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O Peso da Herança e o Brilho da Birra
A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas de linho da suíte principal, mas para Eduarda, cada raio de sol parecia uma agulha cutucando suas têmporas. Ela estava encolhida sob o edredom de fios egípcios, sentindo o abdômen latejar em cólicas rítmicas que pareciam querer expulsar sua alma junto com o revestimento do útero. Estar menstruada sempre fora um martírio para ela, mas naquela configuração de casa, o repouso era um conceito abstrato.
— Mamãe Duda! Acorda, fada! — O sussurro animado veio acompanhado de um peso súbito sobre suas pernas.
Maya, com seus cachos castanhos bagunçados e o pijama de ursinhos, escalava a cama com a determinação de um alpinista. Ela não entendia por que sua pessoa favorita no mundo ainda estava enterrada sob as cobertas às nove da manhã.
— Oh, meu amor... — Eduarda murmurou, a voz rouca, sem conseguir abrir os olhos. — A mamãe Duda está com um dodói na barriga hoje. Deixa eu ficar só mais um pouquinho assim?
— Eu cura! — Maya declarou, sentando-se exatamente em cima do ventre de Eduarda e começando a dar tapinhas rítmicos, acreditando piamente em seus poderes medicinais.
Eduarda soltou um gemido abafado, a dor latejando com o impacto. Antes que pudesse reagir, a porta do quarto se abriu com um estrondo. Sara entrou, já pronta para o dia, usando um conjunto de ginástica de oncinha tão justo que parecia pintado no corpo, e segurando um copo térmico de café.
— Emanuel já saiu para o estúdio de Madri por videoconferência e você ainda está nesse estado, Duda? — Sara perguntou, a voz vibrante demais para o ambiente fúnebre do quarto. — Maya, saia de cima dela. A "mamãe" está no modo de manutenção mensal.
— Ela tá dodói, mãe Sara — explicou Maya, sem se mexer.
— Eu sei, querida. É o drama biológico feminino. — Sara caminhou até a cama e, com uma mão, içou Maya para o chão. — Vamos, Maya. Deixe a Eduarda sofrer em silêncio. Ágata já está lá embaixo exigindo panquecas de chocolate e a babá está quase pedindo demissão.
Eduarda finalmente espiou por cima do lençol, os olhos castanhos marejados pela dor e pelo cansaço.
— Desculpe, Sara... Eu realmente não estou conseguindo levantar.
Sara deu de ombros, mas seu olhar suavizou por um milésimo de segundo.
— Tome um remédio forte e não morra. Vou tentar manter as feras longe até o almoço. Mas não prometo nada, a Ágata acordou com o espírito da Naomi Campbell hoje.
O resto da manhã foi um borrão de dor e sono interrompido. Emanuel ligou três vezes, preocupado, prometendo trazer chocolate belga e uma bolsa de água quente nova, mas Eduarda só conseguia pensar em uma coisa: o silêncio da casa de seus pais. Ela sentia falta do cheiro de incenso de sua mãe e das conversas calmas de seu pai sobre arquitetura.
Dois dias depois, quando a tempestade hormonal finalmente cedeu, Eduarda decidiu que precisava de um respiro. Emanuel, sentindo-se culpado por ter sido tão rígido sobre a mudança, autorizou a visita, desde que ele mesmo as levasse.
— Eu volto para buscar vocês às seis — Emanuel disse, beijando a testa de Eduarda enquanto estacionava o SUV em frente ao sobrado charmoso dos sogros. — Tente não deixar seus pais te convencerem a ficar por lá, Duda. Eu já me acostumei com você ocupando o lado esquerdo da cama.
— É só uma visita, Emanuel — ela riu, sentindo-se leve pela primeira vez em dias.
Maya e Ágata saltaram do carro. Maya correndo para os braços de Helena, a avó, e Ágata caminhando com as mãos na cintura, analisando o jardim como se fosse uma inspetora de luxo.
— Vovó, por que sua casa tem tantas plantas? — Ágata perguntou, franzindo o narizinho loiro. — No prédio do papai tem mármore. Mármore é mais chique.
— As plantas ajudam a casa a respirar, querida — Helena respondeu, beijando a bochecha da neta esnobe com paciência. — Entre, vamos lanchar.
A tarde passou entre risos e o conforto da nostalgia. Eduarda sentou-se na varanda com o pai, Ricardo, bebendo um suco natural enquanto observava as meninas brincarem no quintal. Ágata tentava ensinar Maya a desfilar, mas Maya estava mais interessada em seguir uma fileira de formigas.
— Você parece mais cansada, filha — Ricardo comentou, observando o rosto da filha.
— É só a rotina, pai. A Sara é... intensa. E o Emanuel quer controlar até o meu horário de sono. Mas eu estou aprendendo a navegar entre eles.
— Temos algo para você — Helena disse, saindo de dentro da casa com uma caixa de madeira antiga. — Estávamos arrumando o sótão e achamos isso.
