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O Veneno na Maçã de Ouro

A mansão de Emanuel estava envolta em uma aura de expectativa que beirava a ansiedade. Não era para menos: Dona Mercedes, a matriarca da família e a única pessoa capaz de fazer Emanuel baixar o tom de voz, estava prestes a chegar para um chá da tarde. Mercedes era uma mulher de valores tradicionais, elegância discreta e uma percepção aguçada que não se deixava enganar por aparências.

Eduarda corria de um lado para o outro na sala de jantar, ajustando as flores de lavanda nos vasos de cristal. Ela usava um vestido de linho azul-claro, o cabelo preso em um coque frouxo que lhe dava um ar de camponesa sofisticada. Para Eduarda, a visita da sogra era um exame final constante. Ela amava a senhora, mas temia não ser a "mulher forte" que Mercedes esperava para o filho.

— Eduarda, pelo amor de Deus, pare de mexer nessas flores — a voz de Sara ecoou, carregada de tédio.

Sara estava jogada no sofá de couro branco, as pernas longas e bronzeadas cruzadas de forma displicente. Ela usava um conjunto de seda dourada que mais parecia lingerie de luxo do que roupa de recepção. Ágata estava ao seu lado, concentrada em pintar as unhas com um esmalte vermelho vibrante, ignorando completamente o fato de que estava sujando a almofada de seda.

— É uma visita importante, Sara — respondeu Eduarda, sem parar. — Dona Mercedes não gosta de desordem.

— Mercedes gosta de ver o filho bem, e o Emanuel está ótimo — Sara deu um gole em seu martini matinal, ignorando o horário. — Ela é apenas uma velha com ideias de museu. Se ela não gostar do jeito que eu me visto ou do jeito que eu falo, o problema é dela. Eu administro a fortuna do filho dela, ela devia era me agradecer.

— Ela é a avó das crianças — Eduarda lembrou suavemente, pegando Maya no colo. A menina estava vestida como uma miniatura de Eduarda e abraçava um coelho de pelúcia. — Maya, você vai dar um beijo bem carinhoso na vovó, não vai?

— Vou, mamãe Duda — a menina sussurrou, escondendo o rosto no pescoço de Eduarda.

Nesse momento, Emanuel entrou na sala. Ele vestia uma camisa polo escura que realçava seu porte físico e escondia parcialmente as tatuagens nos braços. Ele parecia tenso. A relação com a mãe era de profundo respeito, mas Mercedes nunca escondeu que achava a configuração familiar do filho um labirinto perigoso.

— Ela chegou — anunciou Emanuel, olhando para o relógio. — Arthur, desça dessa mesa agora!

O pequeno Arthur, que tentava usar uma colher de prata como catapulta para pedaços de bolo, pulou no chão com um baque.

— O papai tá bravo! — Arthur riu, correndo para trás das pernas de Eduarda.

A porta principal foi aberta pelo segurança, e Mercedes entrou. Aos sessenta anos, ela mantinha uma postura impecável, os cabelos grisalhos perfeitamente alinhados e um colar de pérolas que parecia pesar mais que sua própria estrutura física.

— Emanuel, meu filho — disse ela, abrindo os braços.

Emanuel aproximou-se e a abraçou com uma ternura que raramente mostrava.

— Seja bem-vinda, mãe.

Mercedes cumprimentou Eduarda com um beijo casto na bochecha e um sorriso genuíno.

— Eduarda, querida, você continua sendo o único ponto de paz nesta casa.

Depois, Mercedes olhou para Sara. O olhar entre as duas foi como o choque de duas massas de ar de temperaturas opostas.

— Sara — disse Mercedes, o tom seco.

— Mercedes — Sara respondeu, sem se levantar do sofá. — Sobreviveu à viagem de primeira classe? Ou o champanhe estava quente demais?

Mercedes ignorou a provocação e voltou sua atenção para as crianças. Maya correu para os braços da avó, e Arthur logo se juntou a elas, mostrando um desenho que fizera na escola. Mas Ágata permaneceu no sofá, sem tirar os olhos do próprio celular.

— Ágata, querida — chamou Mercedes, aproximando-se da neta loira. — Não vai dar um abraço na sua avó?

