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D

O Segredo do Pátio das Amoreiras

O ar condicionado do carro de luxo não era suficiente para aplacar o nervosismo que Eduarda sentia. Ao seu lado, na cadeirinha infantil, Maya segurava com força uma pequena lancheira de tecido com estampas de margaridas. A menina estava silenciosa, mas seus olhos castanhos brilhavam com uma expectativa que raramente demonstrava.

— Mamãe... você acha que o papai vai ficar bravo? — sussurrou Maya, olhando para a janela enquanto passavam pelas ruas arborizadas do bairro nobre.

Eduarda suspirou, apertando o volante com as mãos pequenas. Ela sabia que estava entrando em um campo minado. Emanuel era um homem de possessividade feroz, e a ideia de sua "princesa sensível" brincando na casa de um menino — o tal Léo que havia causado o incidente na escola — seria o suficiente para fazê-lo fechar todos os estúdios e ir buscá-la pessoalmente.

— O papai não precisa saber de todos os detalhes agora, meu amor — disse Eduarda, tentando manter a voz firme. — Ele está muito ocupado com o Arthur e a Sara no estúdio. É apenas uma tarde de brincadeiras. Crianças brincam, Maya. É normal.

— Mas a Ágata disse que meninos são perigosos e que o Léo quer roubar meu coração — Maya comentou, com a seriedade de quem discutia um tratado de guerra.

— A Ágata ouve muito o que a mãe dela diz, querida. Nem tudo o que a Sara fala se aplica a você. O seu coração está bem aqui comigo.

Eduarda estacionou em frente a uma casa charmosa, com um jardim frontal cheio de amoreiras e uma cerca baixa de madeira branca. Era o oposto da mansão minimalista e imponente onde viviam. Ali, havia brinquedos espalhados pela grama e uma sensação de lar que Eduarda sentia falta.

A mãe de Léo, uma mulher de sorriso aberto chamada Beatriz, já as esperava no portão.

— Vocês chegaram! — exclamou Beatriz, aproximando-se. — O Léo não para de falar da Maya desde que acordou. Ele até separou os dinossauros favoritos dele.

Maya desceu do carro timidamente, escondendo-se atrás da saia midi de Eduarda. No entanto, quando um menininho de cabelos loiros bagunçados e joelhos ralados correu de dentro da casa gritando o nome dela, a timidez da menina pareceu derreter.

— Maya! Olha o que eu fiz! — Léo mostrou um desenho de um sol com rosto humano. — É pra você levar pra casa.

Eduarda observou as duas crianças correrem para o quintal dos fundos. Por um momento, ela sentiu uma ponta de inveja daquela simplicidade.

— Eles são fofos juntos — comentou Beatriz, convidando Eduarda para entrar. — Aceita um café?

Enquanto as crianças brincavam sob o sol da tarde, as duas mulheres sentaram-se na varanda. Eduarda, porém, não conseguia relaxar totalmente. Seu celular vibrava constantemente na bolsa.

— Problemas no trabalho? — perguntou Beatriz.

— Problemas de família — respondeu Eduarda, tirando o aparelho e vendo três chamadas perdidas de Emanuel e uma mensagem de texto de Sara.

A mensagem de Sara era curta e direta: *"Onde você se enfiou com a menina? Emanuel está com aquele humor de cão porque o Arthur derrubou um vidro de tinta preta no carpete branco da sala VIP e ele quer a Maya para se acalmar. É melhor aparecer logo."*

Eduarda sentiu um aperto no peito. Ela amava Emanuel, mas a dinâmica de ser o "porto seguro" dele às vezes a exauria. Ela olhou para o quintal e viu Maya rindo alto, algo raro, enquanto Léo tentava ensiná-la a subir no tronco baixo de uma amoreira.

— Sabe, Beatriz... o pai dela é um pouco... protetor — disse Eduarda, escolhendo as palavras com cuidado.

— "Um pouco" ou do tipo que contrata detetives? — Beatriz brincou, mas parou ao ver a expressão séria de Eduarda. — Oh, entendi. Ele é um desses.

— Ele é um homem maravilhoso, mas tem dificuldade em entender que a Maya não é uma extensão dele ou um objeto de arte que precisa ficar guardado em uma redoma de vidro.

O celular de Eduarda tocou novamente. Desta vez, era uma chamada de vídeo de Emanuel. Ela sentiu o sangue gelar.

