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O Peso da Ausência e a Fragilidade do Vidro
O sol mal havia começado a iluminar os arranha-céus de São Paulo quando o caos se instalou na cobertura. O aroma de café recém-passado, que normalmente trazia uma sensação de ordem, foi sufocado pelo som de soluços baixos e o arrastar de malas. Eduarda, vestida com um conjunto de alfaiataria em tons pastéis que a deixava com um ar profissional e maduro, tentava desesperadamente fechar sua necessaire, mas uma força de apenas treze quilos impedia seus movimentos.
Maya, com seus cachinhos castanhos bagunçados e o pijama de ursinhos, estava literalmente abraçada à perna esquerda de Eduarda. Suas pequenas mãos apertavam o tecido da calça com uma determinação ferrenha, e o rosto estava enterrado no joelho da "mamãe".
— Não, mamãe. Não vai. Fica aqui — a voz de Maya era um fiozinho de angústia que partia o coração de Eduarda.
— Meu anjo, a mamãe precisa ir. É só um final de semana no congresso de História da Arte. São só dois dias — explicou Eduarda, agachando-se com dificuldade, já que a menina se recusava a soltá-la.
— Não! — Maya soltou um grito agudo, seguido de um choro mais intenso. — O bicho vai pegar a Maya sem a mamãe.
Emanuel apareceu no corredor, vestindo uma camiseta preta básica que realçava as tatuagens nos braços, mas sua expressão era de puro estresse. Ele segurava o celular em uma mão e uma pasta de documentos na outra. O sucesso de seus estúdios exigia uma vigilância constante, e ele tinha uma reunião importante por videoconferência com Londres em menos de uma hora.
— O que está acontecendo aqui? Eu consigo ouvir esse choro lá do escritório — disse Emanuel, a voz ríspida pela falta de sono.
— Ela não me solta, Emanuel. A ansiedade de separação piorou muito essa semana — Eduarda respondeu, os olhos já marejados. — Eu não posso perder esse congresso, é fundamental para o meu currículo na faculdade, mas eu não consigo sair de casa assim.
Sara saiu do quarto principal, impecável em um robe de seda vermelho, segurando Ágata no colo. Ágata, como de costume, estava calma, observando a cena com um olhar de quem achava tudo aquilo uma grande perda de tempo.
— Pelo amor de Deus, que drama logo cedo — Sara comentou, encostando-se no batom da porta. — Eduarda, você mima essa menina até o limite. Maya, larga a perna dela. A "Mãe" Sara está aqui, a gente vai brincar de desfile de moda hoje.
Ao ouvir a voz de Sara, Maya apertou ainda mais o abraço em Eduarda, como se a intensidade da loira fosse um vento forte demais para sua estrutura delicada.
— Não quero desfile! Quero a mamãe! — Maya berrou, escondendo o rosto.
— Viu só? — Sara deu de ombros, olhando para Emanuel. — É isso que dá tratar a criança como se ela fosse feita de açúcar. A Ágata nunca faria isso. Não é, minha mini diva?
Ágata apenas balançou a cabeça positivamente, brincando com os fios loiros do cabelo da mãe.
— Emanuel, eu não vou conseguir — Eduarda disse, começando a chorar silenciosamente. — Eu vou cancelar. Não posso deixar ela assim, ela vai ficar doente de tanto chorar.
Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo a tensão latejar em suas têmporas. Ele odiava quando as coisas saíam do seu controle lógico. Ele precisava de Eduarda focada, precisava de silêncio para trabalhar e precisava que a casa funcionasse.
— Você não vai cancelar nada, Eduarda. Você se dedicou meses para esse congresso — Emanuel decretou, a voz autoritária que usava para comandar seus negócios. — Se ela não solta você, então ela vai com você.
Houve um silêncio súbito na sala. Até Maya parou de soluçar por um segundo para olhar para o pai.
— O quê? — Sara perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Você vai levar uma criança de dois anos para um congresso acadêmico em Curitiba? Emanuel, você enlouqueceu? Quem vai cuidar dela enquanto a Eduarda estiver nas palestras?
