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O Peso da Coroa e o Fogo das Entranhas
O crepúsculo em São Paulo tingia o céu de um laranja metálico, a mesma cor do pôr do sol que refletia nas janelas panorâmicas da cobertura de Emanuel. Dentro daquele palácio de vidro e concreto, a atmosfera era densa, carregada de hormônios, expectativas e uma rivalidade que, embora silenciosa, vibrava em cada batida de coração. Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro italiano, observando as duas mulheres que compunham seu mundo. Ele as amava com intensidades diferentes, mas com a mesma possessividade absoluta.
Sara estava de pé junto à janela, segurando uma taça de água com gás como se fosse um cálice de veneno. O ventre de seis meses estava bem marcado sob o vestido de seda carmesim, justo demais para uma gestante comum, mas perfeito para ela. A notícia do ultrassom daquela tarde ainda ecoava como um trovão em sua mente: outra menina.
— Outra menina, Emanuel — Sara disse, a voz cortante, carregada de uma frustração que ela não fazia questão de esconder. — Outra "mini diva" para gastar seu dinheiro com laços e diamantes. Eu queria o herdeiro. Eu queria o garoto que ia herdar seus estúdios de Londres e Tóquio.
Emanuel levantou-se com a calma de um predador que conhece seu domínio. Ele caminhou até ela, envolvendo-a por trás, as mãos grandes espalmando-se sobre o ventre redondo de Sara. Ele sentiu o chute da bebê, um movimento vigoroso que parecia ecoar a personalidade da mãe.
— Você está sendo dramática, Sara — ele sussurrou perto do ouvido dela, a voz grave e vibrante. — Uma filha sua nunca será apenas uma menina. Ela será uma força da natureza. Eu não preciso de um herdeiro de sangue para validar meu império, eu preciso de lealdade. E você me deu a Ágata, e agora me dará outra rainha.
Sara inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos enquanto sentia o hálito dele. A frustração começou a ceder espaço para o conforto da possessividade de Emanuel.
— Eu sinto que falhei — ela confessou, a voz mais baixa, perdendo um pouco daquela armadura de arrogância. — A Eduarda carrega o seu filho homem. O Arthur. E eu... eu só te dou meninas.
— Você me dá o que eu quero, Sara — Emanuel afirmou, virando-a para que ela o encarasse. — Eu amo você justamente porque você não se curva. Não transforme isso em uma competição de úteros. O Arthur terá o nome dele, e suas filhas terão os delas. Agora, pare de agir como se tivesse perdido uma guerra. Você é a minha sócia, a minha mulher de ferro. Nada muda isso.
Ele a beijou com uma força que buscava silenciar as inseguranças dela. Sara correspondeu, agarrando-se aos ombros dele, sentindo-se validada pela brutalidade controlada de Emanuel. Para ela, o amor dele era uma transação de poder e proteção, e naquele momento, ela se sentia protegida.
No canto da sala, sentada em uma chaise longue, Eduarda observava a cena. Aos sete meses de gravidez de Arthur, ela parecia uma pintura de suavidade. O vestido de linho claro caía fluido sobre suas curvas, e seu rosto, outrora apenas doce, agora carregava o brilho de uma maturidade sensual. Mas, por dentro, Eduarda estava em chamas.
Ver Emanuel consolar Sara, ver as mãos dele naquela pele loira, despertava em Eduarda uma reação que ela mal conseguia controlar. Não era apenas ciúme; era uma necessidade física, visceral. A gravidez transformara seu corpo em um receptor sensível de cada gesto de Emanuel. Ela sentia um latejar constante, uma umidade que a deixava inquieta, uma fome que só o macho alfa que comandava aquela casa poderia saciar.
— Emanuel... — a voz de Eduarda saiu mais rouca do que ela pretendia.
Ele se afastou de Sara, os olhos escuros encontrando os de Eduarda. Ele notou a respiração curta dela, o jeito como ela apertava as bordas da chaise, os nós dos dedos brancos. Emanuel conhecia aquele olhar. Era a manha de Eduarda se transformando em desejo puro.
— Vá descansar, Sara — Emanuel ordenou, sem desviar os olhos de Eduarda. — Peça para a babá preparar o banho da Ágata. Eu já vou lá ver vocês.