— Eu preciso atender. Se ele vir o fundo da sua casa, ele vai rastrear o GPS em cinco minutos.

Eduarda correu para um canto mais isolado do jardim, onde havia apenas uma parede de hera que poderia passar por qualquer muro da mansão.

— Oi, Emanuel — disse ela, tentando forçar um sorriso natural.

A imagem de Emanuel apareceu na tela. Ele estava no estúdio, com o avental de couro manchado de tinta e o cabelo mais bagunçado que o normal. Ao fundo, era possível ouvir os gritos de Arthur e a voz de Sara dando ordens a algum funcionário.

— Onde você está, Duda? — perguntou ele, os olhos semicerrados em sinal de irritação. — Liguei três vezes.

— Eu saí para levar a Maya para tomar um sorvete e dar uma volta no parque, Emanuel. Ela estava muito tensa depois de ontem.

— No parque? Qual parque? — O tom dele era inquisidor. — Eu mandei o segurança ir até a sorveteria do centro e eles disseram que não viram vocês.

Eduarda engoliu em seco. Ela esqueceu que Emanuel tinha olhos em todos os lugares.

— Fomos a um parque mais afastado, perto da faculdade. Queria um pouco de paz, Emanuel. O Arthur e a Sara... eles têm uma energia muito forte. Eu precisava de silêncio com a nossa filha.

Emanuel pareceu relaxar um pouco ao ouvir a palavra "silêncio". Ele suspirou, passando a mão pelo rosto.

— O Arthur é um furacão, Duda. Ele acabou de batizar o carpete novo com tinta *triple black*. A Sara está querendo vender o menino para um circo e eu estou a um passo de tatuar um "X" na testa dele. Cadê a Maya? Quero falar com ela.

— Ela está... no balanço agora, Emanuel. Não quero interromper, ela finalmente parou de chorar por causa do incidente com o Léo.

— Aquele moleque... — Emanuel rosnou. — Não quero ela perto dele, Eduarda. Entendeu?

— Entendi, Emanuel. Agora volte para o seu império. Nos vemos em casa para o jantar. Eu te amo.

— Também te amo. Não demore.

Eduarda desligou e encostou a cabeça na parede, o coração martelando contra as costelas. Ela odiava mentir, mas sentia que aquela pequena rebeldia era necessária para a sanidade de Maya.

— Está tudo bem? — Beatriz apareceu na porta.

— Sim. Só... gerenciando crises.

As horas passaram rápido. Maya estava radiante. Ela tinha manchas de amora nas mãos e um pouco de terra nos joelhos da calça de linho cara. Ela parecia uma criança comum, não a boneca de porcelana que Sara criticava ou a protegida que Emanuel sufocava.

— Mamãe, olha! O Léo me deu uma pedra mágica! — Maya mostrou um seixo comum, mas para ela, era um tesouro.

— É linda, meu amor. Mas agora precisamos ir. O papai já deve estar chegando em casa.

A despedida foi doce. Léo deu um abraço rápido em Maya, e desta vez a menina não recuou. No carro, durante o trajeto de volta, Maya não parava de falar.

— O Léo disse que eu sou corajosa porque eu subi na árvore. A Ágata diz que eu sou fraca, mas o Léo não.

— Você é muito corajosa, Maya. Nunca deixe ninguém te dizer o contrário.

Ao chegarem na mansão, o clima era de pós-guerra. Sara estava sentada no sofá da sala, com uma taça de vinho na mão e uma máscara facial dourada, enquanto Ágata folheava uma revista de moda ao seu lado.

— Finalmente — disse Sara, sem desviar os olhos da revista. — O seu marido está no escritório parecendo um leão enjaulado. E o Arthur está de castigo no quarto, o que é uma benção para os meus ouvidos.

Eduarda ignorou a provocação e tentou levar Maya rapidamente para o andar de cima.

— Maya, vá tomar um banho rápido. Preciso tirar essas manchas de amora de você antes que o seu pai veja.

— Manchas de amora? — Sara levantou a cabeça, os olhos brilhando com uma curiosidade perigosa. — Onde tem amora no parque da faculdade, Eduarda? Eu estudei lá, e a única coisa que cresce naquele lugar é concreto e arrogância.

Eduarda parou no primeiro degrau da escada, sentindo o suor frio brotar em sua nuca.

— Tem uma área de preservação nos fundos, Sara. Você provavelmente estava ocupada demais na lanchonete para notar.

