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O Peso da Herança e o Som do Berço
O silêncio nos estúdios de Emanuel nunca era absoluto; sempre havia o zumbido das máquinas de tatuagem, o burburinho de clientes ou os saltos de Sara estalando contra o piso industrial. No entanto, seis meses após as intensas discussões sobre joias e mudanças, um novo som passou a dominar o ambiente: o balbuciar rítmico e o choro agudo de duas vidas que Emanuel jamais planejou ter sob sua responsabilidade.
A morte trágica de seus melhores amigos, um casal de tatuadores que viajava pelo mundo, deixou um vazio que a lógica de Emanuel não conseguia preencher. No testamento, uma única linha mudou tudo: ele era o guardião legal de Maya e Ágata.
Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro, mas não revisava planilhas. Em seu colo, Maya, de apenas oito meses, segurava seu dedo indicador com uma força surpreendente. Ela tinha os cabelos castanhos finos e olhos grandes que pareciam ler a alma dele.
— Ela finalmente dormiu? — A voz de Eduarda surgiu na porta, suave como uma brisa.
Emanuel olhou para cima, o rosto marcado pelo cansaço de noites interrompidas, mas com um brilho de ternura que poucas vezes mostrava.
— Quase. Ela é manhosa, Duda. Se eu tento colocar no berço, ela acorda na hora. Parece que sente quando eu me afasto.
Eduarda aproximou-se, deslizando para o lado dele. Ela estendeu os braços e, quase instantaneamente, Maya se inclinou para ela, soltando um suspiro satisfeito ao ser aninhada no colo da curadora. A conexão entre as duas era quase mística; Maya era sensível, doce e calma, uma miniatura emocional da própria Eduarda.
— Ela é um grudinho — Eduarda sussurrou, beijando a testa da bebê. — Sente tudo o que a gente sente. Se você está tenso, Emanuel, ela não vai relaxar.
— Eu não sei como fazer isso, pequena — confessou Emanuel, passando a mão pelo rosto. — Eu sei gerenciar impérios, mas não sei como ser o porto seguro de duas crianças.
A porta se abriu com o estrondo habitual. Sara entrou carregando Ágata no quadril. A bebê loira, apesar da pouca idade, já exibia uma expressão de tédio aristocrático que fazia qualquer um rir — ou temer. Ágata usava um macacão de grife minúsculo, óculos escuros de brinquedo na testa e um laço de fita dourada que parecia maior que sua cabeça.
— Chegamos! — anunciou Sara, ignorando o clima de paz. — Essa menina é uma diva, Manu. Fomos ao shopping e ela não deu um pio enquanto eu escolhia as bolsas, mas tentou morder o segurança quando ele quis brincar com ela. Minha garota!
— Sara, ela tem oito meses — disse Emanuel, suspirando. — Você não pode ensinar uma bebê a ser esnobe.
— Eu não estou ensinando, é nato! — Sara sentou-se na mesa de luz, colocando Ágata sentada ao seu lado. A bebê olhou para Maya no colo de Eduarda com um desdém quase cômico, cruzando os bracinhos gordinhos. — Ela sabe o que é bom. Ela não é como essa manteiga derretida que você está segurando, Eduarda. Ágata nasceu para mandar.
Eduarda apertou Maya um pouco mais forte contra o peito, sentindo a fragilidade da bebê.
— Ela não é manteiga derretida, Sara. Ela só é carinhosa. Ela precisa de afeto, não de acessórios de luxo.
— Ela precisa aprender a não ser pisoteada — rebateu Sara, retocando o batom enquanto Ágata tentava pegar o tubo de ouro da mão dela. — O mundo é cruel, não é, minha mini diva? A gente não chora por atenção, a gente exige.
Emanuel levantou-se, ficando entre as duas. O cenário era surreal: seu escritório de design, antes um símbolo de poder e controle, agora estava repleto de bolsas de fraldas, aquecedores de mamadeira e brinquedos de borracha.
— Chega dessa disputa. Elas são irmãs, não competidoras — ele disse, embora soubesse que a personalidade das bebês estava se moldando de forma assustadoramente parecida com as mulheres que as cuidavam. — Eduarda, eu preciso que você me ajude com os horários da Maya. Ela só quer comer se você estiver por perto.
Eduarda corou, sentindo aquela pontada de culpa e prazer por ser a favorita da pequena.
