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O Eco do Vazio e o Cheiro de Lavanda

A cobertura de Emanuel, geralmente um monumento ao luxo moderno e à eficiência administrativa, parecia ter se transformado em um cenário de guerra de nervos. O sol da manhã entrava pelas enormes janelas de vidro, mas a claridade não trazia a paz habitual. Em vez disso, iluminava a poeira emocional que se levantava a cada novo grito que ecoava pelo corredor.

No centro da sala de estar, Maya, a pequena de oito meses, estava sentada no tapete, seu rosto uma máscara de sofrimento infantil. Seus olhos castanhos, tão parecidos com os de Eduarda, estavam vermelhos e inchados de tanto chorar. Ela não queria os brinquedos caros, não queria a mamadeira de prata, e certamente não queria o colo de Sara. Em suas mãos pequenas, ela apertava contra o rosto uma blusa de tricô cor de creme, impregnada com o suave perfume de lavanda e baunilha que era a marca registrada de Eduarda.

— Pelo amor de Deus, Maya! Já chega! — Sara exclamou, entrando na sala com os passos pesados, apesar do salto agulha. Ela usava um conjunto de seda justo que realçava seu corpo escultural, mas seu rosto, geralmente impecável, mostrava sinais de puro esgotamento. — É só um final de semana! Ela volta amanhã!

A bebê, ao ouvir o tom ríspido da mãe, soltou um soluço ainda mais profundo e enterrou o nariz na blusa de Eduarda, soltando um grito agudo que pareceu vibrar nas paredes de vidro.

— Ela não vai parar, Sara. Você sabe que não adianta gritar com um bebê de oito meses — Emanuel disse, saindo do escritório. Ele estava sem paletó, com as mangas da camisa social dobradas até os cotovelos, revelando as tatuagens intrincadas que subiam por seus braços. Sua expressão era de pura irritação contida.

— Eu não estou gritando com ela, estou gritando com a situação! — Sara rebateu, virando-se para ele com as mãos nos quadris, fazendo com que o decote generoso se movesse com sua respiração acelerada. — É ridículo, Emanuel. Essa menina é minha filha, saiu de dentro de mim, mas age como se a Eduarda fosse a única pessoa no mundo capaz de prover oxigênio para ela. Olha para isso! Ela está agarrada a um trapo de lã como se fosse um bote salva-vidas.

Emanuel passou a mão pelo cabelo, visivelmente tenso. Ele odiava perder o controle, e o fato de Eduarda ter insistido em ir para o interior, para o aniversário de uma prima, o deixara em um estado de nervos permanente desde sexta-feira.

— Ela precisava desse tempo com a família dela, Sara. Você sabe como os pais dela são, eles valorizam essas reuniões — Emanuel tentou racionalizar, mais para si mesmo do que para ela.

— Valorizam o atraso de vida, isso sim — Sara desdenhou, caminhando até o bar para pegar um copo de água gelada. — Ela tem vinte anos, Emanuel. Já devia ter saído das saias daquela mãe "moderninha" e assumido o lugar dela aqui. Se ela morasse conosco, a Maya não estaria tendo esse colapso nervoso agora. A criança sente que uma parte da casa foi arrancada.

Emanuel olhou para a filha no chão. Maya agora balançava o corpo para frente e para trás, murmurando sons ininteligíveis enquanto o cheiro da blusa de Eduarda parecia ser a única coisa que a mantinha sã. Do outro lado da sala, no cercadinho, Ágata observava tudo com uma calma perturbadora. A pequena loira, uma miniversão de Sara, brincava com um tablet educativo, ocasionalmente olhando para a irmã com um ar de superioridade que fazia Sara sorrir orgulhosa, apesar do caos.

— Veja a Ágata — disse Sara, apontando para a outra gêmea. — Ela é prática. Ela é independente. Ela não precisa de paninhos ou de cheiros de lavanda para ser feliz. Por que a Maya tem que ser tão... tão Eduarda?

— Porque ela é sensível, Sara. Nem todo mundo nasce com a sua armadura — Emanuel respondeu, aproximando-se de Maya.

Ele se abaixou, tentando pegar a filha no colo.

— Vem cá, princesa. Papai está aqui.

No momento em que as mãos de Emanuel tocaram os ombros da bebê, Maya soltou um guincho de protesto e se esquivou, rastejando para longe enquanto arrastava a blusa de Eduarda consigo. O rejeição física foi como um golpe no ego de Emanuel. Ele era o provedor, o dono daquele império, o homem que comandava centenas de funcionários, mas não conseguia consolar a própria filha porque não exalava a paz que Eduarda trazia.

