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O Silêncio das Madrugadas e o Gosto do Mel
A tensão que pairava na cobertura de Emanuel após a briga no corredor ainda era palpável, como uma eletricidade estática que fazia os pelos do braço arrepiar. O apartamento, um monumento de vidro e aço ao sucesso de um homem de vinte e cinco anos, parecia grande demais para o peso dos silêncios acumulados. Emanuel estava em seu escritório, as luzes apagadas, apenas o brilho do monitor iluminando as tatuagens em seus antebraços enquanto ele fingia revisar os lucros trimestrais do estúdio de Londres. Seus pensamentos, no entanto, estavam a poucos metros dali, no quarto de paredes cor de lavanda.
Ele sentia o peso da própria rigidez. Sabia que fora duro, que a lógica fria de Sara estava começando a se infiltrar em sua pele como tinta de má qualidade, endurecendo sua paciência. Mas, acima de tudo, ele sentia falta. Sentia falta do calor de Eduarda, do jeito que ela se moldava ao seu corpo e da paz que só ela conseguia emanar, mesmo em meio ao caos da paternidade dupla.
Emanuel levantou-se, os passos silenciosos sobre o tapete persa. Ele caminhou até o quarto de Eduarda e abriu a porta devagar. Maya finalmente dormia, um anjo de cabelos castanhos espalhado no meio da cama de casal, mas Eduarda estava acordada. Ela estava sentada na poltrona perto da janela, olhando para as luzes da cidade, abraçada aos próprios joelhos.
— Duda? — sussurrou ele, a voz rouca carregada de um arrependimento que ele não sabia como colocar em palavras.
Ela não se virou imediatamente.
— A Ágata está dormindo? — perguntou ela, a voz baixa e cansada.
— Com a Sara. Elas são como duas extensões da mesma bateria, carregam-se uma à outra — Emanuel aproximou-se, parando atrás da poltrona. — Eu sinto muito pelo que eu disse. Eu estava exausto.
Eduarda suspirou, virando o rosto para olhá-lo. Seus olhos castanhos estavam úmidos, refletindo a luz da lua.
— Você tem razão em algumas coisas, Emanuel. Eu sei que mimo ela. Mas não consigo ser diferente. O mundo já é duro demais, eu não quero que ela sinta que o colo dela é um lugar de regras e restrições.
Emanuel ajoelhou-se ao lado da poltrona, pegando as mãos pequenas de Eduarda entre as suas.
— Eu não quero que você mude quem você é. Eu só... eu sinto que estou perdendo você para ela. Sinto que este apartamento virou uma empresa onde eu sou o chefe, a Sara é a gerente e você é a babá, e ninguém mais é homem e mulher aqui.
Eduarda tocou o rosto dele, o polegar traçando a linha da mandíbula tensa.
— Eu ainda sou sua, Emanuel. Sempre fui.
O beijo que se seguiu foi urgente, uma mistura de reconciliação e necessidade reprimida. Emanuel a levantou da poltrona com cuidado para não acordar Maya, carregando-a para o outro lado do quarto, onde o tapete era macio e a penumbra os escondia. Ali, longe dos olhos críticos de Sara e das demandas incessantes das filhas, eles se reencontraram. Foi uma noite de entrega silenciosa, onde as palavras não eram mais necessárias. Emanuel buscava nela a suavidade que o mundo exterior lhe roubava, e Eduarda buscava nele a segurança de que, apesar de toda a sua fragilidade, ela era o centro da gravidade daquele homem poderoso.
No entanto, a paz das madrugadas de amor é sempre efêmera em uma casa com crianças.
O sol mal havia começado a tocar as vidraças da cobertura quando o som rítmico e irritante começou. *Ploc. Ploc. Ploc.*
Emanuel abriu os olhos, sentindo o corpo de Eduarda ainda entrelaçado ao seu sobre os lençóis bagunçados. Ele olhou para o lado e viu Maya sentada na cama, os olhos castanhos bem abertos, sugando sua chupeta de silicone com uma ferocidade impressionante.
— Pelo amor de Deus, Maya... — resmungou Emanuel, cobrindo o rosto com o travesseiro. — São seis da manhã.
Eduarda despertou com um sorriso sonolento, mas logo o sorriso desapareceu ao ver a cena.
— Maya, meu amor, cadê o "bom dia" da mamãe? — Eduarda sentou-se, tentando tirar a chupeta da boca da menina para ganhar um beijo.
A reação foi instantânea. Maya agarrou a chupeta com as duas mãos, empurrando-a mais fundo na boca, e soltou um som de protesto abafado, os olhos se enchendo de lágrimas de resistência.
