Voltar ao resumo

D

O Rugido do Leão e a Doçura do Campo

A casa de campo da família de Emanuel, no interior de São Paulo, era uma construção imponente de pedra e madeira nobre, cercada por colinas verdejantes e um ar que cheirava a terra molhada e cavalos. Era o refúgio de sua mãe, Dona Heloísa, uma mulher de elegância austera que raramente via o filho, dada a agenda global de seus estúdios de tatuagem. O evento daquela tarde era um almoço de família estendido, com primos, tios e investidores próximos, todos vestidos em tons de linho e sorrisos polidos.

No entanto, para Emanuel, o cenário estava longe de ser relaxante. O calor úmido do interior parecia apenas aumentar a pressão sob sua pele. Ele estava no centro da varanda, usando uma camisa polo preta que destacava os músculos dos braços e as tatuagens que subiam pelo pescoço, observando o caos que começava a se formar no jardim.

— Emanuel, querido, você parece tenso — comentou Heloísa, aproximando-se com uma taça de champanhe. — É apenas um almoço. Relaxe um pouco.

— É difícil relaxar, mãe, quando sinto que a paz da sua casa está prestes a ser implodida por duas crianças de três anos — respondeu ele, a voz grossa e carregada de uma irritação latente.

No gramado, a situação escalava. Ágata, a pequena loira de personalidade afiada, havia decidido que o balanço de carvalho sob a figueira era propriedade exclusiva sua. Ela estava sentada ali com um vestido de grife minúsculo, os braços cruzados e um olhar que desafiava qualquer um a se aproximar.

— Minha vez, Ágata! — gritou Maya, a filha de coração que Eduarda cuidava com tanto zelo. Maya era a imagem da doçura, com seus cachos castanhos e olhos grandes, mas o cansaço da viagem e o excesso de atenção da família a haviam deixado em um estado de manha extrema.

— Não é sua vez, Maya! Eu sou a rainha do balanço hoje — rebateu Ágata, balançando as perninhas com uma arrogância que era o espelho de Sara.

— MAMÃE! — Maya soltou um grito agudo, correndo em direção a Eduarda, que conversava timidamente com uma das tias de Emanuel. — A Ágata não deixa eu brincar! Ela é má!

Eduarda abaixou-se imediatamente, pegando a menina no colo.

— Calma, meu amor. A Ágata já vai sair. Vamos brincar com as bonecas ali na sombra? — sugeriu Eduarda, com sua voz manhosa e suave, tentando conter o desastre iminente.

— NÃO! Eu quero o balanço agora! — Maya começou a soluçar, enterrando o rosto no pescoço de Eduarda e chutando o ar.

Do outro lado da varanda, Sara, que usava um vestido justo e óculos escuros caros, soltou uma risada debochada enquanto retocava o batom.

— Deixa de ser mole, Eduarda. Se a Maya quer o balanço, ela que aprenda a tirar a Ágata de lá. Mas aviso logo: minha filha não cede para choro de perdedor.

Emanuel sentiu a mandíbula travar. O "modo macho alfa", como Sara gostava de chamar, estava sendo ativado. Ele odiava desordem, odiava birras públicas e, acima de tudo, odiava ver Eduarda sendo subjugada pela insolência de Sara ou pelas crises das meninas.

— Sara, eduque sua filha — disse Emanuel, a voz saindo como um rosnado baixo enquanto ele descia os degraus da varanda. — E Eduarda, pare de mimar a Maya. Ela tem que aprender a ouvir um "não" sem desmoronar.

Eduarda olhou para ele com os olhos úmidos, sentindo a frieza no tom de voz dele.

— Ela está cansada, Emanuel... o sol está forte.

— Todos estamos cansados — rebateu ele, caminhando em direção ao balanço.

A presença física de Emanuel era esmagadora. Quando ele parou diante de Ágata, a menina parou de balançar na hora. O olhar do pai não era de brincadeira; era o olhar do dono de um império que não aceitava insubordinação.

— Fora do balanço. Agora — ordenou ele.

— Mas papai... — Ágata tentou protestar, usando o charme que sempre funcionava com os seguranças.

— Eu não vou repetir, Ágata. Para dentro, agora. Vá procurar a Sara e fique lá até aprender a compartilhar.

Ágata, percebendo que o "leão" estava acordado, desceu do balanço com um bico enorme, mas não ousou dizer mais nada. Ela passou por ele pisando duro. Emanuel então se virou para Eduarda e Maya.

— Coloque ela no chão, Eduarda.

— Manu, ela está soluçando...

— No chão — repetiu ele, a voz firme e inquestionável.

Eduarda obedeceu, sentindo o coração apertado. Maya, vendo que o pai estava no controle, aumentou o volume do choro, jogando-se na grama em um ataque de manha clássico.

— Eu quero o balançoooo! — gritava a menina, as mãos pequenas batendo no chão.

Emanuel cruzou os braços, a camisa polo tensionada sobre os ombros largos. Ele não se abaixou. Ele apenas olhou para a pequena figura no chão com uma autoridade gélida.

— Você vai parar de gritar agora, Maya. Ou vou levar você para o quarto e você não sairá de lá nem para o bolo. Escolha agora: o silêncio ou o isolamento.

Maya parou o grito no meio, olhando para o pai com surpresa. O choro transformou-se em soluços baixos e manhosos. Ela estendeu os braços para Eduarda, buscando o refúgio habitual.

— Não — interrompeu Emanuel, impedindo Eduarda de se aproximar. — Ela vai caminhar até aqui, pedir desculpas pelo escândalo e depois, e só depois, você pode pegá-la.

