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O Peso de uma Herança de Sangue e Tinta
A cobertura de Emanuel nunca esteve tão barulhenta, e ao mesmo tempo, tão carregada de uma tensão invisível. O choro de Ágata, agora com quatro meses, não era o choro comum de um bebê; era um protesto agudo e exigente, como se ela já soubesse que era a herdeira de um império. Sara, recuperada com uma velocidade impressionante e ostentando um corpo que desafiava a biologia graças a procedimentos estéticos recentes, desfilava pela sala com a filha nos braços.
Ágata era uma boneca viva. Sara a vestia com roupas de grife em miniatura, laços de fita que pareciam maiores que sua cabeça e sapatinhos de sola vermelha que nunca tocariam o chão. A bebê tinha os olhos claros e analíticos de Emanuel, mas o biquinho desdenhoso era puramente de Sara.
— Ela não quer o bico de silicone comum, Emanuel! — exclamou Sara, balançando a bebê enquanto ajeitava o próprio cabelo loiro, perfeitamente escovado. — Eu já disse que essa menina tem bom gosto. Ela quer o bico anatômico que importamos da Alemanha. Ela é esnobe como a mãe, aceite.
Emanuel, sentado no sofá com um tablet nas mãos, observava a cena com um misto de orgulho e exaustão. Ele amava Ágata com uma ferocidade que o assustava, mas a forma como Sara a transformava em uma "mini versão" sua às vezes o incomodava. Ele queria que a filha tivesse a garra de Sara, sim, mas também a suavidade que ele tanto admirava em outra pessoa.
Eduarda estava sentada na ponta da poltrona, observando a interação. Ela vinha com mais frequência à cobertura agora, mas sempre parecia estar pisando em ovos. Quando Ágata nasceu, Duda sentiu uma onda de ternura, mas junto com ela veio um muro de vidro. Ela via Sara e Emanuel como uma unidade indissolúvel através daquela criança, e temia que qualquer movimento seu fosse interpretado como uma invasão.
— Quer segurar ela, Duda? — Emanuel perguntou, percebendo o olhar da namorada mais jovem.
Eduarda hesitou, os olhos castanhos brilhando com um desejo contido.
— Eu... eu não quero atrapalhar. Ela parece tão confortável com a Sara agora.
— Ah, pegue logo, bonequinha — Sara disse, estendendo a bebê de forma quase negligente, embora seus olhos estivessem atentos. — Vou aproveitar para retocar minha maquiagem. O fotógrafo chega em uma hora para o ensaio de "mãe e filha".
Eduarda pegou Ágata com uma delicadeza extrema, como se a bebê fosse feita de cristal. Ela sentiu o cheirinho de talco caro e o calor do corpinho pequeno. Ágata parou de chorar instantaneamente, fixando os olhos escuros no rosto doce de Eduarda. Duda sorriu, um gesto genuíno e triste ao mesmo tempo, e deu um beijo suave na testa da menina.
— Oi, pequena Ágata... — sussurrou Eduarda, balançando-a de leve. — Você está tão linda hoje.
Sara, que já estava na metade do caminho para o quarto, parou e olhou para trás. Ver Eduarda com sua filha despertava um sentimento complexo. Ela não via Eduarda como uma ameaça à sua posição de namorada principal, mas Ágata era o seu triunfo, o seu vínculo eterno com Emanuel. Ver a "outra" demonstrando afeto pela sua criação gerava uma pontada de ciúme territorial que ela mal conseguia disfarçar.
— Cuidado com o laço, Eduarda. Custou mais que a sua mensalidade da faculdade — Sara disparou, o tom irônico servindo de escudo, antes de desaparecer no corredor.
Eduarda murchou visivelmente. Ela devolveu Ágata para o cercadinho assim que a bebê começou a se agitar, afastando-se dois passos. Emanuel observou tudo em silêncio, o maxilar travado. Ele odiava aquele abismo. Ele queria que Eduarda se sentisse mãe, ou pelo menos uma tia dedicada, mas entendia que o ambiente criado por Sara não dava espaço para isso.
Alguns dias depois, Emanuel estava no estúdio principal, revisando os lucros do mês, quando decidiu fazer uma pausa e olhar as redes sociais. Ele raramente fazia isso, mas o algoritmo o levou direto para uma postagem recente de Eduarda.
O coração dele deu um solavanco.
Na foto, Eduarda estava sentada em um tapete colorido, rindo abertamente, com um bebê de seis meses no colo. Era o filho de uma amiga da faculdade. Na imagem, Duda parecia radiante, sem a tensão que carregava na cobertura. Ela beijava a bochecha gordinha do menino, as mãos segurando-o com firmeza e intimidade. A legenda dizia: "Tarde de amor com o pequeno Leo. O coração transborda".