— Não! — a voz da menina saiu anasalada por trás do escudo de plástico rosa.
— Duda, nós combinamos — Emanuel sentou-se também, a frustração matinal começando a borbulhar. — Dois anos. O médico disse que os dentes dela já estão começando a entortar. A Ágata largou a dela há meses.
— A Ágata nunca foi apegada a nada que não fosse um espelho ou um tablet, Emanuel — Eduarda defendeu, aproximando-se da filha. — Maya, olha para a mamãe. Que tal se a gente desse a "peta" para o Papai Noel? Ou para os passinhos no parque?
Maya balançou a cabeça negativamente com tanta força que os cachos castanhos chicotearam seu rosto. Ela se jogou para trás na cama, enterrando o rosto no travesseiro, mas mantendo a chupeta firmemente presa.
— É uma batalha perdida — a voz de Sara ecoou da porta aberta.
Ela estava encostada no batente, já vestida para o dia com um vestido justo de alfaiataria branca que destacava seu bronzeado. Ágata estava ao seu lado, perfeitamente penteada, segurando uma boneca que custava o preço de um aluguel.
— Bom dia para os amantes — ironizou Sara, os olhos percorrendo o estado desgrenhado de Emanuel e Eduarda. — Vejo que a noite foi produtiva, mas a manhã continua a mesma derrota de sempre.
— Sara, agora não — pediu Emanuel, passando a mão pelo cabelo.
— "Agora não" é o lema desta parte da casa — Sara entrou no quarto, o salto agulha estalando no piso de madeira. — Ágata, mostre para a sua irmã o que crianças grandes fazem.
A pequena loira deu um passo à frente, olhou para Maya com um ar de superioridade que faria qualquer executivo tremer e disse:
— Chupeta é de bebê, Maya. Eu sou grande. Eu ganhei um batom de brilho porque sou grande.
Maya tirou a chupeta da boca por apenas um segundo, o suficiente para gritar:
— EU SOU BEBÊ! — E colocou-a de volta com um estalo sonoro.
Sara soltou uma risada rascante.
— Viu? Ela assume a própria mediocridade. É fascinante. Eduarda, você é muito mole. Se fosse comigo, eu já teria passado pimenta nessa borracha ou simplesmente jogado no lixo e deixado ela berrar até os vizinhos chamarem a polícia.
— Você não faria isso, Sara — Eduarda disse, levantando-se e vestindo o robe. — Você sabe que ela tem uma necessidade de sucção por ansiedade.
— Ela tem uma necessidade de controle, isso sim — Sara retrucou, cruzando os braços, fazendo com que o decote generoso se projetasse. — Ela controla você através dessa chupeta. Ela sabe que, enquanto tiver esse pedaço de plástico na boca, você vai tratá-la como um recém-nascido indefeso. E você adora isso, Duda. Adora ser a única que entende os "sofrimentos" dela.
Emanuel levantou-se da cama, ficando entre as duas mulheres. O contraste era gritante: Sara, a imagem da eficiência fria e da estética impecável; Eduarda, a personificação da suavidade, do afeto e do caos emocional.
— Chega de teorias psicológicas antes do café — sentenciou Emanuel. — Eduarda, hoje é o limite. Eu vou esconder todas as chupetas extras. Ela vai ficar com uma só para dormir, e durante o dia, acabou.
— Emanuel, ela vai entrar em colapso — Eduarda avisou, a voz manhosa começando a aparecer conforme a pressão aumentava. — Por favor, me dá mais uma semana. Eu vou tentar o método do livrinho da fada das chupetas...
— O método do livrinho não funcionou com a fralda, não funcionou com a comida verde e não vai funcionar agora — Sara interveio, caminhando até a cômoda e pegando uma chupeta reserva que estava ali. — Isso aqui vai para o lixo. Agora.
— Não! — Eduarda correu para impedir, mas Sara foi mais rápida, jogando o objeto na lixeira do banheiro com um movimento elegante.
Maya, percebendo o movimento, começou a chorar. Não era um choro comum; era um grito de guerra. Ela se levantou na cama, o rosto ficando vermelho, as mãos puxando o próprio cabelo.
— MINHA PETA! MINHA PETA!
— Olha o que você fez, Sara! — Eduarda gritou, correndo para abraçar a menina.
— Eu fiz o que você não tem coragem de fazer! — Sara rebateu, sem se abalar. — Emanuel, se você quer que suas filhas sejam mulheres fortes, você precisa parar de permitir esse teatro. A Ágata está aqui olhando para essa cena e aprendendo que o escândalo é a moeda de troca nesta casa.
