D
Ouro, Tinta e Teimosia
A Galeria Luz e Sombra estava impecável. O cheiro de verniz fresco, vinho caro e perfumes importados pairava no ar, misturando-se à iluminação dramática que destacava as obras de arte sacra e contemporânea selecionadas para a exposição. Eduarda, vestindo um robe de seda longo em tom de pérola que abraçava seu ventre de quase nove meses, sentia o coração disparado. Aquela era a sua noite. Como estagiária sênior e curadora assistente, ela havia passado meses organizando cada detalhe, cada legenda, cada ângulo das luzes.
Nos seus braços, Maya, agora uma menininha de dois anos com cachos castanhos impecáveis, segurava uma boneca de pano e observava as pessoas com seus olhos grandes e curiosos. Maya era o retrato da doçura, o "grudinho" de Eduarda que, naquela noite, servia também como seu porto seguro emocional.
— Veja, Maya, aquela tela ali... a mamãe que escolheu o lugar dela — sussurrou Eduarda, beijando o topo da cabeça da filha.
— É bunitu, mamãe — respondeu a pequena, aninhando-se no pescoço de Eduarda.
Eduarda sabia que estava brincando com fogo. Naquela manhã, a discussão com Emanuel na cobertura havia sido monumental.
— Você não vai, Eduarda. Ponto final — Emanuel dissera, a voz gélida enquanto abotoava os punhos de sua camisa social. — Você está a semanas de dar à luz ao Arthur. O médico disse repouso. Eu não vou permitir que você fique em pé, carregando peso e se expondo ao estresse de um evento público.
— É o meu trabalho, Emanuel! Eu estudei História da Arte para isso, não para ser um enfeite na sua sala — ela retrucara, com uma coragem que raramente demonstrava. — Eu me sinto bem. O Arthur está bem.
— Eu disse não. Se você colocar os pés fora desta casa, haverá consequências.
Emanuel havia saído para uma reunião de negócios em um de seus estúdios, certo de que sua palavra fora a última. Mas Eduarda, incentivada por uma pontada de independência e pela necessidade de ser vista como profissional, esperou que ele saísse, chamou um motorista particular e partiu com Maya.
— Eduarda, querida! A exposição está um sucesso absoluto — disse o diretor da galeria, aproximando-se com uma taça de champanhe. — Mas você deveria estar sentada! E com a pequena Maya no colo? Deixe-me chamar alguém para ajudá-la.
— Estou bem, Dr. Arnaldo, de verdade — Eduarda sorriu, sentindo uma pontada nas costas que ignorou prontamente. — A Maya é calma, ela não me cansa.
Enquanto isso, a quilômetros dali, Emanuel estava no escritório de seu estúdio central. Sara estava sentada à sua frente, revisando os lucros da unidade de Miami. Ela notou que Emanuel olhava para o celular a cada cinco minutos, a mandíbula travada.
— Ela foi, não foi? — Sara perguntou, com um sorriso irônico nos lábios perfeitamente pintados de batom nude.
— Do que você está falando? — Emanuel rosnou.
— Da Eduarda. Eu vi as postagens da galeria no Instagram agora mesmo. Ela está lá, linda como uma madona renascentista, segurando a Maya no colo e sorrindo para os críticos.
Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele pegou o celular e abriu o aplicativo. Lá estava ela. Sua Eduarda, a mulher que ele considerava frágil e submissa, desafiando sua autoridade direta na frente de toda a elite cultural de São Paulo. E o que era pior: carregando Maya, submetendo o corpo já sobrecarregado pela gravidez de Arthur a um esforço desnecessário.
— Aquela teimosa... — Emanuel levantou-se tão bruscamente que a cadeira de couro quase tombou.
— Vai lá buscar sua protegida, Emanuel? — Sara provocou, cruzando as pernas. — Cuidado para não ter um infarto. Ela está apenas mostrando que tem garras. Eu, pessoalmente, achei audacioso.
Emanuel não respondeu. Ele pegou as chaves do carro e saiu, deixando um rastro de tensão no ar.
Na galeria, Eduarda começou a sentir o peso de sua decisão. Suas pernas vacilavam e Arthur parecia estar fazendo uma partida de futebol dentro de seu ventre. Maya, sentindo a inquietação da mãe, começou a ficar manhosa.
— Mamãe, colo... quero casa — pediu a menina, escondendo o rosto no ombro de Eduarda.
— Só mais um pouco, meu amor... — Eduarda suspirou, procurando um lugar para sentar, mas todos os bancos estavam ocupados por críticos importantes.
Foi então que o silêncio começou a se espalhar pela entrada da galeria, partindo da porta principal. Eduarda não precisou olhar para saber quem era. A aura de autoridade e perigo que emanava de Emanuel era reconhecível a quilômetros.
