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O Ciclo da Lua e o Peso do Ferro
O ar na mansão de Emanuel parecia ter se tornado mais denso naquela manhã de sexta-feira. O sol de outono entrava pelas janelas do chão ao teto, iluminando as partículas de poeira que dançavam sobre os móveis de design minimalista, mas o calor não era suficiente para dissipar a névoa de irritação e desconforto que pairava sobre as duas mulheres da casa.
Emanuel estava na cabeceira da mesa de café da manhã, o tablet à frente exibindo as planilhas de faturamento da unidade de Milão. Ele estava impecável, com uma camisa de botões preta que realçava seu porte físico e o semblante sério de quem já havia resolvido cinco problemas antes das oito da manhã. No entanto, o silêncio da mesa era cortado apenas pelo tilintar metálico das colheres e pelo som abafado de um suspiro sofrido vindo da sua direita.
Eduarda estava pálida. Seus cabelos castanhos estavam presos em um coque frouxo, e ela vestia um robe de seda clara que parecia pesado demais para seus ombros delicados. Ela mal havia tocado na sua torrada integral. A cada poucos minutos, ela se encolhia levemente, as mãos pressionando o ventre, e um pequeno gemido escapava de seus lábios, quase imperceptível para qualquer um que não fosse Emanuel.
Do outro lado, Sara não estava melhor, embora sua reação fosse o oposto. A loira, geralmente vibrante e afiada, estava com uma expressão de fúria contida. Seus olhos estavam semicerrados, e ela batia o pé rritmicamente contra o chão, um tique que Emanuel sabia ser o sinal de que a paciência dela estava abaixo de zero. Ela não gemia; ela rosnava para qualquer um que fizesse barulho excessivo.
— Mamãe, olha! Eu fiz uma torre de morangos! — exclamou Ágata, a pequena loira de três anos, equilibrando as frutas no topo do seu iogurte.
— Ágata, por favor, fale baixo — disse Sara, a voz saindo como uma lixa. — Minha cabeça está explodindo e eu não tenho a menor paciência para engenharia de frutas hoje.
A menina piscou, surpresa com a rispidez da mãe. Ágata, que já herdara o orgulho de Sara, cruzou os braços gordinhos e olhou para Emanuel, buscando um aliado.
— O que a mamãe tem, papai? Ela está brava com os morangos?
Emanuel levantou os olhos do tablet, sentindo o peso da responsabilidade de manter a ordem naquele ecossistema frágil.
— A mamãe só não está se sentindo bem, pequena. Coma seu café em silêncio — ele disse, com a voz firme que não admitia réplicas.
Ao lado dele, Maya, a pequena de cachos castanhos e alma sensível, esticou os braços em direção a Eduarda.
— Mamãe Duda, colo! Me carrega para ver os passarinhos?
Eduarda tentou sorrir, mas uma pontada aguda de cólica a fez se curvar para frente, a mão apertando o estômago.
— Agora não, Maya... a mamãe não consegue carregar você agora, meu anjo. A barriga da mamãe está doendo um pouquinho.
Maya inclinou a cabeça, os olhos grandes cheios de uma confusão triste. Para a menina, o colo de Eduarda era o lugar mais seguro do mundo, e a negação soava como uma rejeição que ela não conseguia processar.
— Você está doente? — perguntou Maya, a voz começando a tremer. — Você vai para o hospital?
— Não, meu amor, é só... — Eduarda tentou explicar, mas a dor a impediu de continuar a frase.
Emanuel suspirou, fechando o tablet com um estalo seco. O "modo macho alfa" estava sendo ativado por necessidade. Ele via o desconforto das suas mulheres e a confusão das suas filhas, e sabia que, se não assumisse o controle absoluto da situação, a casa se tornaria um campo de batalha emocional antes do meio-dia.
— Eduarda, vá para o quarto e deite-se. Eu vou pedir para a governanta preparar aquela bolsa de água quente e um chá de camomila — ordenou Emanuel, levantando-se e colocando a mão no ombro dela. O toque era firme, protetor, mas inquestionável.
— Eu posso ajudar com a Maya... — ela tentou dizer, mas Emanuel a interrompeu com um olhar.
— Você não vai carregar ninguém hoje. Você mal consegue ficar em pé. Vá. Agora.
Eduarda assentiu, grata pela autoridade dele que a liberava da culpa de não ser a "mãe perfeita" naquele momento. Ela se levantou devagar, caminhando com as mãos no ventre, e Maya começou a chorar baixinho ao ver a mãe se afastar.
— E você, Sara — continuou Emanuel, virando-se para a loira —, pare de descontar sua irritação na Ágata. Se você está com enxaqueca, vá para o quarto escuro. Eu cuido das meninas e da administração hoje.
— Eu tenho três reuniões por vídeo, Emanuel! — rebateu Sara, embora o brilho de dor em seus olhos traísse sua resistência. — Não posso simplesmente desaparecer porque meu útero resolveu se vingar de mim.
