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O Peso do Sangue e a Doçura do Amparo
O silêncio na mansão de Emanuel nunca era absoluto, mas naquela madrugada, ele tinha um peso diferente; era um silêncio carregado de apreensão e do som abafado de tosses secas que vinham do quarto das crianças. Eduarda, com seus vinte e dois anos e agora carregando em seu ventre o herdeiro direto de Emanuel, não conseguia fechar os olhos. Arthur, o bebê que chutava com uma energia quase violenta dentro dela, parecia compartilhar da inquietação da mãe.
Eduarda levantou-se com dificuldade, sentindo o peso da barriga de sete meses. Ela era uma grávida linda, embora Emanuel vivesse reclamando que ela continuava "miúda" demais para carregar um menino tão agitado. Seus seios, já fartos, estavam ainda mais sensíveis, e suas curvas de bailarina haviam se tornado mais profundas, mas a agilidade de seus passos ainda denunciava anos de palco.
Ela caminhou pelo corredor mal iluminado até o quarto de Maya. A menina, agora com pouco mais de dois anos, era a luz dos olhos de Eduarda. O fato de estar grávida de Arthur não diminuiu em nada o apego visceral que sentia pela primogênita de Emanuel. Para Eduarda, não importava quem a havia gerado; Maya era sua alma.
Ao entrar no quarto, encontrou a pequena Maya inquieta, o rosto corado pela febre e os cabelos loiros grudados na testa pelo suor. O coração de Eduarda apertou.
— Oh, meu anjo... — sussurrou ela, aproximando-se da cama.
Ela tocou a testa da menina e sentiu o calor excessivo. Maya abriu os olhos, nublados pelo mal-estar, e esticou os bracinhos curtos, soltando um gemido manhoso que quebrou o que restava da calma de Eduarda.
— Duda... colo... — pediu a menina, a voz rouca.
Sem hesitar, ignorando as recomendações médicas e as ordens explícitas de Emanuel, Eduarda inclinou-se e içou a menina para o colo. O peso de Maya pressionou sua barriga, e Arthur protestou imediatamente com um chute vigoroso, mas Eduarda não se importou. Ela precisava sentir o coração da filha contra o seu.
Ela começou a caminhar de um lado para o outro no quarto, ninando Maya e cantando baixinho uma melodia de um antigo ballet que costumava dançar.
— Você vai ficar bem, meu amor. A mamãe está aqui.
A porta do quarto se abriu abruptamente, e a silhueta imponente de Emanuel surgiu na penumbra. Ele estava apenas de calça de moletom, o peito nu exibindo as tatuagens que pareciam ganhar vida sob a luz fraca. Seu rosto, geralmente sereno e controlado, estava marcado pela tensão.
— Eduarda! O que eu já te falei sobre carregar peso? — A voz dele era um sussurro ríspido, carregado de autoridade e uma preocupação que beirava a irritação.
Ele caminhou rapidamente até ela e, com firmeza mas sem grosseria, tirou Maya dos braços de Eduarda.
— Emanuel, ela está queimando em febre! — Eduarda exclamou, as mãos tremendo enquanto tentava recuperar a menina. — Ela precisa de mim, ela está sofrendo!
— E você está grávida de sete meses, Eduarda! — Emanuel rebateu, acomodando Maya em seu ombro largo enquanto a menina choramingava, buscando o toque da madrasta. — Se você se machucar, ou se o Arthur sofrer algum descolamento por causa desse esforço, o que eu faço? Você é teimosa demais.
— Eu sou a mãe dela, Emanuel! — disse ela, a voz embargada pela emoção e pelo desespero de ver a pequena doente. — O Arthur está bem, ele é forte como você. Mas a Maya... olha para ela. Ela está tão pálida.
Emanuel suspirou, sentindo a temperatura da filha contra seu pescoço. Ele era um homem prático, um resolvedor de problemas, mas o pânico nos olhos de Eduarda sempre o desarmava. Ele a puxou para perto com o braço que estava livre, beijando o topo da cabeça dela enquanto Maya soluçava entre os dois.
— Eu já chamei o Dr. Arnaldo. Ele está a caminho. Agora, sente-se naquela poltrona. Se eu te vir em pé com essa menina no colo mais uma vez, eu vou trancar você no nosso quarto, entendeu?
Eduarda assentiu, chorosa e manhosa, sentando-se e observando Emanuel cuidar da filha. Era uma cena que ela nunca se cansava de ver: o homem rico e poderoso, o tatuador cujas mãos eram capazes de criar artes brutais e precisas, sendo tão infinitamente cuidadoso com a pequena frágil.
Pouco depois, Sara apareceu na porta. Ela usava um robe de seda caríssimo, o rosto impecável mesmo às três da manhã. Sara não era dada a sentimentalismos, mas a doença de Maya a deixava em alerta. Ela olhou para a cena — Emanuel com a filha, Eduarda grávida e chorando — e soltou um suspiro irônico, embora houvesse um brilho de preocupação em seus olhos azuis.
