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O Sangue das Rosas e o Perfume do Ferro
O sol da manhã entrava pelas claraboias da cobertura, iluminando o mármore impecável e o mobiliário de design que Emanuel tanto prezava. Doze anos se passaram desde que Arthur nascera, selando a paz armada entre as duas alas daquela família. No centro da sala, Emanuel, agora aos trinta e sete anos, exibia fios grisalhos nas têmporas que apenas acentuavam sua autoridade. Ele estava sentado à cabeceira da mesa de café, observando Arthur, um menino de doze anos com a estrutura física robusta do pai, mas com os olhos atentos e inteligentes de Eduarda.
— Pai, você viu onde deixei meus protetores de canela? O treino de Muay Thai é às dez — Arthur perguntou, devorando uma torrada com a energia típica de quem estava em fase de crescimento.
— Estão na área de serviço, Arthur. Eu mandei o motorista limpar depois do treino de ontem — Emanuel respondeu, fechando o jornal digital. — E lembre-se: técnica antes da força. Não quero você machucando os pulsos de novo por falta de foco.
— Pode deixar — o garoto sorriu, recebendo um aceno aprovador do pai. Arthur era o orgulho de Emanuel, o herdeiro que carregava sua linhagem e a promessa de continuidade do império.
A tranquilidade matinal foi interrompida pelo som de passos apressados vindos do corredor das suítes. Eduarda apareceu, parecendo ligeiramente pálida, com Maya logo atrás. Maya, aos quatorze anos, era uma visão de delicadeza. Seus cabelos castanhos caíam em ondas suaves pelas costas, e sua expressão costumava ser de uma serenidade quase angelical. No entanto, naquela manhã, seus olhos estavam úmidos e ela segurava a mão da mãe com uma força incomum.
— Emanuel, nós vamos precisar sair por uma hora — Eduarda disse, a voz mansa, mas com uma urgência que Emanuel reconheceu imediatamente. — A Maya não está se sentindo muito bem. Coisas de menina.
Emanuel levantou o olhar, suavizando a expressão rígida ao ver o estado da filha que ele adotara no coração. Maya continuava sendo seu ponto fraco, a menina que trouxera paz quando ele só conhecia o caos.
— Está tudo bem, Maya? — ele perguntou, levantando-se e caminhando até ela.
— Sim, papai... — ela murmurou, escondendo o rosto no ombro de Eduarda. — Só dói um pouco.
— A primeira vez é sempre um susto, Emanuel — Eduarda explicou em voz baixa, trocando um olhar cúmplice com o marido. — Vou levá-la para comprar o que é necessário e conversar um pouco. Ela ficou assustada.
— Vá com cuidado — Emanuel disse, depositando um beijo na testa de Maya. — Se precisar de qualquer coisa, me ligue.
Enquanto Eduarda e Maya saíam discretamente, o som de saltos altos e vozes estridentes anunciou a chegada da outra metade da família. Sara entrou na sala de jantar como um furacão de luxo, vestindo um conjunto de ioga de grife que exibia seu corpo impecavelmente mantido. Atrás dela, Ágata, também com quatorze anos, era a personificação da arrogância adolescente. Loira, usando fones de ouvido de última geração e um pijama de seda que custava mais do que o carro de muita gente, ela nem se deu ao trabalho de cumprimentar o pai.
— Emanuel, você não tem noção do drama! — Sara exclamou, jogando-se em uma cadeira e pegando uma xícara de café preto. — Ágata resolveu que hoje é o dia de odiar o mundo porque a natureza resolveu dar as caras.
Ágata revirou os olhos azuis, bufando enquanto se sentava à mesa com uma má vontade teatral.
— Eu já disse, Sara, eu não vou para a escola hoje — Ágata declarou, a voz anasalada e prepotente. — Eu estou sangrando, estou com cólica e meu humor está um lixo. Se eu for, vou acabar batendo em alguém, e você sabe que a diretora já me odeia.
— Você vai para a escola, Ágata — Emanuel interveio, o tom de voz baixando, o que era sinal de alerta. — Uma indisposição mensal não é desculpa para faltar às suas obrigações.
— Ah, por favor, papai! — Ágata exclamou, tirando os fones e batendo-os na mesa. — Você não entende. Eu sou uma diva, não uma mártir. Por que eu tenho que sofrer em uma cadeira de madeira enquanto a Maya provavelmente está lá no quarto dela sendo paparicada pela Eduarda com chá de camomila e compressas quentes?
— A Maya saiu com a mãe dela para resolver isso com dignidade — Sara retrucou, olhando para a filha com uma mistura de irritação e admiração. — Você, por outro lado, está fazendo um escândalo que daria inveja a uma atriz de novela mexicana.
