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O Labirinto de Vidro e Tinta

O sol de São Paulo não pedia licença; ele invadia as janelas de vidro do chão ao teto da cobertura de Emanuel, refletindo-se no mármore branco e nas superfícies cromadas da cozinha gourmet. O aroma de café arábica e torradas integrais misturava-se ao cheiro de produtos de limpeza caros e ao perfume forte e adocicado de Sara. Para Eduarda, aquele ambiente ainda parecia um cenário de filme onde ela fora colocada sem ensaio prévio.

Emanuel estava sentado à cabeceira da mesa, o notebook aberto ao lado de uma xícara de café preto. Seus dedos, marcados por tatuagens que contavam histórias de dor e superação, digitavam freneticamente. Ele não dormira mais do que duas horas. A nova vítima, o padrão geométrico, a proximidade com a antiga casa de Duda... tudo aquilo era um quebra-cabeça que se recusava a encaixar.

— Você precisa comer, Manu — disse Eduarda, deslizando um prato com frutas cortadas e iogurte para perto dele. Ela usava um hobby de seda rosa pálido, os pés descalços movendo-se com a leveza de quem passara anos na ponta das sapatilhas.

Emanuel parou de digitar por um segundo e segurou o pulso dela, puxando-a para perto. Ele enterrou o rosto no ventre dela, soltando um suspiro pesado.

— Eu só preciso de silêncio, Duda. Minha cabeça parece uma colmeia.

— O silêncio acabou de ser cancelado, meu querido — anunciou Sara, entrando na cozinha com Ágata no quadril.

Sara era o oposto do minimalismo matinal. Mesmo às oito da manhã, ela usava um conjunto de ginástica de oncinha, justo e curto, realçando suas curvas esculpidas. O cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo alto e perfeito. Ágata, a bebê de oito meses, vestia um macacão de designer com a frase "Mini Boss" em pedrarias. A menina batia as mãozinhas na mesa, exigindo atenção.

— O pessoal do estúdio de Berlim está ligando sem parar. O fornecedor de tintas orgânicas atrasou a entrega e os clientes VIP estão começando a reclamar no Instagram — Sara disse, sentando-se e colocando Ágata em uma cadeirinha de luxo. — Eu já resolvi metade do problema, mas você precisa assinar as autorizações de importação de emergência.

Emanuel levantou a cabeça, a rigidez voltando ao rosto.

— Faça o que for necessário, Sara. Você tem a procuração. Só não me peça para lidar com logística hoje. A polícia técnica encontrou vestígios de pigmento de tatuagem na última cena de crime.

O silêncio que se seguiu foi gélido. Eduarda sentiu um calafrio percorrer sua espinha.

— Pigmento? — perguntou Eduarda, a voz trêmula. — Você acha que... que o assassino é um tatuador?

Emanuel olhou para ela, os olhos escuros e impenetráveis.

— É uma possibilidade. O corte é preciso, quase como uma incisão feita para que a tinta penetre de forma uniforme na derme, mesmo após a morte. É doentio. É artístico, de um jeito perverso.

— Ótimo — ironizou Sara, pegando uma fatia de mamão. — Além de um serial killer, temos um concorrente psicopata sujando a reputação da classe. Manu, se isso vazar, os estúdios vão perder clientes. As pessoas têm medo de agulhas por natureza, imagine agora.

— Eu não dou a mínima para os lucros agora, Sara — rosnou Emanuel, fechando o notebook com força. — Eu dou a mínima para o fato de que esse desgraçado estava a três casas da Eduarda. Ele está mapeando o meu mundo.

Eduarda sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. Ela se afastou da mesa, sentindo-se sufocada.

— Eu vou ver a Maya. Ela deve estar acordando.

— É a única coisa que você sabe fazer, não é? Fugir para o quarto dos bebês — disse Sara, não com maldade, mas com sua habitual crueza. — Aprenda uma coisa, bailarina: o perigo não desaparece porque você se esconde debaixo dos lençóis com uma criança.

Eduarda parou na porta da cozinha e olhou para trás.

— Eu não estou me escondendo, Sara. Eu estou tentando manter a sanidade da única coisa pura que resta nesta casa.

