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O Labirinto dos Desejos e a Cicatriz do Orgulho
A mansão de Emanuel em São Paulo nunca pareceu tão pequena quanto naquela tarde de sábado. O ar estava saturado com o cheiro de ozônio de uma tempestade iminente e a tensão palpável que emanava das alas das duas mulheres que dividiam sua vida. Aos trinta e nove anos, Emanuel era o retrato do poder consolidado, mas, dentro de sua própria casa, ele sentia que estava prestes a perder o controle sobre o que mais prezava: a harmonia forçada de sua família.
No centro da sala de estar, Arthur, agora aos catorze anos, tentava manter o clima leve, apesar de mancar visivelmente. Ele era a mistura perfeita da força física de Emanuel com o carisma de Eduarda.
— Pai, eu juro que o saco de pancadas revidou — brincou Arthur, soltando uma risada curta enquanto tentava apoiar o pé no sofá de veludo. — O mestre disse que meu chute foi épico, mas minha aterrissagem foi... bem, digna de um desenho animado.
— Arthur, meu Deus! Você está sangrando! — Eduarda entrou na sala como um furacão de preocupação, deixando cair o livro que carregava. Ela se ajoelhou aos pés do filho, as mãos trêmulas tocando o tornozelo inchado. — Emanuel, faça alguma coisa! Ele pode ter quebrado!
— É só um entorse, Duda. Respire — Emanuel disse, embora seus olhos estivessem fixos na lesão com uma análise clínica. — Ele precisa de gelo e repouso, não de um funeral.
— Você sempre minimiza tudo! — Eduarda exclamou, com a manha e a sensibilidade à flor da pele. — Ele é seu único filho homem, Emanuel!
— E é por ser meu filho que ele sabe que dor é apenas informação — Emanuel retrucou, embora tenha feito um sinal para que um dos seguranças buscasse o kit de primeiros socorros.
Enquanto a ala de Eduarda lidava com o drama físico de Arthur, um drama muito mais silencioso e corrosivo se desenrolava nos andares superiores.
Maya, aos dezesseis anos, estava trancada em seu quarto. Ela era a imagem da delicadeza melancólica; seus cabelos castanhos caíam sobre os ombros enquanto ela abraçava os joelhos, sentada no parapeito da janela. Seus olhos, sempre tão expressivos, estavam vermelhos de tanto chorar. O motivo atendia pelo nome de Lorenzo, o filho de dezessete anos de um dos sócios mais influentes de Emanuel. Lorenzo era brilhante, já aceito em uma universidade renomada no exterior, e possuía um magnetismo que havia capturado o coração sensível de Maya durante os jantares de negócios do pai.
A porta se abriu suavemente e Eduarda entrou, deixando Arthur aos cuidados de Emanuel. Ela viu a figura frágil da filha e sentiu seu coração apertar.
— Oh, minha pequena... — Eduarda sussurrou, sentando-se ao lado dela e puxando-a para o colo, exatamente como fazia quando Maya era bebê. — É por causa dele de novo?
— Ele nem olhou para mim hoje, mamãe — Maya desabafou, a voz quebrada pelos soluços. — No clube, ele estava conversando com a Ágata o tempo todo. Ela é tão brilhante, tão... loira. Ela brilha, mamãe. Eu sou só uma sombra.
— Você não é sombra de ninguém, Maya — Eduarda disse, acariciando os cabelos da filha com fervor. — Você tem uma alma que poucas pessoas conseguem entender. Lorenzo é jovem, ele pode estar apenas sendo educado com a Ágata.
— Não é educação, é competição! — Maya chorou mais forte. — A Ágata quer tudo o que eu quero, só para provar que pode ter.
Enquanto isso, na ala oposta, o cenário era de guerra declarada. Ágata, a cópia fiel de Sara com seus cabelos loiros platinados e olhos de um azul gélido, estava jogando frascos de perfume caríssimos contra a parede de seu closet.
— Eu odeio ela! Eu odeio aquela órfã sonsa! — Ágata gritava, o rosto vermelho de fúria.
Sara estava encostada no batente da porta, segurando uma taça de vinho, observando o surto da filha com uma sobrancelha arqueada e um sorriso de quem apreciava o caos.
— Ágata, querida, você está sendo vulgar. Divas não jogam Chanel na parede, elas usam o Chanel para sufocar as inimigas — Sara disse, a voz banhada em sarcasmo.
— Você não entende, Sara! O Lorenzo... ele é meu! Ele tem que ser meu! — Ágata se jogou nos braços da mãe, chorando de uma forma dramática e possessiva. — Ele passou o dia inteiro falando sobre como a Maya é "intuitiva" e "profunda". Profunda? Ela é um poço de melancolia! Eu sou a herdeira do império Empire Ink, eu sou a mais bonita, eu sou a que tem administração no sangue!