Emanuel sentiu uma pontada de inveja. Por que ela não postava fotos assim com Ágata? Por que ela não transbordava daquele jeito em sua casa?
Naquela noite, quando Eduarda chegou para jantar, o clima estava carregado. Sara estava na cozinha, dando instruções para a cozinheira, e Emanuel esperava por Eduarda no mezanino.
— Vi suas fotos hoje — disse ele, sem preâmbulos, assim que ela se aproximou para beijá-lo.
Eduarda congelou. Ela conhecia aquele tom de voz. Era o Emanuel "controlador", o homem que exigia lealdade absoluta.
— Ah, o Leo? Ele é um fofo, Manu. A Bia precisava de ajuda e eu passei a tarde com eles.
— Você parecia muito à vontade — Emanuel comentou, cruzando os braços sobre o peito tatuado. — Mais à vontade do que fica com a Ágata.
Eduarda baixou a cabeça, brincando com a alça da bolsa.
— É diferente, Manu. O Leo é... é só o filho de uma amiga. Eu não sinto que estou sendo julgada quando estou com ele.
— E quem te julga aqui? — ele perguntou, embora soubesse a resposta.
— Você sabe, Manu. A Sara... ela olha para mim como se eu fosse um vírus perto da Ágata. E você... você olha para mim esperando que eu seja algo que eu não sei se posso ser. Eu me sinto uma intrusa. Ágata é o projeto da Sara. Ela é a sua herdeira. Eu sou apenas a namorada que estuda arte e mora com os pais.
— Você é minha mulher, Eduarda! — Emanuel elevou a voz, atraindo a atenção de Sara, que apareceu na porta da cozinha com uma taça de vinho na mão.
— O que foi agora? O império está desmoronando? — Sara perguntou, os olhos saltando de Emanuel para a figura encolhida de Eduarda.
— O Emanuel está bravo porque eu postei foto com o bebê de uma amiga — explicou Eduarda, a voz falhando.
Sara soltou uma risada seca, aproximando-se com seu passo confiante.
— Ah, eu vi a foto. Ficou fofa, Duda. Realmente, você leva jeito com crianças que não têm grife. Mas entenda o lado do Emanuel... ele quer que o mundo veja que somos uma família feliz. E você postar foto com o filho da vizinha e ignorar a Ágata no seu perfil parece... como eu diria? Rejeição.
— Não é rejeição! — Eduarda exclamou, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos cílios. — Eu amo a Ágata. Mas eu tenho medo de tocá-la e a Sara reclamar do laço, ou do jeito que eu seguro, ou de eu estar "estragando" a imagem que ela quer criar para a menina. Eu não tenho lugar aqui nessa maternidade!
O silêncio que se seguiu foi desconfortável. Emanuel sentiu um aperto no peito. Ele percebeu, talvez pela primeira vez, que ao tentar forçar a convivência perfeita, ele estava sufocando a espontaneidade de Eduarda.
— Eu não quero que você se sinta assim — Emanuel disse, a voz mais suave, aproximando-se para tocar o rosto dela.
— Mas é como eu me sinto — ela murmurou, afastando-se do toque dele. — Eu vou para casa. Preciso estudar.
— Eduarda, espere — ele pediu, mas ela já estava caminhando em direção à porta.
Sara deu um gole longo no vinho, observando a porta se fechar.
— Você pressiona demais a menina, Manu. Ela é sensível, você sabe. E, honestamente? Eu prefiro que ela mantenha essa distância. Ágata é minha. Eu não preciso de uma "co-mãe" mansa dividindo a atenção da minha filha.
Emanuel virou-se para Sara, os olhos faiscando.
— Esse é o problema, Sara. Você quer tudo para você. O controle, os estúdios, a filha... e a Eduarda fica com as sobras. Eu não vou deixar isso acontecer.
— Então faça uma escolha, Emanuel — Sara desafiou, colocando a taça de lado e caminhando até ele, a mão espalmada em seu peito, sentindo os batimentos acelerados. — Mas saiba que a Ágata e eu somos um pacote completo. A Eduarda é apenas um acessório de luxo que você gosta de ter por perto para se sentir jovem e calmo. Não confunda as coisas.
Emanuel se afastou dela, sentindo uma náusea súbita. Ele subiu para o quarto de Ágata. A bebê estava dormindo em seu berço de dossel, cercada por bichos de pelúcia de marcas famosas. Ela parecia tão tranquila, tão alheia à guerra silenciosa que ocorria do lado de fora daquelas paredes.
Ele sentou-se na poltrona de amamentação e cobriu o rosto com as mãos. Ele tinha tudo o que um homem poderia desejar: riqueza, sucesso, uma filha linda e duas mulheres fascinantes. Mas a sensação de que seu mundo estava prestes a rachar ao meio era constante.