— Eu vou — disse ele, embora o tom de voz indicasse que ele preferia estar fazendo qualquer outra coisa, como uma tatuagem de corpo inteiro em um cliente difícil. — Eu levo meu notebook, trabalho do hotel. Eu cuido da Maya enquanto a Eduarda cumpre a agenda dela.
— Você vai deixar a administração aqui comigo sozinha para ir cuidar de uma criança manhosa em outra cidade? — Sara cruzou os braços, a voz subindo de tom. — Isso é ridículo. Eu tenho três reuniões marcadas para amanhã sobre a nova unidade de Miami!
— Você é mais do que competente para resolver isso sem mim por quarenta e oito horas, Sara — Emanuel rebateu, curto e grosso. — É melhor eu ir e resolver esse problema da Maya agora do que ficar aqui ouvindo ela gritar o dia inteiro e ver a Eduarda deprimida pelos cantos.
— Ótimo! — Sara exclamou, virando as costas. — Vá ser a babá de luxo da sua namorada sensível. Ágata e eu ficaremos aqui reinando em paz, sem choradeira no nosso ouvido.
Eduarda olhou para Emanuel com uma mistura de gratidão e culpa.
— Emanuel, você tem certeza? Eu sei o quanto você está ocupado...
— Arrume as coisas dela, Eduarda. Rápido. O jato está pronto no campo de Marte, só precisamos avisar o piloto — ele disse, já digitando freneticamente no celular. — E pegue aquele urso enorme que ela gosta. Não quero ter que comprar brinquedos novos no meio da viagem.
O trajeto até o aeroporto foi tenso. No banco de trás do carro blindado, Maya estava sentada em sua cadeirinha, segurando a mão de Eduarda com uma força descomunal, como se temesse que a qualquer momento a mãe pudesse saltar do veículo em movimento. Emanuel, no banco do passageiro à frente, não parava de falar ao telefone em inglês, resolvendo problemas de logística de tintas e agendamentos internacionais.
— Sim, eu sei que o artista de Berlim está reclamando, mas diga a ele que o contrato é claro — Emanuel dizia, a voz fria. — Eu não estou disponível para discussões hoje. Resolvam.
Ao desligar, ele soltou um suspiro pesado que ecoou pelo carro.
— Tudo bem aí atrás? — ele perguntou, sem olhar para trás.
— Ela dormiu — Eduarda sussurrou. — O estresse a deixou exausta. Obrigada por fazer isso, Emanuel. Eu sei que você odeia quebrar sua rotina.
— Eu odeio o caos, Eduarda. E o choro da Maya é o som do caos — ele respondeu, finalmente virando o rosto para olhá-las. Seu olhar suavizou um pouco ao ver a filha dormindo com a boca entreaberta, o reflexo perfeito da fragilidade de Eduarda. — Mas eu quero que você termine esse congresso. Você precisa ter algo seu, além dessa casa e dessas meninas.
Quando chegaram ao hotel em Curitiba, a realidade da decisão de Emanuel começou a cobrar seu preço. O quarto era luxuoso, uma suíte presidencial com dois ambientes, mas Maya, ao acordar em um lugar estranho, teve outra crise.
— Quero casa! Quero meu quarto! — ela começou a gritar, correndo para os braços de Eduarda.
— Maya, olha que vista linda! Olha os carros lá embaixo — Eduarda tentava distraí-la, mas a menina estava irredutível.
Emanuel abriu seu notebook na mesa de trabalho do hotel, tentando ignorar o barulho.
— Eduarda, você tem trinta minutos para chegar na abertura do congresso — ele disse, olhando para o relógio de pulso. — Vá. Eu assumo daqui.
— Você tem certeza? — Eduarda perguntou, entregando Maya, que começou a espernear, para os braços de Emanuel.
— Vá logo antes que eu mude de ideia — ele resmungou, segurando a filha com firmeza contra o peito.
Assim que a porta se fechou e Eduarda saiu, o silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelos soluços de Maya. Emanuel sentou-se na poltrona com a menina no colo. Ele não tinha a paciência de Eduarda, nem a teatralidade de Sara.
— Escute aqui, Maya — ele disse, a voz baixa e séria, forçando a menina a olhá-lo nos olhos. — A mamãe foi estudar. Ela volta logo. Se você parar de chorar e me deixar trabalhar, eu peço aquele sorvete de chocolate que a sua mãe Sara não deixa você comer no café da manhã.