Ela saiu antes que Sara pudesse retrucar. No berçário, o ambiente era diferente. O sol entrava de forma mais suave, filtrado pelas cortinas de linho. Maya estava acordada, brincando com os próprios pés. Diferente de Ágata, que já era barulhenta e exigente, Maya era uma observadora silenciosa. Seus grandes olhos castanhos encontraram os de Eduarda, e um sorriso banguela iluminou seu rostinho.

— Oi, meu anjinho — sussurrou Eduarda, pegando a bebê. — Vamos sair daqui, vamos para o terraço pegar um pouco de ar.

Eduarda levou Maya para a área externa da cobertura, um jardim suspenso protegido por redes de segurança quase invisíveis e muros altos de vidro. Ela sentou-se em um balanço de vime, aninhando a bebê no colo. Maya tocou o rosto de Eduarda, e por um momento, a jovem sentiu que pertencia àquele lugar.

Mas a paz durou pouco. Emanuel apareceu no terraço alguns minutos depois. Ele havia trocado a camiseta por uma regata, revelando as tatuagens que cobriam seus braços — um mapa de sua própria história. Ele parecia mais calmo, mas o cansaço ainda estava lá.

— Desculpe por ter gritado lá dentro — disse ele, aproximando-se e sentando-se no chão, aos pés do balanço. — O estresse está me transformando em alguém que eu não gosto.

— Eu entendo, Manu. Só é difícil... eu me sinto em uma vitrine. E a Sara... ela faz eu me sentir tão pequena.

— A Sara é um trator, Duda. Ela sobreviveu a muita coisa antes de me conhecer. A vulgaridade dela, a dureza... é a armadura dela. Mas você — ele tocou o joelho de Eduarda —, você é o que me mantém humano. Se eu perder sua doçura, eu me torno igual aos monstros que eu caço.

Maya soltou um balbucio e esticou o braço para Emanuel. Ele sorriu, um gesto raro, e deixou que a filha segurasse seu dedo indicador.

— Ela é tão parecida com você — murmurou ele. — Às vezes eu olho para a Maya e vejo você com vinte anos a menos. O mesmo jeito de observar o mundo, como se estivesse tentando decidir se ele é seguro o suficiente para entrar.

— E ele é? — perguntou Eduarda, olhando para o horizonte repleto de prédios.

— Comigo, ele é. Eu prometo.

A conversa foi interrompida pelo som de saltos altos batendo no deck de madeira. Sara surgiu carregando Ágata, que agora usava óculos escuros de brinquedo e um chapéu de sol minúsculo.

— Reunião de família sem a diretoria? — perguntou Sara, ajeitando Ágata no colo de forma que a bebê parecesse uma modelo em pose. — Ágata estava entediada lá dentro. Ela quer ver o movimento da rua.

Sara sentou-se em uma espreguiçadeira próxima, ignorando o clima íntimo entre Emanuel e Eduarda.

— Manu, o investigador chefe ligou para o seu celular profissional. Ele disse que o pigmento encontrado na vítima... eles identificaram a marca. É a "Midnight Onyx".

Emanuel ficou rígido. O sangue pareceu sumir de seu rosto.

— Essa tinta é exclusiva, Sara.

— Eu sei — respondeu ela, séria pela primeira vez. — É a tinta que nós patenteamos no ano passado. Só é vendida para os nossos estúdios e para artistas selecionados por você.

O silêncio que caiu sobre o terraço foi absoluto. Eduarda não entendia de tintas ou patentes, mas entendeu a expressão no rosto de Emanuel. O assassino não estava apenas perto; ele estava usando as ferramentas do império de Emanuel.

— Ele está zombando de mim — sibilou Emanuel, levantando-se. — Ele está usando o meu sucesso, a minha arte, para assinar os crimes dele.

— Ou é alguém de dentro — sugeriu Sara, os olhos brilhando com uma inteligência fria. — Alguém da administração, ou um dos nossos tatuadores seniores. Eu vou puxar a lista de todos que tiveram acesso ao lote "Midnight Onyx" nos últimos seis meses.

— Faça isso agora, Sara — ordenou Emanuel. — E Eduarda...

— Eu sei — disse ela, abraçando Maya com mais força. — Eu não saio daqui.

— Não saiam do meu campo de visão — corrigiu ele. — Vou colocar mais dois seguranças na porta do elevador.