No dia seguinte, Emanuel não foi ao estúdio. Ele dirigiu até a faculdade de Eduarda e esperou que ela saísse da aula. Quando a viu caminhar pelo campus, com sua mochila de lona e o olhar perdido nos livros, ele sentiu uma onda de proteção que quase o sufocou.
Ele buzinou, e ela se aproximou do carro, surpresa.
— Manu? O que você está fazendo aqui?
— Entra no carro, Duda. Precisamos conversar. Sem a Sara. Sem a Ágata.
Eles foram a um café pequeno e discreto, longe do brilho da cobertura. Eduarda estava quieta, mexendo no seu chocolate quente.
— Eu vi como você olhava para aquele bebê na foto — começou Emanuel, segurando a mão dela sobre a mesa. — Você parecia livre.
— Eu estava livre, Manu — ela confessou, olhando nos olhos dele. — Lá, eu era apenas a Duda. Ninguém esperava que eu fosse uma peça de um quebra-cabeça complicado.
— Eu quero que você se sinta assim comigo — ele disse, a voz rouca de sinceridade. — Eu sei que a Sara torna as coisas difíceis. Ela é... ela é a Sara. Mas eu amo você, Eduarda. E eu não quero que você se sinta uma intrusa na vida da minha filha.
— Então pare de me cobrar que eu poste fotos, ou que eu aja como se fosse a casa fosse minha — ela pediu, a voz firme apesar da timidez. — Deixe que o meu amor pela Ágata cresça no meu tempo, não no seu. E, por favor, peça para a Sara parar de me tratar como se eu fosse uma babá estagiária que pode estragar o "produto" dela.
Emanuel assentiu, sentindo o peso das palavras dela.
— Eu vou falar com ela. Mas você tem que me prometer uma coisa.
— O quê?
— Que você não vai desistir de nós. Que você vai continuar tentando encontrar o seu espaço, mesmo que seja um espaço pequeno por enquanto.
Eduarda olhou para as mãos tatuadas de Emanuel, as mãos que a seguravam com tanta força e, ao mesmo tempo, com tanto medo de perdê-la.
— Eu não vou desistir, Manu. Mas eu preciso que você entenda que eu não sou a Sara. Eu nunca vou ser a "loira poderosa" ao seu lado. Eu sou a menina que gosta de silêncio e de história da arte. Se você puder amar essa menina, então eu fico.
Emanuel beijou a mão dela, sentindo um alívio momentâneo. Ele sabia que a conversa com Sara seria brutal. Ele sabia que Ágata continuaria sendo um ponto de discórdia. Mas, naquele momento, no silêncio do café, ele sentiu que tinha recuperado um pedaço da paz que estava perdendo.
Ao voltarem para a cobertura, a cena que encontraram foi inesperada. Sara estava sentada no chão da sala, com Ágata sobre um tapete de atividades. Ela não estava usando salto, e seu cabelo estava preso em um coque desleixado. Ela estava tentando fazer a bebê rir com um brinquedo de borracha barulhento.
— Ela deu a primeira risada hoje — Sara disse, sem olhar para eles, a voz soando estranhamente vulnerável. — Foi uma risada de verdade, Emanuel. Não foi um reflexo.
Eduarda aproximou-se lentamente e sentou-se no chão, a uma distância segura, mas presente.
— Posso ver? — perguntou Duda, baixinho.
Sara olhou para ela por um longo segundo. O ciúme ainda estava lá, a competitividade ainda pulsava, mas havia algo novo: o cansaço da maternidade real, aquela que não aparece nas fotos de ensaio.
— Pode. Mas não faça barulho alto, ela se assusta fácil hoje — Sara disse, cedendo um pequeno espaço no tapete.
Emanuel ficou de pé, observando as duas mulheres de sua vida dividindo aquele pequeno território no chão da sala. Ele sabia que era apenas uma trégua temporária, que amanhã Sara voltaria a ser a administradora implacável e Eduarda voltaria a se sentir insegura. Mas, por aquele instante, o som da risada borbulhante de Ágata preenchia os vãos entre eles, costurando, com fios invisíveis e frágeis, o tecido daquela família incomum.
Ele pegou o celular e, sem que elas percebessem, tirou uma foto. Não era uma foto para o Instagram, nem para os estúdios. Era uma foto para ele. Nela, Eduarda sorria para Ágata, e Sara, por um breve momento, não parecia estar competindo com ninguém. Era a imagem do equilíbrio que ele tanto buscava — um equilíbrio feito de tinta, sangue, segredos e, acima de tudo, uma vontade desesperada de pertencer.