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O Brilho da Curadora e o Rugido do Investigador

O salão da Galeria Prestes era um monumento ao minimalismo industrial: paredes de concreto aparente, iluminação em trilhos de LED que custavam o preço de um carro popular e janelas imensas que emolduravam o skyline noturno de São Paulo. No centro de tudo, Eduarda movia-se com uma agilidade que desafiava seus sete meses de gestação. Ela usava um vestido de seda azul-marinho que delineava perfeitamente a curva generosa de sua barriga, onde Arthur agora parecia estar treinando para uma maratona.

— Não, esse quadro do Di Cavalcanti precisa de dois graus a mais de inclinação na luz — disse Eduarda para um dos montadores, apontando com um tablet. — A sombra está escondendo a textura da pincelada no rosto da mulata.

— Sim, senhora. Agora mesmo — respondeu o funcionário, apressando-se em atender ao comando da jovem que, apesar da aparência doce e da voz suave, havia assumido a curadoria da exposição mais importante do ano com um punho de ferro revestido de veludo.

Eduarda estava em seu elemento. A timidez habitual parecia ter ficado na porta da galeria. Ali, ela não era apenas a namorada sensível de um tatuador rico ou a mãe carinhosa de Maya; ela era a historiadora da arte brilhante, a mulher que via conexões entre cores e sombras que ninguém mais percebia.

A porta principal da galeria se abriu, e o ar pareceu mudar. Emanuel entrou, e sua presença era como uma frente fria em um dia de verão. Ele estava impecável em um terno cinza-chumbo feito sob medida, que escondia a arma no coldre de cintura, mas não conseguia ocultar a tensão em sua mandíbula. Ao seu lado, Maya, vestida em um mini vestido de tule que combinava com os sapatos de verniz, segurava a mão do pai com uma seriedade adorável.

Emanuel parou no meio do salão e escaneou o ambiente com olhos de investigador. Ele não estava vendo arte; ele estava vendo riscos. Piso escorregadio, quinas de mármore, pedestais que poderiam ser derrubados e, principalmente, uma multidão de pessoas que ele não havia investigado pessoalmente.

— Eduarda! — O chamado dele atravessou o salão, fazendo alguns convidados se virarem.

Eduarda suspirou, entregando o tablet para sua assistente.

— O meu "segurança particular" chegou — murmurou ela, forçando um sorriso enquanto caminhava ao encontro deles. — Oi, meu amor. Oi, princesa da mamãe.

Maya soltou a mão de Emanuel e correu para abraçar as pernas de Eduarda.

— Mamãe! Você está brilhando! — exclamou a menina, olhando para o vestido da mãe.

— Obrigada, meu anjo. Você também está linda.

Emanuel, no entanto, não estava para elogios. Ele envolveu a cintura de Eduarda com um braço possessivo, seus olhos fixos na barriga dela.

— Você está de pé há quatro horas, Eduarda. Eu chequei o GPS do seu celular. Você não sentou nem para beber água.

— Emanuel, eu estou trabalhando — respondeu ela, tentando manter a voz baixa. — É a noite de abertura. Eu sou a curadora chefe. Não posso ficar sentada em um trono de gelo enquanto os convidados chegam.

— Você está grávida de sete meses do meu filho! — Emanuel sibilou, a voz carregada daquela autoridade que costumava fazer criminosos confessarem. — O Arthur deve estar exausto. Você está pálida. Onde está a sua cadeira? Eu vou mandar alguém trazer uma poltrona ergonômica para o meio desta sala agora mesmo.

— Você não vai fazer nada disso — rebateu Eduarda, os olhos castanhos brilhando com uma resistência que Emanuel ainda estava aprendendo a lidar. — Se você trouxer uma poltrona para cá, eu juro que me mudo de volta para a casa dos meus pais amanhã.

Emanuel travou a mandíbula tão forte que um músculo saltou em seu rosto. Ele olhou em volta, vendo um grupo de críticos de arte se aproximando.

— Quem são aqueles homens? — perguntou ele, estreitando os olhos. — Aquele de cachecol verde está olhando para você de um jeito que eu não gosto.

— Ele é o maior crítico da Folha, Emanuel. Por favor, comporte-se.

— Eu vou checar os antecedentes dele — murmurou Emanuel, já levando a mão ao celular no bolso interno do paletó.

— Você não vai checar nada! — Eduarda segurou a mão dele. — Vá beber um espumante. Vá mostrar os quadros para a Maya. Me deixe ser a profissional que eu estudei para ser.

Emanuel soltou um suspiro pesado, mas não relaxou. Ele pegou Maya no colo, que observava a discussão com olhos curiosos.

— Tudo bem. Mas eu vou ficar a três metros de você o tempo todo. Se você fizer uma careta de dor ou se o Arthur chutar muito forte, eu te levo daqui carregada, está ouvindo?

— Sim, senhor delegado — ironizou ela, dando um beijo rápido no rosto dele antes de se afastar para cumprimentar os patrocinadores.