Ela abriu a caixa e tirou uma boneca de porcelana de traços delicados, vestida com um traje de camponesa francesa, com cabelos de fios reais e olhos de vidro que pareciam brilhar.
— Minha boneca... — Eduarda sussurrou, estendendo as mãos. — A "Clara". Eu achei que tinha perdido ela na mudança para a faculdade.
— Guardamos para um momento especial — disse Helena. — E achamos que a Maya ia adorar ter algo que foi seu.
Maya, que percebera o movimento, aproximou-se curiosa. Quando viu a boneca, seus olhos se iluminaram de uma forma que Eduarda nunca vira.
— Pra mim, mamãe Duda?
— Sim, meu amor. Essa boneca era da mamãe quando eu era pequena como você. O nome dela é Clara. Você tem que cuidar dela com muito carinho, porque ela é de porcelana e pode quebrar.
Maya pegou a boneca como se estivesse segurando um tesouro sagrado. Ela a abraçou com delicadeza, sentando-se no degrau da varanda e começando a sussurrar para o brinquedo.
— Eu vou te dar banho de mentira e a gente vai dormir juntas, Clara.
O momento de paz, no entanto, durou exatamente três minutos. Ágata, que estava ocupada tentando tirar uma selfie com o celular desligado da avó, percebeu a novidade. Ela se aproximou, os olhos azuis fixos na boneca antiga.
— Que boneca é essa? — Ágata perguntou, o tom de voz já subindo uma oitava.
— É a Clara, Ágata. Era da mamãe Duda — explicou Maya, sem soltar o brinquedo.
— Eu quero — Ágata declarou, estendendo a mão de forma imperativa. — Ela é bonita. Combina com o meu vestido. Maya, me dá.
— Não! — Maya disse, com uma firmeza incomum, encolhendo-se sobre a boneca. — A vovó deu pra mim. É da mamãe Duda.
Ágata parou, chocada com a negativa. Em casa, ela raramente ouvia "não", especialmente de Maya, que sempre cedia aos seus caprichos para evitar conflito.
— Mas eu sou a irmã mais velha! — Ágata gritou, começando a bater o pé no chão. — E eu sou mais bonita! Bonecas bonitas ficam comigo! Mãe! Papai! Eu quero a boneca!
— Ágata, pare com isso — Eduarda interveio, levantando-se. — Seus avós têm outros brinquedos aqui. Essa boneca é um presente especial para a Maya porque ela tem o mesmo jeitinho que eu tinha. Ela vai cuidar bem.
— Não é justo! — Ágata explodiu. Ela se jogou no chão da varanda, iniciando uma birra cinematográfica que faria Sara sentir orgulho da dramaticidade. — Eu quero a boneca velha! Eu quero agora!
Nesse momento, o SUV de Emanuel encostou no portão. Ele desceu do carro e caminhou em direção à varanda, deparando-se com a cena: Ágata gritando no chão, Maya abraçada à boneca como se estivesse em uma zona de guerra e Eduarda com a mão na testa, claramente estressada.
— O que está acontecendo aqui? — Emanuel perguntou, a voz firme.
— Papai! A Maya roubou a minha boneca! — mentiu Ágata, levantando-se e correndo para se agarrar às pernas do pai, chorando lágrimas de crocodilo.
— Ela não roubou, Emanuel — explicou Eduarda, tentando manter a calma. — Meus pais deram a ela a minha boneca de infância. É uma herança de família.
Emanuel olhou para a boneca de porcelana nos braços de Maya e depois para a fúria loira que era Ágata. Ele suspirou. Ele detestava ver Ágata sofrer, mas também sabia que Maya raramente pedia algo para si.
— Ágata, se a boneca era da Eduarda, ela decide para quem dar — Emanuel tentou mediar. — Eu te levo na loja de brinquedos amanhã e compro a maior boneca que você encontrar. Aquela que fala e anda, o que você quiser.
— Eu não quero a da loja! — Ágata gritou, o rosto vermelho. — Eu quero a que a Maya tem! Se ela tem, eu tenho que ter também!
A porta do carro ainda estava aberta, e Sara, que decidira vir junto com Emanuel para buscar as meninas, saiu do veículo atraída pelos gritos. Ela subiu a pequena escada da varanda com um ar entediado.
— Que escândalo é esse? Dá para ouvir os gritos da Ágata lá da esquina — Sara comentou, ajeitando os óculos escuros.
— A Eduarda deu uma boneca velha para a Maya e não quer dar uma para a Ágata — resumiu Emanuel, simplificando demais a situação.
Sara olhou para a boneca de porcelana. Seus olhos de administradora avaliaram o objeto.
— É uma antiguidade, Emanuel. Provavelmente vale uma nota em um leilão de colecionadores — Sara comentou, antes de olhar para a filha loira. — Ágata, pare de chorar. Essa boneca é feia, parece assombrada. Eu vou te comprar uma Barbie de edição limitada que brilha no escuro.
— Eu não quero Barbie! — Ágata soluçou, jogando-se novamente no chão. — Eu quero a Clara!