— E é por isso que você vai ganhar, minha mini versão — Sara disse, afastando a filha para olhá-la nos olhos, limpando uma lágrima com o polegar. — Homens como o Lorenzo, de famílias como a dele, precisam de mulheres que saibam comandar um salão, não de meninas que choram por causa de poemas. Se ele está olhando para a Maya, é apenas curiosidade antropológica. Você é o prêmio real.
— Mas ele não me convidou para o baile de despedida dele, mamãe! Ele ainda não convidou ninguém! — Ágata bufou, recuperando a postura agressiva. — Se ele convidar ela, eu juro que acabo com aquela galeria que a Eduarda tanto ama.
Lá embaixo, na sala, Emanuel tentava enfaixar o pé de Arthur, que gemia mais do que o necessário apenas para ganhar a atenção do pai.
— Pai, você acha que se eu não puder lutar por um mês, a Ágata vai tentar me bater na frente dos amigos dela? — perguntou Arthur, com um sorriso travesso. — Ela está com um humor de cão hoje. Acho que o Lorenzo deu um fora nela.
Emanuel parou o movimento das mãos.
— Lorenzo? O filho do Ricardo?
— É. Ele está sempre por aqui agora. A Ágata fica desfilando na frente dele como se fosse um pavão de grife, e a Maya fica escondida nos cantos parecendo uma personagem de romance trágico. É hilário, se não fosse patético — Arthur deu de ombros.
Emanuel sentiu uma pontada de irritação. Ele conhecia Ricardo há anos e respeitava o rapaz, mas a ideia de Lorenzo se tornando o pomo da discórdia entre suas filhas era algo que ele não toleraria.
— Eu não quero dramas românticos sob este teto, Arthur. Avise suas irmãs — Emanuel disse, a voz assumindo aquele tom metálico que fazia seus funcionários tremerem.
— Tenta dizer isso para a Sara, pai. Ela está incentivando a Ágata a "caçar" o garoto como se ele fosse um contrato de exclusividade — Arthur riu, mas parou ao ver a expressão séria de Emanuel. — Desculpe. Só estou tentando animar o ambiente.
A noite caiu e Ricardo, o pai de Lorenzo, chegou para um jantar informal que já estava agendado. Lorenzo o acompanhava. O rapaz era, de fato, impressionante: alto, com uma postura ereta e um olhar que demonstrava uma inteligência muito além de seus dezessete anos.
O jantar foi um campo minado. De um lado da mesa, Sara e Ágata formavam uma frente de batalha brilhante. Ágata usava um vestido vermelho que gritava por atenção, falando alto sobre suas notas em economia e seus planos para o intercâmbio na Suíça.
— O mercado europeu é o único que realmente me interessa agora, Lorenzo. Você não acha que a universidade em que você entrou tem a melhor conexão com o Banco Central? — Ágata perguntou, lançando um olhar vitorioso para o rapaz.
— É uma excelente instituição, Ágata — Lorenzo respondeu educadamente, mas seus olhos desviaram quase imediatamente para a outra ponta da mesa.
Lá, Maya estava sentada em silêncio, vestindo um cardigã de lã clara, mal tocando na comida. Eduarda estava ao seu lado, protegendo-a com sua presença silenciosa.
— E você, Maya? — Lorenzo perguntou, ignorando a continuação do discurso de Ágata. — Fiquei sabendo que você ajudou na curadoria da nova ala da galeria do seu pai. A seção de arte expressionista ficou fantástica. A escolha das cores... foi muito sensível.
Maya levantou os olhos, surpresa. Um rubor suave subiu por suas bochechas.
— Você notou as cores? — ela sussurrou, a voz quase inaudível. — A maioria das pessoas só olha para os nomes dos artistas.
— As cores contam a história que as palavras não conseguem — Lorenzo disse, com um meio sorriso que fez o coração de Maya tropeçar. — Eu achei que foi a parte mais honesta da exposição.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Ágata apertou o garfo com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Sara soltou uma risada seca, quebrando o gelo com veneno.
— Honestidade é uma palavra interessante para arte, Lorenzo. Mas no mundo real, o que importa é a estrutura e o impacto. Não é, Emanuel?
Emanuel, que observava tudo como um mestre de xadrez, limpou os lábios com o guardanapo de linho.
— O impacto sem essência é apenas barulho, Sara — disse ele, surpreendendo a todos. — E a essência sem estrutura é invisível. O equilíbrio é o que buscamos.
Após o jantar, Ricardo e Emanuel se retiraram para o escritório para discutir negócios, enquanto os jovens e as mães ficaram no terraço. Arthur, mesmo com o pé enfaixado, conseguiu derrubar um copo de suco propositalmente perto de Ágata só para vê-la dar um pulo e reclamar do vestido.
— Arthur! Seu idiota! — Ágata gritou.
— Foi mal, maninha. Meu pé manco afetou meu equilíbrio — ele piscou para ela, rindo.