— Emanuel, você está sendo muito duro — sussurrou Eduarda, aproximando-se dele e tocando seu braço tatuado. — É uma festa de família, todos estão olhando.

— Exatamente por estarem olhando é que elas precisam entender quem manda — ele se inclinou para perto de Eduarda, o cheiro de perfume caro e autoridade envolvendo-a. — Se eu não colocar ordem agora, elas vão destruir o resto do dia. E eu não estou com paciência para medições de ego hoje, Eduarda. Nem das crianças, nem da Sara.

Sara aproximou-se, balançando os quadris, com um sorriso provocador.

— Nossa, que másculo. O grande Emanuel colocando ordem nas bebês. Por que não usa essa energia toda para algo mais produtivo, Manu? Você está deixando os convidados desconfortáveis com esse seu jeito de ditador.

Emanuel virou-se para ela, os olhos brilhando com uma irritação perigosa.

— Sara, se você abrir a boca para minar minha autoridade na frente delas mais uma vez, eu mando o motorista levar você e a Ágata de volta para a capital agora mesmo. Não me teste. Hoje não.

Sara ergueu as mãos em sinal de rendição, embora o sorriso irônico permanecesse. Ela sabia que, quando Emanuel entrava naquele estado, era melhor não esticar a corda. Ele era o provedor, o líder, e sua palavra naquelas terras era lei.

— Tudo bem, "chefe". Vou ver se a Ágata não destruiu o buffet de sobremesas.

Emanuel voltou sua atenção para Maya, que ainda estava sentada na grama, olhando-o com cautela.

— Venha aqui, Maya — chamou ele, suavizando o tom apenas um milímetro, mas mantendo a firmeza.

A menina levantou-se devagar, caminhando até ele com os passos incertos. Ela abraçou as pernas de Emanuel, escondendo o rosto no tecido de sua calça.

— Desculpa, papai... — sussurrou ela, a manha dando lugar ao medo de perder o afeto dele.

Emanuel suspirou, a tensão em seus ombros cedendo levemente. Ele a pegou no colo, sentindo o peso leve da menina contra seu peito.

— Comportamento de princesa, Maya. Não de monstrinho. Entendeu?

Ela assentiu, aninhando-se no pescoço dele. Emanuel olhou para Eduarda, que permanecia ali, observando-o com uma mistura de temor e admiração. Ele estendeu a mão livre e puxou Eduarda para perto, prendendo-a contra o seu lado.

— Você também — sussurrou ele no ouvido de Eduarda. — Pare de tremer toda vez que eu levanto a voz. Eu protejo você, mas preciso que você me apoie quando o clima esquenta.

— Eu apoio, Manu... eu só não gosto de briga — ela disse, manhosa, encostando a cabeça no ombro dele.

— Não é briga. É liderança — corrigiu ele.

O restante do almoço seguiu sob uma calma tensa, porém controlada. Emanuel não saiu do lado de Eduarda, mantendo uma mão possessiva em sua cintura ou em seu ombro, marcando território diante dos convidados e da própria família. Ele era o leão daquela tribo, e embora Eduarda fosse a sua calmaria, ela também era a peça que ele mais protegia.

Mais tarde, quando o sol começava a se pôr atrás das colinas, Emanuel e Eduarda caminharam até o estábulo, longe dos olhos curiosos dos parentes. As meninas estavam finalmente sob a supervisão das babás na casa principal.

— Você foi muito bruto hoje — comentou Eduarda, parando perto de uma das cercas de madeira.

Emanuel a prensou contra a cerca, as mãos grandes prendendo-a pelos quadris. O ambiente cheirava a feno e liberdade.

— Eu fui o que precisava ser — respondeu ele, a voz profunda vibrando contra o peito dela. — A Sara tenta me desafiar através da Ágata, e você tenta me amolecer através da Maya. Eu sou um homem só, Eduarda. Se eu não for o pilar, essa estrutura toda desaba.

— Eu sei... — ela suspirou, passando as mãos pelo peito dele, sentindo os batimentos cardíacos constantes. — Mas às vezes eu sinto que você vai explodir.

— Eu explodo se você não me der o que eu preciso agora — ele disse, inclinando-se para beijar o pescoço dela com uma fome que não tinha nada a ver com o almoço. — Eu passei o dia inteiro sendo o "macho alfa" para os outros. Agora eu quero ser apenas o seu homem. Sem crianças, sem Sara, sem negócios.

Eduarda entregou-se ao beijo dele, sentindo a força das mãos de Emanuel em seu corpo. Ela amava esse contraste: o homem que podia silenciar uma festa com um olhar, mas que buscava nela o silêncio para a sua própria alma.

— Vamos para o quarto? — sussurrou ela, manhosa, puxando-o pela gola da camisa.

Emanuel sorriu, um sorriso raro e genuíno que só ela via.

— Com certeza. E se alguém ousar bater na porta, eu juro que mando construir um muro ao redor deste quarto.

Eles caminharam de volta para a casa sob o crepúsculo. No jardim, Sara observava-os da janela do andar de cima, bebendo um último gole de vinho. Ela sabia que, por mais que tentasse provocar, a âncora de Emanuel era a timidez de Eduarda. E embora o rugido dele fosse para o mundo, o seu descanso era sempre no ventre daquela que ele chamava de sua.

Naquela noite, na casa de campo, o leão finalmente dormiu, mas não antes de garantir que seu reino estivesse seguro, marcado e, acima de tudo, completamente sob o seu controle.