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O Labirinto de Vidro e o Intruso de Ouro
A promessa de Emanuel não era apenas uma frase dita no calor do momento; era uma sentença. Na noite seguinte, a cobertura estava envolta em um silêncio quase artificial. Ele havia movido as peças como um mestre de xadrez: Antonella estava sob os cuidados de uma babá bilíngue em seu quarto acústico, e Alice, após uma tarde exaustiva de brincadeiras, dormia profundamente em uma suíte afastada, vigiada por uma enfermeira pediátrica de confiança. Emanuel não queria brechas. Ele queria Eduarda.
Quando ele entrou no quarto, a luz era baixa, filtrada por abajures de cristal que projetavam sombras longas nas paredes de seda. Eduarda estava sentada na ponta da cama, vestindo apenas um robe de seda branca, o cabelo castanho espalhado pelos ombros como uma moldura para sua expressão de expectativa e medo doce.
— Eu disse que não aceitaria interrupções hoje — disse Emanuel, fechando a porta e girando a chave. O som do clique ecoou como um disparo.
Ele caminhou até ela com a predação de quem sabia exatamente o que possuía. Emanuel não era apenas um homem rico ou um tatuador de renome; naquele momento, ele era a autoridade absoluta sobre o corpo dela. Ele a puxou para cima, fazendo o robe deslizar pelos ombros, revelando a pele pálida e macia que ele tanto cobiçava.
— Emanuel... — ela sussurrou, a voz manhosa, os dedos cravando-se nos braços tatuados dele.
— Silêncio, Duda — ele ordenou, a voz vibrando de uma possessividade sombria. — Hoje você é só minha. Não há bebês, não há Sara, não há mundo lá fora. Só o meu pau dentro de você e o seu nome na minha boca.
O que se seguiu foi uma entrega absoluta. Emanuel cumpriu cada palavra da promessa feita na noite anterior. Ele a possuiu com uma urgência que beirava a fúria, marcando-a com beijos e mordidas, sentindo o aperto de Eduarda enquanto ele a preenchia por completo. Ele a levou ao limite repetidas vezes, ignorando os pedidos manhosos dela por trégua, parando apenas quando ambos estavam exaustos e suados contra os lençóis de linho egípcio.
— Você é minha — ele murmurou contra o pescoço dela, enquanto o coração de ambos tentava recuperar o ritmo. — Nunca se esqueça disso.
No entanto, a bolha de controle de Emanuel estava prestes a ser perfurada por um elemento que ele não poderia prever.
Três dias depois, Emanuel estava em um de seus estúdios mais exclusivos em São Paulo, supervisionando a finalização de uma obra em grande escala, quando Sara entrou em sua sala sem anunciar. Ela não parecia irritada, o que era um sinal de perigo. Ela parecia... intrigada.
— Temos um problema, querido — disse ela, sentando-se na mesa dele e cruzando as pernas siliconadas. — E, por incrível que pareça, não fui eu quem o causou.
— O que foi agora, Sara? O contrato de Dubai? — Emanuel perguntou, sem tirar os olhos do tablet.
— Não. É sobre a "sua" pequena Alice. Parece que o pai biológico resolveu sair das sombras. E ele não é um zé-ninguém como a prima da Eduarda.
Emanuel congelou. Ele levantou o olhar, a mandíbula travada.
— O pai dela morreu, Sara. Foi o que a Vanessa disse.
— Vanessa mentiu, obviamente — Sara soltou uma risada seca. — Ela queria o dinheiro só para ela. O nome dele é Bernardo Vilela. O herdeiro da construtora Vilela. Ele está lá fora, Emanuel. E ele não veio com a polícia. Ele veio com um exército de advogados e um sorriso que vale milhões.
Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele se levantou, a presença física preenchendo a sala.
— Mande-o entrar.
Bernardo Vilela entrou na sala momentos depois. Ele era um homem de cerca de trinta anos, com a aparência de quem nunca teve que lutar por nada na vida. Usava um terno de corte impecável, o cabelo loiro perfeitamente penteado e uma aura de confiança que rivalizava com a de Emanuel. No entanto, onde Emanuel era força bruta e controle, Bernardo era polimento e charme.
— Emanuel, é um prazer — disse Bernardo, estendendo a mão. — Sinto muito pela invasão, mas descobri recentemente que tenho uma filha. Uma filha que, pelo que soube, está sob os seus cuidados e de uma jovem chamada Eduarda.
Emanuel ignorou a mão estendida.
— A Alice é minha filha legalmente, Bernardo. Eu paguei pelo silêncio da mãe dela e assinei os papéis de adoção socioafetiva. Você está atrasado.
