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O Banquete do Caos e da Seda
A luz âmbar do restaurante "L’Eclat" refletia-se nas taças de cristal, criando uma atmosfera de sofisticação que, em qualquer outro dia, encantaria Eduarda. Ela vestia um vestido de seda azul-claro, simples e fluido, que realçava a delicadeza de sua pele e a suavidade de seus gestos. Sentado à sua frente estava o Dr. Henrique Valadares, um homem de meia-idade, elegante e respeitado, responsável pela curadoria de um dos museus mais prestigiados do país. O convite para que Eduarda auxiliasse na curadoria da nova exposição de Arte Contemporânea era o ápice de sua carreira acadêmica até então.
— Eduarda, sua sensibilidade para interpretar as nuances das pinceladas de transição é rara — comentou Henrique, inclinando-se levemente para frente, com um sorriso cordial. — O museu ganharia muito com o seu olhar.
— Eu me sinto honrada, Dr. Henrique — respondeu ela, a voz baixa e melodiosa, enquanto brincava com a borda do guardanapo de linho. — A história da arte é minha paixão, e poder aplicar o que estudo na faculdade em um projeto tão grandioso é... um sonho.
Ela sorriu, um brilho tímido iluminando seus olhos castanhos. Eduarda era o tipo de mulher que não precisava de esforço para ser notada; sua aura de pureza e vulnerabilidade atraía as pessoas como um ímã.
O que ela não sabia era que, a apenas três mesas de distância, em uma área reservada sob o pretexto de um jantar de negócios, Emanuel a observava com a intensidade de um predador.
Emanuel estava ali com Sara e dois investidores alemães. Sara, como sempre, era o centro das atenções. Usava um vestido vermelho curtíssimo, decotado, que deixava pouco para a imaginação e destacava o brilho de suas joias. Ela falava sobre planilhas de custos e expansão de mercado com uma agressividade administrativa que deixava os alemães impressionados.
— E é por isso, senhores, que o estúdio de Berlim precisa de uma gestão centralizada — dizia Sara, gesticulando com uma taça de espumante. — Emanuel é o artista, mas eu sou o cérebro que garante que a tinta se transforme em ouro.
Emanuel, no entanto, mal ouvia a namorada. Seus dedos apertavam o copo de uísque com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Seus olhos estavam fixos no homem que sorria para Eduarda, no jeito como Henrique tocou levemente o antebraço dela para enfatizar um ponto sobre a exposição.
Uma onda de calor possessivo subiu pelo pescoço de Emanuel. Ele sabia que era irracional. Sabia que Eduarda estava ali por trabalho. Mas vê-la naquele ambiente, sob o olhar de outro homem, despertava nele um instinto territorialista que ele raramente conseguia controlar.
Sara, percebendo o silêncio súbito e o olhar fixo do parceiro, seguiu a linha de visão dele. Ela soltou uma risada curta e irônica, voltando-se para os investidores por um momento antes de sussurrar no ouvido de Emanuel.
— Cuidado para não quebrar o copo, querido. A sua "bonequinha de porcelana" está apenas jantando. E olhe só, o acompanhante dela tem idade para ser pai dela. Ou talvez ele goste de novinhas delicadas tanto quanto você.
— Cala a boca, Sara — rosnou Emanuel, a voz baixa e perigosa.
— Ora, não seja tão dramático. Ela é uma gracinha, mas você sabe que ela não aguenta o tranco de uma noite de verdade — Sara deu um gole no espumante, o olhar provocador. — Se quer tanto marcar território, vá lá. Mas não estrague o meu jantar de negócios.
Emanuel não precisou de um segundo convite. Ele se levantou abruptamente, ignorando o olhar confuso dos investidores. Com passos pesados e decididos, ele atravessou o restaurante. A aura de autoridade que ele carregava fazia com que os garçons se afastassem instintivamente.
Quando ele chegou à mesa de Eduarda, a sombra de seu corpo alto cobriu a luz que incidia sobre ela. Eduarda levantou os olhos, o coração dando um salto violento no peito ao ver a expressão sombria de Emanuel.
— Emanuel? O que faz aqui? — perguntou ela, a voz falhando levemente.
— O jantar acabou, Eduarda — disse ele, sem sequer olhar para Henrique. — Vamos embora.
Henrique, confuso, pigarreou e tentou intervir.
— Com licença, cavalheiro, estamos no meio de uma conversa profissional importante sobre o museu...
Emanuel finalmente desviou o olhar para o curador. O olhar era frio, carregado de um desdém que silenciou o homem mais velho.
— Eu sei quem você é, Valadares. E sei que o que você tem a dizer para ela pode ser dito em um e-mail formal amanhã de manhã. Agora, ela vem comigo.
— Emanuel, você está sendo rude! — Eduarda murmurou, as bochechas corando de vergonha. Ela sentia as lágrimas pinçarem seus olhos; odiava confrontos, odiava ser o centro de uma cena.
Emanuel ignorou o protesto. Ele segurou o pulso de Eduarda — não com força para machucar, mas com uma firmeza que não admitia recusas — e a ajudou a se levantar.