— Pelo amor de Deus, Emanuel, essa casa parece um hospital de campanha — disse Sara, aproximando-se e tocando o pulso de Maya com profissionalismo. — A febre não baixou com o antitérmico?
— Não — respondeu Emanuel, curto e grosso. — Eduarda está quase tendo um colapso nervoso aqui.
Sara olhou para Eduarda e, por um breve momento, sua expressão suavizou. Ela não via Eduarda como uma ameaça ao seu status de "esposa principal", mas sim como uma extensão emocional da família que ela mesma não conseguia prover.
— Beba um pouco de água, Eduarda. Você vai acabar induzindo o parto desse menino antes da hora com todo esse drama — disse Sara, entregando um copo que trouxera da cozinha. — Maya é forte. Ela herdou a minha genética, não vai ser uma gripe que vai derrubá-la.
— Não é só uma gripe, Sara! — Eduarda rebateu, a voz subindo de tom. — Ela está com dificuldade para respirar. Eu sinto isso!
O Dr. Arnaldo chegou minutos depois, quebrando a tensão crescente. Enquanto ele examinava Maya, Emanuel manteve o braço ao redor de Eduarda, sentindo como ela tremia. Arthur chutava sem parar, e Emanuel colocou a mão grande sobre a barriga da esposa, tentando acalmar o filho e a mãe ao mesmo tempo.
— Calma, Duda. Respire fundo — sussurrou ele no ouvido dela. — Eu não posso perder o controle se você estiver assim. Preciso que você seja minha âncora hoje.
— Eu estou com medo, Manu... — sussurrou ela, escondendo o rosto no ombro dele. — Se algo acontecer com ela, eu não vou suportar.
Após alguns minutos que pareceram horas, o médico se virou para eles.
— É uma pneumonia viral. O quadro é estável, mas requer cuidados intensivos nas próximas quarenta e oito horas. Vou administrar a primeira dose da medicação intravenosa agora. Ela precisa de repouso absoluto e muita hidratação.
Eduarda levantou-se num salto, mas a mão de Emanuel em seu ombro a impediu de avançar.
— Eu vou ficar com ela — disse Eduarda, decidida. — Vou dormir aqui no tapete se for preciso.
— Você vai dormir na nossa cama, Eduarda — Emanuel declarou, sua voz assumindo aquele tom inquestionável que ele usava nos estúdios quando um funcionário cometia um erro. — Eu vou ficar com a Maya. A Sara vai te levar para o quarto.
— Não! — Eduarda começou a chorar de novo, a sensibilidade da gravidez tornando tudo dez vezes mais intenso. — Ela quer a mim! Ela me pediu colo! Emanuel, por favor, não me afaste dela agora!
Emanuel olhou para o médico, que apenas assentiu levemente, sugerindo que o estresse da mãe poderia ser pior para o bebê do que a vigília. Emanuel soltou um suspiro pesado, derrotado pela manha e pelo amor da esposa.
— Tudo bem. Mas você vai ficar na poltrona reclinável. E se eu te pegar carregando ela de novo, Eduarda... eu juro que te levo para o hospital junto com ela.
As horas seguintes foram um teste de resistência. Emanuel providenciou mantas, travesseiros e instalou-se no quarto com as duas. Sara, percebendo que não havia espaço para sua racionalidade ali, retirou-se para cuidar de Ágata, mas não antes de deixar um beijo rápido na testa de Maya.
Lá pelas cinco da manhã, a medicação começou a fazer efeito e a febre de Maya cedeu. A menina dormia um sono profundo e mais tranquilo. Eduarda, exausta, acabou cochilando na poltrona, com a mão pousada sobre a barriga onde Arthur finalmente havia sossegado.
Emanuel a observava. A luz do amanhecer começava a entrar pelas frestas da cortina, iluminando o rosto doce de Eduarda. Ele sentia uma mistura de exaustão e uma proteção feroz. Ele era um homem que construíra um império com agulhas e tinta, lidando com o submundo e com a elite, mas nada o deixava tão vulnerável quanto aquelas duas mulheres e os filhos que elas representavam.
Ele caminhou até Eduarda e cobriu suas pernas com uma manta de lã. Ao sentir o toque, ela despertou levemente, os olhos castanhos buscando os dele.
— Ela está melhor? — sussurrou ela.
— Está sim, meu amor. A febre passou.
Eduarda sorriu, um sorriso fraco e cheio de alívio. Ela esticou a mão e tocou o rosto de Emanuel, traçando a linha da sua mandíbula forte.
— Você é um pai maravilhoso, Manu. Apesar de ser um brutamontes mandão às vezes.
Emanuel soltou uma risada curta e rouca, beijando a palma da mão dela.
— Alguém tem que ser o racional aqui, Duda. Se dependesse de você, estaríamos todos morando dentro de uma bolha de plástico para ninguém pegar resfriado.
— Talvez — admitiu ela, fazendo um biquinho manhoso. — Mas é porque eu amo demais tudo o que a gente construiu.
