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O Pulsar de um Novo Ritmo
O sol da tarde atravessava as janelas de vidro do chão ao teto da cobertura, iluminando a poeira que dançava no ar. Eduarda estava sentada no tapete macio do jardim de inverno, cercada por livros de artes e alguns brinquedos de madeira. Sua silhueta, antes esguia e leve como a de uma sílfide, agora carregava a curva proeminente de sete meses de gestação. Arthur, como já haviam decidido chamar o menino, parecia herdar a energia inquieta de Emanuel; ele não parava um segundo, chutando as costelas da mãe como se estivesse ensaiando para uma maratona.
— Ele está agitado hoje, não é, mamãe? — Maya sussurrou, aproximando-se com cuidado.
A pequena, agora com quase três anos, mantinha os mesmos cabelos castanhos e o olhar doce que herdara da genética, mas que todos diziam ser o reflexo da alma de Eduarda. Maya era a sombra da bailarina. Onde Eduarda estava, Maya estava um passo atrás, ou melhor, um braço acima, sempre buscando o colo que considerava seu porto seguro.
— Ele está querendo brincar, meu amor — Eduarda sorriu, sentindo um chute particularmente forte. — Acho que o Arthur vai ser um pouco mais barulhento que nós duas.
— Eu vou ensinar ele a dançar — Maya declarou, subindo com naturalidade no colo de Eduarda.
Eduarda não hesitou. Apesar do peso da barriga e do cansaço que se acumulava em suas pernas de bailarina, ela envolveu Maya em um abraço apertado, acomodando a menina sobre o quadril lateralmente para não pressionar o bebê. Para Eduarda, a gravidez de Arthur não mudava em nada o que sentia por Maya. Se algo mudara, fora a intensidade de seu instinto protetor. Ela sentia que precisava reafirmar a cada segundo para a pequena que o seu lugar no coração da "mamãe Duda" era inabalável.
— Maya, você está ficando pesada, pequena — Eduarda brincou, beijando o topo da cabeça da menina. — Mas a mamãe sempre tem espaço para você.
A porta de entrada da cobertura bateu com força, anunciando a chegada de Emanuel. O som dos passos firmes ecoou pelo mármore, e logo ele apareceu no arco do jardim de inverno. Ele ainda vestia a camisa social escura, com as mangas dobradas revelando as tatuagens que subiam pelos antebraços. Sua expressão, antes cansada pelo dia nos estúdios, endureceu instantaneamente ao ver a cena.
— Eduarda! — O tom de voz dele era uma mistura de autoridade e pânico contido. — O que eu falei sobre pegar a Maya no colo?
Eduarda suspirou, mas não soltou a menina. Pelo contrário, apertou-a um pouco mais.
— Emanuel, ela só tem três anos. Ela sente saudade.
— Ela tem pernas, Eduarda! — Emanuel caminhou até elas, a mão indo instintivamente para a testa em um gesto de frustração. — Você está no terceiro trimestre. O médico foi claro: repouso relativo, nada de esforço físico, nada de carregar peso. A Maya pesa quase quinze quilos! Você quer ter um descolamento de placenta ou entrar em trabalho de parto prematuro por causa de um capricho?
— Não é um capricho, é afeto — Eduarda rebateu, sua voz mantendo a suavidade, mas com uma nota de teimosia que ela só desenvolvera depois de morar com ele. — Eu sou bailarina, Emanuel. Meu corpo aguenta muito mais do que você imagina.
— Você *era* bailarina em tempo integral. Agora você é uma gestante de risco moderado porque não para quieta — Emanuel se abaixou e, com uma firmeza que não aceitava discussões, pegou Maya do colo de Eduarda. — Vem cá, Maya. Deixa a Duda descansar.
Maya começou a choramingar, escondendo o rosto no pescoço do pai, mas lançando um olhar de "socorro" para Eduarda.
— Viu o que você faz? — Eduarda se levantou com dificuldade, a mão nas costas. — Você a assusta. Ela acha que fez algo errado.
