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O Reflexo na Cera e o Alento dos Cachos

O tempo havia passado com a rapidez de uma correnteza, e os cabelos de Maya, para o alívio profundo de Eduarda, haviam retornado em toda a sua glória. Os cachinhos castanhos, agora um pouco mais escuros e definidos, emolduravam o rosto da menina de três anos como uma aura de seda. Eduarda passava minutos intermináveis apenas enrolando aquelas mechas nos dedos, sentindo o cheiro de xampu de camomila que parecia ser a própria essência da pureza da filha.

Naquela tarde de terça-feira, o sol de São Paulo estava impiedoso, e a agenda da cobertura estava um caos. Emanuel estava mergulhado em um novo caso de homicídio ritualístico que exigia sua presença na delegacia desde as seis da manhã. Sara, por sua vez, estava em uma reunião de crise com a equipe de marketing dos estúdios; um dos tatuadores seniores em Madri havia se envolvido em uma polêmica pública, e ela estava "em modo de guerra", o que significava que ninguém ousava interromper seu fluxo de telefonemas e planilhas.

— Maya, meu anjo, a mamãe precisa dar um pulinho no salão e não tem ninguém para ficar com você — explicou Eduarda, enquanto calçava as sandálias rasteiras na menina. — A Mãe Sara está ocupada e o Papai Manu está trabalhando. Você se comporta se for com a mamãe?

Maya olhou para Eduarda com aqueles grandes olhos castanhos, a miniversão da doçura da mãe.

— Eu vou ser uma princesa, Mamãe Duda. Vou ficar quietinha.

Eduarda sorriu e beijou o topo da cabeça da filha. Ela detestava levar Maya para compromissos de adultos, especialmente para algo tão íntimo e, ocasionalmente, doloroso quanto uma depilação, mas sua esteticista de confiança só tinha aquele horário, e Emanuel tinha sido enfático sobre como gostava de encontrar a pele de Eduarda impecável e macia quando ele finalmente conseguia uma folga do horror das cenas de crime.

O salão de estética era um ambiente minimalista, com cheiro de lavanda e música ambiente suave. Eduarda foi conduzida à cabine privada por uma profissional que já a atendia há anos.

— Pode entrar, querida. A pequena pode ficar sentada naquela poltrona ali, não é? — perguntou a depiladora, preparando o aquecedor de cera.

— Sim, ela é muito tranquila — respondeu Eduarda, começando a se preparar.

Eduarda deitou-se na maca, sentindo a vulnerabilidade habitual daquele momento. Maya, sentada em uma poltrona de veludo cinza que parecia grande demais para ela, observava tudo com uma curiosidade analítica. Seus pés balançavam no ar enquanto ela segurava sua boneca de pano.

— Mamãe, o que a moça vai fazer? — perguntou Maya, a voz ecoando no cubículo silencioso.

— Ela vai tirar uns pelinhos da mamãe para a pele ficar lisinha, meu amor. É como tirar um adesivo — explicou Eduarda, tentando manter a voz leve, apesar de saber que a cera quente na região da virilha nunca era exatamente uma experiência relaxante.

A profissional começou a aplicar a cera morna. Eduarda fechou os olhos, tentando focar na respiração. Maya se inclinou para frente na poltrona, os olhos arregalados.

— Está quente, mamãe? — a menina sussurrou, a expressão ficando tensa.

— Só um pouquinho, querida.

Então, veio o primeiro puxão.

Eduarda não gritou — ela era bailarina, acostumada a suportar dores musculares e calos sangrentos —, mas não conseguiu evitar uma careta brusca, os lábios se comprimindo e o corpo tensionando sobre a maca.

O efeito em Maya foi imediato. A menina soltou um suspiro audível, suas sobrancelhas se juntando em uma expressão de puro horror. Ela olhou para a depiladora como se a mulher fosse uma vilã de desenho animado.

— Você machucou a minha mamãe! — exclamou Maya, a voz subindo um tom.

— Não, meu anjo, a moça está só trabalhando — disse Eduarda rapidamente, forçando um sorriso que não chegou aos olhos.

A profissional, acostumada com clientes que traziam filhos, deu uma risadinha nervosa.

— É rapidinho, pequena. Sua mamãe é muito corajosa.

Mas Maya não estava convencida. A cada novo pedaço de cera aplicado e, consequentemente, a cada puxão seco, a menina reagia de forma dramática. Quando a depiladora puxava o papel, Maya fechava os olhos com força e fazia uma careta de dor, como se ela mesma estivesse sentindo o impacto. Ela contorcia o nariz, apertava a boneca contra o peito e soltava pequenos murmúrios de "ai, ai, ai".

