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O Guardião da Ternura e a Sombra do Ciúme

O sol da tarde desenhava padrões geométricos no tapete da sala de estar, mas o clima dentro da cobertura de Emanuel era tudo menos geométrico. Era fluido, denso e, naquele momento, carregado de uma possessividade que ninguém esperava vir de uma criança de dois anos.

Emanuel havia chegado mais cedo do estúdio, com o corpo exausto e a mente fervilhando com os novos projetos para a unidade de Tóquio. Ele jogou a jaqueta de couro sobre a poltrona e, ao ver Eduarda sentada no sofá lendo um catálogo de exposições, sentiu uma necessidade súbita de se reconectar com a calmaria que ela representava.

— Finalmente em casa — suspirou Emanuel, caminhando em direção à namorada com os braços abertos.

Eduarda levantou os olhos e sorriu, aquele sorriso doce que sempre desarmava a rigidez dele. Mas antes que as mãos de Emanuel pudessem tocar os ombros dela, um vulto castanho disparou do canto da sala.

— Não! Papai não! — Maya gritou, jogando-se entre os dois com a velocidade de um pequeno raio.

Emanuel parou, as sobrancelhas franzidas em confusão. Maya escalou o sofá com agilidade, sentando-se no colo de Eduarda e espalhando seus bracinhos sobre o peito da bailarina, como se estivesse demarcando território.

— O que foi isso, pequena? — perguntou Emanuel, tentando rir da situação. — Eu só ia dar um beijo na Duda.

— Minha Duda! — Maya declarou, os olhinhos castanhos brilhando com uma determinação feroz. Ela enterrou o rosto no pescoço de Eduarda e lançou um olhar de aviso para o pai. — Papai sai. Vai lá com a Ágata.

Eduarda acariciou os cabelos da menina, claramente constrangida, mas com um brilho de diversão nos olhos.

— Maya, meu amor, o papai também gosta da mamãe Duda. Não precisa ficar assim.

— Não! — A menina reforçou, apertando o abraço. — Só Maya.

Emanuel cruzou os braços, observando a cena. Ele estava acostumado com o ciúme de Sara, que era barulhento e estratégico, mas o ciúme de Maya era visceral. Era como se a menina sentisse que Eduarda era a única coisa pura em um mundo de adultos complexos e não estivesse disposta a dividir essa pureza com ninguém, nem mesmo com o homem que lhe dera a vida.

— Parece que eu fui exilado da minha própria sala — Emanuel comentou, sentando-se na poltrona à frente delas, mantendo uma distância segura para não provocar outro protesto.

— Ela está assim o dia todo — sussurrou Eduarda. — Acho que ela percebeu que você tem estado muito próximo ultimamente, Emanuel. Ela sente quando você me puxa para o escritório ou quando ficamos conversando até tarde.

— Ela é intuitiva demais para o próprio bem — Emanuel murmurou, observando como Maya monitorava cada movimento dele.

Nesse momento, Sara entrou na sala, equilibrando-se em seus saltos e segurando uma sacola de compras de uma grife infantil. Ágata vinha logo atrás, já tentando abrir a embalagem.

— Mas o que é isso? Uma reunião de condomínio que eu não fui convidada? — Sara perguntou, jogando-se na outra poltrona e chutando os sapatos para longe.

— Sua filha decidiu que a Eduarda é propriedade privada dela — explicou Emanuel, apontando para a cena no sofá.

Sara olhou para Maya, que continuava agarrada a Eduarda como uma pequena lapa. Uma risada curta e irônica escapou dos lábios da loira.

— Olha só para isso... Quem diria que a "mini-Eduarda" teria esse instinto de posse. — Sara tomou um gole de sua água tônica. — Maya, deixe o seu pai em paz. Ele já tem problemas demais lidando com duas mulheres, não precisa de uma terceira tentando ditar as regras.

— Não, mãe! — Maya respondeu, sem soltar o pescoço de Eduarda. — Papai quer tirar a Duda. Eu não deixo.

— Eu não quero tirar ela de você, Maya — Emanuel tentou novamente, inclinando-se um pouco para frente. — Eu só quero sentar perto dela.

No instante em que Emanuel se moveu, Maya soltou um ganido de desaprovação e começou a empurrar o ar com as mãos, tentando afastar a presença do pai.

— Ágata, veja se aprende com a sua irmã — Sara comentou, divertida. — Isso se chama "eliminar a concorrência". Embora eu ache que ela está mirando no alvo errado. O alvo deveria ser eu, não o Emanuel.

— Eu não quero a tia Duda — Ágata disse, sem tirar os olhos de sua nova boneca. — Ela é muito molenga. Eu quero que você me leve para pintar as unhas, mãe.

— Viu? — Sara apontou para Ágata. — Equilíbrio perfeito. Uma quer o afeto, a outra quer o cartão de crédito.

Emanuel, porém, não estava achando tanta graça. O estresse do trabalho e a necessidade de sentir o conforto de Eduarda estavam começando a pesar. Ele se levantou e caminhou até o sofá, decidido a quebrar aquele cerco infantil.

