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O Sal na Pele e o Peso dos Olhares

O sol de Angra dos Reis não pedia licença; ele dominava o horizonte, refletindo-se nas águas cristalinas com uma intensidade que fazia os olhos arderem. O iate de Emanuel, batizado de *Imperium*, cortava as ondas com uma suavidade que apenas o dinheiro e a engenharia de ponta poderiam proporcionar. No convés superior, o clima era uma mistura de ostentação, risadas altas e uma tensão latente que apenas os ocupantes fixos daquela dinâmica entendiam.

Emanuel estava ao leme, a expressão um pouco mais relaxada do que nos dias de escritório, mas ainda mantendo aquele ar de vigilância constante. Ele usava apenas uma bermuda de linho escura e óculos escuros de marca, deixando à mostra o peito largo e as tatuagens que narravam sua ascensão no mundo da arte corporal. Ele olhava para trás ocasionalmente, observando as suas duas mulheres.

Sara era o centro das atenções. Usando um biquíni de tiras minúsculas que mal continha o silicone impecável, ela brilhava sob o sol, literalmente, graças a uma camada generosa de óleo bronzeador. Ela estava cercada por três de suas melhores amigas — mulheres tão loiras, montadas e ruidosas quanto ela. O grupo bebia champanhe gelado e comentava sobre a última temporada em Ibiza, as vozes competindo com a música eletrônica que saía das caixas de som embutidas.

— Manu, querido! — gritou uma das amigas de Sara, uma mulher chamada Paola, cujo preenchimento labial era quase tão evidente quanto sua curiosidade. — Como você consegue manter esse corpo treinando só entre um estúdio e outro?

Emanuel apenas sorriu de lado, um gesto curto.

— Disciplina, Paola. O mesmo que uso para gerenciar meus negócios.

Do outro lado do convés, em uma área mais sombreada por um toldo retrátil, o cenário era drasticamente diferente. Eduarda estava sentada em uma espreguiçadeira larga, usando um maiô romântico de cor lavanda e uma saída de praia rendada. Ela parecia uma pintura de outra época, deslocada daquela modernidade agressiva. Em seu colo, Maya estava em um estado de êxtase silencioso. A bebê, vestindo um chapeuzinho de palha minúsculo, brincava com os dedos de Eduarda, soltando gritinhos de alegria toda vez que a "mãe de coração" fazia uma careta engraçada.

— Olha só para isso... — comentou Bianca, outra amiga de Sara, abaixando os óculos de sol e apontando para Eduarda. — Sara, eu ainda não entendi essa dinâmica. Por que a sua filha parece que foi colada com Super Bonder naquela menina?

Sara tomou um gole generoso de sua taça, os olhos fixos em Maya e Eduarda. Por dentro, uma pontada de irritação a atingiu, mas ela jamais demonstraria vulnerabilidade na frente de suas "leoas".

— A Eduarda é a alma sensível da casa, meninas — Sara disse, com aquele tom de ironia que era sua marca registrada. — Ela tem paciência para as manhas da Maya. Eu não tenho tempo para ficar fazendo vozinha de bebê o dia todo, tenho uma holding para ajudar a administrar.

— Mas é estranho, amiga — Paola insistiu, aproximando-se mais de Sara. — A menina tem os seus olhos, mas o jeito... o jeito é todo dela. Ela nem olha para você quando a Eduarda está por perto.

Sara sentiu o golpe. Ela olhou para Ágata, que estava sentada em um cadeirão de praia adaptado, usando óculos de sol infantis e uma versão miniatura do biquíni da mãe. Ágata estava perfeitamente satisfeita, ignorando os brinquedos e observando o movimento com um ar de tédio precoce que era a cara de Sara.

— A Ágata é minha — Sara afirmou, a voz ficando um tom mais fria. — Ela é prática, inteligente, não precisa de grude. A Maya... bom, a Maya nasceu com esse defeito de fabricação: ela precisa de excesso de carinho. E a Eduarda é especialista em excessos emocionais.

Emanuel, sentindo que a conversa estava tomando um rumo que poderia magoar Eduarda, deixou o leme no automático e caminhou até o grupo. Ele parou atrás de Eduarda e colocou a mão em seu ombro, sentindo a pele macia e fresca.

— Está tudo bem por aqui? — perguntou ele, a voz grave vibrando perto do ouvido de Eduarda.

Eduarda olhou para cima e sorriu. Era um sorriso tímido, mas iluminado. Ela se sentia protegida quando ele fazia aquilo.

— Está maravilhoso, Emanuel. A Maya adorou ver os peixinhos quando paramos perto daquela ilha.

