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Ecos de Mamãe e Madrastas

A rotina na cobertura de Emanuel havia se transformado em uma coreografia complexa, onde cada passo em falso poderia resultar em um drama de proporções épicas ou em um silêncio gelado. No entanto, aos dois anos e meio, as gêmeas haviam estabelecido suas próprias regras de sobrevivência emocional. A distinção entre as figuras femininas da casa era clara na voz das crianças, e isso moldava o humor de todos.

Emanuel atravessou a sala de estar, observando a luz da manhã bater nos quadros de arte contemporânea que Sara escolhera e nos pequenos vasos de flores secas que Eduarda espalhara pelos cantos. Ele se sentia, pela primeira vez em anos, genuinamente leve. A presença de Eduarda na casa, que antes era um desejo frustrado, agora era uma realidade sólida que suavizava as arestas cortantes da personalidade de Sara.

— Ágata, desça dessa mesa agora! — a voz de Sara ressoou da cozinha.

A pequena loira, vestindo um conjunto de seda rosa choque que era uma réplica exata do pijama de Sara, olhou para a mãe com um sorrisinho de canto, desafiador.

— Não quero, Mãe. Estou vendo o papai — respondeu Ágata, com uma dicção impressionantemente clara para a idade.

Sara apareceu na porta, segurando uma xícara de café preto. Ela estava impecável, mesmo recém-acordada, com o cabelo loiro volumoso e um olhar que exigia obediência.

— Emanuel, olhe para a sua filha. Ela acha que as regras de etiqueta são sugestões opcionais — Sara comentou, revirando os olhos, mas com um brilho de orgulho no olhar. Ela amava ver a própria audácia refletida na pequena.

Emanuel caminhou até a mesa e pegou Ágata no colo, dando-lhe um beijo na bochecha.

— Ela tem a quem puxar, Sara.

Nesse momento, Eduarda saiu do corredor dos quartos, carregando Maya. A cena era o oposto exato da anterior. Maya estava com o rosto escondido no pescoço de Eduarda, segurando uma pontinha do cabelo castanho da jovem.

— Bom dia... — Eduarda murmurou, a voz doce e sonolenta. — A Maya teve um pesadelo com o barulho do trovão de madrugada.

— Mamãe... — Maya murmurou, apertando o abraço em Eduarda. — Quero mumu.

O silêncio que se seguiu na sala não era de choque, pois todos já estavam acostumados, mas a distinção nos nomes ainda carregava um peso simbólico. Para Maya, Sara era a "Mãe" — a figura de autoridade, a mulher vibrante que a assustava um pouco com sua intensidade. Mas Eduarda era a "Mamãe" — o porto seguro, o colo que cheirava a baunilha e a paciência infinita.

Já Ágata, em sua pequena mente aristocrática e seletiva, via Sara como sua única "Mãe". Eduarda, para ela, era a "Tia Duda" — alguém legal que contava histórias e não brigava, mas que não possuía o brilho magnético que ela tanto admirava em Sara.

— Eduarda, você mima demais essa menina — Sara disse, encostando-se no balcão de mármore. — "Mamãe" para cá, "Mamãe" para lá... Ela precisa aprender a ser independente. Olhe para a Ágata, já escolheu o próprio laço de cabelo hoje.

Eduarda corou levemente, acomodando Maya em sua cadeira alta.

— Ela só é sensível, Sara. Cada uma tem seu tempo.

Emanuel sorriu, sentindo-se estranhamente revigorado. Ele parecia anos mais jovem; as olheiras que o acompanharam durante o primeiro ano das meninas haviam suavizado. Ele tinha o império dos estúdios sob controle, Sara gerenciando a parte administrativa com uma mão de ferro que o poupava de estresses burocráticos, e Eduarda em casa, transformando a cobertura fria em um lar acolhedor.

— Hoje vamos ao supermercado — anunciou Emanuel, surpreendendo as duas. — Todos nós. Preciso comprar algumas coisas para o churrasco com o pessoal do estúdio e quero que as meninas saiam um pouco.

Sara arqueou uma sobrancelha, examinando as unhas.

— Supermercado, Emanuel? Sério? Podemos mandar o motorista ou pedir pelo aplicativo. Aquele lugar é um caos de gente mal vestida.

— Eu quero ir com a minha família, Sara. Sem discussões.