— Eu não a assusto, eu a protejo de você mesma — Emanuel retrucou, entregando Maya para a babá que aparecera ao ouvir o tumulto. — Leve ela para o lanche, por favor.
Quando ficaram a sós, o silêncio no jardim de inverno tornou-se denso. Emanuel observou Eduarda, que agora desviava o olhar, focando em uma planta qualquer. Ele a amava com uma intensidade que beirava a obsessão, e a chegada de um herdeiro homem, um "mini-Emanuel", havia despertado nele um instinto de controle que estava sufocando a casa.
— Eu faço isso porque amo vocês — ele disse, aproximando-se e tentando tocar o rosto dela. — Se algo acontecer com você ou com o Arthur porque eu fui negligente, eu nunca me perdoaria.
— Mas você está sendo negligente com os meus sentimentos, Emanuel — ela respondeu, afastando-se um passo. — Você me trata como um vaso de cristal que pode quebrar a qualquer momento. Eu me sinto prisioneira nesta cobertura. Sinto falta das minhas aulas, sinto falta de carregar a minha filha sem ouvir um sermão.
— A Maya é filha da Sara, Eduarda. Não se esqueça disso — as palavras saíram da boca de Emanuel antes que ele pudesse filtrá-las.
O impacto foi visível. Eduarda empalideceu, e seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente.
— Ela pode ter o sangue da Sara, mas ela é minha filha no coração. E você sabe disso melhor do que ninguém.
— Eu sei, me desculpe — Emanuel praguejou baixinho, tentando abraçá-la. — Eu só estou estressado. A Sara está sendo impossível na administração, a Ágata está em uma fase de rebeldia que eu não entendo, e eu só quero que aqui, com você, tudo seja perfeito e seguro.
— Nada é perfeito, Emanuel — Eduarda sussurrou, permitindo que ele a envolvesse, mas mantendo uma certa rigidez.
No andar de cima, Sara observava a cena pela balaustrada de vidro da escada. Ela usava um conjunto de cetim champanhe, os cabelos loiros impecavelmente alinhados. Ágata estava ao seu lado, segurando uma boneca de marca e observando a cena com o mesmo desdém que a mãe costumava demonstrar.
— Veja, Ágata — Sara disse em voz baixa, com um sorriso irônico nos lábios siliconados. — O seu pai está perdendo o juízo por causa da "santa Eduarda". Daqui a pouco ele vai colocar ela dentro de uma bolha de plástico.
— A Duda está gorda, mamãe — Ágata comentou, sem filtro. — E a Maya é uma boba por ficar chorando por colo. Eu não preciso de colo, eu preciso de um tablet novo.
Sara riu, acariciando o cabelo da filha. Ágata era exatamente o que ela queria: independente, fria e focada em bens materiais. Era o oposto de Maya, que Sara considerava uma "falha no sistema", uma criança sensível demais que parecia ter nascido da mulher errada.
— Vamos descer, Ágata. Vamos dar um pouco de "realidade" para esse drama familiar — Sara desceu as escadas, os saltos batendo ritmadamente. — Ora, ora... O casal real em mais uma DR sobre a saúde da gestante?
Emanuel soltou Eduarda, recompondo sua postura de controle.
— Sara, não comece.
— Eu não estou começando nada, querido — Sara caminhou até o bar e serviu-se de uma dose de uísque, ignorando o fato de ainda ser tarde. — Só acho hilário como você tenta controlar a Eduarda. Ela é uma bailarina, Emanuel. Elas são feitas de aço e sapatilhas de cetim. Deixe a menina carregar a Maya. Se o bebê cair, a gente faz outro.
— Sara! — Eduarda exclamou, horrorizada com a vulgaridade do comentário.
— O quê? É a verdade. Você está agindo como se fosse a primeira mulher a carregar um herdeiro — Sara deu um gole na bebida, olhando fixamente para a barriga de Eduarda. — Mas prepare-se. Meninos são diferentes. O Arthur vai chutar seu estômago até você pedir clemência. A Ágata foi uma lady na minha barriga, já a Maya... bem, a Maya já era manhosa antes de nascer.