— Você pode e você vai — ele disse, caminhando até ela e segurando seu rosto com uma mão só, obrigando-a a olhar para ele. — Eu sou o dono deste império, Sara. Eu decido quem trabalha e quem descansa. Você está impossível de lidar e vai acabar gritando com um cliente. Vá descansar. É uma ordem.
Sara bufou, mas a firmeza de Emanuel sempre fora o que ela mais admirava — e o que mais a desarmava. Ela se levantou, batendo o salto no chão, e saiu da sala sem olhar para trás.
Emanuel ficou sozinho na vasta sala de jantar com as duas crianças. Maya ainda soluçava, e Ágata olhava para o pai com uma sobrancelha arqueada, claramente avaliando o novo regime.
— Muito bem — disse Emanuel, pegando Maya no colo com uma facilidade impressionante, aninhando a menina contra seu peito largo. — O dia hoje vai ser diferente. O papai está no comando total. Sem choro, sem manha. Ágata, pegue seus brinquedos e vá para o meu escritório. Você vai ser minha "assistente" enquanto eu trabalho.
— Eu quero a mamãe Sara — declarou Ágata, testando os limites.
Emanuel a encarou com um olhar gélido, o mesmo olhar que fazia tatuadores veteranos tremerem em suas convenções ao redor do mundo.
— A mamãe Sara está descansando. Se você entrar lá e acordá-la, vai ficar sem o tablet por uma semana. Entendido?
Ágata engoliu em seco. O tom de voz de Emanuel não deixava margem para negociações.
— Sim, papai.
As horas seguintes foram um teste para a paciência de ferro de Emanuel. Ele se instalou em seu escritório de carvalho escuro, com Maya sentada em um tapete aos seus pés, brincando com blocos de montar, e Ágata sentada em uma cadeira lateral, "carimbando" papéis rascunhados que ele lhe dera para mantê-la ocupada.
A cada trinta minutos, Emanuel subia as escadas. Ele era o provedor, o cuidador silencioso que não precisava de palavras doces para demonstrar sua posse e seu cuidado.
No quarto de Eduarda, o ambiente estava na penumbra. Ele entrou sem fazer barulho, trazendo uma bandeja com torradas leves e um novo chá. Eduarda estava encolhida em posição fetal, o rosto contra o travesseiro.
— Manu? — ela chamou, a voz fraca.
— Shhh. Coma algo. Como está a dor? — ele perguntou, sentando-se na borda da cama e passando a mão grande pelas costas dela, sentindo a tensão nos músculos.
— Está horrível... sinto muito por deixar tudo nas suas costas hoje. A Maya deve estar sentindo minha falta.
— A Maya está bem. Eu sou o pai dela, Eduarda. Eu dou conta — ele disse, e havia uma segurança em sua voz que instantaneamente acalmava o coração ansioso de Eduarda. — Apenas descanse. Eu não quero ver você fora desta cama até que consiga ficar ereta sem gemer.
Ele depositou um beijo firme em sua testa, um selo de proteção, e saiu.
No quarto de Sara, o clima era de guerra fria. Ela estava deitada com uma máscara de gel sobre os olhos. Emanuel entrou e deixou um frasco de remédios e um copo de água na cabeceira.
— Ágata está sendo útil? — perguntou Sara, a voz abafada pela máscara.
— Ela está sendo a Ágata. Tentou demitir o jardineiro pela janela há dez minutos, mas eu já resolvi — Emanuel respondeu, e um raro meio sorriso apareceu em seus lábios. — Beba isso. Se a dor não passar em uma hora, eu chamo o médico da família aqui.
— Não precisa de médico, Emanuel. É só... o ciclo natural das coisas.
— O ciclo natural não inclui você ser insuportável com os funcionários. Descanse. Eu assumi as chamadas de Milão.
— Você o quê? — ela tentou se levantar, mas a tontura a jogou de volta.
— Deite-se — ele ordenou, a voz subindo um tom, o rugido do leão voltando a ecoar. — Eu conheço os números melhor do que você. Agora, durma.
De volta ao escritório, o desafio tomou uma nova forma. Maya, cansada de brincar sozinha, começou a chorar novamente.
— Eu quero a mamãe Duda! Por que ela não me pega? Ela não me ama mais?
Emanuel suspirou, pegando a menina e colocando-a sentada em sua mesa de trabalho, entre o computador e um crânio de cristal decorativo.
— Maya, olhe para mim — ele disse, segurando o rostinho dela entre as mãos. — A mamãe Duda ama você mais do que tudo. Mas às vezes, as mulheres têm um dia em que o corpo precisa de silêncio para se renovar. É como se a bateria delas estivesse carregando. Se você ficar pedindo colo, a bateria nunca carrega. Você quer que a mamãe fique triste e cansada?
Maya negou com a cabeça, os olhos arregalados.
