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Lápis de Cor e Batom Vermelho
O sol da manhã entrava pelas imensas vidraças da cobertura, iluminando a poeira que dançava no ar, mas o silêncio luxuoso de outrora era agora uma memória distante. O apartamento de Emanuel, que antes parecia uma galeria de arte minimalista, havia se transformado em um campo de batalha doméstico onde o design de alto padrão convivia com pistas de carrinhos e manchas de dedos gordurosos nas paredes de mármore.
No centro da sala, um pequeno borrão de energia de dois anos corria em círculos, soltando gritos de guerra puramente infantis. Arthur, o filho de Emanuel e Eduarda, era o oposto da serenidade da mãe. Com os cabelos castanhos revoltos e os olhos escuros brilhando com uma travessura inesgotável, ele era o "pequeno furacão" que havia mudado a gravidade daquela casa.
— Arthur! Volta aqui agora, meu amor! — gritou Eduarda, tentando equilibrar uma mochila escolar de rodinhas em um braço enquanto corria atrás do menino. — Você precisa colocar o sapato! O papai já vai sair!
O menino soltou uma gargalhada ruidosa e se jogou no sofá de couro legítimo, escalando o encosto com a agilidade de um macaco. Ele não estava interessado em sapatos; seu foco estava em Emanuel, que terminava de abotoar o punho de sua camisa social escura, observando a cena com um misto de cansaço e orgulho mal disfarçado.
— Pai! Desenha! Desenha no Arthur! — o menino gritou, apontando para o próprio braço gordinho e depois para as tatuagens que subiam pelo pescoço de Emanuel.
Emanuel sorriu de canto, aproximando-se e pegando o filho no colo com um movimento firme. Arthur imediatamente começou a traçar com o dedo os desenhos na pele do pai, fascinado pela arte que Emanuel espalhava pelo mundo.
— Hoje não, campeão. Hoje é um dia importante para as suas irmãs — Emanuel disse, dando um beijo na testa do filho e entregando-o a Eduarda, que finalmente conseguira alcançá-los, ofegante. — Conseguiu arrumar a Maya?
— Quase — respondeu Eduarda, ajeitando o cabelo que teimava em cair sobre o rosto. — Ela está muito nervosa, Emanuel. Você sabe como ela é.
Enquanto Arthur lutava para descer do colo da mãe para perseguir o gato, o foco da casa se dividia entre dois quartos opostos, onde as gêmeas de quatro anos se preparavam para o seu primeiro dia de aula na prestigiada escola internacional de elite.
No quarto de tons lavanda e creme, o clima era de uma delicadeza quase melancólica. Maya estava sentada na ponta da cama, usando o uniforme impecável — uma saia xadrez e uma blusa polo branca com o brasão bordado. Ela balançava as perninhas devagar, os olhos castanhos, tão parecidos com os de Eduarda, fixos nos próprios sapatos de verniz.
Eduarda entrou no quarto com Arthur a tiracolo e ajoelhou-se na frente da filha.
— Está pronta, meu anjo? — perguntou Eduarda com a voz mais doce do mundo.
Maya não respondeu de imediato. Ela esticou os braços e envolveu o pescoço de Eduarda em um abraço de urso, escondendo o rosto na curva do ombro da mãe.
— Não quero ir, mamãe... — sussurrou a menina, a voz manhosa e embargada. — Quero ficar aqui com você e com o Arthur.
— Ah, Maya... — Eduarda sentiu o coração apertar. Mesmo após o nascimento de Arthur, o vínculo entre as duas só havia se fortalecido. Maya era a extensão da alma de Eduarda: tímida, sensível e profundamente apegada ao ninho. — Você vai adorar, prometo. Vai ter desenhos, tintas e outras crianças para brincar.
— Mas eles não são você — Maya fungou, apertando a blusa de Eduarda.
Arthur, sentindo a tristeza da irmã, aproximou-se e deu um tapinha desajeitado na perna dela.
— Maya vai pra escola! — ele anunciou, como se fosse um grande feito. — Arthur fica. Arthur é grande!
Eduarda riu, beijando o topo da cabeça de Maya.
