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O Labirinto das Sombras e o Refúgio da Lavanda

O relógio de parede na cobertura de Emanuel marcava duas da manhã, mas o silêncio que deveria reinar no luxuoso apartamento era cortado pelo som de passos apressados e um choro baixo, mas insistente. Emanuel, jogado no lado direito de sua cama king-size, abriu os olhos com um suspiro pesado. Ele sentiu o espaço vazio ao seu lado. Sara, como de costume, dormia profundamente, um braço jogado sobre o rosto, alheia ao drama que se desenrolava no corredor.

Emanuel levantou-se, a paciência por um fio. Ele sabia exatamente o que encontraria. Ao abrir a porta do quarto de Eduarda, a cena que se deparou foi a mesma das últimas quatro noites. Eduarda estava sentada na beira da cama, com os cabelos castanhos desgrenhados e os olhos inchados de sono, ninando Maya. A pequena de dois anos estava agarrada à camisola de seda de Eduarda como se sua vida dependesse disso.

— De novo, Eduarda? — A voz de Emanuel era um sussurro ríspido, carregado da irritação que ele vinha acumulando.

Eduarda deu um sobressalto, olhando para ele com uma expressão de desculpas que só serviu para irritá-lo mais.

— Ela teve outro pesadelo, Emanuel... — sussurrou ela, baixando o rosto para beijar o topo da cabeça da menina. — Ela não quer ficar no berço de jeito nenhum. Ela treme só de chegar perto da porta do quarto dela.

— Ela treme porque sabe que, se chorar o suficiente, você vai trazê-la para cá — Emanuel entrou no quarto e fechou a porta com mais força do que pretendia, o som ecoando no ambiente decorado com cores suaves. — Nós gastamos uma fortuna naquele quarto, Eduarda. Psicólogos infantis, babás, especialistas em sono... e tudo vai para o lixo porque você não consegue dizer "não" para essa criança.

— Não é uma questão de dizer não! — Eduarda levantou a voz um pouco, embora o tom manhosos e doce ainda estivesse presente. — Ela é sensível, você sabe disso. A Maya não é como a Ágata. Ela precisa de segurança, de proximidade física.

— Ela precisa de limites! — Emanuel aproximou-se da cama, a postura rígida. — Eu mal consigo dormir com você ultimamente. Ou você está aqui tentando acalmá-la, ou ela está no meio de nós dois chutando as minhas costelas. Isso está afetando meu trabalho, meu humor, tudo!

Maya, sentindo a tensão no ar, soltou um soluço mais alto e apertou o pescoço de Eduarda.

— Viu o que você fez? — acusou Eduarda, os olhos se enchendo de lágrimas. — Você a assusta com esse jeito autoritário. Ela só tem dois anos, Emanuel!

— Eu não sou autoritário, eu sou lógico! — Ele passou a mão pelo rosto, frustrado. — Se ela se acostumar a dormir aqui, ela nunca mais vai sair. Você está criando uma dependência doentia, Eduarda. E o pior é que você gosta disso. Você gosta de ser a única pessoa que ela quer, não é?

Eduarda empalideceu. A acusação de Emanuel atingiu um ponto sensível. Ela amava ser o refúgio de Maya, amava o fato de que, em um mundo de pessoas tão fortes e imponentes como Emanuel e Sara, a pequena via nela a sua força.

— Isso é cruel da sua parte — murmurou ela. — Eu só dou a ela o que ela não recebe de mais ninguém nesta casa.

— Ah, por favor, não comece com o complexo de mártir — a voz de Sara veio da porta, fazendo ambos pularem.

Sara estava encostada no batente, usando um robe de seda transparente que deixava pouco para a imaginação, o cabelo loiro perfeitamente alinhado mesmo de madrugada. Ela segurava um copo de água e observava a cena com um tédio mal disfarçado.

— O que está acontecendo aqui? É o festival do choro noturno? — perguntou Sara, sua voz vulgarmente confiante cortando a tensão.

— A Maya não quer dormir no quarto dela. De novo — resumiu Emanuel, cruzando os braços sobre o peito tatuado.

Sara caminhou até a cama e olhou para a filha. Maya, ao ver a mãe "loira e poderosa", apenas se encolheu mais no colo de Eduarda. Sara sentiu aquela pontada familiar de irritação misturada com um desdém protetor.

— Maya, olhe para mim — ordenou Sara. A menina obedeceu, os olhos castanhos brilhando com as lágrimas. — Você tem um quarto que parece um castelo da Disney. Por que está aqui incomodando a Duda?

— Quero a mamãe Duda — respondeu a menina com a voz embargada.

Sara soltou um suspiro teatral e olhou para Emanuel.