— Maya, chega de bobagem. Papai vai dar um beijo na Duda agora.

Ele se inclinou, mas Maya foi mais rápida. Ela se levantou sobre os joelhos e colocou as mãos gorduchas no rosto de Emanuel, empurrando-o para trás com toda a força que seus dois anos permitiam.

— Sai, papai! É minha! — O choro começou a surgir, um choro de frustração genuína.

Eduarda sentiu o coração apertar. Ela odiava conflitos, e ver Maya naquele estado por causa dela a deixava angustiada.

— Emanuel, por favor, não força — pediu Eduarda, os olhos suplicantes. — Ela está cansada, teve um dia longo na escolinha. Deixa ela se acalmar.

— Eu não posso ser impedido de tocar na minha namorada dentro da minha casa por uma criança de dois anos, Eduarda! — a voz de Emanuel subiu um tom, a irritação finalmente transbordando.

— Ah, pronto — Sara revirou os olhos. — Agora o grande Emanuel vai entrar em uma disputa de ego com um bebê. Isso sim é entretenimento de qualidade.

— Sara, não ajude — rosnou Emanuel.

— Eu estou ajudando! Estou te mostrando o quão ridículo você fica quando perde o controle por causa de um "não". — Sara se levantou e caminhou até o sofá. Ela olhou para Maya com uma severidade que raramente usava. — Maya, escute a mamãe. Se você não deixar o papai sentar, eu vou levar a Eduarda para o meu quarto para me ajudar a escolher sapatos. E aí você vai ficar aqui sozinha com o papai. Quer isso?

Maya parou de chorar instantaneamente. O lábio inferior ainda tremia, mas ela processou a ameaça. A ideia de perder Eduarda para o "território dos sapatos" de Sara era muito pior do que dividir um pedaço do sofá com o pai.

Lentamente, Maya recuou alguns centímetros, mas ainda manteve uma mão firme sobre a coxa de Eduarda.

— Papai senta ali — disse a menina, apontando para a ponta oposta do sofá. — Longe.

Emanuel bufou, mas aceitou a derrota parcial. Ele se sentou onde a filha ordenou, sentindo-se o homem mais poderoso do mundo dos negócios e o mais impotente dentro de sua própria sala de estar.

— Satisfeito? — perguntou Eduarda em voz baixa, lançando um olhar de desculpas para ele.

— Absolutamente não — respondeu Emanuel. — Mas é o que temos para hoje.

A noite caiu sobre a cobertura, e o jantar foi uma extensão daquela tensão silenciosa. Maya insistiu em sentar-se entre Emanuel e Eduarda, vigiando cada troca de olhares. Ágata, alheia ao drama, tagarelava sobre como queria um vestido igual ao de Sara para a festa da escola.

Sara, por sua vez, observava tudo com uma mistura de tédio e uma pontada de algo que ela jamais admitiria: uma leve melancolia. Ela via a conexão visceral entre Maya e Eduarda e, por mais que criticasse a sensibilidade da bailarina, sabia que aquele amor era algo que ela não conseguia replicar com a mesma facilidade.

— Emanuel — chamou Sara, enquanto limpava a boca com o guardanapo de seda. — Eu preciso que você revise os custos da nova filial amanhã cedo. E leve a Eduarda com você.

— Por que eu levaria a Eduarda para uma reunião de custos? — perguntou Emanuel, confuso.

— Porque se você não tirar ela de perto dessa menina por algumas horas, a Maya vai acabar desenvolvendo um complexo de guarda-costas. Além disso, eu preciso de um tempo com as minhas filhas sem que a "santa Eduarda" esteja por perto para ser o porto seguro.

Eduarda olhou para Sara, surpresa com a proposta.

— Você quer ficar sozinha com as duas, Sara?

— Eu sou a mãe delas, Eduarda. Por mais que você e a Maya tentem esquecer disso às vezes — Sara respondeu, o tom ácido voltando à tona. — Eu dou conta. Vou levar as duas para o shopping. Ágata vai gastar o seu dinheiro e a Maya vai aprender que o mundo não acaba se ela não estiver grudada em você.

Emanuel assentiu, vendo ali uma oportunidade de ter Eduarda só para si no dia seguinte.

— Combinado.

Na manhã seguinte, o plano foi colocado em prática. Foi necessária uma operação de guerra para tirar Eduarda de casa. Maya chorou, gritou e tentou se trancar no closet de Eduarda, mas Sara, com sua praticidade implacável, simplesmente pegou a menina no colo e a levou para o carro, ignorando os protestos.

No escritório de Emanuel, o silêncio era um luxo. Ele estava sentado em sua cadeira de couro, mas não estava olhando para os gráficos na tela. Ele estava observando Eduarda, que olhava pela janela, parecendo preocupada.

— Ela vai ficar bem, Duda — disse Emanuel, levantando-se e caminhando até ela.

— Eu sei... é que eu me sinto culpada. A Sara tenta, mas ela não tem paciência com as crises da Maya.