Eduarda sentiu a raiva começar a borbulhar. Era sempre assim. Sara tentava comprar o silêncio de Ágata, e Emanuel tentava evitar o conflito cedendo à vontade da filha que mais gritava.
— Ela não vai levar a boneca, Sara — Eduarda disse, a voz firme, surpreendendo a todos. — A Maya é apegada às minhas coisas. Ela sente o valor emocional. A Ágata só quer porque viu que a irmã está feliz com algo. Não é sobre a boneca, é sobre controle.
Sara arqueou uma sobrancelha, impressionada com a ousadia de Eduarda.
— Ora, ora... A bailarina criou garras?
— Eu só estou defendendo o que é justo — Eduarda retrucou, pegando Maya pela mão. — Vamos para o carro, Maya. Segure a Clara com cuidado.
Maya caminhou protegida por Eduarda, passando por Ágata, que ainda soluçava no chão. Emanuel olhou para Sara, esperando que ela fizesse algo, mas Sara apenas deu de ombros.
— Ela tem razão, Emanuel. A Ágata está sendo uma mimada insuportável hoje. Deixe ela chorar. O asfalto está quente, logo ela levanta.
Emanuel pegou Ágata no colo, apesar dos protestos e dos tapas fracos que a menina dava em seus ombros. O trajeto de volta para casa foi marcado por um silêncio tenso. Ágata estava amuada no canto, olhando pela janela com um bico imenso. Maya estava no outro canto, sussurrando para a boneca de porcelana, alheia ao drama da irmã.
Quando chegaram à cobertura, Ágata correu para o seu quarto e bateu a porta. Sara foi direto para o bar preparar um drinque.
— Aquela tarde na casa dos seus pais foi um erro — comentou Sara, servindo-se de gim. — Agora vou ter que aguentar a mini diva de mau humor a semana toda.
— O erro não foi a visita, Sara — Emanuel disse, sentando-se no sofá e puxando Eduarda para o seu lado. — O erro é a Ágata achar que o mundo pertence a ela.
— E de quem ela puxou isso, Emanuel? — Sara riu, apontando para si mesma. — Eu conquisto o que eu quero. Ela só está aprendendo com a melhor.
Eduarda suspirou, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. Ela sentia a cólica voltando, mas havia uma satisfação silenciosa em seu peito. Pela primeira vez, ela não havia cedido. Ela olhou para o corredor e viu Maya sentada na porta do quarto, penteando os cabelos da boneca Clara com os dedos.
— Emanuel — Eduarda chamou baixinho.
— Oi, Duda.
— Obrigada por não ter tirado a boneca dela. Eu sei que dói em você ver a Ágata chorar.
— Eu estou tentando, Duda — ele confessou, apertando a mão dela. — Mas essa casa às vezes parece pequena demais para tantas personalidades.
Mais tarde naquela noite, o silêncio finalmente caiu sobre o apartamento. Eduarda foi até o quarto das meninas para cobri-las. Ágata dormia com o rosto inchado, abraçada a um tablet, sua forma moderna de consolo. Maya dormia profundamente, e a boneca Clara estava deitada ao seu lado, dividindo o mesmo travesseiro.
Eduarda sentiu uma presença atrás de si. Era Sara. A loira estava sem maquiagem, o que a deixava com um aspecto estranhamente humano e menos agressivo.
— Ela realmente gosta dessa coisa velha, não gosta? — Sara perguntou, referindo-se à boneca.
— Ela gosta porque sente que é uma parte de mim — respondeu Eduarda.
Sara ficou em silêncio por um momento, observando as duas filhas.
— Sabe, Duda... Eu nunca tive nada que fosse da minha mãe. Ela jogava tudo fora quando ficava velho. Talvez seja por isso que eu compre tudo novo para a Ágata. Eu achei que o preço das coisas substituía a história delas.
Eduarda olhou para Sara, surpresa com a vulnerabilidade súbita.
— Nunca é tarde para começar uma história nova, Sara.
Sara deu um sorriso amargo e saiu do quarto sem dizer mais nada. Naquela noite, pela primeira vez desde a mudança, Eduarda não se sentiu como uma intrusa. Ela era o fio que ligava o passado sensível ao presente caótico.
No dia seguinte, Emanuel cumpriu sua promessa e levou Ágata ao shopping. Ele voltou com uma boneca que custava o equivalente a um aluguel, cheia de luzes e sons. Ágata brincou com ela por dez minutos antes de deixá-la de lado para tentar ver o que Maya e a boneca Clara estavam fazendo no jardim de inverno.
O equilíbrio da casa continuava precário, como uma dança em corda bamba. Mas enquanto Maya segurava sua herança de porcelana e Eduarda encontrava sua voz entre o aço de Sara e a rigidez de Emanuel, o império do tatuador rico tornava-se, pouco a pouco, algo mais do que apenas um prédio luxuoso. Estava se tornando um lar, com todas as suas cólicas, birras e bonecas assombradas.