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D

Entre a Fúria e a Fragilidade

A luz da manhã entrava pelas frestas da persiana da mansão, mas para Eduarda, o brilho parecia agressivo. Ela havia passado a noite no quarto de hóspedes, ou melhor, no "quarto da Maya", como Sara costumava dizer com um desdém divertido. Depois da cena no restaurante, o clima na casa de Emanuel havia se tornado uma mistura insuportável de tensão sexual e deboche administrativo. Sara passara a madrugada rindo alto na suíte principal, o som de seus saltos e de sua voz vibrante ecoando pelo corredor, enquanto Emanuel tentava, sem sucesso, mediar o caos que ele mesmo criara.

Eduarda sentia-se um intruso. Uma boneca de porcelana colocada em uma prateleira de vidro por um colecionador ganancioso. Ela olhou para Maya, que dormia profundamente no berço, o rosto sereno e os cabelos castanhos espalhados pelo lençol. A bebê era o único motivo pelo qual Eduarda ainda não tinha corrido para longe, mas o limite havia sido atingido.

O celular de Eduarda vibrou sobre a cômoda. Era uma mensagem e, logo em seguida, uma ligação. Dr. Henrique Valadares.

— Alô? — Eduarda atendeu com a voz trêmula, escondendo-se no canto do quarto.

— Eduarda, bom dia. Espero não estar incomodando — a voz do curador era profissional, embora houvesse uma nota de cautela. — Queria dizer que, apesar do... incidente pitoresco de ontem à noite, a proposta para a curadoria continua de pé. Não costumo deixar que o temperamento de terceiros interfira no reconhecimento de talentos raros. Podemos nos reunir na galeria amanhã?

— Sim! Sim, claro, Dr. Henrique. Mil desculpas por ontem... eu... — Ela não sabia como explicar Emanuel sem parecer patética.

— Não se explique. Vejo você amanhã.

Eduarda desligou o telefone e sentiu uma onda de determinação. Ela não podia ficar ali, esperando que Emanuel decidisse quando ela poderia respirar ou com quem poderia falar. Ela pegou sua bolsa, algumas peças de roupa que havia deixado ali e, num impulso de proteção, olhou para Maya. Ela não podia levar a bebê, não legalmente, mas precisava sair daquela redoma.

Ela desceu as escadas na ponta dos pés. Sara estava na cozinha, vestindo um robe de seda transparente, bebendo café e digitando furiosamente em um tablet. Ágata estava no cadeirão, batendo uma colher de prata e rindo alto, já demonstrando a personalidade expansiva da mãe.

— Fugindo, mosquinha morta? — Sara nem levantou os olhos do tablet, mas o sorriso irônico estava lá. — Emanuel foi para o estúdio da zona sul. Ele está de um humor cão porque você se trancou no quarto.

— Eu vou para a casa dos meus pais, Sara — disse Eduarda, tentando manter a voz firme. — Preciso de espaço.

— Ótimo. Vá mesmo. O ar aqui está ficando pesado com tanta sensibilidade — Sara finalmente olhou para ela, avaliando-a com aquele olhar de quem vê um acessório bonito, mas desnecessário. — Mas não se preocupe, o Emanuel vai atrás de você. Ele adora um drama de resgate. Eu prefiro joias, mas cada um com seu fetiche, não é?

Eduarda não respondeu. Ela saiu pela porta lateral, chamou um aplicativo e, em menos de trinta minutos, estava diante da casa de seus pais, uma construção moderna e arejada em um bairro arborizado.

Seus pais, Clara e Roberto, eram o oposto do ambiente carregado de Emanuel. Eram jovens, arquitetos de sucesso, que tratavam a vida com uma leveza boêmia. Quando Eduarda entrou, chorando baixinho, Clara apenas a abraçou, sem fazer perguntas invasivas.