— Papéis podem ser contestados, especialmente quando houve ocultação de paternidade — Bernardo respondeu, mantendo o tom de voz cordialmente perigoso. Ele olhou para Sara, dando-lhe um aceno de cabeça apreciativo. — E eu não vim aqui para tirar a menina de vocês à força. Eu vim para conhecer a mulher que cuidou dela quando eu nem sabia que ela existia. A Eduarda está na cobertura?
— Você não vai chegar perto da Eduarda — rosnou Emanuel, dando um passo à frente.
— Por que o medo, Emanuel? — Bernardo sorriu, ajustando os punhos da camisa. — Eu só quero agradecer. E, quem sabe, oferecer à Alice tudo o que um Vilela pode oferecer.
A tensão era palpável. Sara observava a cena com um brilho de diversão nos olhos. Ela adorava ver Emanuel perder o controle, e Bernardo era o primeiro homem em anos que parecia não se intimidar com o "Rei das Tatuagens".
— Vamos fazer o seguinte — interveio Sara, levantando-se. — Vamos todos jantar na cobertura hoje à noite. Emanuel, não seja um bárbaro. Se ele tem direitos, é melhor resolvermos isso com um vinho caro do que nos tribunais. Além disso, a Eduarda merece saber quem é o pai da menina que ela ama.
Emanuel olhou para Sara com fúria, mas sabia que ela tinha razão. Esconder Bernardo só o tornaria mais perigoso.
O jantar na cobertura foi o evento mais tenso da vida de Emanuel. Eduarda estava pálida, sentada à mesa enquanto Alice brincava no chão com alguns cubos de madeira. Quando Bernardo entrou, o olhar dele ignorou o luxo do apartamento e focou diretamente em Eduarda.
— Você deve ser a Eduarda — disse Bernardo, a voz suavizando-se em um tom de admiração genuína. — Eu não tenho palavras para agradecer o que você fez pela minha filha. Você é... exatamente como imaginei, mas muito mais bonita.
Eduarda corou, baixando o olhar, sua timidez natural aflorando diante do elogio direto.
— Eu fiz o que qualquer pessoa faria — sussurrou ela. — Eu amo a Alice.
— Nem todos fariam o que você fez — Bernardo sentou-se à mesa, ignorando o olhar assassino de Emanuel. — Você tem uma aura de bondade que é rara hoje em dia, Eduarda. É um prazer finalmente te conhecer.
Emanuel apertou o cabo do garfo com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ele sentia o ciúme queimar como ácido. Ele estava acostumado a disputar a atenção de Eduarda com a bebê, mas disputá-la com um homem que representava tudo o que ele não era — um aristocrata polido, rico de berço e com uma conexão biológica com a filha delas — era insuportável.
— Bernardo está aqui apenas de passagem, Duda — disse Emanuel, a voz cortante. — Ele veio tratar de negócios.
— Na verdade, eu pretendo ficar um tempo — corrigiu Bernardo, olhando para Alice. — Quero participar da vida dela. E se a Eduarda permitir, gostaria de levá-las para conhecer a fazenda da minha família no próximo final de semana. O ar puro faria bem para ambas.
— Ela não vai a lugar nenhum com você — Emanuel disparou.
— Emanuel, deixe a Eduarda falar — Sara provocou, servindo mais vinho. — Ela é uma mulher adulta, não é?
Eduarda olhou de Emanuel para Bernardo. Ela sentia a possessividade de Emanuel como uma corrente sufocante, mas também sentia a curiosidade sobre o homem que era o pai de Alice.
— Eu... eu acho que a Alice deveria conhecer o pai dela — disse Eduarda, a voz trêmula, mas decidida. — Mas eu só vou se o Emanuel e a Sara também forem.
Bernardo sorriu, um brilho de desafio nos olhos.
— Claro. Todos são bem-vindos. Mas meu interesse principal, além da Alice, é garantir que a mulher que a salvou seja tratada como a rainha que é.
A noite terminou com uma declaração de guerra silenciosa. Emanuel levou Eduarda para o quarto assim que o jantar acabou, trancando a porta com uma agressividade que a assustou.
— O que foi aquilo, Eduarda? — ele perguntou, segurando-a pelos ombros. — Você viu como ele olhou para você? Ele não quer a Alice, ele quer você para chegar na Alice!
— Você está sendo injusto, Emanuel! — ela rebateu, as lágrimas surgindo. — Ele parece um homem bom. Ele só quer ser pai.
— Ele quer o que é meu! — Emanuel gritou, a voz ecoando pelas paredes. — Você e as duas meninas são minhas! Eu paguei, eu cuidei, eu protegi! Eu não vou deixar um almofadinha de terno caro entrar aqui e levar o meu mundo embora!