— A Sara é mais forte do que parece — Emanuel envolveu a cintura de Eduarda com os braços, finalmente sem interrupções. — E eu precisava disso. De você. Sem ninguém no meio.

Ele a beijou com uma intensidade que falava de toda a frustração acumulada do dia anterior. Eduarda relaxou nos braços dele, permitindo-se ser apenas a mulher de Emanuel por alguns instantes, deixando de lado o papel de mediadora familiar.

— Você é muito possessivo, sabia? — sussurrou Eduarda entre os beijos.

— Eu? A Maya é quem não me deixa chegar perto — ele riu, roçando o nariz no dela. — Mas eu entendo ela. Se eu pudesse, também não deixaria ninguém chegar perto de você.

Enquanto isso, no shopping, o cenário era outro. Sara caminhava com passos decididos, segurando a mão de Ágata, enquanto a babá empurrava o carrinho com uma Maya visivelmente emburrada.

— Maya, se você fizer essa cara de novo, eu vou comprar um vestido de babados rosa choque para você — ameaçou Sara, parando em frente a uma vitrine.

Maya olhou para a mãe. Ela sentia falta do cheiro de baunilha de Eduarda, mas havia algo na energia vibrante de Sara que a intimidava e, ao mesmo tempo, a fascinava.

— Cadê a Duda? — perguntou a menina, a voz pequena.

— A Duda está com o seu pai, sendo uma adulta. E você está aqui comigo, sendo uma criança que vai ganhar um sorvete imenso se parar de perguntar por ela.

Ágata puxou a saia de Sara.

— Mãe, eu quero aquele sapato de brilho!

— Nós vamos comprar o sapato, Ágata. Mas primeiro, o sorvete. Eu não aguento mais essa melancolia.

Sara levou as meninas para a sorveteria mais cara do local. Ela sentou-se à mesa, observando Maya lutar com uma colher cheia de sorvete de morango. Por um momento, o silêncio caiu sobre elas.

— Mãe? — chamou Maya, com o rosto sujo de calda.

— O que foi agora?

— Você é bonita.

Sara parou com a colher no meio do caminho. Ela olhou para a filha, para aqueles olhos castanhos que eram tão parecidos com os de Eduarda, mas que carregavam o formato dos seus próprios olhos. Um calor estranho e desconfortável subiu pelo peito de Sara.

— É claro que eu sou bonita, Maya. Eu gasto uma fortuna para isso — Sara respondeu, tentando manter a pose, mas seus dedos acariciaram levemente a bochecha da menina. — Mas você também é. Mesmo sendo manhosa desse jeito.

Maya sorriu, um sorriso genuíno que não era direcionado a Eduarda pela primeira vez em muito tempo.

Ao final do dia, quando Emanuel e Eduarda voltaram para a cobertura, eles encontraram uma cena inusitada. Sara estava deitada no tapete da sala, com Ágata fazendo um "penteado" desastroso em seu cabelo loiro, enquanto Maya estava sentada ao lado dela, mostrando seus desenhos.

— Chegamos — anunciou Emanuel, observando a bagunça.

Maya levantou-se e correu em direção a Eduarda, mas, para a surpresa de todos, ela parou no meio do caminho. Ela olhou para Eduarda, depois olhou para Sara, que ainda estava no chão.

— Mamãe Duda voltou! — comemorou Maya, abraçando as pernas de Eduarda. Mas logo em seguida, ela se virou para Emanuel. — Papai, olha o que eu fiz com a mãe Sara!

Emanuel olhou para Eduarda e ambos sorriram. O ciúme possessivo de Maya não havia desaparecido, mas o gelo entre ela e Sara parecia ter começado a derreter, ainda que de forma lenta.

Emanuel aproveitou o momento de distração das meninas e puxou Eduarda para um abraço rápido.

— Viu? O mundo não acabou — sussurrou ele.

— Não acabou — concordou Eduarda. — Mas eu acho que você ainda vai ter que disputar o sofá por um bom tempo.

— Eu não me importo — disse Emanuel, observando sua família caótica. — Desde que, no final da noite, o sofá seja só nosso.

Sara levantou-se, sacudindo os cabelos bagunçados e recuperando sua postura de rainha.

— Chega de sentimentalismo. Emanuel, a Ágata quer um pônei. Eu disse a ela que você ia comprar.

— O quê?! — Emanuel exclamou, chocado.

— Problema seu, querido — Sara piscou, caminhando em direção ao bar. — Eu sobrevivi a uma tarde inteira com as suas filhas. O pônei é o preço da minha sanidade.

Eduarda riu, pegando Maya no colo. O equilíbrio daquela casa era como uma dança de balé executada em cima de brasas: perigosa, intensa e absolutamente fascinante. E, enquanto Maya apertava sua mão e Emanuel a trazia para perto, Eduarda soube que, apesar dos ciúmes e das disputas de espaço, aquele labirinto de seda e tinta era exatamente onde ela queria estar.