Emanuel sentia a cabeça latejar. Ele olhou para Maya, que soluçava nos braços de Eduarda, e depois para Ágata, que observava tudo com um desdém silencioso, segurando a mão de Sara. Sua vida era um cabo de guerra constante. De um lado, o amor que exigia firmeza, do outro, o amor que exigia entrega total.
— Todos para a cozinha. Agora — ordenou Emanuel, a voz de comando que ele usava nos estúdios quando um tatuador cometia um erro grave. — Eduarda, traga a Maya. Sara, leve a Ágata.
O café da manhã foi um exercício de tortura. Maya recusou as frutas, recusou o iogurte e passou o tempo todo tentando enfiar o dedo minguinho na boca para compensar a falta da chupeta que Sara havia "sequestrado". Eduarda tentava distraí-la com histórias sobre as cores do céu, mas seus próprios olhos mostravam que ela estava prestes a ceder.
— Emanuel, olha para ela... ela está sofrendo — sussurrou Eduarda, inclinando-se para ele.
Emanuel olhou para a filha. Maya tinha os olhos castanhos idênticos aos de Eduarda, cheios de uma tristeza que parecia profunda demais para uma criança de dois anos. Por um momento, ele quis ceder. Quis ir até o armário alto onde escondia o estoque de reserva e devolver a paz àquela mesa.
Mas então ele olhou para Sara. Ela estava sentada de forma impecável, corrigindo a postura de Ágata com um toque firme no ombro. Sara não era apenas vulgaridade e silicone; ela era a espinha dorsal da estrutura que ele construíra. Se ele cedesse agora, ele estaria admitindo que a visão de mundo de Sara — a de que a fraqueza deve ser eliminada — era a única correta, ou que a visão de Eduarda — a de que o conforto está acima de tudo — era a única que importava.
— Ela vai sobreviver, Duda — disse Emanuel, embora seu coração estivesse apertado. — Nós vamos sair hoje. Todos nós. Vamos ao aquário. Ela vai se distrair.
— Eu não vou a aquário nenhum com uma criança berrando no meu ouvido — Sara declarou, limpando os lábios com o guardanapo de linho. — Eu tenho uma reunião de marketing para os estúdios da Ásia. Emanuel, você prometeu que revisaria os designs comigo hoje.
— O aquário faz bem para a Maya, Sara — Eduarda disse, tentando manter a voz firme. — A água acalma ela.
— O que acalma a Maya é limite, mas já vimos que isso é artigo de luxo por aqui — Sara levantou-se. — Ágata, vamos trocar de roupa. Você vai comigo para o escritório hoje. Nada de peixinhos e choradeira para você.
— Eu quero ir com a mãe! — Ágata exclamou, saltando do banco e agarrando a mão de Sara.
Emanuel viu as duas saírem da sala: a loira alta e sua miniversão, ambas exalando uma confiança que beirava a arrogância. Ele então olhou para Eduarda e Maya. Eduarda estava limpando as lágrimas de Maya com o próprio polegar, murmurando palavras doces.
— Você vai com a gente, Emanuel? — perguntou Eduarda, a esperança brilhando em seu olhar sensível.
Emanuel sentiu o peso da escolha. Se fosse com Eduarda, ele estaria escolhendo a paz emocional, mas estaria "negligenciando" a parte de sua vida que Sara representava — o império, a ambição, a força. Se ficasse com Sara, ele seria o pai ausente e o namorado frio que Eduarda tanto temia.
— Eu vou com vocês ao aquário — decidiu Emanuel. — Mas, Eduarda... a chupeta não vai. Nem na bolsa, nem no bolso escondido, nem no carro. Se ela chorar no meio do passeio, nós vamos lidar com isso como adultos.
Eduarda assentiu, embora suas mãos estivessem tremendo levemente.
O passeio ao aquário foi um misto de beleza e tensão. Maya, de fato, ficou hipnotizada pelos tanques gigantes. Ela apontava para os tubarões e para as águas-vivas, esquecendo-se da chupeta por longos minutos. Emanuel caminhava ao lado de Eduarda, segurando sua mão, sentindo a conexão que haviam resgatado na noite anterior. Por um momento, eles pareciam uma família "normal".
Mas, na hora do almoço, o desastre aconteceu. O restaurante estava cheio, o serviço estava lento e Maya estava exausta. A falta do objeto de conforto tornou-se um abismo. Ela começou a chorar, um som agudo que atraía olhares de reprovação de todas as mesas vizinhas.
— Mamãe... a peta... quero a peta... — ela soluçava, o corpo ficando mole na cadeira.
Eduarda olhou para Emanuel, os olhos suplicantes.
— Emanuel, por favor... só desta vez. Ela está cansada.
