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O Equilíbrio Frágil do Silêncio

A cobertura de Emanuel nunca pareceu tão silenciosa quanto na manhã seguinte à ida de Eduarda para o hospital. O plano dele era simples: mantê-la ali, cercada de cuidados, onde ele pudesse monitorar cada centímetro daquela pele clara que agora ostentava um curativo no joelho. Mas Eduarda, com sua persistência mansa e aquele jeito de pedir as coisas que desarmava qualquer um, conseguiu o que queria. Alegou que precisava de seus livros de História da Arte, que a escada do mezanino da cobertura era perigosa para sua perna machucada e que seus pais já sentiam sua falta.

Emanuel cedeu, mas não sem antes marcar um jantar na casa dos sogros para dali a dois dias. Ele precisava reafirmar seu território.

A noite do jantar chegou com uma temperatura amena. Emanuel dirigia seu carro preto, mantendo uma expressão fechada, enquanto Sara, ao seu lado, retocava o batom vermelho vibrante no espelho do quebra-sol. Ela usava um vestido de seda dourada que abraçava a barriga de sete meses, as curvas acentuadas pelo silicone e pela gravidez, exalando uma aura de confiança que preenchia o habitáculo do veículo.

— Você está tenso, Manu — comentou Sara, fechando o estojo de maquiagem com um estalo seco. — Relaxa. É só um jantar com os pais da bonequinha. Eles são tranquilos, até modernos demais para o meu gosto, mas inofensivos.

— Não é a tranquilidade deles que me preocupa, Sara — Emanuel respondeu, trocando a marcha com precisão. — É a resistência da Eduarda. Eu quero ela comigo. Ter vocês duas separadas é um pesadelo logístico e emocional. Eu sinto que estou sempre deixando uma desprotegida.

— Ah, por favor. Eu sei me cuidar e a Ágata está segura aqui dentro — ela deu um tapinha na barriga. — A Duda que é o problema. Ela é mole, Emanuel. Se você não apertar, ela nunca vai sair da barra da saia da mãe.

Ao chegarem à casa dos pais de Eduarda, o ambiente era o oposto da cobertura minimalista de Emanuel. Havia música suave, incenso e uma decoração colorida e cheia de vida. Os pais de Eduarda, Helena e Ricardo, receberam o casal com abraços calorosos. Eduarda estava sentada no sofá, usando um shortinho de algodão que deixava o curativo à mostra e uma blusa de alças finas. Ao ver Emanuel, seus olhos brilharam e ela se levantou com um pouco de dificuldade, esticando os braços para ele como uma criança que busca refúgio.

— Manu... — ela murmurou, enterrando o rosto no peito dele assim que ele a alcançou. — Que saudade.

— Eu te vi ontem, pequena — ele disse, a voz suavizando instantaneamente, as mãos grandes mapeando as costas dela. — Como está a dor?

— Está melhorando, mas ainda dói um pouquinho quando eu dobro o joelho — ela fez um biquinho manhoso, olhando para ele com aqueles olhos castanhos que sempre imploravam por proteção.

— Oi para você também, Duda — Sara interrompeu, aproximando-se com seu andar imponente. — Trouxe aquele doce que você gosta, só para você não dizer que eu sou a madrasta má da história.

— Obrigada, Sara — Eduarda respondeu tímida, encolhendo-se levemente. A presença de Sara sempre a fazia se sentir pequena, não por maldade da loira, mas pelo contraste de energias.

O jantar transcorria bem até que a porta da frente se abriu e uma mulher loira, de cabelos curtos e repicados, entrou na sala exalando uma energia vibrante. Era Beatriz, a irmã mais nova de Helena e tia de Eduarda. Ela era fotógrafa de moda, viajava o mundo e tinha uma língua tão afiada quanto a de Sara, mas com uma sofisticação boêmia que intimidava a namorada loira de Emanuel. Sara nunca admitiria, mas tinha um certo receio de Beatriz; a mulher parecia ler através de suas camadas de maquiagem e roupas de grife.

— Cheguei para animar esse jantar! — anunciou Beatriz, beijando o rosto de todos e parando diante de Emanuel com um olhar analítico. — Emanuel, cada vez mais sério. Cuidado, as rugas de preocupação não combinam com as suas tatuagens.

