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O Peso do Ouro e do Orgulho
O dia no estúdio central havia começado com uma vibração elétrica e, para Emanuel, ligeiramente irritante. O aroma de café forte se misturava ao cheiro de produtos de limpeza, mas o que realmente preenchia o ar era a tensão residual do dia anterior. Ele estava em seu escritório envidraçado, observando o movimento no saguão, quando viu a silhueta inconfundível de um homem alto, vestindo roupas de grife excessivamente chamativas, encostado no balcão da recepção.
Era Ricardo. O ex-namorado de Sara.
Emanuel sentiu os músculos da mandíbula retesarem. Ele não era um homem de ciúmes infantis, mas havia algo na forma como Ricardo olhava para as mulheres — e especialmente como olhava para Sara — que o fazia querer expulsá-lo a pontapés.
— O que ele está fazendo aqui, Sara? — Emanuel perguntou, sua voz saindo como um rosnado baixo assim que a loira entrou em sua sala, balançando os quadris com aquela confiança que beirava a insolência.
Sara revirou os olhos, jogando uma pasta de relatórios sobre a mesa dele.
— Relaxa, Manu. O Ricardo só veio trazer uns documentos de um investimento antigo que tínhamos em comum. Ele está de passagem pela cidade e resolveu ser "gentil".
— Gentil? O cara está olhando para o seu decote como se estivesse escolhendo o prato principal — rebateu Emanuel, levantando-se e caminhando até a janela interna.
Sara soltou uma risada anasalada, aproximando-se dele e passando as unhas perfeitamente feitas pelo braço tatuado de Emanuel.
— Está com ciúmes, baby? Isso é tão fofo. Mas você sabe que ele é passado. O Ricardo é todo fachada, não tem metade da sua pegada e nem um terço da sua conta bancária. Ele é só um acessório que eu cansei de usar.
Emanuel olhou para ela, buscando qualquer sinal de hesitação. Sara podia ser vulgar e provocadora, mas era brutalmente honesta sobre seus interesses.
— Eu não quero ele rondando meus estúdios. Se ele tiver documentos para entregar, que mande por um mensageiro.
— Já resolvi, Emanuel. Já peguei o que precisava e dei um fora nele. Ele já deve estar cruzando a porta agora — ela disse, dando de ombros. — Não perca seu tempo com restos. Foque no que é seu.
Emanuel respirou fundo, sentindo a irritação diminuir gradualmente. Sara tinha uma habilidade prática de encerrar assuntos que ele, em sua rigidez, tendia a prolongar. Ele a puxou pela cintura, dando um beijo possessivo que ela retribuiu com a intensidade de sempre.
— Ótimo. Agora volta para a administração. Tenho uma reunião com os fornecedores de agulhas em dez minutos.
Sara deu um tapinha no rosto dele e saiu, deixando para trás o rastro de seu perfume doce e forte. Emanuel sentou-se novamente, tentando recuperar o foco, mas sua mente logo derivou para a outra ponta de seu equilíbrio emocional: Eduarda.
No andar de baixo, na sala de curadoria que cheirava a papel antigo e grafite, Eduarda estava debruçada sobre um catálogo de alta joalheria que uma das designers de joias associadas ao estúdio havia deixado para referência. Ela estava acompanhada de Mariana, uma das recepcionistas e sua única amiga mais próxima no ambiente de trabalho.
— Olha essa, Mari... — Eduarda sussurrou, apontando para uma gargantilha de ouro branco com um pequeno pingente de safira lapidada em formato de gota. — É a coisa mais linda que eu já vi. Combina perfeitamente com aquele estilo vitoriano que estamos pesquisando para a nova coleção de Londres.
— É maravilhosa, Duda — Mariana concordou, aproximando-se. — Mas o preço deve ser uma fortuna. Digna de uma princesa.
Eduarda deu um sorriso doce, aquele que fazia seus olhos brilharem de uma forma quase infantil.
— Eu vou mostrar para o meu pai. Ele me ligou ontem dizendo que queria me dar um presente especial, mas não sabia o que escolher. Ele disse que eu podia escolher qualquer coisa que me fizesse feliz. Acho que vou pedir para ele comprar essa para mim.