— Ela gosta de tudo que você mostra para ela, Duda — Emanuel comentou, apertando levemente o ombro dela. — Você tem esse dom.

Sara, observando a cena, levantou-se e caminhou até eles, o quadril balançando de forma provocante. Ela parou do outro lado de Emanuel, encostando o corpo bronzeado e quente no braço dele.

— Ela tem o dom de te deixar mole, Manu — Sara provocou, deslizando a mão pelo abdômen dele. — Mas temos convidados. Vamos abrir aquela garrafa de safra especial que você guardou?

— Daqui a pouco, Sara. Quero aproveitar um pouco as meninas — Emanuel respondeu, mas não se afastou do toque de Sara. Ele vivia naquele equilíbrio: a paz de Eduarda e o fogo de Sara.

Paola e Bianca se aproximaram, cercando Eduarda. Elas a olhavam como se ela fosse um espécime raro em um zoológico.

— Eduarda, não é? — Paola perguntou, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Você faz faculdade de quê mesmo? História da Moda?

— História da Arte — corrigiu Eduarda, a voz baixa, sentindo-se pequena sob o escrutínio daquelas mulheres. Ela instintivamente puxou Maya para mais perto.

— Ah, arte... Que fofo. Deve ser por isso que você é tão... etérea — Bianca disse, rindo. — Mas me diga uma coisa, querida, você não se sente mal? Digo, a Maya é filha da Sara. Você não tem medo de ela crescer e perceber que você é só... a namorada do pai dela?

O silêncio caiu sobre o convés. Emanuel tensionou o maxilar, e Eduarda sentiu o rosto queimar. Ela olhou para Maya, que agora a abraçava pelo pescoço, escondendo o rosto castanho em seu ombro, assustada com as vozes estranhas.

— Eu não penso no futuro dessa forma — Eduarda respondeu, tentando manter a voz firme, embora seus olhos estivessem úmidos. — Eu amo a Maya agora. E ela me ama. O rótulo que ela vai me dar depois não importa, desde que ela se sinta segura.

— Que resposta mais... altruísta — Paola debochou, trocando um olhar com Sara. — Sara, você tem sorte. Tem uma babá de luxo que ainda estuda arte.

— Ela não é babá — a voz de Emanuel ecoou como um trovão, cortando a música e as risadas. Ele deu um passo à frente, soltando-se de Sara. — A Eduarda é minha namorada. Ela é a mulher que traz o equilíbrio que falta nesta família. E se alguém aqui tem algum problema com o apego da minha filha a ela, o problema é de vocês, não delas.

Sara percebeu que as amigas tinham ido longe demais. Ela gostava de provocar Eduarda, mas não admitia que outros o fizessem de forma tão baixa, principalmente porque isso irritava o "seu" homem.

— Meninas, chega de perguntas idiotas — Sara interveio, a voz autoritária. — A Duda é da família. E a Maya é manhosa mesmo, puxou esse lado dela. Vamos focar no que importa: o sol está perfeito e o champanhe está acabando.

Paola e Bianca recuaram, percebendo o perigo nos olhos de Emanuel. Elas voltaram para suas espreguiçadeiras, murmurando entre si, mas o clima já havia mudado.

Emanuel ajoelhou-se ao lado de Eduarda. Ele ignorou Sara por um momento, focando apenas na jovem que parecia prestes a desabar.

— Não ouça o que elas dizem — ele sussurrou, pegando a mão de Eduarda e beijando-a. — Você é essencial aqui.

— Eu só... eu só queria que elas entendessem que eu não quero tirar o lugar de ninguém — Eduarda disse, uma lágrima solitária escapando. — Eu amo a Sara, eu respeito ela. Mas a Maya... ela precisa de mim, Emanuel.

— Eu sei que precisa. E eu também preciso — ele disse, olhando-a nos olhos. — Por isso eu insisto tanto para você vir morar comigo de vez. Momentos como esse seriam rotina, não exceção. Você não teria que se explicar para ninguém se já fizesse parte das paredes daquela casa.

Eduarda suspirou, sentindo o peso daquela cobrança recorrente. Ela olhou para a praia ao longe, para a liberdade do mar.

— Podemos falar disso depois? — ela pediu, fazendo um biquinho manhoso que sempre desarmava Emanuel. — Eu só quero aproveitar o dia com você e com a minha pequena.

Emanuel sorriu, derrotado pela doçura dela.

— Tudo bem. Depois.

Ele se levantou e estendeu a mão para Sara.

— Vamos abrir aquela garrafa, Sara. Antes que suas amigas comecem a morder as próprias línguas de tanto veneno.

Sara soltou uma gargalhada alta, vitoriosa por ter a atenção dele novamente.