— Eu sei. — Emanuel ajoelhou-se entre as pernas dela, colocando o ouvido contra a barriga de sete meses. — E você, Arthur? Pare de chutar sua mãe. Deixe ela descansar, ou você vai se ver comigo quando sair daí.
Eduarda riu, passando os dedos pelos cabelos curtos de Emanuel.
— Ele não tem medo de você. Ele sabe que você é um manteiga derretida por baixo dessas tatuagens todas.
— Não espalhe esse segredo — brincou ele, levantando-se e pegando-a no colo, desta vez com cuidado absoluto para não pressionar o ventre.
— Emanuel! Me coloque no chão! O médico disse que a Maya precisa de companhia!
— A Maya está dormindo e a babá eletrônica está ligada no volume máximo — disse ele, caminhando em direção ao quarto do casal. — Você vai tomar um banho morno e dormir pelo menos quatro horas. É uma ordem, Eduarda.
Ela descansou a cabeça no ombro dele, vencida pelo cansaço e pela sensação de segurança que só o abraço de Emanuel proporcionava.
— Você vai voltar para o lado dela? — perguntou ela, quase dormindo.
— Vou. Vou ficar lá até ela acordar e pedir pelo café da manhã.
Emanuel a colocou na cama king-size, retirando suas pantufas e a cobrindo com o edredom de seda. Ele ficou ali por um momento, observando-a adormecer quase instantaneamente. Eduarda era sua fraqueza e sua maior força. A forma como ela amava Maya, mesmo não sendo sua filha biológica, era o que o fizera se apaixonar perdidamente por aquela bailarina sensível.
Ao voltar para o quarto de Maya, Emanuel encontrou Sara parada no corredor, observando a filha através da fresta da porta.
— Ela está bem? — perguntou Sara, a voz desprovida de qualquer provocação.
— Está. O Arnaldo disse que o pior já passou.
Sara assentiu, olhando para o marido.
— Você sabe que a Eduarda vai tentar carregá-la de novo assim que ela acordar, não sabe? Ela não consegue evitar.
— Eu sei — suspirou Emanuel, encostando a cabeça na parede. — Ela é emocional demais. Às vezes eu acho que ela sente a dor da Maya no próprio corpo.
— É por isso que ela é perfeita para você, Emanuel — disse Sara, dando um tapinha no ombro dele antes de sair. — Ela sente o que você tenta esconder.
Emanuel entrou no quarto e sentou-se na poltrona que Eduarda acabara de desocupar. Ele olhou para Maya e depois para as próprias mãos. Ele era um homem rico, influente, cercado de luxo, mas ali, naquela penumbra, ele percebeu que seu verdadeiro império não era feito de estúdios de tatuagem ou contas bancárias. Era feito daquela fragilidade que ele jurara proteger.
Quando Maya acordou, algumas horas depois, a primeira coisa que viu foi o pai. Ela sorriu, ainda fraca, mas com os olhos brilhando mais do que na noite anterior.
— Papai... cadê a Duda?
— Ela está descansando, princesa. O seu irmão Arthur estava fazendo muita bagunça na barriga dela.
— Eu quero a Duda... — a menina começou a fazer o biquinho característico, as lágrimas prontas para cair.
Emanuel suspirou, sabendo que a batalha estava perdida. Ele pegou o interfone e pediu para a empregada avisar Eduarda que a "patroa mirim" havia acordado.
Minutos depois, Eduarda entrou no quarto, radiante apesar das olheiras. Ela correu para a cama, mas antes que pudesse pegar a menina, Emanuel se colocou na frente.
— Nem pense nisso, Eduarda. Sente-se na cama e deixe que eu a coloco no seu colo. Sem esforço.
Eduarda revirou os olhos, mas obedeceu. Emanuel acomodou Maya nos braços da madrasta com um cuidado milimétrico. Eduarda abraçou a menina, sentindo o cheiro de lavanda e o calor da vida retornando.
— Viu, Manu? Ela só precisava de um pouco de amor — disse Eduarda, olhando para ele com um triunfo doce.
— Ela precisava de antibióticos e de um pai que não deixou a mãe ter um ataque cardíaco — corrigiu ele, embora não conseguisse esconder o sorriso.
Ali, naquele quarto, cercado pelo amor incondicional de Eduarda e pela recuperação de Maya, Emanuel sentiu que, pela primeira vez na vida, o controle não era algo que ele precisava exercer através da força ou do medo. O controle estava na harmonia daquela família peculiar, onde uma ex-bailarina sensível e grávida era o eixo que mantinha todos os outros em órbita.
Arthur chutou novamente, como se concordasse, e Emanuel colocou a mão sobre a de Eduarda, selando aquele momento de paz. A pneumonia passaria, Arthur nasceria com a fúria e a força de um leão, e a mansão de Emanuel continuaria sendo o palco de uma vida onde o sangue era importante, mas a doçura do amparo era o que realmente definia o destino de todos eles.