O que as duas não perceberam foi que Emanuel estava passando pelo corredor lateral, a caminho da sala de esterilização. A porta da curadoria estava entreaberta e o nome "pai" ecoou nos ouvidos dele como uma nota dissonante em uma sinfonia.
Emanuel parou, oculto pela sombra do batente.
— Seu pai? — Mariana perguntou. — Por que não pede para o Emanuel? Ele é dono de metade da cidade, Duda. Ele te daria uma loja inteira de joias se você pedisse.
— Ah, eu sei que ele daria — Eduarda respondeu com sua voz mansa e manhosa. — Mas eu não gosto de pedir essas coisas para ele. O Emanuel já faz tanto por mim, e ele... ele às vezes acha que pode comprar meu tempo ou minhas decisões. Meu pai é diferente. É um presente de filha, entende? Sem cobranças.
Emanuel sentiu uma pontada de fúria cega atingir seu peito. "Sem cobranças". Aquilo soou como uma acusação. Ele deu meia-volta, desistindo da sala de esterilização, e caminhou a passos largos de volta para seu escritório.
Ele se sentia constantemente em uma batalha para provar a Eduarda que ele era o homem da vida dela, o provedor, o porto seguro. O fato de ela ainda morar com os pais já era uma ferida aberta em seu ego, mas saber que ela preferia recorrer ao pai para um luxo daqueles, em vez de recorrer a ele, era como um insulto à sua capacidade de cuidar dela.
Meia hora depois, Eduarda entrou timidamente no escritório dele, trazendo alguns esboços.
— Emanuel? Você tem um minuto? Eu terminei os desenhos das rosas barrocas...
Emanuel nem sequer levantou os olhos do computador. Sua expressão era de pedra.
— Deixe sobre a mesa, Eduarda.
Ela parou no meio do caminho, sentindo a mudança drástica no ambiente. O "Duda" carinhoso havia sumido, substituído pelo formalismo frio que ele usava com funcionários que cometiam erros graves.
— Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou, aproximando-se com cuidado, o coração começando a acelerar. — Você está com aquela cara de quando a conta de Tóquio deu errado.
Emanuel finalmente levantou o olhar. Seus olhos escuros estavam carregados de uma irritação contida.
— Eu ouvi você conversando com a Mariana. Sobre a joia.
Eduarda piscou, confusa, sentindo o rosto esquentar.
— Ah... o catálogo? Eu só estava comentando que...
— Que vai pedir para o seu pai comprar — ele a interrompeu, a voz subindo de tom. — Por que, Eduarda? Eu não sou o seu namorado? Eu não tenho condições de te dar um presente?
— Não é isso, Manu! — ela disse, a voz ficando trêmula. — Meu pai só queria me dar um presente, ele me pediu para escolher...
— E você corre para ele como se eu não existisse! — Emanuel levantou-se, contornando a mesa. Ele era muito mais alto que ela, e sua presença física costumava ser reconfortante, mas agora parecia opressora. — Você mora na casa dele, você segue as regras dele, e agora você quer que ele te compre joias de milhares de dólares. Quando é que você vai parar de ser a filhinha do papai e começar a ser a minha mulher?
Lágrimas brotaram instantaneamente nos olhos de Eduarda. Ela odiava conflitos, e a agressividade verbal de Emanuel a fazia querer encolher-se até desaparecer.
— Você está sendo injusto — ela soluçou, apertando as mãos contra o peito. — Meu pai é jovem, ele trabalha, ele gosta de me agradar. Ele não está tentando competir com você. Por que tudo para você tem que ser sobre controle? Sobre quem paga a conta?
— Porque quem provê tem o direito de exigir presença! — ele exclamou, batendo levemente na mesa. — Eu quero você aqui, morando comigo. Eu quero ser a pessoa que você procura quando quer um presente, quando está triste, quando quer dormir. Mas você se recusa a sair daquela redoma de vidro que seus pais criaram!
— Eu não estou pronta! — ela gritou de volta, um raro momento de explosão emocional. — E o jeito que você fala só me deixa com mais medo de vir para cá! Você quer me comprar, Emanuel? É isso? Quer que eu more aqui para que eu seja mais uma das suas propriedades, como os estúdios ou os carros?
Emanuel travou. Aquela frase o atingiu onde doía. Ele não a via como propriedade, ele a via como algo precioso que precisava de proteção absoluta contra um mundo que ele conhecia bem demais por ser cruel.