— O Arthur vai ser um grande homem — Emanuel disse, a voz cheia de um orgulho possessivo. — Ele vai herdar os estúdios. Vai ser o meu braço direito.
— Se ele não for um artista sensível como a "mãe" dele — Sara provocou, piscando para Eduarda. — Imagine, Emanuel... um tatuador que tem medo de sangue e gosta de balé clássico.
Emanuel ignorou a provocação e voltou sua atenção para Eduarda.
— Vá deitar um pouco, Duda. Eu vou levar as meninas para o parque. A Sara vem comigo para ajudar com a Ágata.
— Eu não vou a parque nenhum, Emanuel — Sara retrucou. — Tenho uma reunião com os fornecedores de tintas da Alemanha em dez minutos. Leve a babá.
Emanuel cerrou os dentes. A dinâmica da casa estava se tornando um campo minado. De um lado, Eduarda desobedecia suas ordens médicas por puro instinto materno; do outro, Sara se esquivava de qualquer responsabilidade doméstica que não envolvesse o status ou o trabalho.
— Tudo bem — Emanuel disse, pegando a chave do carro. — Eduarda, prometa que vai ficar no sofá. Sem carregar a Maya, sem subir escadas.
— Eu prometo, Emanuel — ela mentiu, com um sorriso doce que ele sempre comprava como verdade.
Assim que o elevador privativo desceu com Emanuel e as meninas, a cobertura mergulhou em um silêncio tenso. Sara terminou seu uísque e olhou para Eduarda.
— Você sabe que ele só faz isso porque tem medo de te perder, não sabe? — O tom de Sara mudou subitamente para algo quase humano.
Eduarda olhou para ela, surpresa.
— Eu sei. Mas o medo dele está me sufocando.
— Homens como o Emanuel não sabem amar sem possuir, Duda. Eu aprendi isso cedo. Por isso eu foco no trabalho e no dinheiro. Se ele tentar me controlar, eu mostro o balanço financeiro e ele cala a boca. Mas você... você deu a ele o seu coração e agora o seu corpo com esse filho. Você é o alvo perfeito para o controle dele.
— Eu não sou um alvo, Sara. Eu sou a namorada dele.
— Você é a paz dele — Sara caminhou até a porta do escritório. — E a paz é a coisa mais fácil de se destruir quando se quer manter o poder. Boa sorte com o Arthur. Se ele puxar o pai, você nunca mais vai dormir em paz.
Sara entrou no escritório e fechou a porta. Eduarda ficou sozinha na sala imensa. Ela sentiu Arthur se mexer novamente, um movimento brusco que a fez perder o fôlego por um segundo. Ela caminhou até a varanda, ignorando a ordem de Emanuel de ficar no sofá.
Lá embaixo, a cidade fervilhava. Ela viu o carro de Emanuel saindo da garagem. Ela sabia que ele a amava, mas sentia que estava desaparecendo sob as camadas de proteção que ele impunha.
De repente, a porta do quarto das meninas se abriu. Maya apareceu, arrastando seu cobertor. Ela não tinha ido ao parque; Emanuel provavelmente a deixara com a babá no andar de cima e ela escapara.
— Mamãe Duda? O papai foi embora? — Maya perguntou, os olhos vermelhos de choro.
— Foi, meu amor. Vem cá.
Eduarda não pensou duas vezes. Ela se sentou na poltrona da varanda e estendeu os braços. Maya correu e subiu em seu colo. O peso da menina pressionou a barriga, e Arthur protestou com um chute vigoroso, mas Eduarda apenas sorriu.
— A gente não conta para o papai, está bem? — Eduarda sussurrou no ouvido de Maya.
— É o nosso segredo — Maya concordou, aninhando-se.