— O mundo lá fora é barulhento demais para você hoje, não é, minha pequena? — sussurrou Clara, acariciando os cabelos da filha. — Vá para o seu quarto. Coloque um pijama, descanse. O resto a gente resolve depois.

Eduarda subiu para o seu antigo refúgio. O quarto ainda cheirava a lavanda e tinha livros de arte espalhados por todo lado. Ela se deitou, exausta, e acabou adormecendo.

Horas depois, o som de um motor potente rugiu na rua. Eduarda acordou sobressaltada. Ela conhecia aquele som. Era o carro de Emanuel.

Lá embaixo, a campainha tocou. Roberto abriu a porta e deparou-se com Emanuel, que parecia ter saído de uma briga. O cabelo curto estava bagunçado, a camiseta preta amassada e, para a surpresa de todos, ele carregava Maya no colo. A bebê estava inquieta, choramingando, claramente sentindo a falta da "sua" Duda.

— Eu vim buscar a Eduarda — disse Emanuel, direto, sem espaço para polidez.

— Ela está descansando, Emanuel — Roberto respondeu, mantendo a calma. — E você parece que precisa respirar. Entre.

Emanuel entrou na casa, sentindo-se deslocado naquele ambiente de cores claras e música indie tocando ao fundo. Ele subiu as escadas antes que Roberto pudesse impedi-lo. Ele sabia exatamente onde era o quarto dela.

Eduarda estava sentada na cama quando ele entrou. A visão de Emanuel com Maya nos braços quebrou qualquer resistência que ela pretendia montar.

— Ela não parava de chorar — disse Emanuel, a voz rouca, aproximando-se da cama. — A Sara tentou dar a mamadeira, a babá tentou ninar, mas ela queria você. E eu... eu também.

Maya, ao ver Eduarda, esticou os bracinhos imediatamente, soltando um som manhoso de alívio. Eduarda a pegou, aninhando a bebê contra o peito, e o choro cessou instantaneamente.

— Você não pode simplesmente invadir a minha casa, Emanuel — Eduarda murmurou, embora não houvesse força em suas palavras. — Você me tratou como um objeto ontem.

Emanuel sentou-se na beira da cama, observando as duas. A luz do entardecer criava uma aura dourada ao redor de Eduarda, tornando-a ainda mais irreal, ainda mais necessária.

— Eu perco a cabeça com você — confessou ele, estendendo a mão para tocar o ombro dela. — A Sara me desafia, ela me peita, e eu gosto disso. Mas você... você me desarma. Ver você com aquele homem, falando de um mundo onde eu não entro, onde eu não entendo... eu senti que estava perdendo você.

— Você nunca vai me perder se me tratar com respeito — ela disse, os olhos castanhos fixos nos dele, cheios de uma mágoa doce. — Eu amo a Maya. E eu... eu acho que amo você, Emanuel. Mas eu não sou a Sara. Eu não sou feita de ferro.

Emanuel se inclinou, colando sua testa na dela. O cheiro de Eduarda, uma mistura de sabonete de flores e o cheiro de bebê de Maya, o embriagava mais do que qualquer uísque caro.

— Eu sei que não é. E é por isso que eu estou aqui.

Ele pegou Maya gentilmente e a deitou no centro da cama de casal de Eduarda. A bebê, exausta pelo choro e pelo passeio, fechou os olhos quase imediatamente, sentindo o conforto do colchão e a presença dos dois.

Emanuel voltou sua atenção para Eduarda. Ele a puxou para perto, as mãos grandes circulando a cintura fina dela, trazendo-a para o seu colo enquanto ele ainda estava sentado na beira da cama.

— Emanuel, meus pais estão lá embaixo... — ela sussurrou, a respiração acelerada.

— Eles não vão subir — ele respondeu, antes de selar os lábios nos dela.

O beijo não foi bruto como os que ele trocava com Sara. Foi lento, exploratório, carregado de uma ternura que Emanuel só permitia que aflorasse quando estava com ela. Eduarda gemeu baixinho, as mãos pequenas subindo pelos braços tatuados dele, sentindo os músculos tensos se relaxarem sob seu toque.