Maya parou de chorar instantaneamente. Seus olhos castanhos, úmidos e expressivos, brilharam com a proposta.
— Sorvete? — ela perguntou, a voz trêmula.
— Sorvete. Mas você tem que ficar sentada ali naquele tapete com seus livros e não pode fazer um único som enquanto o papai estiver no computador. Entendido?
A menina assentiu vigorosamente. Durante as próximas três horas, Emanuel viveu uma experiência surreal. Ele participava de reuniões de alta cúpula sobre investimentos imobiliários enquanto uma menininha de dois anos folheava livros de arte em silêncio absoluto aos seus pés, ocasionalmente subindo em seu colo para ganhar um cafuné rápido antes de voltar para o chão.
No final da tarde, Eduarda voltou para o hotel, exausta mas com os olhos brilhando de empolgação pelas discussões acadêmicas que tivera. Ela esperava encontrar um cenário de guerra, mas o que viu a deixou paralisada na porta.
Emanuel estava sentado na cama, com o notebook de lado. Maya estava sentada em seu colo, e ambos estavam dividindo uma taça enorme de sundae de chocolate. Havia gotas de sorvete na camiseta cara de Emanuel e uma mancha marrom no queixo de Maya.
— O que é isso? — Eduarda perguntou, rindo.
— Negociações de alto nível — Emanuel respondeu, com um meio sorriso que raramente mostrava. — Ela é mais fácil de lidar do que os meus gerentes de Londres, desde que haja suborno envolvido.
— Papai deu sorvete! — Maya comemorou, pulando para o colo de Eduarda, mas desta vez sem o desespero de antes. — Mamãe voltou!
Eduarda abraçou a filha, sentindo um alívio imenso. Ela olhou para Emanuel e percebeu que, apesar da irritação inicial, ele parecia satisfeito.
— Como foi o congresso? — ele perguntou, levantando-se e limpando a sujeira da camiseta com um lenço de papel.
— Foi incrível, Emanuel. Eu me senti... viva. Senti que sou mais do que apenas a "namorada tímida" ou a "mãe da Maya".
— Você é — ele disse, aproximando-se e segurando o rosto dela com uma das mãos, os dedos calejados e tatuados contrastando com a pele clara de Eduarda. — Por isso eu fiz questão que viéssemos.
Infelizmente, a bolha de paz foi estourada pelo toque estridente do celular de Emanuel. Era uma chamada de vídeo de Sara. Ele atendeu e colocou no viva-voz.
A imagem de Sara apareceu na tela. Ela estava em um restaurante badalado em São Paulo, com um coquetel na mão e Ágata sentada ao lado, usando um mini vestido de paetês e comendo o que parecia ser lagosta.
— E então, como vai o retiro espiritual com a "bebezinha"? — Sara perguntou, o tom carregado de ironia. — Ágata e eu estamos nos divertindo horrores. Acabamos de fechar o contrato com a fornecedora de Miami. De nada, Emanuel.
— Parabéns, Sara. Sabia que você daria conta — Emanuel respondeu, neutro.
— Mamãe! — Ágata gritou na tela, olhando para Maya. — Eu ganhei uma boneca nova que brilha! E você?
Maya olhou para a tela, depois para o resto de sorvete na taça, e depois para Eduarda e Emanuel.
— Eu ganhei sorvete com o papai e a mamãe — Maya disse, com uma pontinha de orgulho que raramente demonstrava.
Sara soltou uma risada afetada.
— Sorvete? Que básico. Enfim, Emanuel, não demorem. A casa está silenciosa demais sem o choro da Maya, e eu estou começando a ficar entediada de não ter ninguém para provocar. Eduarda, aproveite seu congresso de quadros velhos. Tchau!
A ligação caiu. Eduarda suspirou, sentando-se na cama.
— Ela nunca perde a chance, não é?
— É o jeito dela de dizer que sente falta de vocês — Emanuel disse, embora soubesse que Sara jamais admitiria isso. — Ela é competitiva até na maternidade.
Naquela noite, após Maya finalmente adormecer entre os dois na cama king-size do hotel, Emanuel e Eduarda ficaram conversando no escuro.