— Viu? — Sara soltou uma risada rascante, carregada de frustração. — Ela não quer você. Ela quer a "santinha". Eu te avisei, Manu. Você deu espaço demais para a doçura da Eduarda e agora a nossa filha é dependente emocional de uma menina que nem sequer tem coragem de fazer as malas e se mudar de vez para cá.

Emanuel levantou-se abruptamente, a paciência esgotada. Ele pegou o celular no bolso e discou o número de Eduarda pela décima vez naquela manhã.

— O que você vai fazer? — perguntou Sara, cruzando os braços, os seios siliconados saltando sobre o tecido da blusa.

— Vou trazê-la de volta. Agora.

— Ela está a três horas de distância, no meio do mato, comemorando o aniversário de uma prima que provavelmente nem gosta dela — Sara comentou, sentando-se no sofá luxuoso e cruzando as pernas longas. — Você vai parecer um maníaco controlador.

— Eu sou o pai dela e sou o namorado da Eduarda. Se a minha filha não para de chorar e a solução está em uma estrada de rodagem, eu vou buscar a solução — Emanuel disse, a voz fria e decidida.

O telefone chamou, chamou e, finalmente, a voz suave de Eduarda atendeu.

— Emanuel? Está tudo bem? — A voz dela era um contraste gritante com o barulho da cobertura. Ao fundo, ouvia-se o som de pássaros e risadas distantes.

— Não, Eduarda. Nada está bem — Emanuel disparou, sem preâmbulos. — A Maya está chorando há três horas seguidas. Ela não come, não dorme e não solta uma blusa sua. Ela está tendo uma crise.

Houve um silêncio do outro lado da linha. Emanuel podia imaginar Eduarda mordendo o lábio inferior, aquele gesto manhoso que ela fazia quando se sentia pressionada.

— Ah, meu Deus... Coitadinha da minha pequena... — Eduarda murmurou, a voz carregada de uma tristeza genuína. — Emanuel, eu tentei explicar para ela, eu me despedi... Eu volto amanhã cedo, eu prometo.

— Amanhã cedo é tarde demais, Eduarda — ele cortou, caminhando de um lado para o outro na sala, sob o olhar atento e irônico de Sara. — Eu estou mandando o motorista te buscar. Ou melhor, eu mesmo vou. Esteja pronta em duas horas.

— Mas, Emanuel... Meus pais organizaram esse almoço, minha tia está tão feliz... Eu não posso simplesmente sair correndo sem uma explicação plausível.

— A explicação é que a sua filha precisa de você! — ele quase gritou, perdendo a compostura. — Ou você assume que é parte desta família ou continua brincando de estudante que mora com os pais. Decida-se, Eduarda. Porque eu não vou passar mais um minuto ouvindo esse choro enquanto você colhe flores no campo.

— Não fale assim comigo... — a voz de Eduarda tremeu, indicando que ela estava prestes a chorar também. — Você sabe que eu amo a Maya. Você sabe que eu quero estar aí.

— Então esteja.

Emanuel desligou o celular antes que ela pudesse protestar. Ele olhou para Sara, que o observava com uma sobrancelha arqueada.

— Muito bem, "Dom Corleone" das tatuagens — Sara ironizou, levantando-se e caminhando até ele. Ela colocou as mãos no peito dele, sentindo o coração batendo forte sob a camisa. — Você conseguiu o que queria. Vai trazer a pequena refugiada de volta para o castelo. Mas você sabe que isso não resolve o problema, não sabe?

— O que você quer dizer? — ele perguntou, a voz rouca de tensão.

— Você está forçando a Eduarda, como sempre faz. Ela vem, mas vem com medo. E a Maya sente esse medo. — Sara deslizou as mãos para o pescoço de Emanuel, aproximando o rosto do dele. O perfume dela era caro, forte, uma mistura de jasmim e poder. — Você quer o controle total, Manu. Quer a minha eficiência e o corpo que eu te dou, mas quer o colo e a submissão dela. O problema é que a Eduarda não é uma peça de decoração que você muda de lugar quando a bebê chora.

Emanuel segurou os pulsos de Sara, afastando-os com firmeza, mas sem grosseria.

— Eu não quero lições de psicologia agora, Sara. Eu quero silêncio e quero que a minha família esteja sob o meu teto.

— Família — Sara repetiu a palavra como se fosse um conceito exótico. — Sabe, às vezes eu olho para a Maya e sinto uma pontada de inveja. Não da Eduarda, mas da conexão. Ágata me olha como se eu fosse uma sócia majoritária. Ela me admira, ela me imita. Mas a Maya... a Maya olha para a Eduarda como se ela fosse o próprio sol.

