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Entre o Sangue e a Seda

A madrugada em São Paulo possuía um silêncio cortante, interrompido apenas pelo som distante de sirenes e pelo ritmo frenético do coração de Eduarda. Ela estava encolhida no sofá da sala de seus pais, com os olhos fixos na janela iluminada pelas luzes intermitentes das viaturas da polícia. A apenas três casas dali, o asfalto estava manchado de um vermelho escuro, quase negro sob a luz dos postes, delimitando o local onde um corpo fora encontrado. Mais uma vítima. Mais um padrão geométrico cravado na pele gélida.

O celular em sua mão vibrou, quase saltando de seus dedos nervosos. O nome "Emanuel" brilhava na tela como um aviso de tempestade.

— Alô? — a voz dela saiu pequena, um sussurro que mal vencia o nó em sua garganta.

— Não abra a porta para ninguém que não seja eu. — A voz de Emanuel era puro aço, desprovida de qualquer suavidade. — Eu vi o relatório no rádio da polícia. Estou a cinco minutos da sua rua. Seus pais estão aí?

— Estão no quarto... eles estão assustados, Manu. A polícia disse para não sairmos.

— Eu não me importo com o que a polícia local diz, Eduarda. Eu sou a porra da elite dessa investigação e eu avisei que isso ia acontecer. Arrume uma mala. Agora.

— Mas, Emanuel...

— Sem "mas", Duda! — O grito dele do outro lado da linha a fez estremecer. — O assassino está no seu bairro. Ele está marcando o território dele e eu não vou deixar você ser a próxima peça desse quebra-cabeça. Você vem morar comigo hoje. Por bem ou por mal.

A ligação caiu. Eduarda olhou para o corredor, vendo seus pais — um casal de quarenta e poucos anos, modernos e geralmente tranquilos — parados na porta do quarto, pálidos. Eles gostavam de Emanuel, respeitavam o sucesso dele, mas temiam a sombra que o trabalho de investigador trazia para a vida da filha.

Vinte minutos depois, o som de pneus cantando no asfalto anunciou a chegada do SUV blindado de Emanuel. Ele não esperou que ninguém abrisse o portão; desceu do carro com a postura de quem estava pronto para a guerra. Vestia uma jaqueta de couro preta sobre uma camiseta escura, e a expressão em seu rosto era tão sombria quanto as fotos de cena de crime que ele analisava em seu escritório.

Ele entrou na casa sem cerimônias, os olhos escaneando cada canto antes de pousarem em Eduarda.

— Onde estão as malas? — perguntou ele, ignorando os cumprimentos nervosos dos pais dela.

— Eu... eu só fiz uma mochila, eu não sabia se...

Emanuel não esperou ela terminar. Ele caminhou até o quarto dela, pegou uma mala grande no topo do armário e começou a jogar roupas dentro, sem qualquer cuidado com as dobras ou com a delicadeza dos tecidos.

— Emanuel, você está assustando ela — disse o pai de Eduarda, tentando intervir.

— O que assusta é um corpo retalhado a cem metros da sua porta, Ricardo — rebateu Emanuel, fechando o zíper da mala com força. — Eu tenho segurança privada, vidros balísticos e uma equipe de monitoramento 24 horas. Aqui, ela é um alvo. Comigo, ela é intocável.

Ele pegou Eduarda pelo pulso, não com força para machucar, mas com uma possessividade que não admitia réplicas.

— Vamos. Agora.

A viagem até o apartamento de luxo foi feita em um silêncio tenso. Eduarda olhava para as próprias mãos, sentindo-se pequena diante da fúria controlada do namorado. Quando chegaram à cobertura, a porta foi aberta por Sara.

Sara usava um baby-doll de renda preta que deixava pouco para a imaginação, segurando uma taça de vinho tinto em uma mão e o celular na outra. O cabelo loiro estava levemente bagunçado, mas ela ainda exalava aquela aura de "mini diva" adulta que a tornava o centro de qualquer ambiente.

— Ora, ora — disse Sara, dando um gole no vinho e encostando-se no batente da porta. — O cavaleiro das trevas finalmente resgatou a princesa da torre de marfim. Já era hora, não acha, Manu?

— Não começa, Sara — rosnou Emanuel, passando por ela e carregando a mala de Eduarda. — Onde estão as meninas?