Ele entrou no recinto como uma tempestade silenciosa. Não estava de terno, mas vestia uma calça escura e uma camisa de botões preta que destacava sua expressão severa. Os convidados sussurravam, reconhecendo o magnata das tatuagens, o homem que financiava metade daquele evento, mas que raramente aparecia em público.
Os olhos de Emanuel percorreram a sala até encontrarem Eduarda. Ela estava pálida, segurando Maya, que parecia minúscula diante do volume da barriga de grávida.
Emanuel caminhou em direção a ela. Cada passo dele era uma sentença.
— Emanuel... — Eduarda sussurrou quando ele parou a centímetros dela.
Ele não disse uma palavra de imediato. Simplesmente estendeu os braços e, com uma firmeza inquestionável, tirou Maya do colo de Eduarda. A menina, ao ver o pai, soltou um suspiro de alívio e agarrou-se ao seu pescoço.
— Para o carro. Agora — a voz de Emanuel era um sussurro baixo, mas carregado de uma fúria que fez Eduarda estremecer.
— Emanuel, as pessoas estão olhando... eu sou a curadora... — ela tentou argumentar, a voz falhando.
— Eu não dou a mínima para quem você é aqui dentro. Eu me importo com o que você é para mim. E agora, você é uma mulher grávida que desobedeceu uma ordem direta e colocou meu filho e minha filha em risco.
Ele segurou o braço dela, não com força para machucar, mas com uma firmeza que não admitia resistência. Ele a guiou para fora da galeria, ignorando os olhares curiosos e as tentativas do Dr. Arnaldo de cumprimentá-lo.
O trajeto até o carro foi feito em um silêncio sufocante. Emanuel colocou Maya cuidadosamente na cadeirinha do Porsche e esperou que Eduarda entrasse no banco do carona antes de fechar a porta com uma força desnecessária.
Assim que ele entrou e deu a partida, a explosão veio.
— Você tem noção do que fez? — ele gritou, batendo no volante. — Você mal consegue respirar, Eduarda! E estava lá, carregando uma criança de quinze quilos, em pé por horas!
— Eu queria ser mais do que apenas a sua incubadora, Emanuel! — Eduarda explodiu em lágrimas, a manha misturando-se à frustração. — Aquela exposição era minha. Eu trabalhei nela antes mesmo de engravidar do Arthur. Você me sufoca! Você e a Sara me tratam como se eu fosse uma criança!
— Eu te trato como alguém que precisa de proteção porque você não tem senso de autopreservação! — Emanuel retrucou, acelerando pelas ruas de São Paulo. — Se algo acontece com você ou com o bebê naquela galeria, o que eu faria? Você acha que seus quadros e seus críticos de merda iriam te salvar?
— Você é um controlador, um egoísta! — ela soluçava, cobrindo o rosto com as mãos.
No banco de trás, Maya começou a chorar baixinho, assustada com os gritos. O som do choro da filha fez Emanuel desacelerar imediatamente. Ele respirou fundo, tentando controlar a fera dentro de si.
— Viu só? — ele disse, a voz agora mais baixa, mas ainda trêmula de raiva. — Você assustou a menina. Você está exausta, Eduarda. Olhe para suas mãos, estão tremendo.
— Eu só queria que você tivesse orgulho de mim... — ela balbuciou entre os soluços.
Emanuel estacionou o carro na garagem da cobertura. Ele desligou o motor e ficou em silêncio por um longo minuto. Depois, virou-se para ela.
— Eu sempre tive orgulho de você, sua tonta. Eu financiei aquela galeria porque sabia que você era a melhor para o trabalho. Mas nada, absolutamente nada, vale o risco de perder você ou o Arthur.
Ele saiu do carro, pegou Maya no colo — que já havia se acalmado — e abriu a porta para Eduarda. Ele a ajudou a sair com uma delicadeza que contrastava com a fúria de minutos atrás.
Ao entrarem na cobertura, Sara estava na sala, tomando uma taça de vinho e assistindo a um telejornal. Ela olhou para o trio e soltou uma risadinha.
— Ora, ora. O resgate da princesa. Como foi a noite, Duda? Os críticos gostaram do seu barrigão?
— Não comece, Sara — Emanuel avisou, passando por ela com Maya.
— Eu só estou dizendo que ela tem coragem. Eu não teria ido. Mas eu também não sou "manhosa" como ela — Sara provocou, lançando um olhar afiado para Eduarda.
Eduarda não respondeu. Ela sentiu uma pontada forte no baixo ventre e arqueou o corpo, segurando-se no encosto do sofá. O rosto dela ficou branco como papel.
— Emanuel... — ela chamou, a voz quase inaudível.