Sara soltou um suspiro impaciente e se afastou, pegando Ágata do cercadinho. A bebê loira imediatamente se aninhou no pescoço da mãe, mantendo a expressão altiva.

— Vou levar a Ágata para o banho. Quando a sua "outra" chegar, avise que a cozinha está um caos porque a babá desistiu de tentar alimentar a Maya.

Sara saiu da sala com sua elegância vulgar, deixando Emanuel sozinho com a filha inconsolável. Ele se aproximou de Maya novamente. A bebê estava exausta, os olhinhos fechando por segundos antes de se abrirem em pânico, procurando pelo rosto que não estava lá.

— Ela está vindo, Maya — ele sussurrou, sentando-se no chão ao lado dela. — A Duda está vindo.

Duas horas e meia depois, o som do elevador privativo anunciou a chegada. Eduarda entrou na sala parecendo um raio de sol pálido e assustado. Ela usava um vestido de algodão leve e trazia uma pequena mala nas mãos. Seus olhos estavam úmidos.

No momento em que ela pisou no tapete, algo mágico e irritante aconteceu. Maya, que estava em um estado de letargia chorosa, ergueu a cabeça. O pequeno narizinho da bebê farejou o ar.

— Maya... meu amor, a mamãe chegou — Eduarda disse, deixando a mala cair e caindo de joelhos.

O grito que saiu de Maya não foi de dor, mas de um alívio tão profundo que fez o coração de Emanuel apertar. A bebê praticamente se jogou nos braços de Eduarda, largando a blusa velha no chão como se ela não tivesse mais valor agora que a fonte original estava presente.

Eduarda abraçou a criança com uma força surpreendente, escondendo o rosto no pescoço da bebê, sussurrando palavras de conforto em um tom que só as duas entendiam. O choro de Maya cessou instantaneamente, substituído por soluços baixos que iam morrendo aos poucos.

Emanuel observava a cena da poltrona, os braços cruzados. Ele sentia uma mistura de triunfo e uma inveja amarga.

— Viu como ela estava? — ele disse, sua voz quebrando o momento sagrado. — Ela não parou um segundo.

Eduarda olhou para ele por cima da cabeça da bebê. Havia uma mágoa profunda em seus olhos castanhos.

— Você não precisava ter sido tão duro, Emanuel. Eu teria vindo de qualquer jeito se você tivesse explicado com calma. Você me fez sentir como se eu estivesse cometendo um crime por passar um dia com a minha família.

— A sua família é esta, Eduarda! — Emanuel levantou-se, a voz subindo de tom. — Quando é que você vai entender isso? Enquanto você morar naquela casa, você vai ser sempre uma visita na vida das suas filhas. Olha para essa criança! Ela está exausta porque você não está aqui para dar o que ela precisa.

Sara apareceu na porta da cozinha, segurando uma taça de vinho, observando o confronto com um sorriso de canto de boca.

— O herói e a mártir — ela comentou, a voz carregada de ironia. — Que cena linda. Duda, querida, que bom que você chegou. A casa estava começando a parecer um hospício.

Eduarda limpou uma lágrima que escorria por seu rosto, ainda segurando Maya, que agora começava a fechar os olhos, finalmente vencida pelo sono nos braços da pessoa que amava.

— Eu vou levar ela para o quarto — Eduarda disse, ignorando a provocação de Sara e a autoridade de Emanuel.

— Depois que ela dormir, nós vamos conversar — Emanuel sentenciou, apontando para o sofá. — Definitivamente. Sem desculpas de "não estou pronta".

Eduarda não respondeu. Ela caminhou em direção ao berçário, sua figura delicada contrastando com a opulência fria da cobertura.

Sara caminhou até Emanuel e tocou seu ombro.

— Você a assustou, Manu. Mais do que o normal.

— Eu fiz o que era necessário, Sara.

— Talvez. Mas cuidado — Sara tomou um gole de vinho, seus olhos brilhando com uma inteligência predatória. — Se você apertar demais um pássaro, ou ele morre, ou ele encontra um jeito de fugir da gaiola, por mais dourada que ela seja. E eu não quero ter que aguentar a Maya chorando o resto da vida porque você não soube ser paciente com a timidez da sua "bispa".

Emanuel não disse nada. Ele ficou parado no meio da sala, olhando para a blusa de tricô abandonada no chão. O cheiro de lavanda ainda pairava no ar, um lembrete silencioso de que, naquele jogo de poder e paixão, ele podia ter o dinheiro, os estúdios e o controle, mas o coração daquela casa batia no ritmo lento e sensível de Eduarda, algo que ele ainda não tinha aprendido a dominar completamente.