Nesse momento, a porta se abriu e Sara entrou, segurando um copo de café. Ela olhou para Eduarda chorando e para Emanuel com os punhos cerrados.
— Uau. O clima está ótimo aqui — Sara disse, com seu sarcasmo habitual, embora houvesse um brilho de curiosidade nos olhos. — Deixa eu adivinhar: a bonequinha de porcelana não quer mudar de caixa e o dono da loja está tendo um ataque de pelanca?
— Sara, sai daqui — Emanuel ordenou, sem desviar os olhos de Eduarda.
— Ah, não. Agora eu fiquei interessada — Sara caminhou até o sofá de couro e sentou-se, cruzando as pernas longas. — Sabe qual é o seu problema, Manu? Você tenta domar um passarinho que nem aprendeu a voar. E você, Eduarda... querida, se o homem quer te dar joias, deixa ele dar. Dinheiro de pai é herança, dinheiro de namorado rico é investimento. Aprenda a usar o que você tem.
— Eu não quero o dinheiro dele! — Eduarda se virou para Sara, a voz embargada. — Eu só quero que ele entenda que eu tenho uma vida fora daqui!
— Que vida? — Sara deu uma risada curta. — Jantares de domingo com a mamãe e o papai moderno? Acorda. Você tem 20 anos, é formada, trabalha com arte internacional. Já passou da hora de parar de pedir permissão para respirar.
Eduarda olhou de Sara para Emanuel. Ela se sentia encurralada entre a agressividade de um e o cinismo da outra.
— Meu pai... — Eduarda começou, tentando recuperar o fôlego — ...ele me pediu para escolher o presente porque ele sabe que eu estou trabalhando muito. Ele queria marcar essa fase da minha vida. Não é sobre o valor da joia, Emanuel. É sobre o gesto dele.
— E o meu gesto de te oferecer uma casa, um ateliê e uma vida inteira não vale nada? — Emanuel perguntou, a voz agora mais baixa, mas carregada de uma mágoa profunda.
— Vale tudo para mim — ela sussurrou, dando um passo em direção a ele, a timidez voltando a dominar suas ações. Ela tocou a mão dele com os dedos trêmulos. — Mas eu não quero que nossa vida comece com você me forçando a abandonar quem eu sou. Eu amo meus pais. Eles não são o inimigo.
Emanuel fechou os olhos, sentindo o toque suave dela. A raiva estava evaporando, deixando apenas aquele cansaço existencial que só Eduarda conseguia provocar e, ao mesmo tempo, curar.
— Eu só sinto que estou sempre em segundo plano, Duda.
— Você nunca está em segundo plano — ela disse, manhosa, encostando a cabeça no peito dele. — Você é o centro de tudo. Só me deixa fazer as coisas no meu tempo... por favor?
Sara, observando a cena do sofá, revirou os olhos e soltou um suspiro audível.
— Certo, a sessão de terapia terminou. Manu, o fornecedor está na linha dois. Eduarda, se você não for pedir a joia para o seu pai, me passa o contato do joalheiro. Eu mesma compro para mim, já que você é cheia de princípios e o Emanuel está ocupado demais sendo um mártir.
Emanuel soltou uma risada seca, a tensão finalmente quebrando. Ele puxou Eduarda para um abraço apertado, beijando o topo da cabeça dela.
— Você não vai comprar nada, Sara. E você, Duda... se o seu pai quer te dar a joia, que dê. Mas não se surpreenda se amanhã houver uma caixa maior em cima da sua mesa de desenho.
Eduarda sorriu contra o peito dele, sentindo-se protegida novamente, embora soubesse que aquela trégua era temporária. Emanuel era um colecionador de controle, e ela era a peça que ele ainda não conseguia catalogar totalmente.
— Eu te amo — ela sussurrou.
— Eu sei — ele respondeu, olhando para Sara, que já estava saindo da sala com um sorriso vitorioso no rosto. — Agora, vamos trabalhar. Antes que a Sara decida comprar o joalheiro inteiro com o meu cartão de crédito.
A paz voltava ao estúdio, mas como uma tatuagem recém-feita, a relação entre os três ainda estava na fase da cicatrização: sensível ao toque, propensa a inflamações e marcada para sempre na pele de cada um deles.