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O Peso das Escolhas e o Som do Silêncio

O escritório de Emanuel na cobertura era um santuário de minimalismo e poder. Paredes cinza-chumbo, iluminação indireta e uma vista privilegiada da cidade que ele havia conquistado com o suor de seu trabalho e o traço de suas agulhas. Mas, naquele final de tarde, o ar parecia rarefeito. Sobre a mesa de carvalho negro, um convite luxuoso, com detalhes em relevo dourado e o nome "Ágata" escrito em caligrafia delicada, parecia zombar da sua autoridade.

Era o convite para o chá de bebê, que seria realizado na mansão da mãe de Sara, em uma cidade vizinha, a três horas de distância. Um evento social de grandes proporções, como tudo o que envolvia a família de Sara, e Emanuel esperava — exigia, em seu íntimo — que sua estrutura familiar estivesse completa.

— Eu já expliquei, Manu... — a voz de Eduarda surgiu pequena, vinda da poltrona de couro onde ela estava quase encolhida. — Eu tenho três entregas de portfólio na segunda-feira. Se eu viajar esse fim de semana, eu perco o semestre de Estética e Crítica.

Emanuel levantou-se, caminhando até a janela. Suas mãos, cobertas por tatuagens que contavam histórias de dor e superação, estavam enterradas nos bolsos da calça de alfaiataria.

— É o chá de bebê da minha filha, Eduarda — disse ele, a voz carregada de uma frieza que escondia sua decepção profunda. — É o primeiro grande evento da Ágata. Eu não quero chegar lá apenas com a Sara. Eu quero você ao meu lado.

— Mas a Sara é a mãe, Manu — Eduarda murmurou, levantando-se e caminhando até ele com passos leves. Ela parou atrás dele, encostando a testa em suas costas largas, sentindo o calor que emanava do corpo dele. — As pessoas vão olhar para ela. Ela vai estar linda, radiante... eu só seria uma sombra estranha naquela festa.

Emanuel virou-se bruscamente, segurando-a pelos ombros. Seu olhar era severo, o maxilar tenso.

— Você nunca é uma sombra para mim. Você sabe disso. O que eu estou vendo aqui é um padrão, Eduarda. Primeiro, você se recusa a morar aqui. Agora, você se recusa a participar de um momento fundamental da minha vida com a Ágata. Começo a achar que você não dá a mínima para essa criança.

Eduarda sentiu o impacto das palavras como se fosse um golpe físico. Seus olhos castanhos inundaram-se instantaneamente, e o lábio inferior tremeu. Ela buscou as mãos dele, segurando seus dedos com força, em um gesto de súplica manhosa que costumava desarmá-lo.

— Não fala assim, por favor... dói ouvir isso — ela disse, a voz embargada, escondendo o rosto nas mãos dele. — Eu tenho certeza que vou amar a Ágata quando ela nascer. Eu vou fazer desenhos para ela, vou levá-la aos museus quando ela for maior... mas, Manu, eu não sou a mãe dela. Eu não sou a Sara.

— E o que isso tem a ver? — ele questionou, embora sua expressão começasse a amolecer diante do choro dela.

— Tem a ver que eu preciso ter a minha vida também — ela continuou, olhando para ele com uma vulnerabilidade desarmante. — Eu não posso viver apenas em função da sua estrutura. Eu sou a Eduarda, a estudante de história da arte que precisa passar de ano. As pessoas importantes que precisam estar naquele chá são você e a Sara. Vocês são os protagonistas. Eu sou apenas... a Duda.

— Você é minha mulher tanto quanto ela — Emanuel rosnou, a possessividade falando mais alto. — Eu não divido meu coração em compartimentos, Eduarda. Se eu estou lá, eu quero minhas duas mulheres comigo.

— Mas é um evento da família da Sara, em outra cidade — ela insistiu, esfregando o rosto no ombro dele, buscando o cheiro de perfume amadeirado que a acalmava. — Manu, seja razoável. Eu vou ficar aqui, estudando quietinha, e quando vocês voltarem, eu faço uma massagem em você e na Sara, prometo. Não fica irritado com a sua pequena...

Emanuel soltou um suspiro pesado, fechando os olhos. O conflito interno era exaustivo. De um lado, sua necessidade irracional de controle e proteção; do outro, a doçura manipuladora e a lógica juvenil de Eduarda.

A porta do escritório se abriu com um estrondo controlado. Sara entrou, majestosa em um conjunto de seda azul-marinho que realçava seu brilho de gestante. Ela segurava um iPad e parecia estar no meio de três conversas diferentes.