— Mamãe, para! — pediu Maya, as lágrimas começando a brilhar nos olhos. — A moça está arrancando a sua pele!

Eduarda, apesar do desconforto, sentiu o coração derreter. A empatia de Maya era tão profunda, tão visceral, que a menina estava fisicamente sofrendo por ela. Era o oposto de Ágata, que provavelmente teria olhado para a cena com tédio ou perguntado se poderia pintar as unhas enquanto esperava.

— Venha aqui, Maya — pediu Eduarda, estendendo a mão.

A menina correu para o lado da maca e segurou a mão de Eduarda com as duas mãozinhas pequenas.

— Por que você faz isso, mamãe? Dói muito!

— A gente faz algumas coisas para se sentir bonita, meu amor. E o papai gosta... — Eduarda parou, percebendo que aquela explicação não fazia sentido para uma criança. — É só um cuidado, como pentear o cabelo quando está embaraçado. Às vezes puxa um pouquinho, mas passa rápido.

Maya não soltou a mão de Eduarda até o final da sessão. A cada puxão final, a menina soltava um suspiro pesado, como se estivesse ajudando a carregar o fardo da dor. Quando a profissional finalmente terminou e começou a aplicar o gel calmante, Maya soltou um longo "ufa" que fez a depiladora rir de verdade.

— Graças a Deus acabou, né, princesa? — disse a mulher.

— Você é malvada — murmurou Maya para a depiladora, escondendo o rosto no quadril de Eduarda enquanto ela se vestia.

— Maya! Peça desculpas, isso não se diz — repreendeu Eduarda, embora estivesse achando a proteção da filha adorável.

— Tudo bem, Eduarda. Ela só te ama muito — disse a profissional, guardando os materiais.

Ao saírem do salão, Maya ainda parecia chateada. Ela caminhava de mãos dadas com Eduarda, olhando para a mãe de baixo para cima com uma preocupação solene.

— Mamãe, quando eu for grande, eu não quero tirar os pelinhos — anunciou a menina com a convicção de uma rainha. — Eu vou deixar eles todos lá para não sofrer.

Eduarda riu, sentindo-se leve após a tensão do procedimento.

— Tudo bem, meu amor. Você vai fazer o que quiser com o seu corpo.

Quando chegaram à cobertura, a atmosfera havia mudado. Emanuel já estava em casa, jogado no sofá da sala com Ágata sentada em sua barriga. Ele ainda usava a calça da farda, mas estava sem camisa, exibindo o peito largo e as tatuagens que Maya tanto gostava de contornar com os dedos. O rosto dele estava marcado pelo cansaço, mas seus olhos brilharam ao ver as duas entrarem.

— Onde as minhas mulheres estavam? — perguntou ele, a voz rouca.

Maya soltou a mão de Eduarda e correu em direção ao pai, mas não para um abraço carinhoso. Ela parou na frente dele com as mãos na cintura, a expressão de julgamento que ela claramente herdara de Sara nos momentos de irritação.

— Papai, você é muito malvado! — acusou Maya.

Emanuel franziu a testa, surpreso, e olhou para Eduarda em busca de uma explicação.

— O que eu fiz agora, pequena? Eu acabei de chegar.

— Você faz a Mamãe Duda sofrer! — Maya continuou, apontando o dedinho para ele. — A moça puxou a pele dela e a mamãe fez cara de choro. E ela disse que faz isso porque você gosta! Você é um monstro!

Emanuel arregalou os olhos e depois soltou uma gargalhada alta, que fez Ágata pular em cima dele. Ele olhou para Eduarda, que estava vermelha de vergonha na entrada da sala.

— Então você levou o nosso grudinho para a depilação, Duda? — Emanuel perguntou, o tom carregado de diversão maliciosa.

— Eu não tinha com quem deixar, Emanuel! — defendeu-se Eduarda, escondendo o rosto nas mãos. — A Sara estava em reunião e você estava caçando bandidos.

Emanuel pegou Maya e a sentou no seu colo, ao lado de Ágata.

— Escute aqui, Maya. O papai não quer que a mamãe sofra. A mamãe faz essas coisas porque ela quer ser a bailarina mais linda do mundo para mim. Mas se você acha que dói, da próxima vez eu vou lá e seguro a mão dela, o que você acha?