— Então, hoje você vai ser a ajudante do papai. Nós vamos cuidar delas. Entendeu?
— Nós vamos ser os médicos? — perguntou Maya, limpando uma lágrima.
— Quase isso. Vamos ser os protetores.
Ágata, do outro lado da sala, levantou a cabeça.
— Eu também sou protetora, papai?
— Sim, Ágata. Você protege o silêncio da sua mãe. Se ela acordar sem dor, é porque você fez um bom trabalho.
O resto da tarde passou sob uma disciplina quase militar. Emanuel gerenciava o império das tatuagens com uma mão e cuidava das necessidades das filhas com a outra. Ele preparou lanches, resolveu disputas por brinquedos e, quando a noite começou a cair, ele mesmo deu banho nas duas, ignorando os respingos de água em sua camisa cara.
Quando Eduarda finalmente desceu as escadas, por volta das sete da noite, vestindo um moletom largo e parecendo um pouco mais corada, ela encontrou uma cena que nunca imaginaria.
Emanuel estava sentado no sofá king-size da sala de estar. Maya estava adormecida em seu ombro esquerdo, e Ágata estava aninhada contra seu braço direito, assistindo a um desenho animado com o volume no mínimo. Emanuel segurava um livro de arte em uma mão, e a outra estava repousada protetoramente sobre as pernas das duas meninas.
Ele parecia um rei em seu trono, exausto, mas absolutamente em controle de tudo o que era seu.
— Manu? — Eduarda sussurrou, aproximando-se.
Ele levantou os olhos, e a dureza de sua expressão suavizou-se instantaneamente ao vê-la melhor.
— Consegue ficar em pé sem dor? — ele perguntou, a voz baixa para não acordar Maya.
— Sim... o chá e o descanso ajudaram muito. Onde está a Sara?
— Pediu comida japonesa e está na banheira. Disse que, se alguém bater na porta, ela joga o sabonete na cabeça — Emanuel respondeu, e desta vez o sorriso foi completo.
Eduarda sentou-se no chão, aos pés de Emanuel, apoiando a cabeça em seu joelho.
— Você é incrível, sabia? Eu estava com tanto medo de hoje ser um desastre.
Emanuel passou a mão pelos cabelos dela, um gesto de posse e carinho que dizia mais do que mil palavras.
— Eu sou o homem desta casa, Eduarda. Meu trabalho não é apenas ganhar dinheiro ou tatuar celebridades. Meu trabalho é garantir que vocês três — ele corrigiu-se —, que vocês quatro estejam seguras, mesmo quando o mundo, ou a biologia, resolve complicar as coisas.
— As meninas não entenderam muito bem... — Eduarda olhou para Maya.
— Elas entenderam que o papai está aqui — disse ele com firmeza. — E é isso que importa.
Naquele momento, Sara apareceu no topo da escada, envolta em um robe de veludo negro, parecendo uma rainha que acabara de sobreviver a uma batalha. Ela desceu os degraus e, ao ver a cena no sofá, parou por um momento, sua expressão de deboche suavizando-se para algo que se assemelhava ao respeito.
Emanuel olhou para ela, o olhar de comando ainda presente.
— O jantar está na mesa em dez minutos. Sem discussões, sem ironias. Vamos comer em família e depois todos vão dormir. Amanhã eu tenho um estúdio para abrir em Londres e não quero levar o estresse de casa na bagagem.
Sara deu de ombros, mas sentou-se no outro sofá, suspirando de alívio.
— Tudo bem, Emanuel. Você venceu. Hoje você é o chefe supremo. Mas não se acostume, mês que vem eu estarei de volta ao meu posto de comando.
Emanuel apenas assentiu, sabendo que aquela era a forma de Sara dizer "obrigada".
A noite terminou com a mansão mergulhada em uma paz conquistada a duras penas. Emanuel carregou cada uma das filhas para suas respectivas camas, cobrindo-as com um cuidado que contrastava com sua imagem de homem durão e tatuado.
Quando ele finalmente entrou no quarto principal, Eduarda o esperava. Ela se aproximou e o abraçou apertado, sentindo o cheiro de sabonete infantil e do perfume amadeirado dele.
— Obrigada por hoje, Manu. Por ser nosso porto seguro.
Emanuel a segurou pela cintura, puxando-a para perto, o olhar voltando a ser o de um leão protegendo sua leoa.
— Eu sempre serei, pequena. Mas da próxima vez... tente avisar ao seu útero que o dono da casa prefere dias mais calmos.
Eduarda riu, a primeira risada verdadeira do dia, e Emanuel a beijou com uma intensidade que selava o fim de mais uma tempestade. Naquela casa, as regras podiam ser ditadas pela biologia ou pelo temperamento, mas o equilíbrio final seria sempre decidido pelo homem que não aceitava nada menos do que a perfeição e o bem-estar daquelas que carregavam seu nome e seu coração.