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A Alquimia do Afeto e o Equilíbrio das Cores

A luz da manhã de domingo filtrava-se pelas cortinas de linho da cobertura, trazendo uma claridade que suavizava as arestas dos móveis minimalistas. O silêncio, raro naquela casa, não era o da tensão do dia anterior, mas o de uma trégua necessária. Emanuel estava na cozinha, operando a máquina de café com uma precisão quase cirúrgica. Ele não tinha dormido bem, mas o peso em seus ombros parecia mais distribuído.

A porta do corredor se abriu e Eduarda apareceu, carregando Maya no colo. A menina ainda esfregava os olhos, o pijama de algodão doce com pequenas nuvens fazendo-a parecer uma pintura de aquarela. Emanuel sentiu um aperto de ternura no peito. Ontem, ele vira o abismo; hoje, ele queria construir a ponte.

— Bom dia — sussurrou Eduarda, aproximando-se da bancada. — Maya quer um pouco de leite morno.

— Bom dia — Emanuel respondeu, pegando a pequena do colo da mãe por um momento. — Dormiu bem, meu grudinho?

Maya assentiu, encostando a cabeça no ombro do pai.

— Papai... a gente vai desenhar hoje? — a voz dela era um fiozinho de esperança.

— Vamos sim. Mas antes, a mamãe Eduarda tem uma surpresa para vocês — disse Emanuel, olhando para Eduarda com um sorriso cúmplice.

Eduarda havia passado a noite em claro, não apenas remoendo a briga no shopping, mas buscando uma solução que Emanuel, com sua lógica de força, não conseguira enxergar. Ela sabia que Sara não aceitaria ser "vencida", e que Ágata, apesar da arrogância, ainda era uma criança que precisava de afeto, não de lições de moral rudes.

Sara apareceu na cozinha logo em seguida. Ela usava um conjunto de cetim preto e óculos escuros, mesmo dentro de casa. Ágata vinha logo atrás, de braços cruzados, o lábio inferior projetado em um bico de pura insatisfação.

— Espero que o café esteja forte, Emanuel — Sara disse, sentando-se à mesa sem olhar para Eduarda. — Minha cabeça está explodindo. E a Ágata acordou perguntando pela boneca que a "irmãzinha" quebrou.

Eduarda respirou fundo e caminhou até a sala, voltando com duas caixas grandes de papel kraft, amarradas com fitas de cetim — uma rosa e uma azul.

— Ágata, Maya... venham aqui — chamou Eduarda, colocando as caixas sobre o tapete da sala.

As duas meninas se aproximaram, a curiosidade vencendo a birra de Ágata e a timidez de Maya.

— Ontem foi um dia difícil — começou Eduarda, agachando-se para ficar no nível delas. — Mas as bonecas de cristal não são as únicas que brilham. Eu encomendei algo especial para vocês. São bonecas feitas por uma artesã, únicas no mundo. Não existe nenhuma igual a essas em nenhum shopping.

Ágata hesitou, mas a fita rosa era convidativa demais. Maya abriu a sua primeiro. Dentro da caixa azul, havia uma boneca de pano com rosto bordado à mão, cabelos de lã castanha e um vestido de camponesa cheio de detalhes em renda. Era macia, cheirosa e passava uma sensação de conforto imediato.

— Ela é fofinha, mamãe! — Maya exclamou, abraçando a boneca contra o peito. — Ela não quebra.

Ágata abriu a dela. A boneca rosa tinha cabelos loiros platinados, um vestido de tule brilhante e pequenas asinhas de fada. Era sofisticada, mas ainda assim, feita para ser abraçada, não para ser exibida em uma redoma.

— Ela tem brilho! — Ágata disse, os olhos se iluminando. Ela olhou para a boneca de Maya e depois para a dela. — A minha é uma fada.

— E a da Maya é uma camponesa — disse Eduarda, fazendo um carinho no rosto de Ágata. — Elas são amigas, assim como vocês.

Sara, que observava da cozinha, retirou os óculos escuros. O cinismo em seu rosto deu lugar a uma surpresa genuína. Ela esperava que Eduarda tivesse comprado algo apenas para Maya, para "vencer" a disputa de ontem. Ver que Eduarda pensara em Ágata com o mesmo carinho desarmou sua guarda de uma forma que Emanuel nunca conseguira.

— Quanto custou isso, Eduarda? — Sara perguntou, a voz menos ríspida.