— Viu? Até seu irmão acha que você é uma mocinha agora. Vamos colocar o laço no cabelo?
Enquanto Eduarda tentava dar segurança à sua pequena protegida, o cenário no quarto ao lado era drasticamente diferente.
Sara estava de pé diante de um espelho de corpo inteiro, observando Ágata com um olhar de aprovação clínica. Aos quatro anos, Ágata era a imagem esculpida da mãe. Os cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto e perfeitamente alinhado, e ela permanecia imóvel enquanto Sara retocava algo em seu próprio rosto.
— Lembre-se, Ágata — disse Sara, guardando o batom de marca na bolsa de couro. — Você não vai para lá para fazer amiguinhos que choram. Você vai para ser a melhor. Se a professora perguntar quem quer ser a líder da fila, o que você faz?
— Eu levanto a mão primeiro, mamãe — respondeu a menina, a voz cristalina e desprovida da hesitação comum à sua idade.
— Exatamente. E se alguma criança tentar pegar seu material?
— Eu digo que é meu e que o papai comprou a escola se ele quiser — Ágata repetiu a frase que Sara, em tom de brincadeira (ou não), vinha ensinando há semanas.
Sara deu um sorriso de satisfação, ajustando a gola do uniforme da filha.
— Perfeito. Agora, vamos. Não quero chegar atrasada por causa do drama da Eduarda no corredor.
As duas saíram do quarto como se estivessem prestes a entrar em uma passarela. Sara usava um vestido justo cor de vinho e saltos que estalavam no chão com autoridade. No corredor, os dois mundos colidiram.
Eduarda estava terminando de colocar o laço no cabelo de Maya, que ainda tinha os olhos vermelhos, enquanto Arthur tentava desamarrar os próprios sapatos.
— Pelo amor de Deus, Eduarda, ela ainda está chorando? — Sara perguntou, arqueando uma sobrancelha impecável. — É uma escola, querida, não um exílio na Sibéria.
— Ela é sensível, Sara. Nem todo mundo encara o mundo como se fosse uma negociação de contrato — Eduarda rebateu, levantando-se e segurando a mão de Maya.
— Sensibilidade é apenas uma palavra bonita para falta de preparo — Sara retrucou, olhando para Ágata. — Veja a diferença. Ágata está pronta para dominar o jardim de infância. Maya parece que está indo para o abate.
— Ela só precisa de tempo — defendeu Eduarda, sentindo a mão de Maya apertar a sua.
Emanuel apareceu no corredor, observando as duas mulheres e as três crianças. Ele era o eixo que mantinha aquelas forças opostas em órbita.
— Chega, as duas — disse ele, a voz grave e definitiva. — Arthur vai ficar com a babá. Nós quatro vamos levar as meninas. É o primeiro dia delas, quero que seja um momento de família.
— Família... — Sara murmurou com um sorriso irônico, mas não protestou. Ela sabia quando Emanuel estava falando sério.
O trajeto até a escola foi uma mistura de sons. No banco de trás do SUV blindado, Ágata explicava para uma Maya silenciosa como ela pretendia organizar os brinquedos da sala de aula, enquanto Emanuel e Sara discutiam brevemente sobre a agenda da semana nos estúdios. Eduarda permanecia em silêncio, acariciando a mão de Maya, sentindo cada pequena trepidação da filha.
Ao chegarem à fachada imponente da escola, o movimento de carros luxuosos era intenso. Pais influentes e mães impecáveis desciam com seus filhos, criando um ambiente de alta pressão social que Sara adorava e Eduarda detestava.
Assim que desceram do carro, o contraste tornou-se público. Ágata caminhava ao lado de Sara, a cabeça erguida, ignorando as outras crianças. Maya, por outro lado, tentava se esconder atrás das pernas de Eduarda.
— Vamos, Maya — incentivou Emanuel, abaixando-se para ficar na altura dela. — O papai vem te buscar logo depois do almoço.
— Promete? — a voz da menina era um sopro.
— Prometo. E vou te trazer um kit novo de desenho — ele piscou para ela, ganhando um sorriso tímido em troca.
Na entrada da sala de aula, as professoras aguardavam. Uma delas, uma mulher jovem e sorridente, aproximou-se do grupo.