Emanuel saiu em direção ao escritório, seguido por Sara, que já ditava ordens para sua equipe pelo viva-voz. Eduarda ficou sozinha no terraço com as duas bebês. Ágata, no chão, tentava alcançar uma folha de uma planta ornamental, enquanto Maya continuava aninhada no peito de Eduarda, sentindo o coração acelerado da "mãe do coração".

O contraste era bizarro. De um lado, a vida de luxo, as bebês lindas, o amor possessivo de um homem poderoso. Do outro, a sombra de um assassino que usava a própria arte de Emanuel para destruir vidas.

Eduarda olhou para Ágata, a miniversão de Sara, já tão cheia de personalidade e desdém pelas coisas simples. Depois olhou para Maya, seu "grudinho", a alma sensível que parecia absorver toda a ansiedade do ambiente.

— A gente vai ficar bem — sussurrou Eduarda para as meninas, embora não tivesse certeza se acreditava naquelas palavras.

À tarde, o apartamento transformou-se em um centro de comando. Sara estava em seu elemento, cercada por planilhas e relatórios, cruzando dados de vendas com as datas dos assassinatos. Ela era rápida, eficiente e implacável. Emanuel, por outro lado, estava mergulhado no lado sombrio, analisando o perfil psicológico do assassino.

Eduarda sentia-se um fantasma. Ela tentou estudar para sua aula de História da Arte, mas as imagens de esculturas clássicas pareciam grotescas comparadas às descrições que ouvia Emanuel sussurrar ao telefone.

— Você está atrapalhando o fluxo, bailarina — disse Sara, sem tirar os olhos da tela do computador enquanto passava pela sala. — Por que não vai para a cozinha e prepara aquele jantar que o Manu gosta? Ele não come nada sólido há horas.

— Eu não sou a empregada da casa, Sara — rebateu Eduarda, sentindo uma pontada de irritação vencer sua timidez.

Sara parou e olhou para ela, arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada.

— Não, você é a namorada que não quer morar aqui, mas que agora está sob proteção total. Se quer ser útil, seja útil onde você tem talento. Eu cuido dos números, você cuida do estômago e do coração dele. É uma divisão de tarefas justa, não acha? Ou prefere vir aqui e analisar o fluxo de caixa de Tóquio comigo?

Eduarda suspirou, fechando o livro.

— O que ele gosta de comer quando está estressado?

Sara deu um sorriso de canto, quase vitorioso.

— Risoto de cogumelos. Com muito vinho branco. E não economize no queijo, ele gosta de conforto, mesmo que tente fingir que é um homem de ferro.

Eduarda foi para a cozinha. Cozinhar era uma forma de meditação para ela. O som da faca cortando os legumes, o chiado da manteiga na panela... aos poucos, a tensão começou a diminuir.

Enquanto o risoto apurava, ela viu Maya e Ágata no cercadinho da sala de estar. Ágata estava tentando tirar um brinquedo da mão de Maya, que apenas soltou o objeto e começou a chorar baixinho.

— Ei, Ágata, não faça isso com a sua irmã — repreendeu Eduarda, aproximando-se.

Ela pegou Maya no colo, mas para sua surpresa, Ágata também esticou os braços, fazendo um biquinho que era a cópia fiel de Sara quando queria algo.

— Você também quer colo, pequena diva? — Eduarda sorriu, sentando-se no tapete e acomodando as duas gêmeas em suas pernas.

Pela primeira vez, ela sentiu que a dinâmica entre as quatro — ela, Sara e as bebês — poderia realmente funcionar. Havia um equilíbrio estranho ali. Sara trazia a força e a estrutura; Eduarda trazia a suavidade e o acalento. Emanuel era o eixo que mantinha tudo girando, mesmo que esse eixo estivesse sob uma pressão insuportável.

O jantar foi silencioso. Emanuel comeu quase sem notar o sabor, mas Eduarda percebeu que seus ombros relaxaram um pouco. Sara bebia vinho e digitava no celular ao mesmo tempo.

— Encontrei algo — disse Sara de repente, largando o garfo. — Três lotes da "Midnight Onyx" foram desviados de uma remessa destinada ao estúdio de Madrid. O responsável pela logística foi demitido há dois meses por "quebra de confiança". O nome dele é Marcus Vinícius.