— Eu estava pensando... — Eduarda começou, a voz bem baixa. — Talvez a Maya precise de um pouco mais de convivência com a Sara e a Ágata sem que eu esteja por perto. Para ela entender que o mundo não acaba se eu sumir por cinco minutos.
— Eu concordo — Emanuel respondeu, olhando para o teto. — Mas a Sara precisa aprender a baixar o tom com ela. Ela quer que a Maya seja uma miniversão dela, agressiva e autoconfiante, mas a Maya nunca vai ser assim. E tudo bem.
— Você realmente aceita o jeito dela, não aceita? — Eduarda perguntou, virando-se para ele.
— Eu aceito o que é real, Eduarda. Eu lido com tinta. Se você tenta forçar uma cor onde ela não cabe, a tatuagem fica feia. A Maya é aquarela. A Ágata é tinta a óleo, pesada e vibrante. As duas são minhas filhas.
Eduarda sorriu, sentindo uma onda de amor pelo homem que, apesar de toda a rigidez e do controle, entendia a essência de cada uma delas.
O restante da viagem foi um sucesso inesperado. Emanuel conseguiu trabalhar, Eduarda apresentou seu trabalho acadêmico com louvor e Maya descobriu que o mundo fora da cobertura de São Paulo não era tão assustador se o "papai" estivesse por perto com promessas de sorvete.
No voo de volta, enquanto o jato cruzava as nuvens em direção a São Paulo, Emanuel observava as duas mulheres de sua vida — ou pelo menos, uma delas e uma das filhas. Ele sabia que, ao aterrissar, voltaria para a arena de combate que era sua vida com Sara. Sabia que haveria discussões sobre os gastos da viagem, provocações sobre a "manhã" de Eduarda e a disputa constante por sua atenção.
Mas, ao olhar para Maya dormindo tranquila e para Eduarda revisando suas notas do congresso, ele sentiu que o esforço de mediar aqueles dois mundos era sua maior obra de arte.
Quando finalmente entraram na cobertura, Sara os esperava na sala com os braços cruzados e um sorriso vitorioso.
— Finalmente! — ela exclamou. — Ágata já estava perguntando quando a irmã "chorona" voltaria para ela poder mandar em alguém.
Maya, para a surpresa de todos, não correu para se esconder atrás de Eduarda. Ela deu alguns passos à frente e parou diante de Sara.
— Mãe Sara, eu comi sorvete no café da manhã — ela disse, com uma coragem nova.
Sara piscou, surpresa pela audácia súbita da pequena. Ela olhou para Emanuel, que apenas deu de ombros com um sorriso de soslaio, e depois para Eduarda, que parecia igualmente chocada.
— Ah, é? — Sara descruzou os braços, um brilho de interesse surgindo em seus olhos loiros. — Pois saiba que isso é contra as regras da casa. Mas... já que você foi corajosa de me contar, talvez eu não te coloque de castigo. Desta vez.
Ágata correu e abraçou a irmã.
— Vem, Maya! Vamos ver minha boneca!
As duas meninas correram para o quarto, deixando os três adultos na sala. O equilíbrio fora restaurado, mas com uma pequena mudança na frequência.
— Você está com uma cara horrível, Emanuel — Sara comentou, aproximando-se e ajeitando a gola da camiseta dele. — Cuidar da sua filha sensível te deixou acabado.
— Valeu a pena — ele respondeu, puxando Sara para um beijo rápido e depois estendendo a mão para Eduarda, trazendo-a para perto também.
Ali, no centro de sua cobertura luxuosa, cercado por mulheres de personalidades tão distintas quanto o dia e a noite, Emanuel percebeu que a ansiedade de separação não era apenas de Maya. Era dele. Ele não conseguia mais imaginar sua vida sem o caos vibrante de Sara ou a paz necessária de Eduarda.
— Vamos jantar — Emanuel comandou. — E sem discussões sobre Miami ou História da Arte por hoje. Só família.
Sara revirou os olhos, mas não protestou. Eduarda sorriu, sentindo-se finalmente em casa. E no corredor, o som das risadas de Ágata e Maya ecoava, provando que, entre o silicone e a sensibilidade, o que realmente importava era o sangue e a tinta que os uniam.