A noite seguiu e o sucesso da exposição era inegável. Eduarda era o centro das atenções, explicando as nuances das obras com uma clareza que encantava a todos. Emanuel, por outro lado, era uma nuvem negra pairando sobre o evento. Ele seguia Eduarda como uma sombra, mantendo uma distância mínima, com os braços cruzados sobre o peito, encarando qualquer homem que ousasse tocar no braço de Eduarda ou falar com ela por mais de dois minutos.

— Papai, por que aquele homem está de mãos dadas com a Mamãe Duda? — perguntou Maya, apontando para um senhor de idade, um renomado colecionador, que guiava Eduarda para ver uma peça específica.

— Ele não está de mãos dadas, Maya. Ele está segurando o cotovelo dela — corrigiu Emanuel, os olhos faiscando. — E ele está invadindo o espaço pessoal dela.

Emanuel não aguentou. Ele caminhou a passos largos e se posicionou entre Eduarda e o colecionador.

— Com licença — disse Emanuel, sua voz soando como um aviso de perigo. — Minha namorada precisa de um descanso. O peso do bebê está sobrecarregando a região lombar dela.

O colecionador, um homem elegante de setenta anos, piscou confuso.

— Oh, peço desculpas. Eu não queria...

— Emanuel! — Eduarda estava mortificada. — O Sr. Albuquerque estava apenas me parabenizando pela escolha da iluminação.

— Ele pode parabenizar de longe — retrucou Emanuel, pegando a taça de água da mão de Eduarda. — Beba isso. Agora. E sente-se naquele banco de couro ali.

— Eu não vou sentar, Emanuel! Eu estou no meio de uma conversa importante!

— Eduarda, eu estou sentindo a sua pulsação daqui. Você está estressada. Se você entrar em trabalho de parto prematuro por causa de um Di Cavalcanti, eu queimo esta galeria inteira — declarou ele, com uma seriedade que assustou até os garçons.

— Você é impossível! — Eduarda virou as costas para ele, tentando retomar a conversa, mas Emanuel simplesmente a pegou pela cintura e a guiou, quase à força, para o canto mais calmo da galeria.

— Maya, vigie a sua mãe — ordenou Emanuel, colocando a menina sentada ao lado de Eduarda no banco. — Se ela tentar levantar, você me avisa.

— Pode deixar, papai! — disse Maya, assumindo o posto de guarda com orgulho.

Eduarda estava furiosa, mas o cansaço físico estava realmente começando a aparecer. Seus pés latejavam e Arthur parecia estar fazendo uma sessão de kickboxing em suas costelas.

— Eu te odeio às vezes — murmurou ela, aceitando a água que ele insistia em oferecer.

— Eu sei. Mas você e esse moleque aí dentro são a minha vida. Eu não vou deixar nada acontecer sob a minha vigilância.

Nesse momento, Sara entrou na galeria. Ela estava deslumbrante em um vestido vermelho justo, com fendas que mostravam suas pernas torneadas e o brilho do silicone sob o decote generoso. Ela caminhava como se fosse a dona do lugar, atraindo todos os olhares masculinos instantaneamente.

— Mas que cena adorável — ironizou Sara, aproximando-se do trio. — O investigador de elite e sua prisioneira grávida. Emanuel, você está parecendo um segurança de boate em dia de briga.

— Sara, graças a Deus — suspirou Eduarda. — Tire ele de perto de mim. Ele está assustando os colecionadores.

— Eu não estou assustando ninguém — defendeu-se Emanuel. — Estou garantindo a integridade física da minha família.

Sara deu uma risada alta e vulgar, atraindo ainda mais atenção.

— Manu, querido, olhe para a Eduarda. Ela é a estrela da noite. Deixe ela brilhar um pouco sem essa sua cara de quem vai dar voz de prisão a qualquer um que respire o mesmo ar que ela.

— Ela está grávida, Sara! — Emanuel apontou para a barriga de Eduarda como se fosse uma prova de crime.

— Eu também estive grávida, e você não me trancou em um cofre — rebateu Sara, pegando uma taça de espumante da bandeja de um garçom que passava. — Ah, espere. Você tentou, mas eu não deixei.

— Porque você é impossível de controlar — resmungou Emanuel.

— Exatamente. E a Eduarda está aprendendo comigo. — Sara piscou para Eduarda. — O trabalho está impecável, Duda. Até eu, que não entendo nada de arte que não seja tatuada na pele, consigo ver que você fez um milagre aqui.

— Obrigada, Sara — disse Eduarda, sentindo um alívio genuíno pelo elogio da outra.

A trégua durou pouco. Um jovem artista plástico, conhecido por sua personalidade excêntrica, aproximou-se de Eduarda. Ele estava visivelmente embriagado de empolgação e tentou abraçar a curadora para agradecer pela montagem de suas obras.

— Eduarda! Você é uma deusa! — exclamou o jovem, abrindo os braços.

Antes que ele pudesse encostar um dedo no tecido de seda azul, Emanuel se atravessou. Ele segurou o pulso do artista com uma pressão que fez o rapaz empalidecer instantaneamente.

— Distância — disse Emanuel, a voz baixa e letal. — Trinta centímetros no mínimo.