— Eu já segurei — disse Maya, ainda emburrada. — Mas a moça puxou muito forte.

Sara saiu do escritório naquele momento, massageando as têmporas. Ela parou ao ver a cena: as crianças no colo de Emanuel e Eduarda ainda parada na porta, parecendo querer desaparecer.

— O que está acontecendo aqui? Dá para ouvir os gritos da Maya lá do corredor — disse Sara, caminhando até o bar para se servir de água.

— A Maya descobriu o preço da beleza, Sara — explicou Emanuel, ainda rindo. — Ela acha que eu sou um torturador porque a Eduarda foi se depilar.

Sara soltou uma risada curta e irônica, olhando para Eduarda de cima a baixo com aquele seu olhar clínico.

— Bem, pelo menos alguém nesta casa se preocupa com a estética. Eu mesma preciso marcar a minha. Mas, Eduarda, levar a menina para ver isso? Você quer traumatizar a criança? Daqui a pouco ela vai achar que ser mulher é um filme de terror.

— Eu não tive escolha, Sara! — Eduarda repetiu, finalmente caminhando até o sofá e sentando-se ao lado de Emanuel.

Emanuel passou o braço pelos ombros de Eduarda e a puxou para perto, beijando sua têmpora.

— Obrigado pelo sacrifício, Duda. Eu garanto que vou compensar você mais tarde... quando a patrulheira da dor estiver dormindo.

Eduarda deu um tapinha leve no braço dele, sentindo o rosto esquentar ainda mais.

— Papai, você vai dar um beijo no dodói da mamãe? — perguntou Maya, agora mais calma, mas ainda vigilante.

— Vou dar muitos beijos, Maya. Prometo — respondeu Emanuel, olhando para Eduarda com uma intensidade que fez o estômago dela dar voltas.

Sara revirou os olhos, mas havia um sorriso de canto em seus lábios. Ela se sentou na poltrona em frente ao casal, observando a família.

— Ágata, venha aqui com a mamãe — chamou Sara. — Deixe esses dois com a fofura deles. Vamos ver se o seu cabelo está tão perfeito quanto o meu.

Ágata correu para Sara, e as duas começaram uma conversa sobre laços e brilhos, uma dinâmica completamente diferente da conexão emocional e sensível entre Eduarda e Maya.

Emanuel puxou Maya para um abraço apertado, sentindo os cachinhos da filha contra seu rosto.

— Você é uma boa protetora, Maya. Igual ao papai. Mas a Mamãe Duda é forte, sabia? Ela aguenta muito mais do que você imagina.

Maya olhou para Eduarda, que sorriu e acariciou o rosto da filha.

— É verdade, meu amor. A mamãe está ótima. Veja, nem dói mais.

Maya finalmente relaxou, deitando a cabeça no peito de Emanuel. O silêncio se instalou na sala, apenas com o som da conversa baixa de Sara e Ágata ao fundo. Emanuel olhou para Eduarda por cima da cabeça da filha, e o divertimento em seus olhos foi substituído por uma admiração profunda.

Ele sabia que Eduarda era o alento daquela casa. Era a doçura dela que equilibrava a agressividade dele e a frieza de Sara. E ver Maya herdando essa capacidade de sentir a dor do outro, de se importar de forma tão pura, era o que dava a Emanuel a certeza de que, apesar de todo o sangue e escuridão que ele via no trabalho, sua casa era um santuário de luz.

— Eu te amo — sussurrou Emanuel para Eduarda, quase inaudível.

— Eu também te amo — ela respondeu, sentindo-se protegida entre o homem que era seu porto seguro e a filha que era seu coração.

Naquela noite, após Sara levar Ágata para o banho e o movimento da casa diminuir, Emanuel cumpriu sua promessa. Enquanto Eduarda descansava na cama grande, ele cuidou dela com uma delicadeza que contrastava com sua farda e sua arma. Não havia mais dor, apenas o toque suave de mãos que sabiam exatamente como agradecer pela dedicação e pela doçura que mantinham aquela família unida.

E Maya, em seu quartinho, dormia profundamente, sonhando com cachinhos que voltavam e com a certeza de que, no mundo de Mamãe Duda e Papai Manu, até a dor de um puxão de cera era curada com amor. O equilíbrio entre a seda e a tinta, entre a timidez e a vulgaridade, permanecia intacto, sob a vigilância constante de um investigador que, no final do dia, só queria ser o herói de suas mulheres.