Voltar ao resumo

D

Tinta, Suor e Ciúmes

A noite na mansão de Emanuel nunca era silenciosa, pelo menos não na mente dele. O peso de gerenciar um império global de tatuagens exigia uma frieza que, muitas vezes, transbordava para sua vida pessoal. Após o jantar tenso e a reunião escolar, Emanuel sentia a adrenalina pulsar. Ele precisava de escape, e seus escapes tinham nomes, cheiros e texturas completamente diferentes.

Emanuel caminhou pelo corredor de mármore até o quarto de Sara. Ele não bateu; a porta raramente ficava trancada para ele. O quarto exalava um perfume importado forte, uma mistura de baunilha e algo amadeirado que combinava com a personalidade expansiva da loira. Sara estava diante do espelho, retirando as joias, vestindo apenas uma camisola de seda preta que mal cobria o que deveria.

— Demorou — disse ela, observando o reflexo dele pelo espelho. — Achei que ia ficar ninando a Eduarda e a "sua" protegida a noite toda.

Emanuel não respondeu com palavras. Ele se aproximou por trás, as mãos grandes e calejadas espalmando-se sobre a cintura dela, puxando-a contra seu corpo. O contraste era bruto: a pele dela, impecável e adornada pelo silicone perfeito, contra o peito dele, coberto de tinta escura e cicatrizes de uma vida de trabalho.

— Você fala demais, Sara — murmurou ele, a voz rouca, antes de virá-la com força e tomar seus lábios em um beijo agressivo, faminto.

Sara correspondeu com a mesma intensidade. Para ela, o sexo era uma disputa de poder, uma forma de reafirmar que, apesar da doçura de Eduarda, era ela quem incendiava o sangue de Emanuel. Eles se amaram com a urgência de dois animais, entre gemidos altos e unhadas que deixariam marcas nas costas dele por dias. Para Sara, a vulgaridade era uma arma, e ela a usava com maestria, provocando-o até que ambos estivessem exaustos sobre os lençóis de cetim.

— Você é minha — ele sentenciou, recuperando o fôlego enquanto se levantava.

— Sempre fui, Emanuel — ela respondeu, com um sorriso de triunfo, observando-o se vestir. — Mas agora vá. Sei que a "outra" está te esperando com aquele olhar de cachorrinho caído.

Emanuel ignorou a provocação. Ele beijou a testa de Sara e saiu. Ele precisava de outro tipo de cura.

Atravessou o corredor em direção à ala mais silenciosa da casa. Ao abrir a porta do quarto de Eduarda, o aroma mudou drasticamente para lavanda e algodão limpo. A luz estava baixa. Eduarda estava deitada, lendo um livro de arte, mas fechou-o imediatamente ao vê-lo.

— Oi... — ela sussurrou, a voz manhosa, estendendo a mão para ele. — Achei que não viria mais.

Emanuel sentou-se na beira da cama, sentindo a tensão de seus ombros derreter apenas com o olhar dela. Eduarda não precisava de jogos ou agressividade. Ela se aproximou, abraçando-o pelo pescoço, encostando o rosto em seu peito.

— Você está tenso — disse ela, começando a massagear a nuca dele com as pontas dos dedos finos.

Emanuel a puxou para o colo, sentindo a leveza de seu corpo esguio. O sexo com Eduarda era uma dança lenta, cheia de carícias e palavras sussurradas. Ele a amava com uma proteção quase possessiva, tratando-a como a joia delicada que ela era. Eduarda se entregava com uma entrega emocional que o desarmava, gemendo baixinho, buscando o calor dele como se fosse sua única âncora no mundo. Quando terminaram, ele permaneceu ali, abraçado a ela, sentindo a paz que só o silêncio de Eduarda proporcionava.

---

Na manhã seguinte, a mesa do café da manhã era o retrato do equilíbrio precário daquela família. Emanuel lia o jornal em seu tablet, Sara revisava planilhas enquanto tomava um café preto forte, e Eduarda servia as crianças com a paciência de sempre.

Arthur estava sentado ao lado de Eduarda, devorando panquecas.

— Tia Sara, pode me passar o mel? — pediu o menino, com a educação que sempre irritava Sara por vir de Eduarda.

— Pega aqui, garoto — Sara empurrou o pote, sem tirar os olhos da tela.

Ágata, sentada à frente de Maya, limpou o canto da boca com um guardanapo de linho, agindo como se estivesse em um banquete de gala. Ela olhou para a irmã, que estava quieta, brincando com um pedaço de fruta.

— Mãe, sabia que a Maya tem um namorado na escola? — soltou Ágata, com um sorriso maldoso.

O silêncio caiu sobre a mesa como uma bigorna. Emanuel baixou o tablet lentamente, seus olhos se fixando na filha mais nova. Maya corou instantaneamente, baixando a cabeça e se encolhendo na cadeira.

— O quê? — A voz de Emanuel saiu num tom baixo e perigoso.

— É verdade, papai — continuou Ágata, deliciando-se com a atenção. — No recreio, ela passou o tempo todo de mãos dadas com o Léo, do Jardim II. Eles ficaram sentados embaixo da árvore, conversando baixinho. A Maya até deu um desenho pra ele.

Emanuel sentiu uma pontada de ciúme tão aguda que quase quebrou a caneca de porcelana que segurava. Maya era sua pequena, a menina sensível que ele sentia necessidade de proteger do mundo inteiro. A ideia de um "Léo" segurando a mão de sua filha o deixava irracional.

— Maya? — chamou Emanuel, a voz severa. — Olhe para mim.

A menina levantou os olhos marejados, tremendo.

— É só o meu amigo, papai... ele é legal.