Ele a deitou suavemente na parte livre da cama, tomando cuidado para não acordar Maya. O contraste era absoluto: a inocência da bebê dormindo a poucos centímetros e a eletricidade crua que emanava entre os dois adultos.

Emanuel despiu Eduarda com uma reverência quase religiosa. Cada centímetro de pele revelado era uma nova descoberta. Ela era macia, curvilínea de uma forma delicada, oposta às curvas esculpidas e firmes de Sara. Quando ele se uniu a ela, foi um encontro de almas tanto quanto de corpos. Eduarda se movia com uma manha natural, buscando o calor dele, escondendo o rosto em seu pescoço enquanto ele sussurrava promessas possessivas em seu ouvido.

— Você é minha, Duda... só minha — ele dizia, o ritmo aumentando, a urgência tomando conta.

— Sim... — ela respondia, as unhas cravando-se levemente nas costas dele. — Mas você tem que me proteger. Promete que me protege?

— Sempre.

O clímax veio como uma onda suave, deixando-os ofegantes e abraçados. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pela respiração rítmica de Maya. Emanuel olhou para a filha e depois para a mulher em seus braços. Ele se sentia completo de uma maneira egoísta e perigosa.

Minutos depois, ainda deitados sob o lençol, o som da voz de Sara veio do andar de baixo, seguido por uma risada alta de sua mãe, Clara.

— Emanuel! Eu sei que o carro está aí! — o grito de Sara ecoou pela escada. — Se você não descer em cinco minutos, eu vou aceitar o convite da mãe da Eduarda para um drink e vou contar para ela como você é péssimo em escolher cortinas!

Eduarda arregalou os olhos, puxando o lençol até o queixo.

— Ela está aqui? — sussurrou, em pânico.

Emanuel soltou uma risada curta, a primeira do dia que soava genuína.

— Ela não consegue ficar fora de nada, Duda. Ela provavelmente veio para garantir que eu não me "perdesse" na sua doçura para sempre.

Ele se levantou, vestindo a calça com rapidez. Inclinou-se e beijou a testa de Eduarda e depois a de Maya.

— Vista-se. Vamos descer.

— Você vai levar a Maya embora? — perguntou Eduarda, a tristeza já voltando.

— Não — Emanuel parou na porta, olhando para ela com uma determinação absoluta. — Nós vamos todos jantar. Meus pais, seus pais, você, eu e a Sara. Se eu vou ter as duas, vocês precisam aprender a dividir a mesa.

Eduarda ficou paralisada por um momento. A audácia de Emanuel era infinita. Mas, ao olhar para Maya, que começava a despertar e sorrir para ela, Eduarda soube que a batalha estava apenas começando.

Lá embaixo, Sara já estava sentada no sofá de linho branco de Clara, cruzando as pernas loiras e exibindo um salto agulha dourado.

— Sabe, Clara — dizia Sara, aceitando uma taça de vinho branco —, sua filha é um tédio administrativo, mas ela tem um gosto excelente para pais. O Emanuel é um bruto, mas o Roberto... que homem charmoso você tem.

Emanuel desceu as escadas com Maya no colo, seguido por uma Eduarda tímida e de bochechas coradas. O encontro de mundos era inevitável. E, enquanto Sara lançava um olhar cúmplice para Emanuel — um olhar que dizia "eu sei o que você fez lá em cima e vamos conversar sobre isso na cama mais tarde" —, Eduarda sentiu que, por mais estranho que fosse, aquele caos era agora a sua casa.

Emanuel colocou a mão no ombro de Eduarda e, com a outra, segurou a mão de Sara, que se aproximara para beliscar sua bochecha. Ele estava no centro do seu próprio universo, cercado pela força de uma e pela luz da outra. O equilíbrio era frágil, era vulgar, era doce e era, acima de tudo, exatamente o que ele queria.