— Manu! Solte ele! — Eduarda levantou-se, ignorando a dor nas costas.

— Ele ia encostar em você, Eduarda. Ele está bêbado. Pessoas bêbadas são imprevisíveis e perigosas para gestantes.

— Ele é o artista principal da noite, seu ogro! — Eduarda puxou o braço de Emanuel.

O artista, recuperando o fôlego, olhou para Emanuel com pavor.

— Desculpe... eu só... eu só queria agradecer.

— Agradeça por escrito — disse Emanuel, sem soltar o olhar de predador.

Sara gargalhava ao fundo, achando a cena a melhor parte da exposição.

— Emanuel, você é um caso perdido — disse ela, entre um gole e outro de espumante. — Eduarda, se eu fosse você, pedia o divórcio antes mesmo de casar.

— Não dê ideias a ela, Sara! — rosnou Emanuel.

Maya, sentada no banco, observava tudo com atenção. De repente, ela se levantou e caminhou até o artista, que ainda estava trêmulo.

— Não tenha medo — disse a menina, com a voz doce de Eduarda. — O meu papai é policial. Ele só está protegendo o meu irmãozinho Arthur. Ele é um herói, mas às vezes esquece como se faz festa.

O salão inteiro pareceu soltar um suspiro coletivo. A inocência de Maya quebrou a tensão. O artista sorriu, Emanuel relaxou os ombros, e Eduarda sentiu as lágrimas virem aos olhos.

— Viu só? — disse Eduarda, aproximando-se de Emanuel e pegando sua mão. — Até a sua filha sabe que você está exagerando.

Emanuel olhou para Maya, depois para Eduarda, e finalmente para a barriga onde seu filho crescia. Ele suspirou, derrotado pela doçura da situação.

— Tudo bem. Eu vou tentar... diminuir a vigilância. Mas você vai sentar a cada quinze minutos. É o meu termos de rendição.

— Dez minutos a cada hora — negociou Eduarda.

— Vinte minutos a cada meia hora.

— Emanuel!

— Quinze minutos a cada quarenta e cinco — finalizou ele, com um tom de quem não aceitava mais contrapropostas.

— Fechado.

O restante da noite foi mais tranquilo. Emanuel continuou sendo uma presença imponente, mas permitiu que Eduarda circulasse, embora mantivesse Maya como sua "espiã oficial". Sara, por sua vez, acabou se tornando a alma da festa, flertando com investidores e garantindo que os estúdios de Emanuel fossem mencionados em todas as rodas de conversa.

Perto do final do evento, quando a maioria dos convidados já havia saído, Eduarda sentou-se exausta em uma das poltronas de design da galeria. Emanuel aproximou-se, retirou o paletó e o colocou sobre os ombros dela. Ele se ajoelhou à sua frente e começou a massagear os pés dela, ignorando completamente quem ainda estava no salão.

— Você foi incrível hoje — sussurrou ele, os olhos agora cheios de um orgulho que ele não conseguia mais esconder sob a farda de protetor. — A exposição está magnífica.

— Eu te disse que podia fazer isso, Manu — respondeu ela, fechando os olhos sob o toque das mãos fortes dele. — Eu não sou frágil.

— Eu sei que não é. Mas você é o meu tesouro. E eu sou um homem treinado para guardar tesouros, Duda. Às vezes eu esqueço que o tesouro também precisa respirar.

Maya aproximou-se e deitou a cabeça no colo de Eduarda, bocejando.

— O Arthur já foi dormir, mamãe? Ele parou de chutar.

— Acho que sim, pequena. Ele está orgulhoso da mamãe dele também.

Sara apareceu, segurando suas sandálias de salto alto em uma mão e o celular na outra.

— Bom, o Twitter está bombando. A curadoria da "Sra. Emanuel" é o assunto do momento. Parabéns, Duda. Você conseguiu o que ninguém faz: calar a boca do Emanuel por cinco minutos.

— Vamos para casa — disse Emanuel, levantando-se e pegando Maya no colo. — Antes que eu decida investigar a vida de cada pessoa que postou algo sobre a minha mulher na internet.

Eduarda riu, levantando-se com a ajuda dele. Enquanto caminhavam para a saída da galeria, ela olhou para trás, para as obras de arte que ela havia organizado com tanto amor. Ela era uma curadora, uma historiadora, uma mãe e uma mulher forte. E, apesar do surto possessivo e engraçado de Emanuel, ela sabia que aquele homem de terno cinza e olhar de águia era a parede que segurava o mundo para que ela pudesse continuar criando beleza.

— Manu? — chamou ela, enquanto entravam no elevador.

— Sim?

— Na próxima exposição, eu vou contratar seguranças de verdade. Só para você poder ficar em casa assistindo futebol.

Emanuel sorriu, um brilho perigoso e divertido nos olhos.

— Tente. Eu vou estar infiltrado entre eles. Você nunca vai se livrar de mim, Eduarda.

Ela encostou a cabeça no ombro dele, sentindo-se completa. O caos da noite havia terminado, e o silêncio da proteção de Emanuel era, no fim das contas, a sua obra de arte favorita.