— O buffet confirmou as lagostas, mas a decoração de flores precisa de um aporte extra porque eu quero peônias importadas — disse ela, sem olhar para os dois a princípio. — Emanuel, você já assinou a transferência para a empresa de eventos?

Ela finalmente parou e olhou para a cena: Emanuel segurando Eduarda, que parecia uma boneca de porcelana prestes a quebrar.

— Ah, não. Outra vez o drama das lágrimas? — Sara bufou, colocando as mãos nos quadris. — Deixe-me adivinhar: a bonequinha não quer ir para o interior porque tem "trabalhinhos" de escola?

— São trabalhos de faculdade, Sara — Eduarda respondeu, tentando manter a dignidade, embora ainda estivesse grudada em Emanuel.

— Querida, eu me formei em Administração gerenciando três estúdios de tatuagem e lidando com fornecedores que queriam me passar a perna — Sara disse, aproximando-se e lançando um olhar irônico para a barriga de Eduarda. — Se eu conseguia fazer planilhas entre uma náusea e outra, você consegue escrever sobre estátuas gregas no carro.

— Não é a mesma coisa — murmurou Eduarda, encolhendo-se.

— Não é mesmo — concordou Sara, voltando-se para Emanuel. — Deixe ela, Manu. Sinceramente, se ela for com essa cara de quem está indo para um funeral, vai estragar as fotos do meu chá de bebê. Minha mãe já acha estranho o suficiente a nossa configuração; ter a "outra" lá com cara de choro enquanto eu tento celebrar a Ágata vai ser um porre.

Emanuel olhou de uma para a outra. A praticidade de Sara sempre batia de frente com a sensibilidade de Eduarda, e ele era o campo de batalha.

— Eu não quero que ela fique em casa sozinha enquanto estamos todos celebrando — Emanuel insistiu, a voz rígida.

— Ela não vai estar sozinha, ela vai estar com os livros dela, que parecem ser muito mais interessantes do que a nossa filha — Sara provocou, embora houvesse um fundo de verdade em sua impaciência. Ela não odiava Eduarda, mas a passividade da garota a irritava profundamente em dias de estresse.

— Não é verdade! — Eduarda exclamou, soltando-se de Emanuel. — Eu me importo com a Ágata. Eu só... eu não quero ser um acessório, Emanuel. Eu sinto que, se eu for, vou ser apenas um objeto que você quer carregar para se sentir completo.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Emanuel sentiu a verdade naquelas palavras e isso o irritou ainda mais. Ele gostava de pensar que sua necessidade de tê-las por perto era puro amor, mas, no fundo, havia uma camada de egoísmo e controle que ele raramente admitia.

— Se é assim que você se sente, Eduarda, então fique — disse ele, a voz fria e final. — Fique com seus livros. Fique com seu silêncio.

Ele caminhou até sua mesa, pegou uma caneta e começou a assinar papéis com uma força excessiva.

— Manu... — Eduarda tentou se aproximar, o tom manhoso voltando com força total. — Não fica assim. Me dá um beijo de tchau?

— Agora não, Eduarda. Eu tenho trabalho — ele respondeu, sem olhar para cima.

Sara observou a cena com um misto de satisfação e tédio. Ela se aproximou de Eduarda e tocou o ombro da menina com uma unha perfeitamente esculpida.

— Você ganhou, pequena. Vai ter seu fim de semana de paz. Mas não reclame depois quando o Emanuel passar o mês inteiro mimando a mim e à Ágata porque fomos as únicas que estávamos lá.

Eduarda baixou a cabeça, sentindo o peso da vitória amarga. Ela saiu do escritório em silêncio, deixando para trás a tensão vibrante entre Emanuel e Sara.

No corredor da cobertura, ela parou diante do quarto que Emanuel havia decorado para ela. Era lindo, caro e impecável, mas ainda não parecia seu. Ela sentia que sua vida era um constante cabo de guerra. Se cedesse a Emanuel, perdia a si mesma; se mantivesse sua independência, perdia o sorriso dele.

Enquanto isso, dentro do escritório, Sara sentou-se no colo de Emanuel, ignorando a rigidez do corpo dele.

— Você é muito duro com ela, sabia? — Sara comentou, passando a mão pelo pescoço tatuado dele. — E ela é muito mole com você. É uma combinação desastrosa para os seus nervos.

— Eu só queria que as coisas fossem simples, Sara — Emanuel desabafou, encostando a cabeça no ombro dela. — Eu queria que ela entendesse que, para mim, não existe "a minha vida" e "a vida dela". É tudo uma coisa só.

— Mas não é, querido. E nunca vai ser. Eu sou sua sócia, sua mulher, a mãe da sua filha. Eu entendo o peso do seu império. A Eduarda... ela é o seu refúgio. E refúgios não servem para carregar peso. Servem para descansar.