— Tudo bem, mas eu não vou em qualquer lugar. Tem que ser aquele empório novo na zona sul — Sara cedeu, já planejando o look que usaria para ser notada nos corredores de hortifrúti.

— Eu vou terminar de arrumar a bolsa da Maya — disse Eduarda, dando um beijo no topo da cabeça da menina. — Vamos, meu anjo?

— Vamos, Mamãe! — Maya esticou os braços, ignorando completamente o olhar de desdém que Sara lançou para a cena.

Duas horas depois, o grupo entrou no supermercado de luxo. Emanuel empurrava o carrinho grande, sentindo-se o patriarca de um reino peculiar. Sara caminhava ao seu lado, usando saltos que faziam eco no chão de granito e óculos escuros sobre a cabeça, parando ocasionalmente para criticar a safra de vinhos. Ágata ia sentada no carrinho, olhando para as prateleiras com um ar de superioridade, apontando para os doces mais caros.

Eduarda vinha logo atrás, segurando a mão de Maya. A menina estava encantada com as cores, mas o excesso de estímulos estava começando a deixá-la agitada.

— Olha, Tia Duda! — Ágata gritou do carrinho, apontando para uma pirâmide de ovos de chocolate importados. — Eu quero aquele grande!

— Ágata, você já ganhou um brinquedo hoje — Emanuel interveio, tentando manter a autoridade.

— Mas eu sou a princesa, papai! — a menina retrucou, cruzando os braços.

Sara soltou uma risada sonora.

— Deixe a menina, Emanuel. Se ela quer o chocolate, ela ganha o chocolate. Ela sabe o que merece.

Enquanto a disputa pelo chocolate de Ágata distraía o trio, o desastre começou no corredor das massas. Maya viu um pacote de biscoitos coloridos, mas Eduarda, seguindo a dieta rigorosa que Emanuel tentava manter, negou o pedido.

— Agora não, Maya. Vamos almoçar logo, logo.

O mundo de Maya desabou. Para uma criança sensível, o "não" de sua figura de maior confiança foi como uma traição.

— Eu quero! — Maya gritou, a voz subindo várias oitavas.

— Maya, por favor, não grite — Eduarda pediu, sentindo o suor frio subir pela nuca. Ela odiava chamar atenção.

Mas Maya não apenas gritou. Ela se jogou no chão, no meio do corredor de massas artesanais, e começou a espernear. O choro era sofrido, manhoso, carregado de uma dramaticidade que, ironicamente, lembrava muito as reações de Sara quando as coisas não saíam do seu jeito.

— Meu Deus, que mico! — Sara exclamou, aproximando-se e olhando para Maya como se ela fosse um espécime de estudo estragado. — Eduarda, resolva isso. Ela está parecendo uma criança comum de classe média baixa tendo um ataque.

Eduarda se ajoelhou no chão, tentando abraçar a menina, mas Maya se debatia.

— Maya, olha para a mamãe... Calma, meu amor.

— NÃO! QUERO BISCOITO! — Maya berrava, o rosto ficando vermelho, as lágrimas escorrendo pelos cabelos castanhos.

As pessoas começaram a parar e olhar. Emanuel, em vez de ficar irritado como era seu costume no estúdio, sentiu uma vontade súbita de rir. Ver aquela pequena criatura, que era a personificação da doçura de Eduarda, agindo com a fúria vulcânica de Sara, era o ápice da ironia genética.

— Emanuel, faça alguma coisa! — Sara sibilou, ajeitando os óculos escuros para se esconder. — Todo mundo está olhando para nós. Ágata, não olhe para sua irmã, é contagioso.

— Ela está bem, Sara — Emanuel disse, aproximando-se e pegando Maya do chão com firmeza, mas sem agressividade. — Maya, chega. Olhe para mim.

A menina soluçou, escondendo o rosto no peito do pai. O silêncio voltou a reinar no corredor, quebrado apenas pelos soluços baixos da pequena.

— Viu só? — Sara disse para Eduarda, que ainda estava trêmula. — Você é mole demais com ela. Ela precisa de disciplina, não de "calma, meu amor". Se fosse a Ágata, eu já teria dado um corretivo verbal que ela não esqueceria tão cedo.

— Ela só estava cansada, Sara — Eduarda defendeu-se, limpando as próprias lágrimas que haviam escapado. — Ela não é como a Ágata.

