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D

O Palco de Vidro e a Jaula de Ouro

— Mamãe! Mamãe, olha! — O grito agudo e alegre de Maya ecoou pelo jardim ensolarado da mansão, seguido pelo som de pequenas sapatilhas batendo contra o mármore do terraço.

Eduarda, sentada em uma espreguiçadeira com um livro de História da Arte sobre o colo, levantou o olhar e sorriu instantaneamente. Aos vinte e dois anos, ela parecia ter florescido. O corpo, antes esguio e marcado pelo trauma, agora exibia a plenitude de uma mulher jovem e amada. Seus cabelos castanhos brilhavam sob o sol, e a expressão doce e sensível que sempre a caracterizou agora era acompanhada por uma confiança suave.

Maya, agora com quase três anos, lançou-se nos braços de Eduarda. A conexão entre as duas, que começara de forma quase mística quando a menina era apenas um bebê, havia se transformado em um laço inquebrável de mãe e filha.

— Eu vi, meu amor! Você fez um "plié" perfeito — disse Eduarda, beijando o topo da cabeça da pequena, que tinha os mesmos olhos observadores do pai.

— A tia Duda ensina melhor que a professora da escola — comentou Ágata, aproximando-se com mais calma, segurando a mão de Sara.

Sara parou ao lado de Eduarda, retirando os óculos de sol de grife. Dois anos haviam transformado a dinâmica daquela casa em algo que desafiava qualquer convenção social. Sara continuava sendo a força da natureza — loira, impecável, com sua presença magnética e autoritária —, mas a fúria possessiva de outrora dera lugar a uma parceria estratégica e, estranhamente, afetuosa. Elas haviam aprendido que Emanuel era um território vasto demais para uma mulher só, e que a harmonia entre elas era o que mantinha o império e a família de pé.

— Ela tem razão, Duda — disse Sara, sentando-se na borda da espreguiçadeira vizinha. — Você mima essas meninas, mas o resultado é inegável. Elas te adoram.

— E eu adoro elas, Sara. Você sabe disso — respondeu Eduarda, trocando um olhar de entendimento com a outra mulher.

O silêncio confortável foi interrompido pelo som de passos firmes. Emanuel surgiu vindo do escritório envidraçado que dava para o jardim. Aos vinte e sete anos, ele parecia ainda mais imponente. A barba estava levemente mais cerrada, e o olhar, embora carinhoso para a família, carregava uma camada de proteção que beirava a obsessão. Desde o resgate de Eduarda, ele nunca mais fora o mesmo. Ele era um homem que conhecia o preço do silêncio e a fragilidade da paz.

Ele caminhou até Eduarda, inclinando-se para beijar sua testa e, em seguida, curvou-se para beijar Sara nos lábios, um ritual que marcava o equilíbrio daquela casa.

— Recebi um aviso da segurança — disse Emanuel, sua voz profunda vibrando com uma tensão contida. — Um envelope lacrado chegou para você, Eduarda. Veio de Londres.

Eduarda sentiu o coração falhar uma batida. Ela se levantou, deixando Maya brincar com Ágata no tapete de grama. Emanuel entregou-lhe o envelope de papel encorpado, com o selo dourado da *Royal Opera House*.

Com mãos trêmulas, ela abriu a carta. Seus olhos percorreram as linhas elegantes em inglês e, por um momento, ela perdeu o fôlego.

— É um convite... — sussurrou ela, empalidecendo. — Eles querem que eu seja a bailarina principal no espetáculo de gala de inverno. Em Londres. Por três meses.

O silêncio que se seguiu foi gélido.

Emanuel travou a mandíbula. O brilho de orgulho que poderia ter surgido foi instantaneamente sufocado por uma onda de possessividade e medo. Ele deu um passo à frente, estreitando o espaço entre eles.

— Não — disse ele. A palavra foi curta, absoluta, final.

— Emanuel... — Eduarda começou, sua voz tornando-se pequena, manhosa. — É o sonho de qualquer bailarina. É Londres. É o reconhecimento de tudo o que eu estudei, de tudo o que eu recuperei depois de... depois de tudo.

— Eu disse não, Eduarda — repetiu ele, a voz subindo um tom, atraindo a atenção das crianças. — Você não vai para o outro lado do oceano. Você não vai se expor em um palco internacional onde eu não posso controlar cada pessoa que entra no teatro.

Sara observava a cena em silêncio, cruzando os braços. Ela conhecia aquele tom de Emanuel. Era o tom do homem que ainda acordava no meio da noite para verificar se as fechaduras estavam trancadas.