— Beatriz — Emanuel cumprimentou com um aceno respeitoso. Ele gostava da mulher, mas sabia que ela era imprevisível.

Sentados à mesa, o assunto inevitavelmente caiu sobre o futuro. Emanuel, aproveitando a taça de vinho, decidiu tocar no ponto que o estava corroendo.

— Eu estava conversando com a Eduarda sobre a mudança — começou ele, olhando para os pais dela. — A Ágata nasce em dois meses. O quarto da Eduarda na cobertura já está pronto, e eu gostaria que ela se mudasse de vez na semana que vem. Lá ela terá assistência total, motorista e segurança.

O silêncio caiu sobre a mesa. Eduarda baixou os olhos para o prato, brincando com o risoto. Helena e Ricardo se entreolharam, mas foi Beatriz quem soltou um riso curto e seco, quebrando a tensão de forma abrupta.

— Mudar para a cobertura agora, Emanuel? — Beatriz perguntou, apoiando os cotovelos na mesa. — Você só pode estar brincando.

Emanuel sentiu o maxilar travar.

— Não vejo o motivo da piada, Beatriz. É o que faz sentido. Somos uma família.

— Uma família bem peculiar, convenhamos — Beatriz continuou, ignorando o olhar de advertência de Helena. — Mas vamos falar de lógica, já que você gosta tanto disso. A Eduarda tem vinte anos, está no meio de uma faculdade de História da Arte que exige horas de estudo, pesquisa e, acima de tudo, silêncio. Você tem noção do que é uma casa com um recém-nascido?

Sara interveio, a voz subindo um tom.

— A Ágata vai ter babá, Beatriz. Nós temos estrutura. Não vai ser o caos que você está pintando.

— Babá ou não, Sara, bebê chora. Bebê tem cólica. Bebê muda a rotina de todo mundo — Beatriz rebateu, o olhar fixo em Emanuel. — A Eduarda está em uma fase da vida que requer foco nela mesma. Colocá-la em uma casa com uma criança que nem é dela, para viver uma rotina de "mãe por tabela" enquanto tenta estudar, é pedir para ela surtar.

— "Que nem é dela"? — Emanuel repetiu, a voz perigosamente baixa. A fúria começava a borbulhar sob sua pele tatuada. — A Ágata é minha filha. Tudo o que é meu pertence à Eduarda também.

— Emocionalmente, talvez — disse a tia, implacável. — Mas na prática? Eduarda ainda é uma menina em muitos aspectos. Ela precisa da paz da casa dos pais, do jardim, do silêncio que ela tem aqui. Forçá-la a viver o puerpério da Sara não é justo com ela.

Eduarda sentiu a tensão no ar e, instintivamente, esticou a mão por baixo da mesa, apertando a perna de Emanuel. Ela sabia que ele estava a um passo de explodir.

— Manu, a tia Bia só está preocupada... — sussurrou ela, tentando acalmá-lo.

— Ela está interferindo em uma decisão que cabe a nós três — Emanuel retrucou, olhando para Eduarda com uma rigidez que a fez estremecer. — Você concorda com ela? Você acha que morar comigo vai ser um fardo por causa da sua irmã?

Eduarda hesitou. No fundo, as palavras de Beatriz ecoaram uma verdade que ela tinha medo de admitir. Ela amava Emanuel com uma devoção quase infantil, e gostava de Sara, à sua maneira, mas a ideia de perder suas manhãs silenciosas na casa dos pais, onde podia ler seus livros sem interrupções, a assustava. Ela não se sentia pronta para a intensidade da vida de Emanuel em tempo integral.

— Não é um fardo, Manu... — começou Eduarda, a voz embargada. — Mas eu... eu gosto do meu espaço aqui. Eu prometo que vou ficar lá muito tempo depois que a Ágata nascer, para ajudar, para conhecer ela... mas morar de vez agora...

— Viu só? — Beatriz sorriu vitoriosa, embora sem malícia, apenas com a franqueza de quem não tinha nada a perder. — Deixe a menina respirar, Emanuel. Você quer controlar tudo, quer colocar todo mundo em potinhos dentro da sua estante, mas a vida não funciona assim.

Emanuel levantou-se abruptamente, a cadeira raspando no chão com um ruído estridente.

— Com licença — disse ele, a voz gélida. — Preciso de um ar.