Emanuel levantou o olhar, a intensidade voltando instantaneamente.

— Marcus... ele era um dos meus melhores aprendizes de tatuagem antes de ir para a administração. Ele conhece o meu estilo. Ele conhece a minha técnica.

— E ele sabe onde moramos? — perguntou Eduarda, a voz falhando.

— Ele sabe onde eu moro — disse Emanuel, levantando-se da mesa. — Mas ele não sabia sobre você, Duda. Até agora.

O celular de Emanuel tocou. Era uma mensagem de um número desconhecido. Ele abriu e sentiu o mundo girar. Era uma foto. Uma foto de Eduarda, tirada naquela mesma manhã, através do vidro do terraço. Ela estava segurando Maya.

No rodapé da imagem, uma frase escrita com a mesma precisão geométrica dos crimes: "A arte mais bela é aquela que a gente pode tocar. Onde está a simetria no medo, Emanuel?"

Emanuel jogou o celular na mesa, a respiração pesada.

— Ele está aqui — sussurrou ele.

Sara levantou-se rapidamente, o rosto perdendo a cor sob a maquiagem.

— Como? A segurança...

— Ele não está dentro do apartamento, mas está nos prédios vizinhos. Ele tem uma visão direta para o terraço.

Emanuel caminhou até a janela e puxou as cortinas pesadas, fechando o apartamento para o mundo exterior. Ele se voltou para as duas mulheres.

— Sara, pegue a Ágata. Eduarda, pegue a Maya. Agora.

— O que você vai fazer? — perguntou Eduarda, já com a bebê nos braços, sentindo o pânico subir pela garganta.

— Vou fazer o que eu deveria ter feito desde o início — disse Emanuel, pegando sua arma no cofre embutido na parede da sala. — Vou parar de ser o investigador e começar a ser o caçador. E vocês duas... — ele olhou para Sara e depois para Eduarda — ...vocês vão para o quarto de pânico. E não saiam de lá até que eu diga a senha.

— Emanuel, por favor, tenha cuidado — pediu Eduarda, as lágrimas caindo livremente.

Sara, por outro lado, aproximou-se dele e tocou seu braço.

— Mate o desgraçado, Manu. Ninguém mexe com o que é nosso.

Emanuel assentiu, um brilho sombrio e letal nos olhos. Ele as conduziu pelo corredor secreto atrás do closet principal. O quarto de pânico era uma fortaleza tecnológica, equipada com câmeras, suprimentos e comunicação direta com a polícia federal.

Assim que a porta de aço se fechou, Eduarda e Sara ficaram sozinhas no espaço confinado e iluminado por luzes de LED frias. O silêncio ali dentro era absoluto, um contraste aterrador com o caos que parecia estar prestes a explodir lá fora.

Sara sentou-se no sofá de couro, apertando Ágata contra si. Eduarda sentou-se ao lado dela, Maya dormindo profundamente em seu colo, alheia ao perigo.

— Ele vai ficar bem, não vai? — perguntou Eduarda.

Sara olhou para ela. Pela primeira vez, não havia ironia, não havia vulgaridade, não havia competição. Havia apenas a verdade nua e crua de duas mulheres que amavam o mesmo homem difícil.

— O Emanuel é o homem mais perigoso que eu já conheci, Duda. O assassino acha que o conhece porque estudou a arte dele. Mas ele não conhece a escuridão que o Manu guarda para proteger quem ele ama.

Sara estendeu a mão e, num gesto raro de vulnerabilidade, segurou a mão de Eduarda.

— Agora, somos só nós e as meninas. E se aquele desgraçado conseguir passar pelo Emanuel, ele vai ter que passar por mim. E eu te garanto, bailarina... eu mordo muito mais forte do que ele imagina.

Eduarda apertou a mão de Sara de volta. Naquela pequena sala blindada, cercadas por telas que mostravam os corredores vazios do apartamento, as duas namoradas de Emanuel deixaram de ser rivais. Eram agora as guardiãs de um legado de sangue e tinta, esperando que o homem que amavam retornasse da escuridão para trazê-las de volta à luz.

Lá fora, o som de um vidro se quebrando ecoou pelo sistema de áudio do quarto de pânico. O jogo havia começado. E Emanuel estava pronto para dar a sua última e mais sangrenta lição de anatomia.