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O Labirinto dos Afetos e o Salto da Mini Diva

O tempo na cobertura de Emanuel não passava simplesmente; ele galopava, transformando bebês manhosos em crianças com personalidades tão distintas quanto o dia e a noite. Aos dois anos, Maya e Ágata eram o reflexo vívido do ecossistema complexo em que viviam. A cobertura, antes um santuário de silêncio e design minimalista, agora era um campo minado de brinquedos educativos de madeira, bonecas de grife e o eco constante de risadas e choros.

Eduarda estava na cozinha, tentando preparar um lanche orgânico, quando sentiu o peso familiar em sua perna. Maya, com seus cachos castanhos agora longos e olhos que pareciam ler a alma, abraçava seu joelho com uma força impressionante.

— Mamãe... não vai — murmurou a pequena, a voz embargada.

Eduarda suspirou, abaixando-se para ficar na altura da filha. A ansiedade de separação de Maya havia atingido um pico nas últimas semanas. Bastava Eduarda pegar as chaves do carro ou vestir uma roupa de sair para a faculdade que o mundo da menina desabava.

— Meu amor, a mamãe só vai pegar o livro na sala. Eu volto em um segundo — disse Eduarda, acariciando o rosto redondo de Maya.

— Não! — Maya soluçou, enterrando o rosto no vestido de linho de Eduarda. — Fica aqui. Com a Maya.

Do outro lado da bancada, Sara observava a cena enquanto tomava um café expresso duplo. Ela usava um conjunto de ginástica que custava mais do que o carro de muita gente, realçando suas curvas impecáveis. Ágata estava sentada ao seu lado, em um banquinho alto, folheando uma revista de moda infantil com uma seriedade cômica.

— Essa menina é o seu carrapato, Duda — comentou Sara, sem tirar os olhos de Ágata. — Você mima demais. Se eu não estivesse aqui para equilibrar as coisas, ela ainda estaria usando fraldas aos dez anos só para você ter que trocá-la.

— Ela só é sensível, Sara — rebateu Eduarda, com a paciência de quem já ouvira aquilo mil vezes. — Ela sente a minha falta.

— Ela sente é que tem você na palma da mão — Sara deu um gole no café. — Veja a Ágata. Ágata, quem é a mulher mais incrível do mundo?

A pequena loira ergueu os olhos da revista, fez um biquinho charmoso e apontou para Sara.

— A mãe! — exclamou Ágata. Depois, olhou para Eduarda e acenou com a mãozinha. — Oi, tia Duda.

Eduarda sorriu, embora o título de "tia" ainda desse uma pontada leve em seu coração, apesar de ter sido um acordo tácito para não confundir a cabeça das meninas. Mas para Maya, não havia acordo: era mamãe e ponto final.

Emanuel entrou na cozinha, o celular grudado na orelha, discutindo termos de um contrato para uma nova convenção em Londres. Ele parou ao ver a cena: Eduarda quase no chão com Maya, e Sara agindo como se estivesse em um comercial de luxo. Ele desligou o aparelho e suspirou, sentindo o estresse do trabalho se dissipar diante daquela bagunça doméstica que ele tanto lutou para construir.

— Bom dia para as minhas quatro rainhas — disse ele, beijando o topo da cabeça de Sara e depois se inclinando para dar um selinho em Eduarda.

— Manu, você precisa falar com a sua namorada — Sara disse, apontando para Maya. — A menina está desenvolvendo uma fobia social de qualquer coisa que não seja o colo da Eduarda. Isso não é saudável.

Emanuel pegou Maya no colo, arrancando um protesto imediato da menina.

— Ela está certa, Duda. Você tem faculdade hoje, não tem? Não pode levar a menina para a aula de História da Arte de novo. O professor já reclamou da última vez que ela tentou comer os gizes de cera.

— Eu sei, Emanuel... mas ela chora até vomitar — Eduarda disse, os olhos já marejados. — Eu me sinto um monstro saindo por aquela porta.

— Você não é um monstro, é uma universitária — Sara cortou, levantando-se. — Deixa que eu cuido dela hoje. Vou levar as duas para o estúdio. Ágata precisa ver como se administra um império e a Maya precisa entender que o mundo não acaba se a mamãe Duda sumir por três horas.

— Não! Com a mãe não! — Maya gritou, esticando os braços para Eduarda.

Sara revirou os olhos, mas havia um brilho de desafio em seu olhar. Ela amava Maya, mas a rejeição constante da filha em favor da "doçura" de Eduarda a feria de uma forma que seu orgulho não permitia admitir.

— Vamos, Maya. Sem drama. A mãe vai te dar um gloss novo — Sara tentou subornar, mas a menina só chorava mais alto.