— Você está sendo irracional, Manu — interveio Sara, embora sua voz fosse cautelosa. — É uma oportunidade única para a carreira dela.

— Carreira? — Emanuel virou-se para Sara, os olhos faiscando. — Nós temos tudo o que precisamos aqui. Ela tem os estúdios dela, tem a faculdade, tem a proteção. Londres é um convite para o perigo. Eu não vou passar três meses sem saber quem está olhando para ela nas sombras.

Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela se aproximou dele, tocando os braços tatuados e fortes de Emanuel, tentando desarmá-lo com a única arma que sabia que funcionava. Ela se aninhou contra o peito dele, olhando para cima com aqueles grandes olhos castanhos, úmidos e suplicantes.

— Por favor, meu amor... — sussurrou ela, a voz carregada de uma manha carinhosa. — Eu não sou mais aquela menina assustada. Você me ensinou a ser forte. Você me protegeu. Deixe-me mostrar ao mundo o que você salvou.

Emanuel sentiu a maciez do corpo dela contra sua rigidez. O cheiro de flores brancas que ela sempre exalava começou a embriagar seu julgamento, mas a paranoia era uma raiz profunda. Ele a segurou pelos ombros, afastando-a apenas o suficiente para olhar em seu rosto.

— Você acha que eu me importo com o mundo, Duda? Eu me importo com você. Eu me importo com a Maya chamando por você e você não estar aqui porque decidiu dançar para estranhos em outro país.

— Eu levaria a Maya! E a Ágata, e a Sara... nós poderíamos ir todos — disse Eduarda, tentando encontrar uma solução.

— Meus negócios estão aqui, Eduarda. Meus estúdios, minhas responsabilidades. Eu não posso mover meu mundo inteiro por causa de um espetáculo — rosnou ele, soltando-a e começando a andar de um lado para o outro como um lobo enjaulado. — O assunto está encerrado. Você vai recusar o convite.

Eduarda recuou, o lábio inferior tremendo. Ela olhou para Sara, buscando ajuda, mas a loira apenas suspirou e balançou a cabeça negativamente, indicando que, naquele estado, Emanuel era inatingível.

Sem dizer mais nada, Eduarda virou-se e correu para dentro da casa, o som de seus passos rápidos desaparecendo nos corredores.

***

A noite caiu sobre a mansão com uma tensão palpável. Emanuel estava em seu escritório, bebendo um uísque puro e encarando as telas de segurança. Ele via cada movimento nos jardins, cada guarda em seu posto. Ele se sentia um rei protegendo seu tesouro, mas, no fundo, sabia que o tesouro estava começando a se sentir sufocado.

A porta abriu-se suavemente. Não era Sara com seus saltos ruidosos. Era Eduarda.

Ela vestia uma camisola de seda branca, curta e leve, que deixava pouco para a imaginação. Seus cabelos estavam soltos, caindo em ondas sobre os seios fartos que Emanuel tanto adorava. Ela não parecia brava; parecia vulnerável, triste e terrivelmente atraente.

Ela caminhou lentamente até ele e sentou-se em seu colo, sem pedir permissão. Emanuel suspirou, fechando os olhos enquanto sentia o peso macio dela sobre suas coxas.

— Você ainda está bravo comigo? — sussurrou ela no ouvido dele, a voz manhosa e doce, enquanto suas mãos pequenas começavam a acariciar a nuca dele.

— Eu não estou bravo, Duda. Eu estou preocupado. Você não entende o que é viver com o medo de te perder de novo.

— Eu entendo — disse ela, beijando o canto da boca dele. — Eu sinto esse medo todos os dias. Mas eu também sinto que estou morrendo por dentro, Emanuel. Eu sou uma bailarina. O palco é onde eu respiro. Se você me tirar isso, o que vai sobrar de mim? Apenas uma boneca na sua prateleira?

Emanuel apertou a cintura dela, os dedos enterrando-se na seda.

— Você nunca será uma boneca. Você é o coração desta casa.

— Então deixe o seu coração bater em Londres por um tempo — pediu ela, deslizando a mão por dentro da camisa dele, sentindo as cicatrizes e as tatuagens. — Vá comigo. Sara pode cuidar das coisas aqui por algumas semanas, e depois você volta. Nós podemos alternar. Mas não me peça para dizer não para a minha própria vida.

Emanuel olhou para ela. A luz do abajur realçava as curvas de Eduarda, a bunda redonda pressionada contra suas pernas, a delicadeza de seus traços que ele tanto queria esconder do resto do mundo. Ele sentiu uma onda de desejo misturada com uma possessividade feroz.

— Você sabe o que está fazendo, não sabe? — perguntou ele, a voz rouca. — Você usa essa doçura para me dobrar.