— O valor não importa, Sara — respondeu Eduarda, levantando-se. — O que importa é que elas entendam que não precisam competir pelo que é único. Existe espaço para a doçura da Maya e para o brilho da Ágata.

Emanuel aproximou-se de Sara, colocando a mão em sua cintura.

— Ela tem razão, Sara. A Eduarda resolveu com lã e linha o que nós tentamos resolver com gritos e cartões de crédito.

Sara bufou, mas dessa vez foi um som de autocrítica.

— É... talvez — ela admitiu, caminhando até as filhas. — Ágata, o que se diz para a Tia Eduarda?

Ágata olhou para Eduarda, apertando a boneca de fada.

— Obrigada, Duda. Ela é mais bonita que a de cristal.

O clima na casa mudou instantaneamente. O "normal" estava sendo redefinido. Emanuel sentiu uma leveza que não experimentava há meses. A tarde seguiu com uma harmonia quase milagrosa. Emanuel cumpriu sua promessa e montou uma "estação de artes" na varanda gourmet.

Eduarda vestiu Maya com um conjunto que era a sua definição de beleza: uma jardineira de veludo cotelê verde-musgo sobre uma blusa de gola alta branca, com meias calças grossas e sapatinhos de verniz. O cabelo de Maya estava preso em duas pequenas tranças, deixando seu rosto doce em evidência. Ela parecia uma boneca antiga, clássica e atemporal.

Sara, por sua vez, vestiu Ágata como uma "mini diva" para o momento das artes: um conjunto de moletom de grife rosa choque, com pequenos cristais nos punhos e um laço enorme no topo da cabeça.

As duas meninas sentaram-se lado a lado, com telas brancas à frente. Emanuel distribuiu as tintas.

— Hoje não tem regra — anunciou Emanuel, pegando um pincel. — Pintem o que sentirem.

Maya começou a pintar flores suaves, misturando azul e branco com uma delicadeza que refletia a alma de Eduarda. Ágata mergulhou o pincel no dourado e no vermelho, fazendo traços fortes e vibrantes que preenchiam a tela com a energia de Sara.

— Olha, papai! — Ágata gritou, mostrando a mão suja de tinta dourada. — Eu sou de ouro!

— Você é incrível, Ágata — Emanuel riu, sujando a ponta do nariz da filha com tinta azul.

Sara e Eduarda sentaram-se nas espreguiçadeiras próximas, observando a cena. Sara segurava uma taça de vinho branco, enquanto Eduarda tomava um chá de camomila.

— Você é muito paciente, Eduarda — disse Sara, quebrando o silêncio. — Eu teria jogado aquela boneca quebrada na cabeça do vendedor se o Emanuel não estivesse lá.

— A paciência é a única coisa que eu tenho de sobra, Sara — Eduarda respondeu, olhando para as filhas. — Eu sei que você me acha fraca, ou lenta... mas eu só quero que elas cresçam sem esse peso de ter que ser "a melhor" o tempo todo.

Sara olhou para a própria taça, pensativa.

— Eu cresci precisando ser a melhor para ser notada. Meus pais não eram "modernos" como os seus. Eles eram competitivos. Eu trouxe isso para cá porque é o único jeito que eu conheço de sobreviver.

— Aqui você não precisa sobreviver, Sara — disse Eduarda, tocando levemente a mão da outra mulher. — Aqui você já é a rainha. O Emanuel te ama. Os estúdios dependem de você. Você não precisa apagar a luz da Maya para a Ágata brilhar.

Sara retirou a mão, mas não com grosseria. Ela apenas não estava acostumada com aquela vulnerabilidade.

— Você é muito benta, Eduarda. Às vezes dá vontade de te sacudir, sabia? Mas... as bonecas foram uma boa ideia. A Ágata não soltou a fada nem para pintar.

— Elas se sentem vistas — explicou Eduarda. — Quando damos algo que combina com a alma delas, elas não precisam brigar pelo objeto do outro.

Emanuel aproximou-se das duas, sentando-se no chão entre as espreguiçadeiras. Ele parecia um homem que acabara de sair de uma sessão de terapia intensiva, mas seus olhos brilhavam de satisfação.

— Elas terminaram as obras de arte — Emanuel anunciou. — Maya pintou um jardim. Ágata pintou... bom, Ágata pintou um dragão dourado que, segundo ela, é a Mãe Sara protegendo o castelo.

Sara soltou uma gargalhada genuína, o som preenchendo a varanda.

— Um dragão? Justo. Pelo menos ela me conhece bem.