— Nós não somos objetos que você compra, Emanuel! — Eduarda gritou de volta, sua timidez dando lugar a uma súbita coragem emocional. — Eu te amo, mas não sou sua propriedade!
Emanuel a puxou para um beijo bruto, tentando reafirmar seu domínio através do desejo, mas Eduarda o empurrou. Pela primeira vez, o toque dele não trouxe paz, mas uma sensação de asfixia.
Enquanto isso, na sala, Sara terminava sua taça de vinho. Ela olhou para a porta do quarto deles e deu um sorriso enigmático. Ela sabia que a chegada de Bernardo mudaria tudo. Emanuel estava perdendo o controle, e um Emanuel sem controle era um homem que ela poderia manipular com ainda mais facilidade. Mas havia algo em Bernardo que a preocupava também: ele era inteligente demais.
No dia seguinte, a rotina da cobertura foi quebrada por uma entrega massiva. Flores para Eduarda e brinquedos banhados a ouro para Alice e Antonella. Bernardo não estava economizando para marcar território.
— Ele enviou joias para a bebê, Emanuel — disse Sara, mostrando um colar de pérolas com o brasão dos Vilela que chegara para Alice. — E enviou um convite para a Eduarda visitar uma galeria de arte. Ele pesquisou sobre ela. Sabe que ela faz História da Arte.
Emanuel destruiu o arranjo de flores que estava na mesa de centro com um soco.
— Ele está tentando comprá-la.
— Ele está sendo o que você não é, querido — Sara disse, aproximando-se dele e ajeitando sua gola. — Ele está sendo romântico. Você é apenas um dono. Se você não mudar de tática, a Eduarda vai acabar percebendo que o mundo fora desta cobertura é muito mais gentil do que o seu controle.
Emanuel sentiu um medo frio que nunca havia sentido antes. Ele olhou para Eduarda, que estava na varanda brincando com Alice, usando um dos vestidos novos que Bernardo enviara de presente "como agradecimento". Ela parecia feliz. Ela parecia leve.
— Eu vou acabar com ele — sussurrou Emanuel.
— Ou você pode ser melhor que ele — sugeriu Sara. — Mas lembre-se, Emanuel: se você apertar demais, a seda rasga. E a Eduarda é feita de seda.
A tarde caiu sobre a cidade, e Emanuel permaneceu na sombra de seu escritório, observando as três mulheres de sua vida. Antonella, sua mini diva, já mostrava sinais de que preferia os brinquedos caros de Bernardo. Alice parecia ter encontrado um novo herói. E Eduarda... Eduarda estava começando a olhar para o horizonte.
Emanuel pegou seu kit de tatuagem. Ele precisava de dor para focar. Ele precisava de controle. Mas enquanto a agulha perfurava sua própria pele em um desenho sem nexo, a imagem de Bernardo sorrindo para Eduarda não saía de sua cabeça.
O intruso de ouro havia entrado em seu labirinto de vidro. E Emanuel sabia que, se não tomasse cuidado, o vidro estilhaçaria, e ele ficaria sozinho em meio aos destroços de um império que ele pensou ser inabalável.
— Ela é minha — ele repetia para si mesmo, enquanto a tinta preta manchava seu braço. — Elas são minhas.
Mas, pela primeira vez, as palavras pareciam vazias diante do poder de um homem que não precisava de tatuagens ou de gritos para ser notado. A guerra pelo coração de Eduarda e pela posse das meninas havia apenas começado, e Emanuel percebeu que, contra o ouro de Bernardo, seu ferro talvez não fosse suficiente.
Ele saiu do escritório e foi até a varanda. Eduarda se virou e sorriu para ele, mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, o celular dela tocou.
— É o Bernardo — disse ela, com uma naturalidade que feriu Emanuel mais do que qualquer agulha. — Ele quer saber se a Alice gostou do berço novo que ele mandou para a fazenda.
Emanuel não disse nada. Ele apenas a abraçou por trás, com uma força que quase a machucou, olhando para o reflexo de ambos no vidro da varanda. Ele viu um homem desesperado tentando segurar a areia que escapava por entre seus dedos.
— Diga a ele que não precisamos de nada dele — sussurrou Emanuel no ouvido dela.
— Mas ele é o pai, Emanuel...
— Eu sou o pai! — ele gritou, assustando Alice, que começou a chorar.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo choro da bebê. Eduarda se soltou dele, pegou Alice e entrou no apartamento sem olhar para trás. Emanuel ficou sozinho na varanda, sentindo o vento frio da noite. Ele tinha as duas namoradas sob o mesmo teto, tinha riqueza e poder, mas naquela noite, ele se sentiu o homem mais pobre do mundo. O controle estava escorregando, e o intruso de ouro estava apenas começando a jogar.