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Sapatilhas de Cetim e Marcas de Dente
A luz da manhã de terça-feira entrava de forma geométrica pela sala de ensaios particular que Emanuel mandara construir na cobertura. O espaço era um santuário de espelhos, barras de madeira clara e um piso de linóleo impecável. Eduarda, vestindo um colant preto simples e saia de transpassar em tom de lavanda, estava terminando seu aquecimento. Seus movimentos eram fluidos, uma extensão natural de sua personalidade mansa e disciplinada.
Sentada no chão, com os olhinhos castanhos arregalados de admiração, estava Maya. A pequena segurava um álbum de fotografias antigo que pertencera aos pais de Eduarda. Nele, havia registros de Eduarda aos cinco anos, vestida de cisne, e fotos mais recentes de apresentações profissionais antes de ela pausar a carreira para se dedicar à faculdade de História da Arte e à maternidade.
— Mamãe... você é um passarinho? — perguntou Maya, apontando para uma foto onde Eduarda executava um *grand jeté* impressionante.
Eduarda desceu da ponta dos pés, caminhando com leveza até a filha. Ela se agachou, o rosto doce iluminado pelo suor leve.
— Não, meu amor. A mamãe estava apenas dançando. Isso se chama ballet.
— Eu quero ser passarinho também — Maya disse, levantando-se e tentando ficar na ponta dos pés descalços, os bracinhos gordinhos esticados para o alto. — Olha, mamãe! Eu voo!
Eduarda riu, uma risada que parecia o tilintar de sinos, e pegou a filha no colo, rodopiando-a pelo salão.
— Você quer aprender, Maya? Quer usar sapatilhas e um tutu bem fofinho?
— Sim! Rosa! Igual da foto! — Maya gritou, a voz manhosa e animada.
Emanuel, que observava da porta com um copo de suco verde na mão, sorriu. Ele adorava ver aquela conexão. Maya era o espelho de Eduarda, e o ballet parecia o caminho natural para aquela sensibilidade que as duas compartilhavam.
— Se ela quer dançar, ela vai dançar — disse Emanuel, entrando na sala e depositando um beijo na testa de Eduarda. — Vou mandar buscar o melhor kit de iniciante que o dinheiro puder comprar. E você, Duda, podia voltar a praticar mais seriamente. Sinto falta de te ver no palco.
— Talvez um dia, Emanuel — ela respondeu, encostando a cabeça no ombro dele. — Por enquanto, ser a professora da Maya já me faz muito feliz.
Enquanto isso, no andar de baixo, o clima era drasticamente diferente. Sara estava terminando de arrumar Ágata para uma manhã no parquinho de luxo do condomínio. Ágata usava um conjunto de grife que parecia mais apropriado para uma festa de aniversário do que para um tanque de areia, mas Sara não aceitava nada menos que a perfeição estética.
— Agora lembre-se, Ágata — dizia Sara, retocando o gloss incolor nos lábios da filha —, você é a menina mais bonita daquele parque. Se alguém tentar pegar seu balde, você não deixa. Mostre quem manda.
— Eu sei, Mãe Sara. Eu sou a rainha — Ágata respondeu, ajeitando a tiara de cristais com uma arrogância precoce que faria qualquer outra mãe estremecer, mas que para Sara era motivo de orgulho.
O parquinho estava cheio. Babás uniformizadas e mães com roupas de academia caríssimas circulavam pelo espaço. Sara sentou-se em um banco, focada em responder e-mails da administração dos estúdios de Emanuel, enquanto Ágata se dirigia ao enorme castelo de plástico que dominava o centro do parque.
Lá dentro, um menino um pouco maior, de cerca de três anos, segurava um boneco de super-herói. Ágata, acostumada a ter tudo o que desejava, aproximou-se e simplesmente puxou o brinquedo da mão do garoto.
— Agora é meu — sentenciou ela.
O menino, porém, não era como Maya, que cederia imediatamente. Ele era impetuoso e estava em uma fase de morder tudo o que via pela frente. Antes que a babá do garoto pudesse intervir, ele agarrou o braço gordinho de Ágata e cravou os dentes com toda a força na altura do cotovelo.
O grito de Ágata cortou o ar do condomínio como uma sirene de emergência.
Sara saltou do banco, derrubando o celular na grama. Ela correu para o brinquedo, empurrando outras crianças para chegar até a filha, que agora chorava de forma histérica, apontando para a marca profunda e avermelhada de dentes em seu braço.
— O que aconteceu?! Quem fez isso?! — Sara rugiu, os olhos faiscando de fúria.
A babá do menino tentou gaguejar uma desculpa, mas Sara não deu tempo.
— Tire esse animal de perto da minha filha agora! Onde estão os pais desse garoto? Isso é um absurdo! Olhe o braço dela!
Ágata, percebendo que tinha a plateia que desejava, aumentou o volume do choro.