Sara olhou de Emanuel para Eduarda, um sorriso irônico e compreensivo surgindo em seus lábios pintados. Ela conhecia o jogo. Ela sabia que, enquanto ela era o intelecto e a fúria de Emanuel, Eduarda era o refúgio carnal e emocional.
— Não a canse demais, Emanuel — Sara provocou, ajeitando o vestido. — O Arthur precisa de uma mãe inteira amanhã.
Quando Sara saiu, o silêncio na sala tornou-se elétrico. Emanuel caminhou devagar em direção a Eduarda. Cada passo dele parecia ecoar dentro dela.
— Você está inquieta, Duda — ele disse, parando entre as pernas dela, as mãos nos bolsos da calça social.
— Eu não consigo parar de olhar para você — ela confessou, a timidez habitual sendo engolida por uma urgência primitiva. — Eu quero você, Emanuel. Aqui. Agora.
Emanuel arqueou uma sobrancelha, um sorriso de canto surgindo em seu rosto severo. Ele adorava quando a "santinha" perdia as estribeiras. Ele se inclinou, prendendo-a contra o encosto da chaise, o cheiro de tabaco caro e perfume amadeirado inundando os sentidos de Eduarda.
— Você está muito exigente para quem mal consegue carregar o próprio peso, meu anjo — ele provocou, a mão descendo pela curva do quadril dela, subindo pela coxa até encontrar a borda do vestido.
— Eu não me importo com o peso — ela arquejou, envolvendo o pescoço dele com os braços, puxando-o para baixo. — Eu quero sentir você. Eu quero que você me mostre que eu sou sua. Que o Arthur é seu.
Emanuel não precisou de mais incentivos. Ele a levantou com uma facilidade que sempre a deixava sem fôlego e a carregou para o quarto principal da ala dela, um ambiente que cheirava a flores frescas e óleo de massagem. Ele a deitou na cama de dossel, desfazendo-se da camisa com movimentos bruscos, revelando o peito largo coberto de tatuagens que contavam a história de sua ascensão.
Eduarda o observava com uma voracidade que beirava o desespero. Ela queria aquele homem bruto, o dono de estúdios, o homem que não pedia permissão para nada. Ela queria ser dominada, marcada, preenchida.
— Você está com fogo nas veias hoje, não está? — Emanuel murmurou, subindo na cama, posicionando-se sobre ela com cuidado para não pressionar o ventre proeminente.
— É você — ela sussurrou, as mãos explorando as tatuagens das costas dele. — É o jeito que você olha para mim. É o jeito que você comanda tudo. Eu só quero ser sua, Emanuel. Por dentro e por fora.
Ele a beijou, não com a paciência que costumava ter com a Eduarda frágil, mas com a possessividade que reservava para os momentos em que o desejo falava mais alto que a razão. A língua dele explorava a boca dela com autoridade, enquanto suas mãos grandes e calejadas subiam pelo corpo dela, encontrando a umidade que confirmava o que ele já suspeitava.
— Você está pronta para mim — ele constatou, a voz como um rosnado baixo.
— Por favor... — ela implorou, a voz manhosamente quebrada. — Agora.
Emanuel desfez-se do restante das roupas, sua nudez imponente diante dela. Ele a posicionou de lado, um método que garantira conforto ao Arthur, mas que permitia que ele a possuísse com total profundidade. Quando ele finalmente entrou nela, Eduarda soltou um grito abafado contra o travesseiro. Era uma invasão bem-vinda, um preenchimento que parecia alinhar todos os átomos de seu corpo.
— Isso... — ela gemia, as unhas cravando-se nos braços dele. — Mais forte, Emanuel. Não me trate como se eu fosse quebrar.
— Eu nunca vou te quebrar, Duda — ele respondeu, o ritmo tornando-se constante e pesado, o som da carne batendo contra a carne preenchendo o quarto. — Mas eu vou te marcar. Para você nunca esquecer quem é o seu dono.
O ato era uma dança de poder e entrega. Eduarda sentia cada estocada como uma reivindicação. Era como se, a cada movimento, Emanuel estivesse gravando sua assinatura na alma dela, assim como gravava tinta na pele de seus clientes. Ela se sentia plena, aberta, completamente à mercê daquele homem que era, ao mesmo tempo, seu carrasco e seu salvador.