— Viu só? A culpa é sua, Manu. Você trouxe a "encantadora de bebês" para morar aqui e agora a sua filha acha que o mamilo da Eduarda é o centro do universo, mesmo que não saia leite dali há meses.

— Sara, não comece — pediu Eduarda, o rosto queimando de vergonha.

— Não comece o quê, querida? É a verdade — Sara deu um passo à frente, a presença dominando o quarto pequeno. — Você mima, ela abusa. O Emanuel fica estressado e eu fico sem sono. É um ciclo idiota. Manu, pegue a menina e leve para o quarto dela. Se ela chorar, deixe chorar. Pulmões foram feitos para serem usados.

— Eu não vou deixar ela chorar até passar mal! — Eduarda levantou-se, colocando-se entre Emanuel e a cama, protegendo Maya. — Se ela quer dormir aqui, ela vai dormir aqui. Eu não me importo de passar a noite acordada se for para ela se sentir segura.

Emanuel sentiu a veia em sua têmpora pulsar. Ele odiava quando perdia o controle da situação, e ali, no quarto de Eduarda, ele sentia que não mandava em nada.

— Eduarda, saia da frente — disse ele, a voz baixa e perigosa. — Eu vou levar a Maya para o quarto dela. Agora.

— Não! — Eduarda começou a chorar. — Você não entende, Emanuel. Você só pensa em regras, em logística, em eficiência! Mas ela é um ser humano, não um dos seus estúdios de tatuagem!

— Chega! — Emanuel explodiu, o grito fazendo Maya berrar de susto.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Maya chorava convulsivamente nos braços de Eduarda, que tremia da cabeça aos pés. Sara, pela primeira vez, parecia um pouco desconfortável com a intensidade da explosão de Emanuel.

— Parabéns, Emanuel — disse Sara, com um tom seco. — Agora você acordou a Ágata também.

Como se fosse um sinal, o som do choro de Ágata começou a ecoar do outro lado do corredor. Sara revirou os olhos e saiu do quarto, resmungando sobre como a maternidade estava acabando com a sua pele.

Emanuel ficou parado, olhando para Eduarda e Maya. A raiva começou a dar lugar a um cansaço profundo. Ele se sentia dividido. Amava a doçura de Eduarda, a forma como ela trazia paz para a sua vida caótica, mas aquela mesma doçura estava criando um obstáculo entre eles. Ele queria a namorada em sua cama, queria o silêncio da noite para processar o estresse do dia, mas parecia que estava sempre competindo com a própria filha pelo tempo e pelo afeto de Eduarda.

— Eu só quero que as coisas voltem ao normal — disse ele, a voz agora rouca e cansada.

— Este é o nosso normal agora, Emanuel — Eduarda respondeu, sentando-se novamente e balançando Maya, que começava a se acalmar com o ritmo familiar. — Nós somos uma família. E famílias são bagunçadas. Se você queria algo milimetricamente organizado, deveria ter ficado apenas com a Sara e com os seus negócios.

Emanuel sentiu o golpe. Eduarda raramente era tão direta, e o fato de ela estar usando a lógica dele contra ele mesmo o deixou sem palavras por um momento.

— Eu amo você, Eduarda. E amo a Maya. Mas eu não posso viver assim, sendo um estranho na minha própria casa porque você decidiu que ela é a sua prioridade absoluta — ele disse, caminhando em direção à porta.

— Ela não é minha prioridade absoluta, Emanuel. Ela é a parte de você que mais precisa de ajuda agora — Eduarda olhou para ele com uma ternura triste. — Vá dormir. Eu fico com ela aqui hoje. Amanhã tentamos de novo.

— Amanhã você diz a mesma coisa — ele rebateu, mas não tinha mais forças para lutar. — Boa noite, Eduarda.

Ele saiu do quarto e fechou a porta, encontrando Sara no corredor com Ágata no colo. A gêmea loira já estava calma, brincando com um dos colares de Sara, agindo como se o caos de minutos atrás fosse apenas um entretenimento de fundo.

— A santinha ganhou de novo? — perguntou Sara, arqueando uma sobrancelha.

— Ela fica com a Maya hoje — Emanuel passou por ela, indo em direção ao seu quarto.

— Você está perdendo a mão, Manu — Sara disse, seguindo-o. — Se você deixar a Eduarda ditar as regras da casa, daqui a pouco vamos estar todos comendo papinha orgânica e dormindo às oito da noite.

Emanuel parou e virou-se para ela.

— E qual é a sua sugestão, Sara? Já que você é a mestre da administração?

Sara sorriu, aquele sorriso predatório que ele tanto conhecia.

— Separação de bens, querido. Não os financeiros, mas os emocionais. A Eduarda fica com a "manhosa" e você fica comigo e com a "mini diva". Deixe que elas vivam no mundo cor-de-rosa delas lá no quarto do fundo. Nós dois temos um império para gerenciar. Pare de tentar consertar a Eduarda. Ela é o que é. Use-a para o que ela serve: dar carinho e manter a casa calma. Mas não espere que ela tenha a sua espinha dorsal.