Ele saiu para a varanda da casa, os passos pesados. Sara suspirou fundo, lançando um olhar de puro veneno para Beatriz.

— Você adora causar confusão, não é? — Sara sibilou. — O Emanuel faz tudo por essa menina e você vem plantar caraminholas na cabeça dela.

— Eu estou protegendo a saúde mental da minha sobrinha, Sara. Coisa que o Emanuel, na sua obsessão por proteção, esquece de fazer — Beatriz respondeu com calma, servindo-se de mais vinho.

Lá fora, a noite estava fresca, mas Emanuel sentia o sangue ferver. Ele odiava perder o controle. Odiava que a lógica de Beatriz fizesse um mínimo de sentido, mesmo que ele se recusasse a aceitar. Para ele, amor era presença. Se elas não estavam sob seus olhos, ele sentia que o mundo poderia machucá-las a qualquer momento — como aquela moto tinha feito com Eduarda.

Sentiu um toque leve em seu braço. Não precisava olhar para saber que era ela. O cheiro de baunilha e a delicadeza do toque eram inconfundíveis.

— Manu... não fica bravo — Eduarda pediu, abraçando-o pelas costas e colando o rosto em suas omoplatas largas. — A tia Bia fala demais, você sabe.

Ele se virou, segurando o rosto dela entre as mãos.

— Por que você não quer vir, Duda? É por causa da Sara? Da bebê? Eu faço um isolamento acústico no seu quarto, eu contrato quem você quiser...

— Não é isso — ela fechou os olhos, aproveitando o calor das mãos dele. — É só que... tudo está mudando muito rápido. Você é um furacão, Manu. Você conquista o mundo, você abre estúdios, você vai ser pai... e eu ainda estou tentando entender o Renascimento italiano. Eu só quero um pouquinho mais de tempo na minha bolha. Não significa que eu não te amo.

Emanuel suspirou, encostando a testa na dela. A vulnerabilidade de Eduarda era sua maior fraqueza.

— Eu tenho medo por você — ele confessou, a voz rouca. — O tempo todo.

— Eu sei. Mas eu estou aqui, não estou? — Ela deu um sorriso pequeno e manhoso. — Agora volta lá para dentro. A Sara está quase saindo no tapa com a minha tia e o papai está tentando esconder as facas de carne.

Emanuel soltou uma risada curta, a tensão diminuindo apenas o suficiente para ele não ir embora naquele instante. Ele voltou para a sala, a mão possessiva na cintura de Eduarda.

O restante do jantar foi civilizado, embora a tensão ainda pairasse no ar como uma névoa fina. Sara manteve-se em um silêncio altivo, apenas trocando farpas sutis com Beatriz sobre a administração dos estúdios.

Quando o jantar terminou e Emanuel e Sara se despediram, o clima no carro era pesado.

— Aquela mulher é insuportável — disparou Sara, assim que saíram da rua. — "Bebê que nem é dela". Que audácia.

— Ela tem um ponto, Sara — Emanuel disse, surpreendendo a loira. — Não sobre a Ágata não ser dela, mas sobre o tempo da Eduarda. Eu não vou desistir de trazê-la, mas talvez... talvez eu precise mudar de estratégia.

— Estratégia? Emanuel, você é o homem mais rico e influente que eu conheço e está sendo manipulado por uma estudante de vinte anos e uma fotógrafa metida a besta.

— Eu não estou sendo manipulado. Estou sendo racional — ele mentiu para si mesmo.

Enquanto isso, na casa dos pais, Eduarda observava o carro sumir de vista da janela de seu quarto. Ela se jogou na cama, sentindo o cheiro familiar de sua colcha de infância. Ela amava Emanuel com cada fibra do seu ser, e o desejo dele de tê-la por perto a fazia se sentir a mulher mais especial do mundo. Mas a paz daquela casa, o silêncio que Beatriz tanto defendeu, era o que a mantinha sã.

Ela sabia que, em breve, teria que escolher entre o seu silêncio e o caos apaixonado de Emanuel. Mas, por aquela noite, ela apenas fechou os olhos e deixou que o som do vento nas árvores do jardim fosse sua única companhia, adiando por mais um tempo o momento em que se tornaria, definitivamente, parte do império de tinta e paixão de Emanuel.