— Deixa ela comigo só mais um pouco, Sara — pediu Eduarda, pegando a menina de volta. — Eu saio pelos fundos quando ela se distrair com o desenho.

Emanuel observava o impasse. Ele amava a força de Sara, a forma como ela não se deixava abalar, mas também dependia da ternura de Eduarda para manter a sanidade daquela casa. No entanto, o controle estava fugindo de suas mãos.

— Chega — sentenciou Emanuel. — Eduarda, vá para a faculdade agora. Sara, leve as meninas para o parque do condomínio. O dia está bonito, elas precisam de sol, não de ar condicionado de escritório.

— Parque? — Sara torceu o nariz. — O sol estraga o meu preenchimento, Manu.

— Use chapéu, Sara — ele disse, com aquele tom de autoridade que não admitia réplicas.

Meia hora depois, após uma despedida traumática onde Maya teve que ser segurada por Emanuel enquanto Eduarda fugia para o elevador, Sara se viu no parquinho privativo do prédio. Ela estava sentada em um banco de madeira, usando óculos escuros gigantes e um chapéu de abas largas, parecendo uma estrela de cinema fugindo dos paparazzi.

Ágata, a mini diva, caminhava pelo gramado com seu vestido de grife e sapatos de verniz, olhando para os outros brinquedos com um desdém que claramente herdara da mãe. Maya, por outro lado, estava sentada na areia, com o olhar perdido na direção do portão, segurando um paninho que pertencia a Eduarda.

— Ágata, não suje esse vestido, custou uma fortuna — avisou Sara, mexendo no celular para conferir os lucros das lojas.

— Eu quero o balanço, mãe! — Ágata anunciou, correndo em direção ao brinquedo de madeira.

— Vá devagar, Ágata! — Sara gritou, mas a menina estava empolgada demais.

O que aconteceu em seguida foi um borrão. Ágata tentou subir no balanço em movimento, seus pezinhos de verniz escorregaram na madeira polida e ela caiu de cara na areia, batendo o supercílio na quina do assento.

O grito que ecoou pelo parque fez os pássaros voarem.

Sara saltou do banco como se tivesse sido eletrizada. A "mãe fria e executiva" desapareceu em um microssegundo.

— ÁGATA! — Sara gritou, correndo em direção à filha.

Ela pegou a menina no colo, ignorando completamente que o sangue que começava a escorrer do pequeno corte estava manchando seu conjunto de grife. Ágata chorava com uma intensidade que Sara nunca vira.

— Meu Deus, meu bebê! Meu amor, a mãe está aqui! — Sara dizia, a voz trêmula, o rosto pálido de terror.

Ela pressionou o próprio lenço de seda contra o ferimento, as mãos tremendo. Maya, assustada com a confusão, começou a chorar também, engatinhando em direção à mãe.

— Calma, Maya! A mãe está cuidando da irmã! — Sara disse, tentando equilibrar as duas crianças, o pânico subindo por sua garganta.

Ela ligou para Emanuel aos prantos.

— Emanuel! O hospital! Agora! A Ágata caiu, tem sangue por todo lado, Manu! Eu vou morrer se acontecer algo com ela!

Emanuel, que estava em uma reunião importante, largou tudo. Dez minutos depois, ele encontrou Sara na recepção da emergência do hospital de luxo. Ela estava em um estado deplorável: o cabelo loiro desarrumado, a roupa manchada de sangue e areia, e lágrimas borrando sua maquiagem cara. Ela segurava Ágata contra o peito como se sua vida dependesse disso.

— Cadê ela? Como ela está? — Emanuel perguntou, ofegante.

— O médico está limpando o corte — Sara soluçou, jogando-se nos braços dele. — Foi minha culpa, Manu. Eu estava no celular. Eu sou uma mãe horrível, eu não deveria ter deixado ela correr...

— Calma, Sara. Foi um acidente. Crianças caem — ele tentou confortá-la, mas ficou impressionado com a reação dela. Sara sempre pregava a independência, mas ali, ela era a imagem da vulnerabilidade materna.

Eduarda chegou pouco depois, tendo largado a aula no meio. Ela correu para o hospital, encontrando a cena de Sara desabada no ombro de Emanuel. Maya, que estava no colo de uma enfermeira, pulou imediatamente para os braços de Eduarda assim que a viu.

— O que aconteceu? — Eduarda perguntou, a voz doce cheia de angústia.

Sara levantou a cabeça. Ao ver Eduarda, ela não disparou nenhuma ironia. Ela apenas estendeu a mão e apertou o braço da outra.

