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O Veneno Sob o Verniz

O ar na fazenda dos Vilela era puro, mas Emanuel sentia como se estivesse respirando fumaça. A propriedade, um latifúndio impecável no interior de São Paulo, exalava uma riqueza ancestral que fazia a sua própria fortuna, erguida sobre tinta e suor, parecer barulhenta e recente. Ele estava encostado em uma cerca de madeira branca, observando de longe enquanto Bernardo caminhava pelo gramado com Eduarda e Alice.

Sara estava ao lado dele, usando óculos de sol enormes e segurando uma taça de espumante, parecendo perfeitamente à vontade naquele cenário de elite.

— Você está prestes a ter um aneurisma, Emanuel — comentou Sara, a voz carregada de um sarcasmo pragmático. — Relaxe. Deixe o herdeiro brincar de casinha por um fim de semana. Isso não muda quem paga as contas daquela menina.

— Não é sobre dinheiro, Sara. É sobre como ele olha para a Duda — rosnou Emanuel, os punhos cerrados nos bolsos da calça jeans. — Ele está cercando ela como se fosse um troféu.

— E ela é, não é? — Sara deu de ombros. — Para um homem como o Bernardo, que tem tudo, a única coisa que falta é o que não se pode comprar: a pureza de uma menina que estuda História da Arte e cuida de uma órfã por amor. É o fetiche da redenção, querido.

Emanuel não respondeu. Ele viu Bernardo colocar a mão no ombro de Eduarda para apontar algo no horizonte. A reação de Eduarda foi sutil, mas Emanuel notou: ela se encolheu levemente, um movimento quase imperceptível de desconforto que Bernardo ignorou solenemente.

No centro do gramado, Eduarda sentia o coração pesado. Desde que chegaram à fazenda, Bernardo não parava de falar sobre o "futuro de Alice". Ele falava de escolas na Suíça, de fundos de investimento e de como a linhagem Vilela precisava ser preservada. Mas havia algo errado.

— Veja aquela potra ali, Eduarda — disse Bernardo, apontando para um animal magnífico no cercado. — Vou dar uma igual para a Alice quando ela fizer cinco anos. Uma Vilela precisa saber montar antes de saber ler. É uma questão de presença, de imagem.

Eduarda olhou para a pequena Alice, que estava sentada na grama tentando pegar uma joaninha. A bebê parecia deslocada naquele cenário tão rígido.

— Ela é só um bebê, Bernardo — murmurou Eduarda. — Ela gosta de coisas simples. Gosta de desenhos, de flores... não sei se ela precisa de uma potra de raça.

— Ela precisa do que o nome dela exige — Bernardo sorriu, mas o sorriso não chegava aos olhos. Era um gesto ensaiado, vazio. — E você também, Eduarda. Imagine-se em um evento da nossa fundação. Com as joias certas e o meu braço, ninguém se lembraria que você veio de uma faculdade pública.

Eduarda parou de caminhar. O comentário a atingiu como um tapa gelado. Ela olhou para Bernardo, tentando encontrar algum sinal de afeto por Alice, mas o que viu foi um homem olhando para a filha como se olhasse para um ativo financeiro que precisava de uma reforma.

— Você não gosta dela, não é? — a pergunta saiu antes que ela pudesse conter.

Bernardo franziu a testa, soltando uma risada curta.

— Do que você está falando? Ela é meu sangue.

— Sangue é apenas biologia — disse Eduarda, a voz ganhando uma firmeza incomum. — Você não perguntou qual é a comida favorita dela. Você não sabe que ela tem medo do escuro. Você só fala de escolas, de cavalos e de como ela vai aparecer nas colunas sociais. Você não quer uma filha, Bernardo. Você quer um acessório para a sua árvore genealógica.

Bernardo mudou a postura. A polidez aristocrática deu lugar a uma frieza cortante. Ele se aproximou de Eduarda, invadindo o espaço pessoal dela de uma forma que Emanuel nunca faria sem o consentimento dela.

— Escute bem, Eduarda. Eu sou um Vilela. Eu não preciso "gostar" no sentido sentimental que você entende. Eu provejo. Eu dou o nome. Eu garanto que ela não seja uma qualquer, como a mãe biológica dela foi. E quanto a você... — Ele deslizou o dedo pelo rosto dela, e Eduarda sentiu um nojo profundo. — Você é adorável, mas é limitada. Aceite a minha oferta, venha morar na capital comigo e eu garanto que você nunca mais terá que lidar com o cheiro de tinta de tatuagem e o temperamento instável daquele brutamontes.

Eduarda deu um passo para trás, os olhos brilhando com uma mistura de raiva e clareza.

— O "brutamontes", como você diz, ama essa menina. Ele acordou de madrugada todas as vezes que ela chorou. Ele legalizou a situação dela quando ninguém mais quis saber. Ele não vê a Alice como uma Vilela, ele a vê como a Alice.

— Você está sendo emocional, como sempre — Bernardo suspirou, entediado. — O amor não constrói impérios, Eduarda.

— Mas o amor constrói lares — rebateu ela. — E esta fazenda é apenas um museu de gente morta e egoísmo vivo.

Ela se abaixou, pegou Alice no colo com força e começou a caminhar em direção à casa principal. Bernardo tentou segurar o braço dela.

— Onde você pensa que vai? Temos um jantar com os meus pais hoje.

— Eu vou para casa — disse ela, sem olhar para trás. — Para a minha casa. Com o Emanuel.

Emanuel, que observava tudo de longe, viu o momento em que Eduarda se soltou de Bernardo e começou a andar apressada. Ele não esperou por Sara. Começou a correr pelo gramado, o coração batendo forte. Quando a alcançou, Eduarda estava ofegante, as lágrimas começando a cair.