Emanuel, que estava entregando Maya para a babá no corredor, virou-se instantaneamente. Ele correu até Eduarda.
— O que foi? Duda?
— Está... está doendo. Muito.
Sara largou a taça na mesa, a expressão de deboche desaparecendo em um segundo.
— Emanuel, a bolsa estourou. Olhe o chão.
Emanuel olhou para baixo e viu o líquido molhando o tapete caro. O pânico, algo que ele raramente sentia, brilhou em seus olhos por um microssegundo antes de sua mente racional assumir o controle.
— Sara, pegue a bolsa que está no quarto dela. Agora! — ele ordenou.
— Já estou indo! — Sara gritou, correndo em direção aos quartos.
Emanuel pegou Eduarda nos braços. Ela se agarrou ao pescoço dele, chorando de dor e de medo.
— Eu sinto muito, Emanuel... eu não devia ter ido... — ela soluçava.
— Shh... agora não importa — ele disse, beijando-lhe a têmpora enquanto a carregava de volta para o elevador. — O Arthur decidiu que quer ver a exposição do pai dele, só isso. Aguenta firme, meu anjo.
Sara apareceu com a mala de maternidade, seu rosto demonstrando uma preocupação genuína que ela raramente permitia que Eduarda visse.
— Eu vou com vocês — disse Sara. — Você vai precisar de alguém para cuidar da papelada enquanto o Emanuel surta no hospital.
— Obrigado, Sara — Emanuel disse, em um raro momento de trégua total.
O trajeto para o hospital foi uma mistura de contrações rítmicas e o som de Emanuel tentando acalmar Eduarda. No hospital, a equipe médica já os aguardava. Eduarda foi levada para a sala de parto, e Emanuel, apesar do estresse e da raiva persistente pela desobediência dela, não soltou sua mão nem por um segundo.
Horas depois, o choro vigoroso de um bebê preencheu a sala de parto. Arthur nasceu forte, com uma mecha de cabelos escuros como os de Eduarda, mas com a expressão séria que já lembrava o pai.
Quando tudo se acalmou e Eduarda foi levada para o quarto, exausta mas feliz, Emanuel sentou-se ao lado dela. Arthur estava no berço acoplado à cama, e Maya, trazida pelos avós, dormia em uma poltrona próxima.
Sara entrou no quarto com um enorme buquê de flores e uma sacola de uma grife infantil de luxo.
— Ele é... aceitável — Sara disse, aproximando-se do berço e olhando para Arthur. — Tem o nariz do Emanuel. Coitado.
Eduarda soltou uma risada fraca.
— Obrigada por ajudar, Sara. De verdade.
— Não se acostume, Duda. Só fiz isso porque não queria que o Emanuel batesse o carro com a gente dentro — Sara piscou, deixando as flores na mesa. — Vou para casa. Ágata está sentindo minha falta e, francamente, hospitais me dão tédio.
Quando Sara saiu, Emanuel voltou sua atenção para Eduarda. Ele pegou a mão dela e a beijou.
— Você me deu um susto de morte hoje.
— Eu sei. Me desclupa — ela pediu, fazendo aquele biquinho manhoso que ele tanto amava.
— Eu ainda estou furioso com você pela galeria — ele disse, embora seus olhos dissessem o contrário. — Mas você provou que é tão teimosa quanto eu. E o Arthur... ele é perfeito.
— Ele vai ser como você, Emanuel. Forte.
— E vai ter a sua doçura para equilibrar — Emanuel completou. — Agora durma. Amanhã, quando você voltar para casa, vamos conversar seriamente sobre suas "saídas secretas".
Eduarda fechou os olhos, sentindo-se finalmente segura. Ela havia desafiado o mestre, havia conquistado seu espaço e, no fim, ele ainda estava lá, protegendo-a. O império de Emanuel estava completo: a inteligência de Sara, a força que Arthur teria, a pureza de Maya e a paz que só Eduarda conseguia proporcionar.
Emanuel ficou ali, vigiando o sono de sua família. Ele sabia que a convivência entre Sara e Eduarda continuaria sendo um campo minado, que Maya e Ágata teriam suas diferenças, e que Arthur seria o novo centro das atenções. Mas, enquanto ele fosse o eixo daquela engrenagem, ele garantiria que nada, nem a teimosia de Eduarda, nem a língua afiada de Sara, destruísse o que ele levara anos para construir.
A noite terminou com o silêncio do hospital, quebrado apenas pela respiração tranquila dos bebês. Emanuel, o homem que queria tudo, finalmente percebeu que o "tudo" não era sobre controle, mas sobre a capacidade de manter todos aqueles corações batendo sob o mesmo teto, não importa o quão caótico fosse o caminho.