Eduarda riu junto, e por um momento, a barreira entre as duas mulheres pareceu se dissolver em meio às risadas. Emanuel sentiu que aquele era o equilíbrio que ele buscava desde que pedira para Eduarda se mudar para lá, oito meses atrás. Não era uma convivência perfeita, nunca seria. Sempre haveria o choque entre a vulgaridade vibrante de Sara e a timidez doce de Eduarda, entre o comando administrativo de uma e o cuidado emocional da outra. Mas, se elas pudessem rir juntas de um dragão dourado, havia esperança.

— Eu estava pensando... — começou Emanuel, olhando para Eduarda. — Você ainda está preocupada com a faculdade, não está? Com o tempo que as meninas exigem?

— Um pouco — admitiu Eduarda. — Eu amo estar com a Maya, mas sinto falta de estudar História da Arte com calma.

— Eu posso te ajudar com a administração do seu tempo, Duda — Sara surpreendeu a todos ao dizer. — Eu sou ótima em planilhas e logística. Posso organizar uma escala para que você tenha suas tardes livres para a faculdade, e eu fico com as duas na empresa ou aqui com a babá. A Ágata precisa aprender a conviver com o ritmo mais calmo da Maya, e a Maya precisa aprender que o mundo não morde.

Eduarda olhou para Sara com os olhos arregalados.

— Você faria isso?

— Não se acostume — Sara disse, voltando à sua postura irônica. — Mas eu prefiro você formada e feliz do que andando pela casa com essa cara de quem vai desmaiar de cansaço a qualquer momento. Além disso, se você for uma curadora de sucesso, vai valorizar a imagem da nossa família.

Emanuel sorriu, sabendo que aquela era a forma de Sara de oferecer um ramo de oliveira.

— Então está decidido. Somos um time — disse Emanuel, levantando-se e estendendo as mãos para as duas.

O resto do domingo passou em uma calma atípica. Maya e Ágata brincaram juntas no tapete da sala com suas novas bonecas artesanais. Ágata fazia a fada voar sobre a "casa" da camponesa, e Maya ria das histórias inventadas pela irmã.

Eduarda observava de longe, sentindo que Maya estava ganhando uma confiança que não tinha antes. Vestida de forma tão fofinha, com suas tranças e sua jardineira, a menina parecia se sentir segura em sua própria pele, sem precisar imitar a estridência da irmã.

À noite, Emanuel levou Eduarda para a varanda privativa do quarto deles. O céu de São Paulo estava coalhado de luzes.

— Você salvou o final de semana, Duda — ele disse, abraçando-a por trás. — Eu estava pronto para entrar em guerra com a Sara, e você trouxe paz.

— A guerra nunca resolve nada com a Sara, Emanuel — Eduarda respondeu, encostando a cabeça no peito dele. — Ela só entende a linguagem do poder. Quando eu dei a boneca para a Ágata, eu tirei o poder da briga dela. Eu dei afeto, e contra o afeto ela não tem armas.

— Você é muito mais inteligente do que deixa transparecer — Emanuel murmurou, beijando seu pescoço. — Eu tenho muita sorte de ter vocês duas.

— Você tem um caos organizado, Emanuel — ela riu. — Mas acho que estamos aprendendo a lidar com as cores uns dos outros.

No quarto ao lado, Sara terminava de passar seus cremes caros diante do espelho. Ágata já dormia com a boneca de fada debaixo do braço. Sara olhou para a própria imagem — loira, marcada por procedimentos estéticos, sempre pronta para o combate — e depois olhou para a boneca de pano simples na cama da filha.

— É, Eduarda... — Sara sussurrou para si mesma. — Você pode ser tímida, mas é persistente.

Ela se deitou e, pela primeira vez em muito tempo, não sentiu a necessidade de conferir o celular ou planejar o próximo ataque. Havia uma boneca de pano na casa que quebrara a frieza do cristal, e Sara, em sua vulgaridade competente, sabia reconhecer quando uma nova estratégia — a do afeto — ganhava o jogo.

Naquela noite, a cobertura de Emanuel não era apenas um monumento ao sucesso e à riqueza. Era um lar. Um lar onde uma fada e uma camponesa dormiam juntas, onde um dragão dourado protegia o castelo e onde um tatuador, uma loira poderosa e uma morena doce finalmente entendiam que a beleza da vida, assim como a da arte, está na mistura improvável de todas as cores do espectro. O equilíbrio fora restaurado, e embora soubessem que novos desafios viriam, eles agora tinham as ferramentas — e as bonecas — certas para enfrentar qualquer tempestade.