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Névoa sobre o Castelo e Lágrimas de Cristal

A luz cinzenta de uma manhã de terça-feira filtrava-se pelas janelas da cobertura, mas o clima dentro do apartamento estava longe de ser monótono. Sobre a mesa de jantar, um envelope de papel texturizado, com o timbre dourado da Royal Scottish Academy, repousava como uma bomba prestes a detonar.

Eduarda estava sentada em uma das cadeiras de veludo, as mãos escondidas entre as coxas, observando Emanuel ler o documento pela terceira vez. Ao lado dele, Sara, usando um robe de seda carmesim e segurando uma xícara de café expresso, lia o papel por cima do ombro do namorado, com os olhos estreitados.

— Edimburgo? — Emanuel finalmente quebrou o silêncio, sua voz soando mais grave do que o normal. — Um espetáculo solo como convidada de honra no Festival de Inverno?

— É uma oportunidade única, Emanuel — disse Eduarda, a voz trêmula, mas carregada de uma determinação que ela raramente mostrava. — Eles viram o vídeo da minha apresentação no Municipal. Disseram que meu estilo é "etéreo e necessário".

— Necessário para quem, querida? Para os escoceses que morrem de frio ou para a sua carreira que mal começou a decolar aqui? — Sara interveio, deixando a xícara sobre a mesa com um estalo seco. — Estamos no meio da expansão dos estúdios na Europa. Emanuel mal tem tempo de respirar e você quer atravessar o oceano para dançar entre castelos?

— Não é só sobre dançar, Sara. É sobre quem eu sou — Eduarda levantou-se, enfrentando o olhar irônico da loira. — Eu passei os últimos meses sendo a "segunda namorada", a mediadora de conflitos, a mãe que acalma as crises. Eu preciso ser a bailarina de novo.

Emanuel levantou-se e caminhou até a janela, observando o horizonte da cidade. Ele sentia o peso do controle escorregar por entre seus dedos. Ele a queria ali, sob suas asas, segura na cobertura que ele construíra para ser o ninho de sua família complexa. A ideia de Eduarda em outro continente, cercada de admiradores e artistas, fazia seu estômago revirar de uma forma que ele não gostava de admitir: ciúme puro e possessivo.

— Por quanto tempo? — perguntou ele, sem se virar.

— Três semanas de ensaio e uma semana de apresentações — respondeu Eduarda.

— Um mês — murmurou Emanuel. — Um mês sem você nesta casa. Você tem noção do caos que isso vai causar?

— Eu posso ajudar, Emanuel! — A voz pequena e estridente veio do corredor.

Maya estava parada ali, abraçada à sua boneca de porcelana, Clara. Seus olhos castanhos estavam arregalados, e ela claramente ouvira o suficiente para entender que sua "mamãe Duda" estava planejando uma partida.

— Maya, volte para o quarto com a babá — ordenou Sara, mas a menina ignorou a mãe biológica completamente.

Maya correu em direção a Eduarda, agarrando-se às suas pernas com uma força surpreendente para uma criança de dois anos.

— Mamãe Duda vai viajar? — perguntou a menina, o lábio inferior começando a tremer.

— É por pouco tempo, meu amor... — Eduarda ajoelhou-se para ficar na altura da filha.

— Eu vou junto! — declarou Maya, batendo o pé. — Eu vou com a mamãe!

— Não, Maya. Você não vai — disse Emanuel, virando-se com a expressão gélida. — Você tem sua rotina aqui. Tem a escola, tem a Ágata, tem a sua mãe Sara. Edimburgo é frio e a Eduarda vai estar trabalhando o dia todo.

Maya soltou um grito de protesto, um som agudo que fez Sara tapar os ouvidos.

— Não! Papai mau! Eu vou com a mamãe Duda! Se ela for, eu vou!

— Veja só o que você criou, Eduarda — Sara disse, cruzando os braços e observando a cena com amargura. — Você mimou tanto essa menina que ela não consegue passar cinco minutos sem o seu cheiro. Agora você quer ir embora e deixar o "presente" para eu lidar.

— Eu não fiz isso de propósito, Sara! — Eduarda exclamou, sentindo as lágrimas arderem. — Eu amo a Maya. E dói em mim também deixá-la.

— Então não vá — Emanuel foi prático e cortante. — Eu financio um espetáculo para você aqui. Alugo o teatro que você quiser. Contrato a melhor orquestra. Mas você fica.

Eduarda olhou para Emanuel, sentindo uma mistura de amor e repulsa pela forma como ele achava que o dinheiro poderia comprar seus sonhos.

— Você não entende, não é? Não se trata de dinheiro, Emanuel. Trata-se de mérito. Eles me convidaram. Eles me querem. Se você me impedir de ir, você não vai estar me protegendo. Vai estar me matando por dentro.

O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pelos soluços de Maya, que agora escondia o rosto no ombro de Eduarda. Ágata apareceu na porta, observando tudo com seu habitual ar de superioridade, mas havia uma sombra de incerteza em seus olhos loiros.

— Se a Maya for, eu também vou? — perguntou Ágata. — Eu quero ver o castelo da Frozen.