— Eu não me importo, Emanuel. Eu amo cuidar dela. Mas... isso só reforça o que a gente conversou. Meus pais estão me ajudando com as coisas da Maya lá em casa, mas eu fico dividida.
Emanuel travou. O assunto proibido voltara à tona, mas agora com um peso dobrado.
— Eduarda, agora não é mais sobre você e eu. É sobre elas. Eu não posso ter a Maya em uma casa e a Ágata em outra metade do tempo. Elas precisam crescer juntas. E eu preciso que você esteja aqui. Morando aqui. Comigo.
— Viu só? — Sara interveio, fazendo Ágata "desfilar" com as mãos sobre a mesa. — Até as crianças são desculpa para você não crescer, Duda. A Maya sente sua falta porque você some toda noite para ir dormir no seu quartinho de solteira. Seja mulher. Assuma o berço.
— Não fale assim comigo, Sara — Eduarda disse, a voz subindo um tom, o que era raro. — Eu estou aqui o dia todo. Eu cuido da curadoria e cuido dela. Eu só... eu ainda tenho minha vida.
— Sua vida é aqui agora! — Emanuel explodiu, a frustração acumulada de semanas sem dormir transbordando. — Olhe para mim, Eduarda! Eu estou com duas órfãs nos braços, um império para tocar e duas namoradas que não conseguem entrar em um acordo. Eu não estou pedindo para você se mudar por capricho. Eu estou pedindo porque eu estou sobrecarregado!
O silêncio que se seguiu foi cortado pelo choro súbito de Maya. A sensibilidade da bebê captou a agressividade na voz de Emanuel instantaneamente. Ela começou a soluçar, escondendo o rosto no pescoço de Eduarda.
— Viu o que você fez? — Eduarda disse, com os olhos marejados. — Você assusta ela. Você quer controlar tudo no grito, Emanuel.
Ela começou a balançar Maya, sussurrando palavras de conforto, ignorando Emanuel completamente.
Sara, por outro lado, apenas deu um tapinha nas costas de Ágata, que olhava para a irmã chorando com uma curiosidade fria.
— Não liga para elas, Ágata. Drama não combina com a nossa paleta de cores — comentou Sara, pegando o celular para tirar uma selfie com a bebê. — Manu, se ela não quer vir, o problema é dela. Eu dou conta da administração e de treinar essa pequena aqui para ser a patroa disso tudo no futuro. Só me dá um aumento para cobrir as despesas da babá e das roupas novas dela.
Emanuel sentiu uma dor de cabeça latejar. Ele caminhou até Eduarda e colocou a mão em seu ombro, mas ela se esquivou levemente.
— Duda, me desculpa. Eu estou exausto.
— Eu sei que está — ela respondeu baixo, sem olhar para ele. — Mas você não pode me usar como uma peça de reposição para a sua organização pessoal. Eu amo a Maya. Eu faria qualquer coisa por ela. Mas morar aqui... com a Sara me provocando o dia todo e você me dando ordens... eu sinto que vou desaparecer.
— Você não vai desaparecer — ele disse, a voz suavizando-se para aquele tom protetor que sempre a desarmava. — Eu vou construir um berçário novo. O melhor do mundo. E o seu ateliê vai ser bem ao lado. Você pode ficar com a Maya o tempo todo. Eu só preciso saber que, quando as luzes se apagarem, estamos todos sob o mesmo teto.
Eduarda olhou para a bebê em seus braços. Maya havia parado de chorar e agora brincava com uma mecha do cabelo castanho de Eduarda, puxando-a com os dedinhos gordinhos e sorrindo. Era um golpe baixo do destino; a bebê era o elo que Emanuel precisava para finalmente prendê-la.
— Eu vou pensar, Emanuel. Mas não me pressione hoje.
Sara soltou um bufo de impaciência.
— "Vou pensar". É sempre a mesma música. Enquanto isso, a Ágata já está aprendendo a escolher diamantes.
— Sara, pelo amor de Deus, ela mal tem dentes! — Emanuel exclamou, metade irritado, metade divertido com o absurdo da situação.
— Dentes crescem, classe é permanente — Sara rebateu, levantando-se com Ágata. — Vou levar a mini diva para a minha sala. Temos planilhas para revisar e ela precisa aprender que o rosa choque é a cor do poder este ano.
Quando Sara saiu, o escritório recuperou uma calmaria frágil. Emanuel sentou-se novamente, exausto. Eduarda aproximou-se e, com Maya ainda no colo, sentou-se nos pés da poltrona dele, apoiando a cabeça no joelho de Emanuel.