— Ele me mordeu, mamãe! Dói muito!
— Shhh, meu amor, a mamãe está aqui. Vamos para casa agora. Emanuel vai saber disso, e eu vou descobrir quem é o dono desse moleque — Sara disse, pegando a filha no colo e saindo do parque como um general em retirada após uma emboscada.
Ao chegar na cobertura, Sara entrou batendo a porta. Emanuel, Eduarda e Maya ainda estavam na sala de ballet, rindo enquanto Maya tentava imitar um *plié*.
— Emanuel! — o grito de Sara ecoou pela casa.
Eles saíram da sala de ensaio e encontraram Sara no meio da sala de estar, bufando, com Ágata soluçando dramaticamente em seu colo.
— O que foi, Sara? Aconteceu algum acidente? — Emanuel perguntou, aproximando-se rapidamente.
— Um acidente? Um atentado! — Sara exclamou, mostrando o braço de Ágata. — Um garoto selvagem mordeu a Ágata no parque! Olhe a marca, Emanuel! Está quase saindo sangue!
Eduarda aproximou-se com genuína preocupação.
— Meu Deus, Ágata... vem aqui, a tia Duda vai colocar uma pomadinha.
— Não encosta nela, Eduarda! — Sara disparou, a agressividade transbordando. — Você e essa sua mania de querer resolver tudo com carinho. Eu quero é o nome dos pais desse garoto. Quero que eles sejam notificados pelo condomínio!
Emanuel examinou o braço da filha. Era uma mordida feia, sim, mas nada que justificasse a terceira guerra mundial.
— Sara, acalme-se. Crianças mordem. É uma fase. Vamos cuidar do ferimento e pronto.
— "Crianças mordem"? — Sara repetiu, a voz subindo de tom. — A minha filha não morde! A Ágata é educada para ser uma dama, não um pitbull de parquinho. Isso é falta de vigilância!
Maya, que observava tudo escondida atrás das pernas de Eduarda, sentiu o clima pesado e começou a tremer. Ela odiava gritos. Eduarda percebeu e a pegou no colo, tentando protegê-la da energia caótica de Sara.
— Sara, por favor, não grite assim — pediu Eduarda, baixinho. — A Maya está ficando assustada.
— Ah, claro! O mundo tem que parar porque a "sensível" Maya está assustada — Sara ironizou, voltando sua fúria para Eduarda. — Enquanto a minha filha foi atacada fisicamente, a sua preocupação é o susto da Maya? Por favor, Eduarda, tenha um pouco de senso!
— Chega, Sara! — Emanuel interveio, a voz de comando fazendo o silêncio reinar por um instante. — Eduarda, leve a Maya para o quarto. Sara, leve a Ágata para o banheiro. Eu vou pegar o kit de primeiros socorros.
Eduarda obedeceu imediatamente, sentindo o coração apertado. No quarto, ela abraçou Maya, que chorava baixinho.
— O papai está bravo, mamãe? — perguntou a pequena.
— Não, meu amor. O papai só está preocupado com a Ágata. Vai passar.
Cerca de uma hora depois, após o curativo ter sido feito e Ágata ter sido acalmada com um sorvete de morango e a promessa de uma boneca nova, Emanuel entrou no quarto de Eduarda. Ele parecia exausto.
— Como ela está? — ele perguntou, sentando-se na beira da cama.
— Está mais calma. Estávamos vendo as fotos de ballet de novo — Eduarda respondeu, acariciando os cabelos de Maya, que já cochilava.
— A Sara é... intensa — Emanuel suspirou. — Ela leva tudo para o lado pessoal, como se a mordida na Ágata fosse uma ofensa direta ao império que ela acha que estamos construindo.
— Eu entendo que ela queira proteger a Ágata, Emanuel. Mas a forma como ela fala... ela faz a Maya se sentir errada por ser quem é.
Emanuel puxou Eduarda para um abraço.
— Eu sei. E eu não vou deixar isso acontecer. Amanhã, vamos focar no que importa. Você disse que a Maya quer fazer ballet?
— Sim, ela ficou encantada.
— Então amanhã mesmo vamos comprar tudo. Quero que ela tenha o melhor. E quero que você dê as aulas para ela aqui. Vai ser o momento de vocês.
No dia seguinte, a sala de estar da cobertura estava coberta de sacolas de uma loja de artigos de dança de luxo. Eduarda ajudava Maya a vestir o primeiro collant. Era de um rosa pálido, com uma saia de tule bem volumosa. Maya se olhava no espelho, dando pulinhos de alegria.
— Eu sou o passarinho agora, mamãe!
Eduarda calçou as sapatilhas de meia ponta na filha, amarrando as fitas de cetim com perfeição. Ela mesma vestiu seu traje de dança, sentindo uma nostalgia gostosa invadir seu peito.
— Vamos lá, Maya. Posição de pés... braços em primeira...