Sara deu um sorriso de lado, aquele sorriso que indicava que ela havia captado a mentira, mas que guardaria a informação para usar como munição no momento certo.

— Sei... muito conveniente.

Eduarda subiu as escadas apressada. No quarto, ela ajudou Maya a se lavar, esfregando as mãos da menina com cuidado. No entanto, o destino tinha outros planos.

A porta do quarto se abriu e Emanuel entrou. Ele ainda usava a calça de trabalho, mas estava sem camisa, exibindo as tatuagens que Arthur tanto admirava. Ele parecia exausto.

— Oi, princesinha do papai — disse ele, caminhando até a cama onde Maya estava sentada de roupão.

Ele a pegou no colo e a beijou no rosto. Foi então que ele viu. No pulso de Maya, preso por um barbante rústico, estava o seixo que Léo lhe dera. E, pior ainda, um pequeno rastro de terra sob as unhas que Eduarda não tivera tempo de limpar perfeitamente.

Emanuel franziu a testa, segurando a mãozinha da filha.

— O que é isso, Maya?

— É minha pedra mágica, papai.

Emanuel olhou para a pedra e depois para Eduarda, que estava parada ao lado do guarda-roupa, pálida.

— De onde veio essa pedra, Duda? Não parece algo que se encontra em um parque limpo e bem cuidado.

— Eu achei na terra, papai! — Maya exclamou, inocente. — Na casa do...

Eduarda tossiu alto, tentando interromper, mas era tarde demais.

— Na casa de quem, Maya? — A voz de Emanuel mudou. O tom de carinho deu lugar à autoridade fria.

Maya olhou para a mãe, percebendo que havia dito algo errado. Ela se encolheu no colo do pai.

— Do Léo — sussurrou a menina.

O silêncio que se seguiu foi opressor. Emanuel colocou Maya no chão com uma lentidão calculada. Ele se levantou, sua estatura parecendo ocupar todo o quarto. Ele olhou para Eduarda com uma mistura de decepção e fúria contida.

— Você a levou na casa daquele garoto? Depois de tudo o que eu disse hoje de manhã? Depois de eu ter deixado claro que não queria esse tipo de proximidade?

— Emanuel, escute... — Eduarda deu um passo à frente, as mãos trêmulas. — Foi apenas uma tarde. A Maya precisava disso. Ela precisa de amigos da idade dela, ela precisa brincar de verdade, sem seguranças, sem regras estritas, sem a pressão desta casa!

— Você mentiu para mim — ele disse, a voz subindo de tom. — Você me enganou por vídeo, fingiu que estava em um parque enquanto levava minha filha para a casa de estranhos!

— Eles não são estranhos, Emanuel! A Beatriz é uma mãe maravilhosa e o Léo é apenas uma criança doce que gosta da nossa filha. Você está agindo como um tirano!

— Eu estou agindo como um pai que protege o que é dele! — Emanuel gritou, fazendo Maya começar a chorar.

Nesse momento, Sara apareceu à porta, encostada no batente com uma expressão de puro entretenimento.

— Ora, ora... a santinha Eduarda tem garras — comentou Sara, dando um gole em seu vinho. — Eu sabia que aquela história das amoreiras estava mal contada.

— Saia daqui, Sara! — Emanuel rugiu.

— Ah, não. Agora que ficou divertido, eu fico — Sara entrou no quarto, aproximando-se de Eduarda. — Sabe, Duda, eu até admiro a sua coragem. Mentir para o Emanuel exige um par de ovários que eu não achei que você tivesse sob essas saias de linho. Mas você foi burra. Devia ter lavado a menina com mangueira antes de entrar.

— Não me ajude, Sara — Eduarda sibilou, os olhos cheios de lágrimas de raiva. — Você não entende nada sobre o que a Maya precisa. Você só se importa com a Ágata e com o quanto pode ostentar.

— Eu me importo com a verdade — retrucou Sara, virando-se para Emanuel. — E a verdade, querido, é que sua namorada tímida fez você de palhaço a tarde toda. Enquanto você estava lá, estressado com o Arthur e com o estúdio, ela estava tomando chá com a "concorrência".

Emanuel deu um soco na porta aberta, o som ecoando pelo corredor.

— Chega! — Ele apontou para a porta. — Sara, leve a Maya para o quarto da Ágata. Agora.

Sara, percebendo que o clima havia passado do entretenimento para o perigo real, obedeceu. Ela pegou Maya, que soluçava, e saiu sem dizer mais nada.