Emanuel entrou no quarto e jogou-se na cama. Sara colocou Ágata no berço ao lado da cama deles e deitou-se ao lado de Emanuel, envolvendo-o com seus braços bronzeados e o cheiro de perfume caro.

— Você está estressado — sussurrou ela no ouvido dele. — Esqueça a Eduarda por um momento. Ela está feliz lá, com o cheiro de lavanda e o choro da Maya. Fique aqui, onde as coisas são claras e diretas.

Emanuel fechou os olhos, tentando se convencer de que Sara tinha razão. Mas, no fundo de sua mente, a imagem de Eduarda chorando com Maya nos braços não o deixava em paz. Ele sentia que, ao ganhar o silêncio do quarto de Sara, ele estava perdendo algo muito mais valioso que estava sendo construído no quarto de Eduarda.

Enquanto isso, no quarto de lavanda, o silêncio finalmente se instalou. Maya dormia profundamente, atravessada na cama de Eduarda, com a mãozinha pequena descansando sobre o coração da jovem. Eduarda olhava para o teto, as lágrimas secas no rosto. Ela sabia que Emanuel estava furioso, sabia que Sara a via como uma fraqueza.

— Eu não vou deixar você sozinha, pequena — sussurrou Eduarda para a bebê. — Mesmo que o papai não entenda.

Naquela noite, a cobertura de Emanuel estava dividida em dois mundos. De um lado, o poder, a lógica e a frieza de Sara, oferecendo a Emanuel o conforto imediato de uma vida sem complicações emocionais. Do outro, a sensibilidade, o caos e o amor incondicional de Eduarda, oferecendo a Maya a segurança que o dinheiro não podia comprar.

Emanuel, no meio de tudo isso, sentia-se um náufrago entre duas ilhas. Ele queria a força de uma e a doçura da outra, mas percebia, com uma clareza dolorosa, que quanto mais tentava controlar o equilíbrio entre as duas, mais a areia escorria por seus dedos.

No dia seguinte, o café da manhã foi uma coreografia de silêncios cortantes. Sara lia relatórios no iPad, Ágata exigia que sua torrada fosse cortada em formatos de estrela, e Emanuel evitava olhar para Eduarda, que apareceu na mesa com olheiras profundas, carregando uma Maya que se recusava a sair de seu colo.

— Emanuel — começou Eduarda, a voz trêmula.

— Agora não, Eduarda. Tenho uma reunião com os gerentes de Tóquio em dez minutos — ele cortou, levantando-se e pegando sua pasta.

— É sobre a Maya... — ela tentou insistir.

— A Maya está bem, Eduarda. Ela está no lugar onde ela quer estar, não é? No seu colo — ele disse, com uma ponta de sarcasmo que fez Eduarda baixar a cabeça.

Ele saiu sem se despedir. Sara soltou uma risada curta.

— Viu só? Você está conseguindo o que queria, Duda. Está afastando o homem da própria filha com essa sua obsessão por ser a "salvadora".

— Eu não estou afastando ninguém, Sara — Eduarda disse, levantando-se com Maya. — Eu só estou sendo mãe. Algo que você deveria tentar de vez em quando com a Maya, e não só com a Ágata porque ela parece um espelho seu.

Sara parou de ler e olhou para Eduarda com um brilho perigoso nos olhos.

— Cuidado, santinha. A corda sempre arrebenta do lado mais fraco. E nesta casa, nós sabemos muito bem quem é o elo frágil.

Eduarda não respondeu. Ela caminhou em direção ao berçário, sentindo o peso de Maya em seus braços e o peso do mundo de Emanuel em seus ombros. Ela sabia que a batalha pela cama e pelo quarto era apenas o começo de uma guerra muito maior. Uma guerra onde o prêmio era o coração de uma criança e a sanidade de um homem que queria tudo, mas não sabia como lidar com o que realmente importava.

E no escritório de luxo, entre agulhas de tatuagem e contratos milionários, Emanuel olhava para a foto das duas mulheres em sua mesa. Ele se perguntava se algum dia conseguiria uni-las de verdade, ou se estava destinado a viver para sempre entre o silêncio da razão e o choro da emoção, sem nunca encontrar o descanso que tanto buscava.

A noite voltaria, e com ela, o choro de Maya. E Emanuel sabia, com uma certeza amarga, que Eduarda estaria lá, pronta para abrir mão de sua noite, de sua paz e de sua relação com ele, apenas para ser o refúgio de uma menina que era tudo o que ele temia ser: doce, manhosa e desesperadamente humana.