Ágata levantou os olhos, mas não houve brilho neles. Havia apenas uma indiferença gelada, uma réplica exata do desdém que Sara costumava exibir.

— Oi, vovó — disse a menina de quatro anos, voltando a atenção para a tela do aparelho. — Eu estou ocupada agora. O nível desse jogo é difícil.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável. Eduarda sentiu um aperto no peito, e Emanuel franziu a testa.

— Ágata — a voz de Emanuel saiu baixa e perigosa. — Deixe esse telefone e cumprimente sua avó como se deve.

— Ah, Emanuel, deixe a menina — Sara interveio, soltando uma risada curta. — Ela está concentrada. Ágata tem personalidade, ela não é de fazer sala para ninguém.

Mercedes olhou para Sara e depois voltou para a neta.

— A educação é o que nos diferencia dos animais, Sara. Ágata, eu trouxe um presente para você. Um livro de contos clássicos com ilustrações em aquarela.

Mercedes tirou da bolsa um livro belíssimo, encadernado em tecido. Ela o estendeu para a menina. Ágata olhou para o livro como se fosse um objeto infectado.

— Livro? — Ágata fez uma careta de nojo. — Eu não gosto de ler, vovó. É chato. E essas figuras são feias. Eu prefiro os vídeos da "Mini Diva" no YouTube. Ela tem diamantes de verdade.

— Ágata! — Eduarda exclamou, horrorizada. — Que coisa feia de se dizer. Peça desculpas à vovó agora.

— Por que? — Ágata levantou-se, colocando as mãos nos quadris pequenos, imitando perfeitamente a postura de Sara quando estava em confronto. — Eu só falei a verdade. O presente é bobo. Eu queria aquele tablet novo que a mamãe prometeu.

Mercedes empalideceu levemente, mas manteve a dignidade. Ela colocou o livro sobre a mesa de centro.

— Vejo que o veneno da arrogância já corre cedo nessas veias — murmurou Mercedes, olhando diretamente para Sara.

— Ela é sincera, Mercedes — Sara rebateu, levantando-se finalmente, as unhas vermelhas brilhando. — Eu ensino minha filha a não fingir sentimentos que não tem. Se ela achou o presente sem graça, ela diz. É assim que se vence no mundo. Sendo autêntica.

— Há uma linha tênue entre autenticidade e má educação, Sara — rebateu Mercedes. — E sua filha cruzou essa linha com um salto agulha.

Emanuel deu um passo à frente, a tensão irradiando de seus ombros.

— Ágata, peça desculpas para sua avó agora. Ou eu vou confiscar esse celular por um mês.

A menina olhou para o pai. Por um segundo, o medo brilhou em seus olhos, mas ela olhou para Sara em busca de apoio. Sara apenas deu de ombros, um sorriso de deboche nos lábios.

— Não peço — disse Ágata, a voz subindo de tom. — A vovó é velha e cheira a mofo. Eu não quero o presente dela.

O tapa de Emanuel na mesa de madeira ecoou como um tiro. Arthur e Maya se encolheram atrás de Eduarda, que estava pálida.

— Para o seu quarto! — Emanuel rugiu. — Agora!

— Emanuel, você está exagerando — Sara tentou intervir, mas ele a calou com um olhar.

— Ela desrespeitou minha mãe na minha frente, Sara! — Emanuel sibilou. — E você está incentivando isso. Ágata, saia da minha frente antes que eu perca a paciência de verdade.

Ágata, percebendo que o pai não estava brincando, saiu batendo os pés, mas não sem antes lançar um olhar de puro ódio para Mercedes.

— Eu te odeio, vovó! — gritou a menina antes de subir as escadas.

Mercedes sentou-se lentamente em uma das cadeiras da sala de jantar. Ela parecia subitamente mais velha. Eduarda correu para o lado dela, pegando suas mãos.

— Sinto muito, Mercedes... ela é apenas uma criança, ela não sabe o que diz.

— Ela sabe exatamente o que diz, Eduarda — Mercedes suspirou, olhando para Emanuel. — Ela é o reflexo do que vê. Emanuel, meu filho, você construiu um império de tinta e sucesso, mas está criando uma serpente no seu próprio jardim.

— Eu vou resolver isso, mãe — Emanuel disse, a voz carregada de uma frustração profunda.