— Eu uso o que eu tenho, Manu — sussurrou ela, colando os lábios nos dele. — Porque eu sei que, por baixo desse homem durão e controlador, existe alguém que só quer que eu seja feliz.

O beijo que se seguiu foi carregado de uma negociação silenciosa. Emanuel a possuiu ali mesmo, sobre a mesa de carvalho do escritório, entre relatórios e monitores de segurança. Foi uma forma de reafirmar sua posse, de marcar seu território antes de considerar a ideia de deixá-la partir. Eduarda entregou-se com uma paixão que beirava a adoração, sabendo que cada gemido, cada carícia, era um passo em direção ao seu palco em Londres.

***

Na manhã seguinte, o café da manhã foi servido no terraço. Sara já estava lá, lendo o jornal financeiro, quando Emanuel e Eduarda apareceram. Ele parecia exausto, mas a rigidez em seus ombros havia cedido um pouco. Eduarda tinha um brilho vitorioso nos olhos, embora mantivesse sua postura discreta.

— Então? — perguntou Sara, sem levantar os olhos do jornal. — Quando compramos as passagens?

Emanuel sentou-se, servindo-se de café preto.

— Eu vou mandar uma equipe de segurança avançada para Londres amanhã — disse ele, a voz grave. — Eles vão vasculhar o teatro, o hotel e cada trajeto que ela fizer. Eduarda terá quatro sombras vinte e quatro horas por dia. Se um único fã chegar a menos de dois metros dela sem autorização, o espetáculo acaba na hora.

Eduarda soltou um grito de alegria e pulou no pescoço de Emanuel, cobrindo seu rosto de beijos.

— Obrigada! Obrigada, meu amor! Eu prometo que vou ser cuidadosa!

— Você vai ser vigiada, Eduarda — corrigiu ele, tentando manter a seriedade, embora um sorriso de canto de boca começasse a aparecer. — E eu vou com você nas duas primeiras semanas. Sara ficará aqui com as meninas e depois levará a Maya para nos encontrar no mês final.

Sara assentiu, finalmente fechando o jornal.

— É um plano sensato, Emanuel. Eu cuido do império aqui, você garante que ninguém sequestre nossa bailarina lá, e a Maya ganha uma viagem para ver a mamãe brilhar.

Eduarda olhou para Sara com gratidão. A parceria entre as duas havia se tornado o pilar que sustentava a loucura de Emanuel. Elas se entendiam: Sara era a estrutura, Eduarda era a alma, e Emanuel era o muro que protegia ambas.

— Tia Duda vai dançar em Londres? — perguntou Ágata, aparecendo com a babá.

— A mamãe vai ser uma rainha no palco, Ágata — disse Maya, correndo para o colo de Eduarda.

Emanuel observava a cena, sentindo o peso da responsabilidade. Ele ainda odiava a ideia. Ele ainda queria trancá-la em um cofre de ouro e jogar a chave fora. Mas, ao ver o sorriso radiante de Eduarda, ele percebeu que a proteção sem liberdade era apenas uma forma mais bonita de prisão.

— Só mais uma coisa — disse Emanuel, atraindo a atenção de todos. — Eu vou desenhar uma nova tatuagem para você antes de irmos, Eduarda.

— Uma tatuagem? Onde? — perguntou ela, curiosa.

Emanuel levantou-se e caminhou até ela, deslizando a mão pela nuca da jovem, por baixo de seu cabelo.

— Aqui. Perto do seu coração. Para que, mesmo quando você estiver no palco, sob os olhos de milhares de estranhos, você se lembre de quem você é. E de quem você pertence.

Eduarda estremeceu, sentindo o toque possessivo dele. Ela sabia que a marca de Emanuel seria permanente, assim como o amor complexo e avassalador que os unia.

— Eu nunca vou esquecer, Manu — sussurrou ela.

Londres esperava por ela. O brilho, os aplausos e o rigor do ballet clássico seriam o seu desafio. Mas, enquanto ela cruzava o oceano, ela levaria consigo a sombra protetora do homem que a resgatara das trevas e a parceria da mulher que aprendera a chamá-la de aliada.

O palco de vidro poderia ser perigoso, e a jaula de ouro poderia ser apertada, mas Eduarda havia aprendido a dançar entre os dois, encontrando sua própria música em uma casa onde o amor era medido em lealdade, segurança e o eterno desejo de um homem que não sabia como amar sem proteger.

A bailarina estava pronta para o seu *grand jeté*. E o mundo, querendo ou não, teria que respeitar a proteção do lobo que vigiava cada um de seus passos.