— Porque eu mereço atenção! — Ágata gritou, levantando-se. — Eu sou a sua versão mini, Sara, você mesma diz isso. E divas não lidam com fluidos corporais sem uma equipe de apoio. Eu quero que você ligue para o meu ginecologista agora e peça aquele remédio importado que a Taylor Swift usa.
Emanuel suspirou, sentindo a dor de cabeça latejar. O contraste era doloroso. De um lado, Maya, que lidava com a transição para a vida adulta com uma timidez sensível e o apoio silencioso de Eduarda. Do outro, Ágata, que transformava um processo biológico em uma disputa de status e uma exigência de luxo.
— Sente-se, Ágata — Emanuel ordenou, e o peso de sua autoridade fez a menina hesitar. — Você vai tomar o remédio que temos aqui, vai se trocar e vai para a escola. Se eu ouvir mais uma reclamação sobre o "mundo suprir suas necessidades", eu confisco esse celular e corto sua mesada por um mês.
Ágata olhou para o pai, os olhos faiscando. Ela sabia que Emanuel não blefava. Com um movimento brusco, ela pegou uma maçã da fruteira e saiu da sala, pisando fundo.
— Ela é difícil, Emanuel — Sara comentou, sorrindo de lado enquanto observava a filha sair. — Mas tem personalidade. Ela não vai deixar ninguém pisar nela.
— Há uma linha tênue entre personalidade e falta de educação, Sara — Emanuel respondeu, voltando para sua cadeira. — Você a criou para ser uma rainha, mas esqueceu de ensinar que rainhas também têm deveres.
— Ela aprende rápido — Sara deu de ombros, despreocupada. — E quanto à Maya? Eduarda vai transformar isso em um funeral poético, imagino.
— Eduarda vai dar a ela o acolhimento que ela precisa. Maya é sensível, Sara. Nem todo mundo quer transformar a vida em um campo de batalha como você e a Ágata.
Enquanto isso, em uma farmácia de luxo próxima e depois em um café calmo, Eduarda segurava as mãos de Maya. A menina já estava mais calma, embora ainda parecesse sobrecarregada pela mudança em seu corpo.
— É como se eu estivesse deixando de ser criança rápido demais, mamãe — Maya sussurrou, observando o movimento da rua. — Eu não queria que as coisas mudassem.
— A mudança faz parte da nossa beleza, Maya — Eduarda explicou, com a voz carregada de doçura. — Ser mulher é carregar uma força silenciosa. Você não precisa deixar de ser quem é. Sua sensibilidade é seu maior poder, não sua fraqueza. O papai e eu estamos aqui para garantir que você floresça no seu tempo.
— A Ágata ficou gritando no corredor antes de sairmos — Maya comentou, com um leve sorriso triste. — Ela disse que agora somos "rivais biológicas". O que isso significa?
Eduarda suspirou, sentindo uma pontada de irritação com a influência de Sara sobre Ágata.
— Significa que a Ágata assiste a séries demais e ouve muito as bobagens da Sara. Vocês são irmãs, Maya. O sangue que corre em vocês agora é o sinal de que vocês são capazes de gerar vida, de criar mundos. Não deixe que ela transforme isso em algo feio ou competitivo.
Ao voltarem para a cobertura, o clima ainda estava tenso. Ágata já havia saído para a escola, arrastada por um motorista sob as ordens de Emanuel. Sara estava no escritório, resolvendo pendências dos estúdios de Londres com sua competência habitual. Emanuel estava na biblioteca, tentando ler, mas sua mente estava nas filhas.
Quando Maya entrou na biblioteca, ela caminhou timidamente até o pai. Emanuel fechou o livro e abriu os braços. Maya se aninhou ali, sentindo o cheiro de tinta e couro que sempre o acompanhava.
— Melhor? — ele perguntou.
— Sim, papai. A mamãe conversou comigo.
— Maya, olhe para mim — Emanuel disse, afastando-a um pouco para encarar seus olhos castanhos. — Você é a paz desta casa. Nunca deixe que o barulho da Sara ou as exigências da Ágata façam você se sentir menor. Você é uma de nós. O Arthur te adora, e eu... eu mataria por você.
— Eu sei, papai.
A porta da biblioteca se abriu e Arthur entrou, segurando uma barra de chocolate gigante.
— Eu ouvi dizer que chocolate ajuda — ele disse, estendendo o doce para Maya com um sorriso meio sem jeito, típico de um menino de doze anos tentando ser gentil. — A Ágata tentou roubar, mas eu disse que era para a irmã que não era uma chata.