— Resolver como? — Sara perguntou, cruzando os braços sobre os seios siliconados. — Vai bater na menina? Vai trancar ela no porão? Ela é uma mini versão minha, Emanuel. Você sempre soube disso e sempre amou isso em mim. Agora vai punir a menina por ser quem ela é?

— Ela é minha filha, Sara! — Emanuel gritou. — E ela vai respeitar a minha mãe!

— Ela respeita quem ela admira — Sara retrucou, aproximando-se de Emanuel, o cheiro de seu perfume caro preenchendo o espaço entre eles. — E ela não admira o passado. Ela admira o futuro.

— O futuro que você está construindo para ela é a solidão, Sara — Mercedes interveio, a voz calma voltando ao seu lugar. — Uma mulher que não respeita as raízes nunca dará frutos que prestem. Olhe para a Maya. Olhe para o Arthur. Eles têm doçura, têm limites.

— Eles são fracos — Sara disparou, apontando para Maya, que ainda estava abraçada a Eduarda. — A Maya chora se o vento sopra mais forte. O Arthur é um selvagem que só para quando a Eduarda faz manha para ele. A Ágata é a única que tem garra.

— Garra não é o mesmo que crueldade — Eduarda disse, sua voz saindo pequena, mas firme. — Sara, você está transformando a Ágata em alguém que ninguém vai querer por perto. Ela tratou a Mercedes como se ela fosse lixo.

— Porque para a Ágata, quem não agrega valor é descartável — Sara deu um sorriso de lado, um sorriso que gelou o sangue de Eduarda. — É assim que eu administro seus estúdios, Emanuel. É assim que eu garanto que ninguém passe a perna na gente. Eu só estou passando o manual de instruções para ela.

Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo o peso do conflito entre as duas mulheres que amava de formas tão diferentes. Sara era o seu fogo, sua parceira de negócios, a mulher que o desafiava. Eduarda era sua paz, seu refúgio, a mulher que cuidava de sua alma. Mas agora, o choque entre essas duas realidades estava destruindo a inocência de seus filhos.

— Mãe, me desculpe por isso — Emanuel disse, sentando-se ao lado de Mercedes.

— Não me peça desculpas, Emanuel. Tome uma atitude. Se você permitir que essa criança continue agindo assim, você perderá o controle sobre ela antes que ela complete dez anos.

Mercedes levantou-se, recusando o chá que Eduarda tentava servir.

— Eu vou para o meu hotel. Preciso de silêncio.

— Fique aqui, mãe — Emanuel pediu. — Temos quartos de sobra.

— Não, meu filho. O ar nesta casa está pesado demais. Há muito ouro e pouca alma. Eduarda, querida, continue tentando. Você é a única chance que essas crianças têm de não se tornarem monstros de vaidade.

Mercedes saiu com a mesma elegância com que entrou, deixando para trás um rastro de pérolas e verdades amargas.

Assim que a porta se fechou, Sara soltou uma gargalhada.

— Finalmente! Aquela velha me dá calafrios com esse sermão de missa.

— Cala a boca, Sara! — Emanuel explodiu. — Você não tem noção do que acabou de acontecer? Você destruiu o relacionamento da sua filha com a única avó que ela tem.

— Eu não destruí nada! A Ágata só tem opinião própria. Se a Mercedes quer ser respeitada, que conquiste o respeito da menina. Não é por idade que se ganha admiração, é por poder.

— Você é louca — Eduarda sussurrou, as lágrimas escorrendo. — Você está doente, Sara. Você quer que a Ágata seja um espelho do seu egoísmo.

Sara caminhou até Eduarda, parando a poucos centímetros de seu rosto. O contraste entre a doçura de Eduarda e a agressividade de Sara era palpável.

— E você quer que ela seja o quê? Uma boneca de pano como você? Que aceita dividir o homem com outra e ainda sorri enquanto serve o chá? A Ágata nunca vai ser como você, Eduarda. Ela nasceu para mandar, não para servir.

Emanuel interpôs-se entre as duas, empurrando Sara levemente para trás.

— Chega! Sara, você vai subir agora e vai dizer para a Ágata que ela está sem internet, sem tablet e sem passeios por duas semanas. E você vai escrever uma carta de desculpas para a minha mãe em nome dela.