— Ela se machucou, Duda... Eu achei que ela ia... — Sara não conseguiu terminar a frase, voltando a chorar.

— Ela vai ficar bem, Sara. Ágata é forte como você — Eduarda disse com sinceridade, aproximando-se e colocando a mão livre no ombro de Sara.

Pela primeira vez em dois anos, não havia disputa de território. Havia apenas três adultos unidos pelo medo de perder o que tinham de mais precioso.

Quando o médico finalmente saiu e disse que Ágata precisaria apenas de dois pontos e que o susto fora maior que o ferimento, o alívio na sala de espera foi palpável.

— Posso ver ela? — Sara perguntou, já se levantando.

— Pode, mas ela está um pouco sonolenta — disse o médico.

Sara entrou no quarto e viu sua mini diva com um curativo na testa, parecendo pequena e frágil na cama grande. Ela sentou-se ao lado dela e beijou sua mão.

— A mãe está aqui, meu amor. Ninguém mais vai te machucar.

Eduarda entrou logo atrás, com Maya ainda grudada em seu pescoço. Maya olhou para a irmã e estendeu a mãozinha, tocando o pé de Ágata.

— Ágata dodói? — perguntou Maya, com os olhos tristes.

— É, meu amor. Mas a tia Duda e a mãe Sara vão cuidar dela — Eduarda sussurrou.

Emanuel observava da porta. Ele viu Sara, a mulher que dizia que a maternidade era um "desperdício de tempo", se recusar a soltar a mão da filha. E viu Eduarda, a "namorada tímida", ser o pilar de calma que impedia Sara de desmoronar por completo.

Naquela noite, de volta à cobertura, a dinâmica mudou sutilmente. Ágata, com seu curativo, exigiu dormir no meio de Emanuel e Sara. E, para surpresa de todos, Sara não reclamou do espaço reduzido ou do risco de levar um chute na costela durante a madrugada.

No quarto de Eduarda, Maya finalmente relaxou. O susto com a irmã parecia ter drenado sua energia de protesto.

— Mamãe... — Maya chamou, enquanto Eduarda a ajeitava no berço.

— Oi, minha vida.

— A mãe Sara chorou? — a pequena perguntou, com a curiosidade típica dos dois anos.

Eduarda parou por um momento, lembrando-se da imagem de Sara desesperada no hospital.

— Chorou sim, Maya. Porque ela ama muito vocês.

— Eu amo a mãe Sara também — Maya disse, fechando os olhos. — Mas amo você mais.

Eduarda sorriu, sentindo um nó na garganta. Ela saiu do quarto e encontrou Emanuel no corredor. Ele a puxou para um abraço apertado, um daqueles que dizia tudo o que as palavras não conseguiam expressar.

— Obrigado por hoje, Duda — ele disse contra o cabelo dela. — Eu não sei o que seria dessa casa sem a sua paz.

— E eu não sei o que seria de nós sem a força da Sara — Eduarda respondeu. — Ela se mostrou uma leoa hoje.

— Ela é — Emanuel concordou. — Mas até as leoas precisam de um lugar para descansar.

Eles caminharam até o quarto principal, onde Sara já estava deitada, observando Ágata dormir. Sara olhou para eles e, pela primeira vez, não havia máscara.

— Amanhã eu vou comprar protetores de quina para a casa toda — Sara anunciou, a voz ainda um pouco rouca. — E Eduarda...

— Sim?

— Obrigada por não ter dito "eu te avisei" sobre o celular.

Eduarda sorriu e balançou a cabeça.

— Eu nunca diria isso, Sara. Somos uma equipe, lembra?

Sara deu um sorriso de canto, aquele brilho de ironia voltando aos poucos aos seus olhos, mas com uma suavidade nova.

— Uma equipe bem estranha, Duda. Mas acho que, no fim das contas, é o que temos.

Emanuel deitou-se ao lado de Sara, fechando o círculo. Naquela noite, a cobertura não era apenas um troféu de riqueza ou um experimento social de convivência. Era um lar. Disfuncional, intenso, marcado por cicatrizes e pontos, mas sustentado por um amor que, apesar de todas as diferenças, falava a mesma língua quando o assunto era o bem-estar das pequenas rainhas que governavam suas vidas.

A ansiedade de Maya continuaria, a arrogância de Ágata cresceria, e as disputas entre Sara e Eduarda voltariam na manhã seguinte por causa de algum detalhe administrativo ou doméstico. Mas, no silêncio daquela madrugada, a certeza de que pertenciam uns aos outros era a única coisa que realmente importava. E Emanuel, fechando os olhos entre sua força e sua doçura, finalmente dormiu em paz.