— Boa noite, Doutor — disse Emanuel, seco, antes de conduzir Eduarda para fora do salão.
No caminho para a saída, eles passaram pela mesa de Sara. Ela levantou a taça para Eduarda com um sorriso sarcástico, como se estivesse assistindo a uma peça de teatro divertida.
— Tchauzinho, Duda! Cuidado para ele não morder! — exclamou Sara, voltando a rir com os alemães logo em seguida.
Emanuel só parou quando chegaram ao estacionamento, onde o ar da noite estava frio. Ele a prensou levemente contra a porta de seu carro preto, as mãos apoiadas em ambos os lados da cabeça dela, cercando-a.
— O que foi aquilo? — perguntou ele, a voz rouca de uma fúria que ele tentava conter. — O que você estava fazendo sorrindo para aquele homem daquela maneira?
Eduarda encolheu os ombros, os olhos úmidos e manhosos fixos nos dele. Ela parecia uma criança que acabara de ser injustiçada.
— Era trabalho, Emanuel... Ele me convidou para a curadoria. É a maior oportunidade da minha vida — ela soluçou baixo, a voz trêmula. — Por que você fez aquilo? Você me envergonhou.
— Eu não gosto do jeito que ele olha para você. Eu não gosto de nenhum homem olhando para você — ele se aproximou mais, o cheiro de uísque e tabaco misturando-se ao perfume dela. — Você é muito ingênua, Eduarda. Acha que ele quer falar de quadros? Ele quer tocar em você. Ele quer o que é meu.
— Eu não sou sua... — ela tentou dizer, mas a frase morreu quando ele encostou a testa na dela.
— É sim. Você sabe que é.
Eduarda sentiu as pernas fraquejarem. A possessividade de Emanuel era assustadora, mas, em sua fragilidade, ela também se sentia estranhamente protegida por aquela intensidade. Ela levou as mãos pequenas ao peito dele, sentindo o coração dele batendo acelerado sob a camisa.
— Você é mau... — ela murmurou, fazendo um bico manhoso, as lágrimas finalmente rolando. — Você estragou tudo. Agora ele nunca mais vai me ligar.
Emanuel suspirou, a raiva começando a ser substituída por uma necessidade visceral de confortá-la. Ele odiava vê-la chorar, especialmente quando ele era o motivo.
— Se ele for inteligente, ele vai ligar, sim. Mas vai ligar para o meu escritório para pedir permissão — Emanuel passou o polegar pela bochecha dela, limpando uma lágrima. — Pare de chorar, Duda. Você sabe que eu não suporto ver você assim.
— Então por que você é tão grosso? — ela perguntou, escondendo o rosto no pescoço dele, buscando o calor que só ele emanava. — A Sara nunca reclama quando você faz essas coisas?
— A Sara é diferente. Ela entende o jogo. Ela briga de volta — ele a abraçou apertado, sentindo o corpo esguio dela se moldar ao seu. — Mas você... você me faz perder o controle.
Enquanto a mantinha nos braços, Emanuel viu o reflexo de Sara saindo do restaurante ao longe, caminhando em direção ao próprio carro com a confiança de quem possuía o mundo. Ela acenou com a chave do carro, um gesto de "vejo você em casa", e deu partida no motor potente, sumindo na noite.
Emanuel olhou para a garota em seus braços, tão doce e dependente, e pensou na mulher que o esperava em casa, agressiva e brilhante. Ele sabia que o que estava fazendo era caminhar sobre uma corda bamba, mas, ao sentir Eduarda se aninhar mais profundamente em seu peito, ele teve certeza de que não soltaria nenhuma das duas.
— Vamos — disse ele, abrindo a porta do carro para ela. — Vou te levar para casa.
— Para a minha casa? — perguntou ela, com esperança.
— Não. Para a minha. Maya sentiu sua falta hoje na aula, e Ágata... bem, Ágata precisa de alguém que a ensine a não ser tão parecida com a mãe o tempo todo.
Eduarda entrou no carro, o silêncio sendo preenchido apenas pelo som da respiração pesada de Emanuel. Ela sabia que, ao cruzar o limiar daquela casa, ela estaria entrando no território de Sara, um campo de batalha onde ela era a peça mais frágil. Mas, ao olhar para o perfil rígido de Emanuel enquanto ele dirigia, ela sentiu que, enquanto ele a quisesse ali, ela não tinha forças para estar em nenhum outro lugar.
A noite estava longe de terminar. Na mansão, Sara já estaria com uma garrafa de vinho aberta, pronta para zombar da "crise de ciúmes" de Emanuel e, logo em seguida, arrastá-lo para o quarto para reafirmar seu domínio. E Eduarda, em sua doçura, ficaria no quarto das bebês, cuidando de Maya, sendo o refúgio silencioso para onde Emanuel escaparia quando o brilho de Sara se tornasse ofuscante demais.
Emanuel sorriu para a estrada. Ele tinha o império, tinha a força e, agora, tinha o equilíbrio perfeito entre o caos e a seda.