Naquela tarde, Eduarda desobedeceu a todas as regras. Ela carregou Maya, ela dançou passos lentos pela sala com a menina nos braços, ela sentou-se no chão para brincar de boneca. Ela sentia que cada momento de proximidade com Maya era uma vitória contra a rigidez de Emanuel e a frieza de Sara.
Quando a noite caiu, Eduarda estava exausta, mas feliz. Ela colocou Maya para dormir e voltou para o quarto principal. Emanuel chegou pouco depois, parecendo mais calmo.
— Você descansou? — ele perguntou, aproximando-se da cama onde ela estava deitada.
— Sim, Emanuel. O dia foi muito calmo — ela mentiu novamente, sentindo o peso da culpa, mas a satisfação da liberdade.
Emanuel deitou-se ao lado dela e colocou a mão sobre a barriga proeminente. Quase instantaneamente, Arthur chutou exatamente onde a mão do pai estava.
— Ele é forte — Emanuel sorriu, um brilho de orgulho nos olhos. — Ele vai ser o nosso protetor, Duda.
— Ou talvez ele só queira que a gente o deixe ser quem ele quiser ser — Eduarda comentou, fechando os olhos.
— Ele vai ser o melhor de nós dois — Emanuel insistiu, beijando o ombro dela. — Eu vou garantir que nada falte a ele. E que nada aconteça com você.
Eduarda não respondeu. Ela sabia que a batalha entre o controle dele e a liberdade dela estava longe de terminar. Arthur seria o novo elemento nesse tabuleiro, um menino que já demonstrava ter a força do pai e a sensibilidade da mãe.
Na madrugada, Eduarda acordou com uma leve dor nas costas. Ela se levantou silenciosamente e foi até o quarto de Maya. A menina dormia profundamente. Eduarda sentou-se na beira da cama e observou a filha. Ela percebeu que, não importava quantos filhos tivesse com Emanuel, Maya sempre seria o seu primeiro despertar para a maternidade.
Ela sentiu um chute suave de Arthur. Era como se o bebê estivesse conversando com ela.
— Você vai ser diferente, pequeno — ela sussurrou para a barriga. — Você vai aprender que o amor não precisa de grades.
Ela voltou para o quarto e encontrou Emanuel sentado na cama, observando a porta.
— Você saiu da cama — ele disse, a voz num tom baixo e perigoso.
— Eu fui ver a Maya, Emanuel. Só isso.
— Eu te disse para não se levantar à noite. O chão pode estar escorregadio, você pode ficar tonta.
— Eu estou grávida, Emanuel, não inválida! — O grito dela ecoou pelo quarto, silenciando-o. — Se você continuar assim, eu vou voltar para a casa dos meus pais até o Arthur nascer.
Emanuel empalideceu. A ameaça de Eduarda era a única coisa que realmente o atingia. O medo de perder o seu "porto seguro" era maior do que o seu desejo de controle.
— Tudo bem — ele disse, levantando as mãos em sinal de rendição. — Me desculpe. Eu vou tentar... diminuir a pressão.
— Tente de verdade, Emanuel. Porque eu não vou deixar de ser mãe da Maya para ser apenas a incubadora do Arthur.
Emanuel assentiu, puxando-a para os seus braços. Ele a apertou com força, como se temesse que ela desaparecesse no ar. Eduarda relaxou, mas sua mente já planejava o dia seguinte. Ela sabia que, pela manhã, Maya pediria colo novamente. E ela sabia que, independentemente das ordens de Emanuel ou dos comentários de Sara, ela abriria os braços.
Porque naquela cobertura de luxo, cercada de tatuagens, dinheiro e ambição, a única coisa que realmente mantinha as paredes de pé era o amor teimoso e desobediente de uma bailarina que se recusava a parar de dançar, mesmo carregando o peso de um novo mundo dentro de si. Arthur continuava a chutar, um ritmo constante e vibrante, como se estivesse batendo palmas para a coragem da mãe. E no silêncio da noite, Eduarda finalmente dormiu, sonhando com palcos onde não havia cercas, apenas o infinito para ela e seus filhos voarem.