Emanuel respirou fundo. Ele viu o desespero de Eduarda e a agonia de Maya. Ele enfiou a mão no bolso da jaqueta. Ele havia trazido uma. Por precaução. Por fraqueza.
No momento em que ele ia tirar a chupeta do bolso, seu celular vibrou. Era uma mensagem de Sara. Uma foto de Ágata sentada na mesa de reuniões da empresa, com um fone de ouvido profissional, "ajudando" a mãe a olhar os gráficos. Abaixo, a legenda de Sara: *"Enquanto umas choram por borracha, outras aprendem a governar. Escolha bem qual futuro você quer para as suas filhas, Manu."*
Emanuel fechou os olhos. A vulgaridade de Sara às vezes era uma faca afiada, mas suas verdades eram cirúrgicas. Ele tirou a mão do bolso. Vazia.
— Não, Duda. Nós vamos embora. Agora. Ela vai dormir no carro sem a chupeta.
— Você é frio como ela! — Eduarda disparou, pegando Maya no colo com uma força que Emanuel não sabia que ela tinha. — Você deixa a Sara entrar na sua cabeça e esquece que a sua filha está sofrendo!
— Eu estou tentando fazer com que ela cresça, Eduarda! — ele rebateu, enquanto caminhavam apressados para o estacionamento sob o som dos gritos de Maya.
O caminho de volta foi um inferno sonoro. Maya chorou até dormir de exaustão, soluços espasmódicos sacudindo seu pequeno corpo no bebê conforto. Eduarda não disse uma palavra. Ela olhava pela janela, as lágrimas escorrendo silenciosamente, as mãos apertadas no colo.
Quando chegaram à cobertura, o clima era de funeral. Sara e Ágata já haviam retornado, e o som de música pop animada vinha da sala de estar, onde as duas dançavam enquanto Sara escolhia roupas em um site internacional.
— Como foi o passeio com os peixinhos? — perguntou Sara, sem parar de dançar, um copo de espumante na mão. — A Maya trouxe algum coral ou só mais algumas toneladas de drama?
Emanuel não respondeu. Ele subiu direto para o quarto, sentindo o peso do dia esmagar seus ombros. Eduarda levou Maya para o quarto de lavanda sem olhar para ninguém.
Mais tarde, naquela noite, Emanuel encontrou Eduarda na cozinha. Ela estava tomando um chá, as luzes apagadas.
— Ela dormiu sem a chupeta — disse ela, a voz sem emoção.
— Viu? Eu disse que ela conseguiria — Emanuel tentou soar vitorioso, mas sua voz saiu sem convicção.
— Ela conseguiu porque desistiu, Emanuel. Ela desistiu de pedir porque percebeu que o pai dela prefere ouvir os conselhos da Sara do que o choro dela — Eduarda levantou os olhos, e Emanuel viu uma mágoa que o sexo da noite anterior não fora capaz de apagar. — Você quer que eu more aqui, quer que eu seja sua, mas você quer que eu seja uma versão silenciosa da Sara. E eu não sou.
— Eu não quero que você seja a Sara, Eduarda. Eu só quero... — ele parou, sem saber o que queria.
— Você quer o controle total — ela completou. — Você quer a minha doçura para te acalmar, mas quer a dureza da Sara para te dar poder. E no meio disso, a Maya está se perdendo.
Eduarda levantou-se e deixou a xícara na pia. Antes de sair, ela parou e olhou para ele.
— A Maya não vai usar a chupeta amanhã. Mas saiba que, cada vez que você escolhe a "lógica" da Sara sobre o sentimento dela, você está criando uma barreira que nenhuma tatuagem ou dinheiro vai conseguir cobrir depois.
Emanuel ficou sozinho na cozinha escura. Ele ouviu o riso de Sara vindo do quarto principal, um som cheio de confiança e triunfo. E ouviu o silêncio do quarto de Eduarda, um silêncio carregado de uma tristeza que ele sentia que estava começando a engoli-lo.
Ele era o dono de um império, o mestre das agulhas, o homem que duas mulheres amavam de formas terrivelmente diferentes. Mas, enquanto olhava para a lixeira onde a primeira chupeta fora jogada, Emanuel sentiu que, naquela guerra de vontades, ele era o único que estava verdadeiramente perdendo.
A noite de amor havia sido um refúgio, mas a manhã trouxera a realidade: na cobertura de vidro, o afeto era uma mercadoria cara, e a chupeta de Maya era apenas o primeiro de muitos sacrifícios que o império de Emanuel exigiria de todos eles. E ele se perguntava, com o coração pesado, quanto tempo Eduarda aguentaria ser a lavanda em um mundo feito de espinhos e aço.