— Elas são tão diferentes — Eduarda comentou, observando o nada. — Como podem ser irmãs e serem opostas?
— Como nós três — Emanuel respondeu, passando a mão pelos cabelos de Eduarda. — Um equilíbrio caótico entre a sensibilidade, a força bruta e a necessidade de ordem.
— A Maya precisa de paz, Manu. Ela é como eu. Ela se fecha se o ambiente for pesado.
— E a Ágata? — ele perguntou, com um meio sorriso.
— A Ágata vai dominar o mundo antes dos dois anos se a Sara continuar incentivando — Eduarda riu baixinho, um som doce que aliviou o peito de Emanuel. — Ela tem aquele olhar... ela sabe que é bonita e sabe que todos vão fazer o que ela quer.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um momento.
— Eu só queria que fosse mais fácil. Eu queria que você estivesse aqui por vontade própria, não por causa de uma tragédia ou de uma bebê.
Eduarda não respondeu de imediato. Ela ficou ali, sentindo o calor do corpo dele e o peso leve de Maya em seu colo. Pela primeira vez, a ideia de se mudar não parecia apenas uma invasão de sua privacidade, mas uma necessidade de proteção para aquela pequena alma que dependia dela.
— Meus pais querem conhecer as bebês — ela disse, mudando de assunto. — Eles são jovens, Emanuel. Eles querem ajudar. Minha mãe já comprou um estoque de roupas de algodão orgânico para a Maya.
Emanuel sentiu a irritação crescer novamente, mas a controlou. O "vovô e vovó" modernos eram sua maior concorrência.
— Eles podem vir aqui. Mas eu sou o tutor, Eduarda. Eu decido onde elas ficam.
— Eu sei. Só estou dizendo que você não está sozinho nisso.
— Eu me sinto sozinho quando você vai embora às oito da noite — ele confessou, a voz rouca. — Eu fico aqui com a Sara e a Ágata, ouvindo música alta e discussões sobre marcas de luxo, enquanto a Maya chora no quarto ao lado sentindo a sua falta. É um inferno, Duda.
Eduarda sentiu uma lágrima solitária escorrer. Ela odiava ser a causa do sofrimento dele, mas o medo de perder sua identidade naquela casa — dividida com a personalidade esmagadora de Sara — era um monstro que ela ainda não sabia como derrotar.
— E se... e se eu ficar alguns dias na semana? — ela sugeriu, buscando um meio-termo. — Como um teste?
Emanuel abriu os olhos e a encarou. Não era o que ele queria, mas era uma rachadura na muralha dela.
— Três dias. De quinta a domingo.
— Dois dias — ela negociou, manhosa. — Sexta e sábado.
Emanuel bufou, mas deu um beijo em sua testa.
— Três dias, Eduarda. Ou eu mesmo vou até a casa dos seus pais e trago suas malas. E você sabe que eu faço.
Ela estremeceu levemente, sabendo que ele falava a verdade. Emanuel não aceitava "não" como resposta por muito tempo.
— Está bem. Três dias.
Ele sorriu, um sorriso de vitória que o fez parecer cinco anos mais jovem. Ele se inclinou e beijou Maya, que agora dormia profundamente, e depois beijou Eduarda com uma possessividade renovada.
No corredor, Sara observava a cena pela fresta da porta, com Ágata no colo. A bebê loira olhava para o casal com uma expressão de julgamento que faria um juiz de suprema corte se sentir intimidado.
— Viu só, Ágata? — Sara sussurrou para a bebê. — É assim que se faz. Deixa ela achar que está negociando, enquanto ele acha que está vencendo. No final, quem manda na rotina da casa somos nós. Agora vamos pedir comida japonesa. Você não come, mas vai adorar brincar com os hashis de marfim que eu comprei.
O império de Emanuel estava mudando. As tintas de tatuagem agora dividiam espaço com talco e perfume de bebê. A guerra de territórios entre a timidez de Eduarda e a vulgaridade de Sara ganhara novas aliadas: uma bebê que pedia amor e outra que exigia o mundo. E Emanuel, no centro de tudo, começava a perceber que, por mais que tentasse controlar o destino, ele era apenas o tatuador em uma tela que as quatro mulheres da sua vida estavam pintando com cores que ele nunca ousou usar.