— Ninguém vai para lugar nenhum! — Sara explodiu. — Emanuel, faça alguma coisa! Você é o homem desta casa ou vai deixar uma bailarina de vinte anos e um bebê de dois ditarem o ritmo da sua vida?

Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda, e finalmente para Maya. Ele viu o desespero na filha menor e a chama de independência na mulher que ele amava. Ele sabia que, se proibisse Eduarda, ela ficaria, mas o ressentimento seria o fim do relacionamento deles.

— Tudo bem — disse Emanuel, sua voz soando como uma derrota pesada. — Você vai para Edimburgo.

Eduarda sentiu um alívio imenso, mas Emanuel ainda não terminara.

— Mas a Maya vai com você.

— O quê?! — Sara gritou, quase derrubando sua xícara. — Emanuel, você ficou louco? Mandar um bebê para o outro lado do mundo com uma garota que vai passar doze horas por dia em um palco?

— Eu vou contratar uma equipe — Emanuel disse, ignorando a fúria de Sara. — Uma babá bilíngue, um segurança e um motorista particular em Edimburgo. Vou alugar uma casa, não um hotel. Se a Eduarda quer ser uma estrela, ela vai ser uma estrela com a filha ao lado. Eu não vou aguentar a Maya chorando pelos cantos desta casa por um mês. Vai ser pior para todos nós.

— E eu? — perguntou Sara, a voz carregada de um ciúme que ela tentava disfarçar com indignação. — Eu fico aqui com a Ágata enquanto vocês brincam de família perfeita na Escócia?

— Você tem o trabalho, Sara. Os estúdios precisam de você. E eu vou ficar indo e vindo. Vou passar dez dias lá, cinco aqui. — Emanuel caminhou até Eduarda e tocou seu rosto. — É o meu preço, Duda. Se você quer ir, leva o nosso grudinho. Eu não confio em ninguém mais para cuidar dela do que em você.

Eduarda abraçou Emanuel, sentindo o peso da responsabilidade. Ela queria o palco, mas agora teria que equilibrar o papel de prima-donna com o de mãe em tempo integral em um país estrangeiro.

— Eu aceito — sussurrou ela.

— Eu vou com a mamãe Duda! — Maya comemorou, limpando as lágrimas no vestido de Eduarda e lançando um olhar triunfante para Sara.

Sara soltou um suspiro longo e dramático, virando as costas e caminhando em direção ao seu quarto de vestir.

— Ótimo. Façam as malas. Espero que o frio da Escócia congele esse sentimentalismo todo. Ágata, venha comigo. Vamos comprar sapatos novos, já que aparentemente somos as únicas que sobraram nesta cidade.

Duas semanas depois, o frio cortante de Edimburgo recebia o pequeno comitê de Emanuel. A cidade era um cenário de conto de fadas sombrio, com suas pedras escuras e a névoa que descia do castelo. A casa que Emanuel alugara ficava em New Town, uma construção georgiana com lareiras de mármore e janelas imensas.

Os primeiros dias foram um caos de adaptação. Enquanto Eduarda passava as manhãs e tardes no teatro, Maya ficava sob os cuidados de uma babá escocesa rigorosa, mas a menina só se acalmava quando Eduarda voltava, cheirando a pó de resina e suor.

— Mamãe, olha! Neve! — Maya apontava para a janela, fascinada com os flocos brancos que começavam a cair.

— É lindo, não é, meu amor? — Eduarda a trazia para perto da lareira. — Amanhã a mamãe tem o ensaio geral. Você quer ir ver?

— Quero! Quero ver a Duda voar!

No dia do ensaio geral, o teatro estava gélido. Emanuel havia chegado de viagem naquela manhã, parecendo exausto, mas presente. Ele sentou-se na primeira fila da plateia vazia, com Maya em seu colo. A menina usava um casaco de lã grosso e luvas presas por um cordão, segurando sua boneca Clara.

As luzes se apagaram e a orquestra começou a tocar uma melodia melancólica de harpas e violinos. Quando Eduarda entrou no palco, sob uma luz azulada que simulava o luar, o tempo pareceu parar. Ela dançava o "Sonho de uma Noite de Inverno", uma peça criada especialmente para ela.

Emanuel observava, hipnotizado. Ele via em Eduarda uma força que nunca notara na segurança da cobertura. Ali, sob o julgamento da luz e do silêncio, ela era absoluta.

— Ela é linda, né, papai? — sussurrou Maya, com os olhos brilhando.

— É sim, pequena. Ela é a coisa mais linda que o papai já viu.

No entanto, a pressão do espetáculo começou a cobrar seu preço. Eduarda estava exausta. O fuso horário, as noites mal dormidas com Maya — que estranhava o som do vento nas janelas antigas — e a dieta rigorosa de bailarina a deixavam pálida.

Na noite anterior à estreia, Emanuel encontrou Eduarda sentada no chão da cozinha da casa alugada, massageando os pés inchados e chorando baixinho.

— Duda? O que foi? — Ele ajoelhou-se ao lado dela, preocupado.