— Bom dia! Devem ser a Maya e a Ágata, certo? Sejam bem-vindas!
— Ágata — corrigiu a pequena loira, estendendo a mão para a professora de forma formal, o que fez a mulher rir, surpresa. — Minha mãe disse que eu vou gostar da biblioteca.
— Oh, temos uma leitora aqui! E você, Maya? — a professora olhou para a menina que se agarrava ao vestido de Eduarda.
Eduarda ajoelhou-se e abraçou a filha com força.
— Vai ficar tudo bem, meu amor. Eu estou orgulhosa de você.
Sara, observando a cena de longe, revirou os olhos e aproximou-se de Emanuel.
— Se ela demorar mais cinco minutos nessa despedida, a Maya vai criar raízes no asfalto. Emanuel, faça alguma coisa.
Emanuel suspirou, mas antes que pudesse intervir, algo inesperado aconteceu. Ágata, que já estava quase entrando na sala, parou e olhou para trás. Ela viu a irmã trêmula e, em um gesto que não parecia ter sido ensinado por Sara, voltou e pegou a mão de Maya.
— Vem, Maya. Eu deixo você sentar do meu lado. Mas não pode chorar no meu vestido, ele é novo — disse Ágata, com sua autoridade natural.
Maya olhou para a irmã, depois para Eduarda, e finalmente soltou a saia da mãe. Com passos incertos, ela seguiu Ágata para dentro da sala.
Eduarda ficou parada, observando as duas entrarem. Ela sentiu uma lágrima solitária escorrer, mas desta vez era de alívio.
— Viu só? — Sara disse, parando ao lado de Eduarda e colocando uma mão — surpreendentemente leve — em seu ombro. — A minha filha serve para alguma coisa afinal, além de me dar orgulho. Ela vai proteger a sua "manhosa".
Eduarda olhou para Sara. Sabia que aquele era o jeito de Sara de ser gentil, mesmo que envolto em camadas de arrogância.
— Obrigada, Sara.
— Não me agradeça. Apenas tente não estar em frangalhos quando viermos buscá-las. Temos um jantar com os investidores de Milão hoje à noite e eu preciso que você pareça uma namorada de um tatuador rico, não uma mãe exausta de um jardim de infância.
Emanuel aproximou-se e abraçou as duas pelas cinturas, puxando-as para perto enquanto caminhavam de volta para o carro.
— Elas vão ficar bem — disse ele, sentindo a tensão diminuir. — Agora, vamos para casa. O Arthur provavelmente já deve ter tatuado o gato com canetinha hidrográfica a essa hora.
Eduarda riu, a imagem do filho caçula trazendo-a de volta à realidade vibrante de sua vida.
— Ele tem a quem puxar, Emanuel.
— Infelizmente — concordou Emanuel, embora o brilho em seus olhos dissesse o contrário.
Enquanto o carro se afastava da escola, a cobertura os aguardava com o caos de Arthur e as complexidades de um relacionamento que desafiava todas as normas. Eduarda pensava em Maya e em sua doçura; Sara pensava em Ágata e em seu poder. E Emanuel, entre a lavanda e o aço, sentia que, apesar de todas as brigas e diferenças, aquele era o seu império. Um império construído não apenas com tinta na pele, mas com os laços indissolúveis — e às vezes impossíveis — da família que ele escolhera criar.
Ao chegarem em casa, Arthur os recebeu na porta, correndo com um papel na mão.
— Olha, pai! Desenho! — ele gritou, mostrando um rabisco confuso que, para ele, era uma obra de arte.
Emanuel pegou o filho no colo, olhando para o desenho e depois para as duas mulheres que o amavam.
— É lindo, Arthur. Quase tão bom quanto as tatuagens do papai.
Eduarda sorriu, sentindo que, apesar do medo do ninho vazio que a escola trouxera, sua casa ainda estava cheia. Cheia de gritos, de desafios, de batom vermelho e de lápis de cor. E, acima de tudo, cheia de um amor que, por mais estranho que parecesse para o mundo lá fora, era a única coisa que fazia sentido dentro daquelas paredes de vidro.