— Amigo não segura a mão, Maya — Emanuel sentenciou, a mandíbula travada. — Você é muito nova para essas coisas.

Sara soltou uma gargalhada curta, achando a cena patética.

— Pelo amor de Deus, Emanuel! É uma criança de quatro anos. Deixe a menina ter um "namoradinho". Pelo menos assim ela desenvolve algum instinto social que não seja se esconder atrás da saia da Eduarda.

— Não é engraçado, Sara — rebateu Emanuel, o olhar fixo em Maya. — Quem é esse menino? Quem são os pais dele? Eu vou descobrir.

Eduarda, percebendo o pavor de Maya, colocou a mão sobre o braço da menina e olhou para Emanuel com súplica.

— Emanuel, pare com isso. Você está assustando ela. Foi só uma brincadeira de criança.

— Não foi só uma brincadeira — interrompeu Ágata, cruzando os braços. — Mas não se preocupe, papai. O Arthur resolveu.

Emanuel virou o olhar para o filho. Arthur continuava comendo sua panqueca calmamente, como se o assunto não fosse com ele.

— O que você fez, Arthur? — perguntou o pai.

O menino engoliu o pedaço de massa e olhou para Emanuel com a mesma frieza calculista que o pai usava em reuniões de negócios.

— Eu disse para o Léo que a Maya não podia dar a mão para ele porque ela tem muito trabalho para fazer — explicou Arthur de forma pragmática. — E depois eu contei para ele que você tem máquinas de agulha que picam quem chega perto das suas coisas. Ele ficou com medo e foi jogar bola.

Sara deu um tapa na mesa, rindo alto.

— Esse é o meu garoto! — exclamou ela, embora não fosse a mãe dele. — Protegendo o patrimônio da família desde cedo.

Emanuel sentiu um misto de orgulho e irritação.

— Arthur, você não pode ameaçar os colegas usando o meu trabalho — disse Emanuel, tentando manter a autoridade, embora estivesse secretamente satisfeito com a atitude do filho.

— Eu não ameacei, papai. Eu só dei informações — respondeu Arthur, voltando a comer.

— Você viu, mamãe? — Maya sussurrou para Eduarda, as lágrimas finalmente caindo. — O Arthur foi mau com o Léo. Eu gostava do desenho que ele fez pra mim.

Eduarda puxou Maya para o colo, ignorando o olhar de desaprovação de Sara.

— Está tudo bem, meu amor. O papai e o Arthur só são um pouco... exagerados.

— Exagerados nada — murmurou Emanuel, ainda sentindo o ciúme borbulhar. — Amanhã eu vou pessoalmente na escola. Quero ver quem é esse Léo.

— Você vai passar vergonha, Emanuel — disse Sara, levantando-se e pegando sua bolsa de grife. — Se você aparecer lá com essa cara de quem vai tatuar a testa do menino, a diretora vai chamar a polícia, não o conselho de pais.

Ela caminhou até Emanuel e deu-lhe um beijo rápido e estalado nos lábios.

— Vejo você no estúdio. Temos aquela reunião com os fornecedores da Alemanha. Tente não estar com cara de "pai ciumento psicopata" até lá.

Sara saiu, seus saltos ecoando com autoridade. Emanuel suspirou, olhando para Eduarda, que ainda ninava Maya.

— Você precisa se acalmar, Emanuel — disse Eduarda suavemente. — Maya é uma criança. Ela é doce e atrai pessoas doces. Você não pode trancá-la em uma torre.

— Eu posso tentar — ele resmungou, levantando-se e indo até elas.

Ele se agachou ao lado de Eduarda e beijou a testa de Maya, que ainda soluçava baixinho.

— Papai só quer o seu bem, princesa. Mas nada de mãos dadas, entendeu?

Maya assentiu, embora o olhar que ela trocou com Arthur sugerisse que aquela "gangue do giz" teria problemas internos em breve.

— Arthur, termine de comer — ordenou Emanuel. — Hoje você vai comigo para o estúdio. Vamos ver se você consegue canalizar essa sua energia de "segurança" para algo útil, como organizar as tintas por pigmentação.

— Sim, senhor — respondeu o menino, pulando da cadeira com entusiasmo.

Emanuel olhou para Eduarda uma última vez antes de sair.

— E você, Duda... passe na galeria mais tarde. Quero sua opinião sobre a nova iluminação da sala VIP.

Eduarda sorriu, o tipo de sorriso que dizia que ela sabia exatamente como manipulá-lo através da doçura.

— Eu estarei lá, Emanuel.

Quando ele saiu, levando Arthur pela mão, a casa pareceu subitamente mais silenciosa. Eduarda suspirou, olhando para Maya em seu colo e para Ágata, que ainda analisava as próprias unhas com desdém.

— Tia Eduarda? — chamou Ágata.

— Sim, Ágata?

— Você acha que o Léo vai contar para a mãe dele que o papai tem agulhas? — a menina perguntou, com uma curiosidade genuína.

— Espero que não, querida. Espero que não.

Eduarda sabia que, naquela família, a normalidade era um conceito flexível. Entre a agressividade de Sara, a possessividade de Emanuel e a inteligência precoce das crianças, ela era o único fio de seda que impedia que o bordado se desfizesse. Mas, às vezes, até a seda sentia o peso de segurar tantas vidas intensas ao mesmo tempo.

Ela beijou o topo da cabeça de Maya e começou a planejar o dia. No mundo de Emanuel, cada dia era uma nova tatuagem: dolorida no início, mas com um resultado que ele considerava uma obra de arte permanente. E ela, de um jeito ou de outro, era a cor que dava sentido ao desenho.