Enquanto isso, no andar de baixo, Maya e Ágata brincavam sob a supervisão da babá. Elas eram o futuro daquele império, alheias às paixões avassaladoras que consumiam seus pais nos andares superiores. Maya, com sua inteligência silenciosa, montava um castelo de blocos, enquanto Ágata, com sua energia loira, tentava derrubá-lo, rindo alto.
No quarto, o ápice chegou como uma onda avassaladora. Eduarda arqueou as costas, o prazer explodindo em cores atrás de suas pálpebras fechadas, o nome de Emanuel sendo um mantra em seus lábios. Ele a seguiu logo depois, descarregando toda a tensão do dia, toda a responsabilidade de seu império, dentro da mulher que era seu porto seguro.
Eles ficaram ali, abraçados, a respiração voltando ao normal enquanto o suor esfriava em suas peles. Emanuel acariciava a barriga de Eduarda, sentindo Arthur se acalmar após o turbilhão.
— Você está bem? — ele perguntou, o tom de voz voltando àquela proteção quase automática.
— Eu estou perfeita — ela respondeu, aninhando-se no peito dele, o cheiro dele agora fazendo parte dela. — Eu só precisava disso. Precisava saber que, não importa quantas filhas a Sara te dê, ou o quanto ela seja importante nos negócios... este lugar aqui é só meu.
Emanuel beijou o topo da cabeça dela.
— Este lugar sempre foi seu, Duda. A Sara é o meu braço direito, mas você... você é o meu coração. E o Arthur é a nossa promessa.
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, observando as sombras das árvores dançarem no teto. Emanuel sabia que a vida que levava era uma corda bamba. Ele amava Sara pela sua inteligência, pela sua vulgaridade magnética, pela sua capacidade de enfrentar o mundo ao seu lado sem pestanejar. E amava Eduarda pela sua pureza, pela sua manha que o desarmava, pela paz que ela trazia para sua mente conturbada.
Ele era um homem que queria tudo. E ele tinha.
Mais tarde, Emanuel vestiu um roupão de seda e saiu do quarto, caminhando até a sala de jantar onde Sara já estava sentada, bebendo um chá e lendo alguns documentos no tablet. Ela levantou os olhos quando ele entrou, um sorriso cúmplice no rosto.
— Ela está mais calma agora? — Sara perguntou, sem qualquer traço de malícia real, apenas a aceitação prática de sua realidade.
— Está dormindo — Emanuel respondeu, sentando-se à cabeceira da mesa. — E você? Parou de lamentar a falta de um herdeiro de sangue?
Sara deu de ombros, fechando o tablet.
— Eu percebi que, se eu tiver outra menina como a Ágata, eu terei duas mulheres capazes de dominar o mundo. O herdeiro pode ficar com o nome, mas as minhas filhas ficarão com o poder.
Emanuel riu, servindo-se de um copo de água.
— É por isso que eu te amo, Sara. Você sempre encontra uma forma de sair por cima.
— É a única forma que eu conheço de viver, Emanuel.
Naquela noite, a cobertura de Emanuel estava em paz. Na ala de Eduarda, a doçura e o silêncio do pós-prazer garantiam sonhos tranquilos. Na ala de Sara, a estratégia e a ambição moldavam os planos para o dia seguinte. E no centro de tudo, Emanuel, o homem que comandava dois mundos, duas mulheres e três destinos, sentia o peso da coroa que ele mesmo forjara.
Ele sabia que o nascimento de Arthur traria novos desafios. Sabia que a rivalidade entre as filhas poderia crescer. Mas, enquanto ele tivesse a força de Sara para lutar e a doçura de Eduarda para amar, ele se sentia invencível.
Ele caminhou até o quarto das crianças, observando Maya e Ágata dormindo. Uma castanha e tímida, a outra loira e audaz. O contraste perfeito. O equilíbrio necessário.
— O mundo vai ser pequeno para vocês — ele sussurrou para o quarto escuro.
Emanuel voltou para o seu próprio quarto, onde o espaço central ligava as duas alas. Ele era o eixo daquela engrenagem complexa. Ele era o macho alfa, o protetor, o amante e o mestre. E enquanto o sol não nascesse para trazer novas batalhas, ele se permitiu apenas ser o homem que, contra todas as probabilidades, conseguira manter o fogo e a água sob o mesmo teto, transformando o caos em um império de amor e poder.