— Dormindo. Ágata deu um show porque queria usar meus glosses novos antes de apagar, e Maya... bem, Maya chorou até as onze porque você não estava e a "favorita" dela também não. Aquela menina tem um radar para drama que me assusta.

Eduarda entrou timidamente, sentindo o perfume caro de Sara misturado ao aroma de café que sempre pairava no ar. Ela se sentia deslocada, uma intrusa em um santuário de mármore e aço.

— Oi, Sara — murmurou Eduarda.

— Oi, querida. Bem-vinda ao hospício — respondeu Sara, com um sorriso que era metade deboche e metade uma estranha forma de acolhimento. — Seus livros de arte e suas sapatilhas já têm um canto no quarto de hóspedes, mas o Manu provavelmente vai querer que você durma no quarto principal com a gente. Prepare-se, o lado esquerdo da cama é meu.

Emanuel deixou a mala no corredor e voltou-se para as duas. O cansaço era evidente em seus olhos, mas a adrenalina do caso ainda o mantinha alerta.

— Eu vou voltar para a delegacia. Preciso checar a perícia desse corpo. Sara, cuida dela. E não a irrite.

— Eu? Irritar essa coisinha fofa? Jamais — ironizou a loira, caminhando até Eduarda e passando a mão pelos cabelos castanhos da outra. — Vá caçar seus monstros, Emanuel. Eu cuido da bailarina.

Assim que a porta se fechou e o som do elevador indicou que Emanuel havia partido, o silêncio caiu sobre as duas mulheres. Sara suspirou, deixando a máscara de ironia cair um pouco.

— Você está pálida, Eduarda. Beba um pouco de vinho.

— Eu não bebo, Sara... você sabe.

— Pois deveria começar. Viver com o Emanuel exige algum tipo de anestesia. Especialmente agora que ele está obcecado por esse assassino.

Sara caminhou até o sofá e sentou-se de forma expansiva, cruzando as pernas longas.

— Ele te trouxe porque está com medo, sabe disso, não é? Ele não admite, mas aquele homem morreria se algo acontecesse com você. Ou comigo. Mas principalmente com você, porque ele acha que você é feita de açúcar e pode derreter na primeira chuva.

Eduarda sentou-se na ponta da poltrona, as mãos entre os joelhos.

— Eu só queria que as coisas fossem normais. Eu queria terminar minha faculdade, dançar... sem que houvesse corpos nas ruas ou essa pressão constante para eu ser alguém que não sou.

— Normalidade é para gente pobre de espírito, Duda — disse Sara, olhando para as próprias unhas impecáveis. — Aqui o jogo é outro. Mas, já que você está aqui, vamos estabelecer as regras. Eu administro os estúdios, eu cuido da parte pesada. Você... você cuida do emocional dele. E da Maya. Aquela criança me olha como se eu fosse uma estranha e olha para você como se você fosse a Virgem Maria. É irritante, mas eu aceito.

Um choro vindo do monitor de babá eletrônica interrompeu a conversa. Era um choro baixo, manhoso, que ambas reconheceram imediatamente.

— Maya — disseram as duas ao mesmo tempo.

— Vá lá — ordenou Sara, gesticulando com a taça. — Se eu for, ela vai gritar mais alto. Ela quer o seu cheiro de baunilha e sua voz de ninar. Ágata está dormindo como uma pedra, nada acorda aquela mini rainha.

Eduarda caminhou até o berçário. O quarto era um sonho em tons de cinza e rosa, com móveis de design exclusivo. No primeiro berço, Ágata dormia de bruços, o cabelo loiro espalhado pelo travesseiro, parecendo uma miniatura perfeita de Sara, exalando uma confiança mesmo no sono. No segundo berço, Maya estava sentada, os olhinhos castanhos cheios de lágrimas, soluçando baixinho.

Assim que viu Eduarda, a bebê esticou os braços e soltou um som de alívio.

— Oh, meu amor... a tia Duda está aqui — sussurrou Eduarda, pegando a pequena no colo.

Maya enterrou o rosto no pescoço de Eduarda, agarrando a blusa dela com as mãozinhas gordinhas. O apego era instantâneo e profundo. Eduarda sentiu uma onda de paz ao segurar a menina; era como se, naquele abraço, o mundo exterior, com seus assassinos e tensões, deixasse de existir.