— Eu não sei se consigo, Emanuel. A crítica escocesa é impiedosa. Eu ouvi os diretores comentando que eu pareço "frágil demais" para o papel principal. E a Maya... ela sentiu febre hoje à noite. Eu me sinto uma mãe horrível por estar aqui focada em passos de dança enquanto ela sofre com o frio.

— Você não é uma mãe horrível — disse Emanuel, tirando as mãos dela e ele mesmo começando a massagear os pés da bailarina. — Você é uma mulher tentando ter tudo. E você vai ter. A febre da Maya já passou, foi só uma reação ao clima. E sobre os diretores... eles não te conhecem. Eles não viram você enfrentar a Sara todos os dias. Isso sim exige força.

Eduarda soltou uma risada fraca, limpando o rosto.

— A Sara me mandou uma mensagem hoje. Disse que a Ágata ganhou um concurso de beleza infantil no clube e que o apartamento está "silencioso demais e insuportavelmente chato" sem o choro da Maya.

— Isso é o jeito da Sara dizer que está com saudades — Emanuel sorriu. — Ela nunca vai admitir, mas ela sente falta do caos que vocês duas trazem.

A noite da estreia chegou. O teatro estava lotado com a elite de Edimburgo, homens de kilt e mulheres em vestidos de gala. Nos bastidores, Eduarda sentia que suas pernas eram feitas de gelatina.

— Você está pronta — disse Emanuel, aparecendo no camarim. Ele estava impecável em um smoking, mas suas mãos estavam frias. — A Maya está no camarote com a babá. Ela prometeu que vai jogar flores de papel que ela mesma recortou.

— Emanuel... — Eduarda o segurou pela gola do paletó. — Obrigada por me deixar vir. Por não ter me quebrado.

— Eu nunca te quebraria, Duda. Eu só tenho medo de que você voe tão alto que se esqueça do caminho de volta para mim.

— Eu nunca esqueceria. Você é o meu chão.

O espetáculo foi um triunfo. Eduarda flutuava pelo palco, cada salto era uma declaração de independência, cada giro era um tributo à sua própria essência. No final, quando a última nota silenciou, o teatro explodiu em aplausos.

Do camarote, uma chuva de recortes de papel colorido caiu sobre o palco.

— Mamãe Duda! Mamãe Duda! — O grito de Maya ecoou por cima dos aplausos, fazendo o público rir e se emocionar.

Eduarda olhou para cima e viu a filha debruçada no parapeito, sendo segurada por Emanuel. Ela fez uma reverência profunda, as mãos no coração, e depois apontou para a menina, compartilhando sua glória com o pequeno ser que a fizera não desistir.

Naquela noite, após a festa de recepção, eles voltaram para a casa georgiana. Maya já dormia nos braços de Emanuel, exausta de tanta emoção. Ele a colocou na cama e voltou para a sala, onde Eduarda o esperava com uma taça de vinho diante da lareira.

— Conseguimos — disse ela, encostando a cabeça no ombro dele.

— Você conseguiu — corrigiu Emanuel. — Eu apenas fui o espectador privilegiado.

O telefone de Eduarda vibrou sobre a mesa. Era uma chamada de vídeo de Sara. Ela atendeu, e a imagem de Sara apareceu, usando uma máscara facial de ouro e bebendo espumante.

— Eu vi os vídeos no Instagram da academia — disse Sara, sem preliminares. — Você não estava horrível, Eduarda. Na verdade, aquele salto no segundo ato foi quase... aceitável.

— Obrigada, Sara — Eduarda sorriu, conhecendo os códigos da loira.

— A Ágata quer falar com a Maya. Ela disse que o quarto delas está com cheiro de "vazio" e que ela não tem mais ninguém para chamar de chata. Voltem logo. O Emanuel é um péssimo administrador de crises domésticas quando você não está aqui para amolecer o coração dele.

— Voltaremos em uma semana, Sara — prometeu Eduarda.

— Ótimo. Porque eu marquei um ensaio fotográfico para as gêmeas em uma revista de moda e eu preciso que a Maya não esteja com essa cara de "camponesa escocesa" que ela provavelmente adquiriu aí.

Sara desligou, e Emanuel soltou uma gargalhada, puxando Eduarda para um beijo longo e apaixonado.

— Ela está certa em uma coisa — disse Emanuel contra os lábios dela. — A casa está vazia sem vocês. Mas eu aprendi uma coisa nesta viagem.

— O quê?

— Que eu não preciso te prender para você ser minha. Eu só preciso estar na primeira fila para te ver voar.

Eduarda sorriu, sentindo o calor da lareira e o amor de Emanuel. Lá fora, a neve de Edimburgo continuava a cair, cobrindo o mundo de branco, mas dentro daquela casa, o fogo daquela família improvável ardia mais forte do que nunca. A bailarina e o tatuador, entre o silêncio e o barulho, entre o algodão e o couro, haviam finalmente encontrado o seu ritmo. E Maya, em seus sonhos, continuava a voar junto com sua mamãe, sobre castelos de pedra e oceanos de cristal.