Emanuel sentou-se no sofá para assistir. Até Sara, que passava pela sala com Ágata, parou para observar. Ágata, ainda com o curativo no braço, olhava para a irmã com uma mistura de inveja e curiosidade.
— O que elas estão fazendo, Mãe Sara? — perguntou Ágata.
— Ballet, querida. Coisa de gente delicada — Sara respondeu, embora seus olhos estivessem fixos nos movimentos elegantes de Eduarda. Havia uma beleza ali que Sara, com toda sua força e silicone, nunca conseguiria replicar. Era uma força que vinha de dentro, uma disciplina suave.
— Eu também quero usar saia rosa — Ágata anunciou, soltando a mão de Sara e caminhando até o centro da sala.
Maya parou de dançar e olhou para a irmã. O medo de costume estava lá, mas algo na empolgação do ballet a deixou mais corajosa.
— Você quer dançar comigo, Ágata? — perguntou Maya, estendendo a mãozinha.
Ágata hesitou, olhando para Sara em busca de aprovação. Sara apenas deu de ombros, fingindo desinteresse, mas Emanuel sorriu encorajadoramente.
— Vai lá, Ágata. A Duda ensina vocês duas.
Eduarda sorriu, sentindo que aquele era o momento de unir as meninas.
— Venha, Ágata. Vamos fazer o *plié*. Imaginem que vocês são flores se abrindo para o sol.
Pelos próximos trinta minutos, a sala de estar tornou-se um palco improvisado. Eduarda guiava as duas pequenas com uma paciência infinita. Ágata, com sua energia explosiva, tentava saltar mais alto do que deveria, enquanto Maya focava em manter a postura correta, seguindo cada instrução da mãe com uma devoção quase religiosa.
Emanuel observava as quatro — suas duas mulheres e suas duas filhas — e sentia que, apesar das mordidas no parque e dos gritos de Sara, havia uma harmonia possível.
— Veja, Sara — Emanuel comentou baixinho, aproximando-se da loira. — A Eduarda tem um jeito de trazer paz para essa casa que nenhum contrato ou administração consegue.
Sara olhou para ele, os olhos protegidos pelas lentes de contato coloridas.
— Ela é boa com as crianças, Emanuel. Eu admito. Mas não ache que eu vou virar uma "mãezinha doce" só porque elas estão usando tutu. Alguém tem que continuar sendo o dragão aqui para garantir que ninguém mais morda a nossa filha.
— Eu sei que você é o dragão — ele riu, abraçando-a por trás. — Mas até os dragões podem gostar de assistir a um ballet de vez em quando.
A aula terminou com as duas meninas exaustas e felizes, deitadas no tapete. Ágata parecia ter esquecido completamente a dor no braço, e Maya não estava mais se escondendo.
— Mamãe, amanhã tem mais? — perguntou Maya, os olhos pesados de sono.
— Amanhã e todos os dias que você quiser, meu amor — Eduarda respondeu, começando a desamarrar as sapatilhas da filha.
Naquela noite, após as crianças dormirem, Emanuel e Eduarda ficaram na varanda. O silêncio da cidade era apenas quebrado pelo som distante do trânsito.
— Você acha que a Sara vai criar problemas por causa do ballet? — perguntou Eduarda.
— Acho que ela vai querer comprar uma escola de dança inteira só para a Ágata ser a primeira bailarina — Emanuel brincou. — Mas ela respeita você, Duda. Do jeito torto dela, ela respeita. Ela viu hoje que a Maya tem algo que a Ágata precisa aprender: calma.
— E a Ágata tem algo que a Maya precisa: coragem — Eduarda completou. — Se elas crescerem juntas assim, talvez se tornem mulheres incríveis.
— Elas já são incríveis — disse Emanuel, puxando-a para um beijo demorado. — E você é a alma dessa casa. Nunca se esqueça disso.
Eduarda sorriu, sentindo-se finalmente em casa. A mudança para a cobertura de Emanuel, oito meses atrás, fora um desafio monumental. A convivência com Sara ainda era um campo minado, e as personalidades opostas das gêmeas exigiam um jogo de cintura constante. Mas ali, entre sapatilhas de cetim e marcas de dentes, entre o silêncio da arte e o barulho do caos, ela encontrava seu lugar.
Ela sabia que amanhã Sara provavelmente reclamaria de novo, que Ágata tentaria mandar em Maya e que Emanuel estaria estressado com os estúdios. Mas ela também sabia que, quando a música começasse a tocar na sala de ensaios, todas as diferenças se dissipariam por alguns instantes. E para Eduarda, esses instantes de beleza eram o que faziam todo o resto valer a pena. A vida com Emanuel era uma dança complexa, cheia de passos errados e improvisos, mas enquanto ela tivesse o ritmo do afeto para guiá-la, ela não tinha medo de tropeçar.