Sara apareceu na porta do quarto, observando a cena em silêncio. Seus olhos, geralmente duros e desafiadores, suavizaram-se por um breve segundo. Ela via em Maya tudo o que ela mesma tentava esconder: a necessidade de afeto, a sensibilidade, a doçura. E via em Eduarda a única pessoa capaz de nutrir isso sem julgamentos.

— Ela é igualzinha a você, sabia? — disse Sara, a voz baixa para não acordar Ágata. — É uma droga. Eu queria que ela fosse forte, que não precisasse de ninguém. Mas ela é um grude.

— Ser sensível não é ser fraca, Sara — repetiu Eduarda, balançando Maya suavemente. — Às vezes, é preciso mais coragem para sentir do que para fingir que não sente nada.

Sara soltou uma risada curta, sem humor.

— Filosofia de bailarina. Talvez você tenha razão. Mas no mundo do Emanuel, a sensibilidade é um alvo. É por isso que ele te trancou aqui. Ele sabe que, lá fora, você não duraria um dia sem que alguém tentasse quebrar suas asas.

Eduarda não respondeu. Ela sabia que Sara tinha uma ponta de razão, mas também sabia que a proteção de Emanuel era, muitas vezes, uma gaiola de ouro.

Horas depois, Emanuel retornou. Ele entrou no quarto das filhas e encontrou Eduarda adormecida na poltrona de amamentação com Maya em seus braços. Sara estava deitada no tapete felpudo ao lado, observando as duas enquanto mexia em alguns papéis da administração dos estúdios.

Ele parou na porta, a imagem de suas duas mulheres e de suas filhas finalmente sob o mesmo teto trazendo um alívio momentâneo para sua mente exausta. O caso do assassino estava longe de ser resolvido — o corpo encontrado no bairro de Eduarda tinha uma mensagem nova, uma equação matemática escrita com sangue na parede —, mas ali, naquele quarto, ele sentia que tinha o controle.

Sara levantou o olhar e viu Emanuel. Ela se levantou silenciosamente, caminhando até ele.

— Ela não vai embora tão cedo agora, não é? — sussurrou ela, ajeitando a gola da jaqueta dele.

— Nunca mais — respondeu Emanuel, os olhos fixos em Eduarda. — Eu vou construir um muro em volta desta família se for preciso.

— Você já construiu, Manu. Só espero que esse muro não nos sufoque.

Emanuel a puxou para um beijo rápido e intenso, antes de caminhar até Eduarda. Ele se inclinou e beijou a testa da jovem bailarina, que despertou assustada.

— Oi... você voltou — disse ela, a voz rouca de sono.

— Voltei. E você está em casa agora, Duda. Para sempre.

Eduarda olhou para Emanuel, depois para Sara, que agora pegava Ágata no colo porque a bebê loira decidira que era hora de acordar e exigir seu café da manhã. O contraste entre a doçura de Maya em seus braços e a postura vulgar e decidida de Sara na sua frente era a realidade de sua nova vida.

— Eu vou precisar de mais do que uma mochila de roupas, Emanuel — disse Eduarda, aceitando finalmente o seu destino.

— Eu já mandei buscarem tudo — respondeu ele com um sorriso de lado, o primeiro em muitos dias. — Até o seu piano de cauda. Eu não faço nada pela metade, pequena.

Naquela manhã, enquanto o sol nascia sobre a selva de pedra de São Paulo, a dinâmica da cobertura mudou. Eduarda não era mais a visita; ela era parte do ecossistema. Sara, embora nunca fosse admitir, sentia-se aliviada por ter alguém para dividir o peso da intensidade de Emanuel. E Emanuel, o investigador que caçava monstros, sentia que, pela primeira vez, suas peças estavam exatamente onde deveriam estar.

Mas, no fundo de sua mente, a imagem do padrão geométrico no corpo da vítima o assombrava. O assassino estava chegando perto. E agora que todas as suas joias estavam no mesmo cofre, o risco era ainda maior. Ele teria que ser o monstro mais forte para proteger a doçura de Eduarda e a fúria de Sara. E ele estava mais do que pronto para derramar sangue para garantir que aquele apartamento continuasse sendo o único lugar seguro no mundo.