Aproveitando a confusão, Lorenzo se aproximou de Maya, que estava afastada, observando o jardim iluminado.
— Maya — ele chamou suavemente.
Ela se virou, o coração batendo na garganta.
— Sim?
— Eu vou viajar em duas semanas para começar o semestre preparatório — ele começou, a voz baixa para que as outras não ouvissem. — Vai haver um baile de gala na embaixada para os filhos dos diplomatas e parceiros comerciais. Meu pai disse que eu posso convidar quem eu quiser.
Ágata, que estava limpando o vestido a poucos metros, parou de respirar, tentando ouvir. Sara estreitou os olhos.
— Eu gostaria muito que você fosse comigo — Lorenzo concluiu, olhando fixamente para Maya. — Eu não conheço ninguém naquela festa que consiga conversar comigo sobre as coisas que realmente importam. Você iria?
Maya sentiu que o mundo havia parado. Ela olhou para a mãe, Eduarda, que sorria encorajadoramente à distância. Depois olhou para Ágata, cujo rosto estava transfigurado por uma máscara de puro ódio e humilhação.
— Eu... eu adoraria, Lorenzo — Maya respondeu, finalmente encontrando sua voz.
— Ótimo. Eu venho te buscar às oito — ele sorriu, um sorriso que não era de polidez, mas de genuíno interesse.
Lorenzo se despediu e saiu com o pai pouco depois. Assim que a porta principal se fechou, a explosão aconteceu.
— ISSO NÃO VAI FICAR ASSIM! — Ágata berrou, avançando para o centro da sala. — Ela te enfeitiçou! Ela usou esse jeito de coitadinha, de órfã abandonada na cesta, para ganhar a sua pena, Lorenzo!
— Ágata, chega! — Emanuel gritou, saindo do escritório com a autoridade de um trovão. — Eu não vou tolerar esse comportamento.
— Ela roubou ele de mim, pai! — Ágata chorava no colo de Sara, que agora abraçava a filha com uma expressão fria e calculista. — Ele é meu nível! Ele é o meu par! Não dela!
— Ele não é um objeto de posse, Ágata — Eduarda disse, aproximando-se com Maya protegida atrás de si. — Ele escolheu a Maya porque ele viu quem ela é.
— Ele viu uma menina fraca que ele pode carregar nas costas! — Sara disparou, olhando para Eduarda com desprezo. — Você criou uma dependente, Eduarda. Uma menina que precisa de validação masculina para existir. Minha filha é uma líder.
— Sua filha é uma agressora, Sara — Eduarda retrucou, surpreendendo a todos pela firmeza. — E se você continuar alimentando esse monstro de ego nela, ela vai acabar sozinha em um castelo de ouro.
Emanuel caminhou até o centro do conflito. Ele olhou para Maya, que ainda tremia, mas tinha um brilho de esperança nos olhos. Olhou para Ágata, que era pura fúria e inveja.
— O convite foi feito e será aceito — Emanuel decretou. — Maya irá ao baile. E Ágata, se eu ouvir mais um insulto sobre a origem da sua irmã, eu garanto que sua viagem para a Suíça será cancelada e você passará o verão trabalhando na administração dos arquivos mortos do estúdio de tatuagem, no subsolo. Sem ar-condicionado.
Ágata engoliu o seco, o medo do pai superando momentaneamente o ódio pela irmã. Sara apenas apertou os lábios, sabendo que, por enquanto, Emanuel havia dado a palavra final.
— Vamos, Maya — Eduarda disse, guiando a filha para a ala delas.
Arthur, que assistia a tudo sentado no sofá, soltou um assobio longo.
— Cara, isso foi melhor que final de campeonato. Mas pai, se prepara. A Sara não vai deixar isso barato. Eu conheço aquele olhar dela. É o olhar de quem vai sabotar o vestido de alguém.
Emanuel suspirou, sentindo o peso daquela família sobre seus ombros. Ele olhou para Sara, que ainda consolava Ágata com promessas sussurradas.
— Eu sei, Arthur — Emanuel murmurou. — Eu sei.
Naquela noite, o silêncio na mansão era apenas uma fachada. Na ala de Eduarda, Maya chorava de novo, mas desta vez era um choro de alívio e expectativa, enquanto a mãe planejava o vestido mais bonito que a galeria já vira. Na ala de Sara, o plano de contra-ataque começava a ser traçado entre taças de vinho e promessas de vingança.
E no meio de tudo, Arthur testava seu tornozelo, rindo sozinho da ironia de tudo aquilo. O amor, ao que parecia, era a única coisa que Emanuel, com todo o seu dinheiro e poder, ainda não conseguia tatuar e fixar permanentemente na pele de ninguém. O baile de Lorenzo não seria apenas uma festa; seria o campo de batalha final para as herdeiras do império, onde a doçura da castanha e a fúria da loira colidiriam de forma irreversível.