Maya riu, pegando o chocolate. Naquele momento, a ala de Eduarda parecia um refúgio de sanidade no império de Emanuel.
No final da tarde, Ágata voltou da escola, jogando a mochila no sofá de veludo da sala. Ela parecia menos irritada, mas ainda mantinha o semblante de superioridade. Ela caminhou até a cozinha, onde Sara e Eduarda estavam, por um milagre, compartilhando o mesmo espaço enquanto organizavam o jantar.
— A diretora me chamou na sala dela — Ágata anunciou, pegando uma garrafa de água mineral francesa.
— O que você fez agora, Ágata? — Sara perguntou, sem tirar os olhos do tablet.
— Nada demais. Uma menina do nono ano disse que meu perfume era forte demais para o horário. Eu disse a ela que o perfume custava mais do que o aluguel da casa dela e que, se ela estivesse incomodada, era porque o olfato de gente pobre não está acostumado com essências raras.
Eduarda fechou os olhos, sentindo uma pontada de desespero.
— Ágata, isso é cruel — Eduarda disse, tentando manter a voz calma. — Você não pode falar assim com as pessoas.
— Eu falo a verdade, Eduarda — Ágata retrucou, olhando para a madrasta com um desdém que era a cópia fiel do de Sara. — O mundo é feito de níveis. A mamãe me ensinou isso. E se eu estou em um dia ruim, as pessoas têm que aprender a sair do meu caminho. Onde está a Maya? Aposto que está escrevendo poesia ou chorando por um passarinho morto.
— A Maya está descansando — Eduarda respondeu, sua paciência chegando ao limite. — E ela tem mais caráter em um dedo do que você demonstra ter com toda essa sua arrogância.
— Chega, as duas — Sara interveio, finalmente levantando o olhar. — Ágata, vá para o seu quarto. Você exagerou na escola, mas eu gosto da resposta sobre o perfume. Só tente não ser suspensa até o final do mês. E Eduarda, não tente educar minha filha. Você já tem muito trabalho tentando fazer a Maya não pedir desculpas por respirar.
Emanuel, que observava da porta, percebeu que o ciclo se repetia. As meninas agora eram reflexos perfeitos de suas mães. Maya era a suavidade, a sensibilidade e o refúgio emocional de que ele precisava para não se tornar um monstro de gelo. Ágata era a ambição, a força bruta e a arrogância que ele mesmo usara para construir seu império.
Naquela noite, Emanuel reuniu todos para o jantar. Era uma mesa farta, mas dividida por correntes invisíveis. De um lado, Sara e Ágata trocavam comentários ácidos sobre a moda da estação e os negócios. Do outro, Eduarda e Maya conversavam em tons baixos sobre livros e arte. No centro, Arthur tentava mediar, sendo o elo que unia os dois mundos.
— Eu tomei uma decisão — Emanuel anunciou, fazendo o silêncio imperar. — No próximo mês, vamos todos para a nossa casa na Toscana. Sem motoristas extras, sem assistentes. Apenas nós.
— Toscana? No meio do semestre? — Sara questionou, arqueando a sobrancelha.
— Sim. As meninas estão crescendo. Arthur está se tornando um homem. Eu quero que vocês passem um tempo juntos sem as distrações deste império. Ágata, você vai aprender que o mundo não gira em torno do seu umbigo. Maya, você vai aprender que sua voz precisa ser ouvida. E vocês duas... — ele olhou para Sara e Eduarda — ...vão ter que encontrar uma forma de serem mães sem transformar o jantar em um tribunal.
Ágata bufou, mas não protestou. Maya sorriu timidamente. Eduarda sentiu um alívio, enquanto Sara apenas deu um gole em seu vinho, aceitando o desafio.
Emanuel olhou para sua família. Ele via o sangue das rosas em Maya e Eduarda — delicadas, mas capazes de sobreviver a invernos rigorosos. E via o perfume do ferro em Sara e Ágata — frias, brilhantes e moldadas sob pressão. Ele sabia que a convivência seria um campo de batalha, mas ele era o general. E sob o seu teto, por mais que as meninas crescessem e as rivalidades florescessem, ele ainda era o dono do destino de todos eles.
A noite terminou com Maya e Eduarda lendo juntas no quarto, enquanto Sara e Ágata planejavam seus looks para a viagem no closet de proporções épicas. Emanuel ficou na varanda, observando as luzes da cidade. Ele sabia que a primeira menstruação das filhas era apenas o início de uma nova fase de conflitos. Mas, enquanto ele tivesse o controle e Arthur ao seu lado, o império de Emanuel permaneceria inabalável, sustentado pela doçura de uma ala e pela fúria da outra.