— Graças a Deus por isso — murmurou Sara, voltando a caminhar em direção à seção de queijos finos. — Uma Ágata já dá trabalho suficiente para a humanidade. Duas seriam um golpe de estado.

Emanuel colocou Maya no colo de Eduarda. A menina imediatamente se acalmou, agarrando-se à "mamãe" como se o mundo estivesse prestes a acabar.

— Você foi bem, Duda — Emanuel sussurrou no ouvido de Eduarda, antes de seguirem Sara. — Não ligue para o que ela diz.

O restante das compras foi mais tranquilo, embora a tensão entre as personalidades das mulheres continuasse a flutuar no ar. No caixa, Sara fez questão de conferir item por item, questionando o preço de um azeite trufado com o caixa, enquanto Ágata dava "tchauzinhos" reais para as pessoas na fila atrás deles.

— Tchau, pessoas! — dizia a loirinha, com uma vaidade que fazia os clientes rirem e Sara brilhar de satisfação.

Ao chegarem em casa, o caos do supermercado foi substituído pela rotina doméstica. Emanuel sentou-se no sofá, observando a cena diante de si. Sara estava sentada à mesa da sala de jantar com o notebook aberto, provavelmente resolvendo alguma crise em um dos estúdios da Europa, enquanto Ágata tentava "maquiar" uma de suas bonecas com um batom caro que roubara da bolsa da mãe.

No tapete da sala, Eduarda lia um livro sobre o Renascimento Italiano para Maya. A menina não entendia as palavras, mas apontava para as pinturas de anjos e madonas, fascinada pelas cores suaves.

— Mamãe, olha o bebê! — Maya apontou para uma pintura de Rafael.

— É um anjinho, Maya — Eduarda explicou, beijando a testa da menina.

Emanuel sentiu uma paz profunda. Ele sabia que aquela configuração familiar era considerada escandalosa por muitos, mas para ele, era o único modo de se sentir completo. Ele tinha a paixão e a competência de Sara, a doçura e o refúgio de Eduarda. Tinha a força de Ágata e a sensibilidade de Maya.

— Emanuel — Sara chamou, sem tirar os olhos da tela. — O estúdio de Berlim está com problemas no fornecedor de tintas. Eu já resolvi metade, mas preciso que você assine as autorizações digitais que mandei para o seu e-mail.

— Vou ver isso agora — ele respondeu, levantando-se.

Ao passar por Sara, ele beijou seu pescoço, sentindo o perfume caro e a energia vibrante que ela exalava. Ela sorriu, uma expressão rara de carinho genuíno, antes de voltar ao modo profissional.

Depois, ele caminhou até o tapete e se sentou ao lado de Eduarda. Ela encostou a cabeça no ombro dele, exalando aquele cheiro de lavanda que sempre o acalmava.

— Você está feliz aqui, Duda? — ele perguntou em voz baixa.

Eduarda olhou para Maya, depois para Ágata, que agora corria em direção a elas para mostrar a boneca borrada de batom.

— Às vezes é difícil... a Sara é muito forte, e eu sinto que desapareço um pouco. Mas eu amo essas meninas. E eu amo você. Então, sim, eu estou feliz.

— Tia Duda! Olha minha boneca! Ficou chique? — Ágata perguntou, parando na frente de Eduarda.

— Ficou... colorida, Ágata — Eduarda riu, pegando a menina no colo também.

Emanuel olhou para as duas mulheres e as duas filhas. O sucesso financeiro, as tatuagens premiadas, a fama... nada disso chegava perto da satisfação de ver aquele equilíbrio improvável funcionando.

— Mãe! — Ágata gritou para Sara. — A Tia Duda disse que minha boneca está colorida!

— Ela quis dizer que está cafona, Ágata! — Sara gritou de volta, rindo. — Venha aqui que eu te ensino a fazer um contorno de verdade!

Emanuel balançou a cabeça, sorrindo. Ele era o centro daquele furacão, o homem que mantinha os dois mundos unidos. E enquanto Maya se aninhava em Eduarda e Ágata corria para os braços de Sara, ele percebeu que não mudaria absolutamente nada. O cansaço ainda existia, mas era um cansaço que valia a pena. Ele não era apenas um tatuador rico e renomado; ele era o arquiteto de uma família que, apesar de todas as diferenças, encontrava seu próprio ritmo entre o caos e o amor.