Emanuel fechou a porta e voltou-se para Eduarda. Ele caminhou até ela, cercando-a contra o móvel. Ele não a tocou com violência, mas sua presença era sufocante.

— Como você pôde? — ele perguntou, a voz agora baixa, quase um sussurro quebrado. — Eu confio em você para ser o equilíbrio desta família, Eduarda. Eu confio a vida dos meus filhos a você. E você me trai por causa de uma tarde de brincadeiras?

— Não foi uma traição contra você, Emanuel! Foi um ato de amor pela Maya! — Eduarda gritou de volta, as lágrimas descendo livremente. — Olhe para ela! Ela estava feliz! Ela riu, ela correu, ela não teve medo de ser "manhosa" ou "fraca". Ela foi apenas a Maya. Você a sufoca, Emanuel. Você e a Sara a transformaram em um cabo de guerra, e eu não vou permitir que ela cresça achando que o amor é uma prisão!

Emanuel recuou, como se tivesse levado um tapa físico. Ele encarou Eduarda por um longo tempo. A raiva ainda estava lá, mas a verdade nas palavras dela começou a perfurar sua armadura.

— Você não tem o direito de decidir isso pelas minhas costas — ele disse, embora o tom estivesse menos agressivo.

— Se eu tivesse pedido, você teria dito não. Você sempre diz não para tudo o que não pode controlar.

Emanuel caminhou até a janela, olhando para o jardim escuro. Ele pensou em sua própria infância, no rigor que o transformou no homem rico e poderoso que era, mas também no homem solitário e tenso que raramente conseguia dormir em paz.

— Eu não quero que ela sofra — ele murmurou.

— Ela sofre mais quando você tenta impedir que ela viva — Eduarda aproximou-se cautelosamente, colocando a mão nas costas dele. — Emanuel, eu amo você. Amo o jeito que você protege a gente. Mas você precisa confiar em mim. Eu sou a mãe dela também, mesmo que não no papel. Eu a amamentei, eu a ninei em todas as noites de febre. Eu sei o que ela precisa.

Emanuel virou-se e puxou Eduarda para um abraço apertado. Ele enterrou o rosto no cabelo dela, inspirando o cheiro de lavanda que agora estava misturado com o cheiro sutil de terra e sol.

— Se você mentir para mim de novo, Eduarda... eu juro que não vou perdoar.

— Então não me dê motivos para mentir — ela respondeu, apertando-o de volta.

Lá embaixo, na sala, Sara estava sentada com as duas filhas e Arthur, que havia sido liberado do castigo. Ela observava a escada com um olhar pensativo.

— A mamãe e o papai estão brigando? — perguntou Arthur, abraçando o próprio travesseiro.

— Estão se entendendo, pequeno monstro — respondeu Sara, acariciando o cabelo de Ágata, mas mantendo o olhar em Maya, que segurava a pedra mágica como se fosse sua vida.

Sara sentiu uma pontada estranha no peito. Ela nunca admitiria, mas a audácia de Eduarda a fizera respeitar a outra mulher um pouco mais. Eduarda tivera a coragem de enfrentar o gigante por causa de uma criança que nem era seu sangue.

— Maya — chamou Sara, a voz menos cortante que o habitual.

A menina olhou para ela, assustada.

— Essa pedra... — Sara começou, fazendo uma pausa. — Ela é realmente mágica?

Maya assentiu devagar.

— O Léo disse que ela protege a gente de coisas ruins.

Sara deu um meio sorriso, um tanto amargo, um tanto real.

— Então guarde bem. Nesta casa, você vai precisar de toda a mágica que conseguir encontrar.

No andar de cima, no silêncio do quarto, Emanuel e Eduarda permaneciam abraçados. O conflito não estava resolvido, as feridas da possessividade dele ainda estavam abertas, e a rebeldia dela acabara de ganhar um novo capítulo. Mas ali, naquele momento, o império de tinta e seda se mantinha de pé por um fio. Um fio que, apesar de tudo, era feito de um amor tão complexo e profundo quanto as marcas permanentes na pele de Emanuel.

A noite caiu sobre a mansão, e enquanto as crianças finalmente dormiam, os adultos permaneciam acordados, cada um lidando com suas próprias sombras, cientes de que, naquela família, a paz era apenas o intervalo entre duas sessões de uma tatuagem que nunca terminava.