Emanuel olhou para a namorada loira, surpreso com a lucidez dela. Sara podia ser vulgar, barulhenta e competitiva, mas ela o conhecia como ninguém.

— Você não se importa que ela não vá? — ele perguntou.

— Sinceramente? Eu prefiro assim. Vou ter sua atenção exclusiva por quarenta e oito horas. E minha mãe não vai precisar fingir que não está julgando a sua "esposa reserva" — Sara riu, um som cristalino e sem filtros. — Agora, assine logo esse cheque. As peônias não vão se pagar sozinhas.

O fim de semana chegou. Emanuel e Sara partiram em meio a malas de grife e uma animação ruidosa. Eduarda os viu sair da garagem, acenando timidamente da calçada. Emanuel apenas acenou de volta, um gesto curto, ainda mantendo a barreira de gelo que havia erguido no escritório.

Eduarda voltou para a casa dos pais, buscando o conforto do que era conhecido. Mas, estranhamente, o silêncio que ela tanto defendeu parecia vazio. Ela tentou ler sobre o Quattrocento italiano, tentou organizar seus esboços, mas sua mente voltava constantemente para a imagem de Emanuel e Sara juntos, celebrando a vida que ele tanto queria que ela fizesse parte integral.

No sábado à noite, ela enviou uma mensagem para ele: "Espero que o chá esteja lindo. Sinto sua falta. Beijos na Ágata".

Emanuel visualizou a mensagem enquanto estava cercado por convidados elegantes, música clássica e o riso expansivo de Sara. Ele sentiu uma pontada de saudade, um desejo súbito de ter a doçura de Eduarda ali para contrabalançar a opulência do evento. Mas ele não respondeu. Ele queria que ela sentisse o peso da ausência. Queria que ela percebesse que o silêncio que ela escolhera tinha um preço.

A irritação de Emanuel não era apenas por um evento social. Era o medo constante de que, ao dar espaço para Eduarda ser quem ela era, ele estivesse permitindo que ela se afastasse dele. Para um homem que construiu sua fortuna marcando a pele das pessoas permanentemente, a natureza efêmera e esquiva de Eduarda era seu maior desafio.

No domingo à noite, quando Emanuel e Sara retornaram para a cobertura, exaustos e carregados de presentes, encontraram Eduarda esperando na sala. Ela havia preparado um chá e comprado os pães que Emanuel gostava.

— Oi... — ela disse, levantando-se rapidamente, o olhar ansioso buscando o dele. — Como foi?

Sara passou por ela, deixando um rastro de perfume e cansaço.

— Foi um sucesso, querida. A Ágata ganhou roupas que custam mais que o seu curso inteiro — Sara deu um beijo no rosto de Eduarda, um gesto de trégua. — Vou subir, meus pés estão parecendo dois pães sovados. Boa noite para vocês.

Emanuel ficou parado na entrada, observando Eduarda. Ela estava usando um pijama de seda clara, o cabelo castanho preso em um coque frouxo, parecendo tão pequena e doce que toda a sua raiva começou a evaporar, substituída por aquela necessidade automática de protegê-la.

— Você estudou? — ele perguntou, a voz ainda um pouco rouca.

— Estudei. Mas foi horrível — ela confessou, aproximando-se e envolvendo a cintura dele com os braços, escondendo o rosto em seu peito. — Eu me senti sozinha, Manu. O silêncio era muito grande sem você reclamando no telefone ou a Sara ouvindo música alta.

Emanuel suspirou, cedendo finalmente e abraçando-a com força, enterrando o rosto em seu pescoço.

— Talvez agora você entenda por que eu insisto tanto — ele murmurou. — Eu não quero que você seja um acessório, Duda. Eu quero que você seja parte do alicerce. E alicerces precisam estar presentes.

— Eu sei... — ela disse, manhosa, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. — Você me perdoa? Eu prometo que, no próximo evento, eu vou. Mesmo que eu tenha que estudar no meio da festa.

Emanuel soltou um sorriso curto, o primeiro em dias. Ele a pegou no colo, fazendo-a soltar um ganido de surpresa e diversão.

— Veremos, pequena. Veremos.

Ele a carregou para o quarto, sentindo que o equilíbrio, embora frágil e precário, havia sido restaurado. Ele ainda estava irritado com a teimosia dela, e ela ainda estava insegura sobre seu lugar naquele mundo tripartido. Mas, por enquanto, o calor do corpo dela em seus braços era o suficiente para calar as vozes de dúvida em sua mente. O império de Emanuel estava em paz, pelo menos até o próximo conflito entre a liberdade de uma e a presença exigida pela outra.