainda acreditava que poderia manter o controle sobre dois mundos que estavam destinados a colidir. Mas, enquanto sentia o toque suave de Eduarda em seu braço, ele se permitiu esquecer, por algumas horas, que o preço da paz em sua casa era uma conta que ele talvez não conseguisse pagar.