— Duda? O que aconteceu? — ele perguntou, envolvendo-a pelos ombros, pronto para ir até Bernardo e acabar com o que restava daquela face polida.

— Me tira daqui, Emanuel — ela soluçou, escondendo o rosto no peito dele enquanto Alice se agarrava ao seu pescoço. — Por favor, me leva para casa. Eu não quero mais ficar perto dele. Ele é... ele é oco. Não tem nada por dentro.

Emanuel olhou por cima do ombro de Eduarda e viu Bernardo parado no mesmo lugar, limpando o terno com as mãos, como se tivesse acabado de tocar em algo sujo. O herdeiro nem sequer olhou para a filha; ele apenas deu as costas e caminhou em direção à sede da fazenda.

— Vamos embora agora — decretou Emanuel.

A viagem de volta foi marcada por um silêncio restaurador. Sara, percebendo que o "experimento Vilela" havia fracassado, não disse uma palavra, focando apenas em responder e-mails no banco da frente. No banco de trás, Eduarda estava aninhada nos braços de Emanuel, com Alice dormindo entre eles.

— Ele ofereceu dinheiro, não foi? — Emanuel perguntou baixinho, beijando o topo da cabeça de Eduarda.

— Ofereceu um mundo de plástico — respondeu ela. — Ele queria me transformar em uma boneca e a Alice em um investimento. Eu tive tanto medo, Emanuel... medo de que você achasse que eu queria aquilo.

— Eu nunca achei isso, Duda. Eu só tive medo de que ele te convencesse de que eu não era o suficiente para vocês.

— Você é tudo, Emanuel — ela disse, olhando-o nos olhos. — Você é real. Suas tatuagens, seus gritos, seu jeito possessivo... tudo isso é verdade. O Bernardo é apenas um reflexo no espelho.

Quando chegaram à cobertura em São Paulo, o clima era de alívio. O luxo do apartamento, que antes parecia opressor para Eduarda, agora parecia um refúgio. Emanuel ajudou a colocar Alice no berço e, pela primeira vez em semanas, não havia a sombra de Bernardo pairando sobre eles.

Na sala, Sara estava servindo um uísque para Emanuel.

— Bem, parece que o intruso de ouro foi devidamente descartado — comentou ela, entregando o copo a ele. — O Dr. Arnaldo me ligou. Bernardo enviou um documento abrindo mão de qualquer contestação de guarda. Parece que ele não gosta de "investimentos de risco" que respondem de volta.

Emanuel soltou um suspiro de puro alívio.

— Ele percebeu que não pode comprar o que temos aqui, Sara.

— Ele percebeu que a Eduarda é areia demais para o caminhãozinho de luxo dele — Sara sorriu, um sorriso genuíno desta vez. — E agora, podemos voltar ao normal? Eu tenho uma coleção de inverno para lançar e a Antonella precisa de novas aulas de natação.

Emanuel riu, puxando Sara para um abraço rápido.

— Sim, vamos voltar ao normal.

Naquela noite, Emanuel foi para a suíte leste. Eduarda estava na varanda, observando as luzes da cidade. Ele se aproximou e a abraçou por trás, sentindo a paz que só ela trazia.

— Você ainda quer que eu espere, Duda? — perguntou ele, a voz suave. — Sobre morar aqui de vez?

Eduarda se virou nos braços dele. Ela olhou para o quarto onde Alice dormia e depois para o corredor que levava ao resto da vida de Emanuel.

— Eu não preciso mais esperar — disse ela. — Eu percebi que o mundo lá fora pode ser muito frio, Emanuel. E eu quero estar onde o fogo está. Mesmo que seja um fogo que queime às vezes.

Emanuel a beijou com uma ternura que raramente mostrava. Não era o beijo possessivo de dias atrás, mas um beijo de promessa.

— Eu vou cuidar de vocês. Das três.

— Eu sei que vai.

A dinâmica na cobertura se assentou. Sara continuava sendo a rainha administrativa, a mini diva Antonella continuava sendo preparada para governar o mundo, e Eduarda trazia a suavidade e a arte que equilibravam a agressividade de Emanuel. Alice crescia entre dois mundos, amada por um pai que não era de sangue, mas que daria a vida por ela.

Bernardo Vilela tornou-se apenas uma história contada em sussurros, um lembrete de que o verniz da aristocracia muitas vezes esconde uma podridão que nenhum dinheiro pode curar.

Emanuel Tattoo King continuava sendo um homem de contrastes. Ele ainda se irritava com a administração de Sara às vezes, e ainda perdia a paciência com a timidez de Eduarda em eventos sociais, mas no final de cada dia, quando as luzes da cobertura se apagavam, ele sabia que tinha construído algo que Bernardo Vilela nunca entenderia.

Ele tinha a verdade.

— Você está feliz? — perguntou Eduarda, meses depois, enquanto observavam as duas meninas brincando juntas no tapete da sala, sob o olhar atento e crítico de Sara.

Emanuel olhou para a morena manhosa ao seu lado, para a loira poderosa à sua frente e para as duas vidas que ele ajudara a criar.

— Eu tenho tudo, Duda — respondeu ele, pegando a mão dela. — Eu finalmente tenho tudo.

O labirinto de vidro não havia estilhaçado. Ele havia se transformado em uma fortaleza. E, dentro dela, o tatuador rico e suas duas namoradas encontraram um equilíbrio que desafiava a lógica, mas que fazia todo o sentido para os corações que batiam sob aquele teto. A paz não fora comprada; fora conquistada, um traço de tinta e um gesto de amor por vez.