— Eu não vou fazer nada disso — Sara cruzou os braços, os seios subindo com sua respiração ofegante de raiva.

— Ou você faz, ou eu tiro você da administração do estúdio de Paris — Emanuel sentenciou, a voz fria como gelo. — Eu sou o dono desse império, Sara. E se eu decidir que você é um risco para a minha família, eu te corto fora como uma tatuagem mal feita.

Sara empalideceu. O poder era a única linguagem que ela realmente entendia. Ela olhou para Emanuel, percebendo que ele não estava blefando. A possessividade dele, que ela tanto amava quando era voltada para o desejo, agora era uma arma voltada contra ela.

Sem dizer uma palavra, Sara girou nos calcanhares e subiu as escadas, seus saltos batendo com fúria nos degraus de mármore.

Emanuel desabou no sofá, cobrindo o rosto com as mãos. Eduarda aproximou-se cautelosamente, sentando-se aos pés dele. Ela colocou a cabeça em seu colo, buscando o conforto que sempre encontrava ali.

— Eu falhei, Duda? — ele perguntou, a voz abafada.

— Você está tentando equilibrar dois mundos que não foram feitos para se tocar, Emanuel — ela respondeu suavemente. — A Ágata é pequena. Ainda dá tempo de ensinar a ela o valor do afeto. Mas você precisa ser firme com a Sara.

— A Sara é como uma droga — ele confessou, acariciando os cabelos de Eduarda. — Ela me queima, ela me dá adrenalina... mas às vezes eu sinto que ela está consumindo tudo ao redor.

— E eu? — Eduarda perguntou, olhando para ele com seus olhos castanhos úmidos.

— Você é a minha cura, Duda. Você é o que me impede de virar cinzas.

No andar de cima, o som de algo sendo quebrado no quarto de Ágata ecoou pela casa. Era o grito de uma criança que aprendera que o mundo lhe pertencia, mas que acabara de descobrir que o trono tinha espinhos.

Sara estava sentada na cama da filha, observando Ágata chorar de raiva.

— Pare de chorar, Ágata — disse Sara, a voz fria, mas com uma ponta de admiração. — Seu pai acha que venceu hoje. Ele acha que pode nos controlar com dinheiro e castigos. Mas ele esquece que eu sei onde todos os corpos estão enterrados neste império.

— Eu odeio ele! — Ágata gritou, chutando o travesseiro. — E odeio aquela velha!

— Não odeie, querida. Use o ódio como combustível — Sara inclinou-se e beijou a testa da filha. — Vamos fingir que pedimos desculpas. Vamos ser as "boas meninas" por alguns dias. Mas nunca esqueça: ninguém, nem mesmo o seu pai, tem o direito de dizer quem você deve ser. Você é uma rainha, Ágata. E rainhas não pedem desculpas para súditos, mesmo que eles tenham o nosso sangue.

Ágata parou de chorar e olhou para a mãe. Um sorriso lento e cruel começou a surgir em sua face angelical.

— Tá bom, mamãe. Eu vou fingir.

Enquanto isso, na sala lá embaixo, Maya e Arthur brincavam silenciosamente no tapete, alheios à guerra de poder que se desenrolava sobre suas cabeças. Eduarda abraçava Emanuel, sentindo o cheiro de pele e tinta dele, rezando para que a doçura de seus filhos fosse forte o suficiente para resistir ao veneno que Sara estava destilando no andar de cima.

A noite caiu sobre a mansão, trazendo um silêncio inquietante. Emanuel sabia que a paz era temporária. Ele tinha o controle dos negócios, tinha o amor de Eduarda e a paixão de Sara, mas sentia que o alicerce de sua família estava rachando. E o pior de tudo era saber que a rachadura tinha o rosto de sua filha preferida, a minidiva que ele mesmo ajudara a criar, sem perceber que estava alimentando uma tempestade que, um dia, poderia destruir todo o seu reino de seda e tinta.

No final, Mercedes tinha razão: o ouro era abundante, mas a alma daquela casa estava sendo leiloada lance a lance, entre o carinho de uma mãe e a ambição da outra. E Emanuel, o grande tatuador, não sabia se teria agulha e tinta suficientes para consertar o desenho que sua vida estava se tornando.