— Finalmente! Achei que teríamos que batizar as crianças com água salgada antes de você servir a bebida de verdade.

O restante da tarde passou em uma harmonia forçada, mas funcional. Sara e suas amigas mergulharam, exibindo seus corpos esculpidos e risadas estridentes. Emanuel nadou com elas por um tempo, a imagem da masculinidade alfa cercada por sereias modernas.

Enquanto isso, Eduarda permaneceu na sombra com Maya. Ela levou a bebê até a borda da plataforma de mergulho, deixando que as ondas pequenas molhassem os pezinhos da menina. Maya ria, um som cristalino que parecia purificar o ar carregado de futilidade.

— Você é meu grudinho, não é? — Eduarda sussurrou, beijando a bochecha de Maya. — Não importa o que elas digam.

De dentro da água, Sara observava as duas. Ela viu Emanuel se aproximar delas por trás, abraçando Eduarda pela cintura enquanto ela segurava a bebê. A imagem era perfeita demais, quase dolorosa. Sara sentiu uma pontada de algo que ela se recusava a chamar de solidão. Ela tinha a Ágata, que agora dormia calmamente sob os cuidados da babá profissional que haviam levado, mas havia algo naquela conexão orgânica entre Eduarda e Maya que o dinheiro não comprava e o silicone não simulava.

Ao entardecer, quando o iate voltava para o canal, o céu se transformou em uma tela de tons alaranjados e rosados. Emanuel estava sentado na popa, com Sara de um lado e Eduarda do outro. Ágata estava no colo de Sara, e Maya, exausta, dormia profundamente nos braços de Eduarda.

— Foi um bom dia — Emanuel comentou, fechando os olhos e sentindo a brisa.

— Seria melhor se a Paola não fosse tão inconveniente — Sara disse, embora já tivesse esquecido o assunto. — Mas ela tem razão em uma coisa, Manu. A Maya está ficando muito dependente. Você vai ter que lidar com isso quando a Eduarda decidir que tem um exame importante na faculdade e sumir por uma semana.

Eduarda apertou Maya um pouco mais forte.

— Eu nunca sumiria se ela precisasse de mim, Sara.

— Palavras são fáceis, docinho — Sara retrucou, mas sem veneno, apenas com sua praticidade costumeira. — O fato é que somos uma família estranha, mas funcionamos. Só falta você parar de frescura e trazer suas trouxas de História da Arte para a cobertura.

Eduarda olhou para Emanuel, que mantinha os olhos fechados, mas com um sorriso satisfeito nos lábios. Ela olhou para Sara, que retribuía o olhar com um desafio silencioso. E então olhou para Maya, a pequena criatura que parecia ser a ponte entre todos aqueles mundos opostos.

— Talvez... — Eduarda começou, a voz quase um sussurro. — Talvez eu esteja começando a me sentir pronta.

Emanuel abriu os olhos imediatamente, o brilho de triunfo evidente.

— Você está falando sério?

— Eu não quero que a Maya sofra toda vez que eu tiver que ir embora — Eduarda confessou, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — E eu também sofro.

Sara soltou um suspiro de alívio dramático.

— Graças a Deus! Vou mandar reformar o closet de hóspedes amanhã mesmo. E já aviso: nada de roupas com cheiro de naftalina perto das minhas bolsas de marca.

Emanuel riu, puxando as duas para mais perto. Naquele momento, sob o céu de Angra, o equilíbrio parecia finalmente alcançado. Ele tinha sua rainha de ferro e sua princesa de seda. Ele tinha a eficiência e o afeto. E, acima de tudo, ele tinha o controle sobre o seu pequeno e complexo universo.

O iate atracou no píer particular sob a luz da lua. Enquanto os convidados desembarcavam e o barulho da festa se dissipava, Emanuel observou as duas mulheres caminharem à sua frente. Sara, com Ágata no colo, caminhava com passos firmes e decididos. Eduarda, levando a Maya adormecida, caminhava com uma leveza cautelosa.

Ele sabia que os conflitos não acabariam ali. Sabia que Sara continuaria provocando e que Eduarda continuaria se refugiando em sua timidez. Mas, pela primeira vez, ele sentiu que a fundação de sua casa estava completa.

— Vamos para casa — disse Emanuel, sua voz ecoando com uma autoridade que, desta vez, trazia apenas promessas de um novo começo.

E enquanto caminhavam em direção à mansão, o cheiro de lavanda de Eduarda e o perfume importado de Sara se misturavam ao cheiro do mar, criando a fragrância única da vida que ele escolhera para si. Uma vida onde o amor não era simples, mas era, inegavelmente, dele.