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Véus de Névoa e Teimosia
O estúdio principal de Emanuel, no coração da cidade, exalava um aroma forte de tinta, antisséptico e café caro. As paredes eram adornadas com esboços complexos, desde biomecânicos agressivos até delicadas flores em aquarela. No centro de tudo, Emanuel terminava de traçar uma fênix nas costas de um cliente, sua concentração era absoluta, o zumbido da máquina de tatuagem servindo como uma trilha sonora para sua mente focada. Ele era um homem de controle, de linhas precisas. Mas, assim que a porta da frente se abriu e o tilintar dos sinos anunciou a chegada de suas duas mulheres, ele soube que o controle estava prestes a evaporar.
Sara entrou primeiro, seus saltos altos estalando contra o piso de concreto polido. Ela usava um vestido justo de couro sintético e segurava uma bolsa de grife como se fosse uma arma. Logo atrás, quase flutuando, Eduarda aparecia com um vestido de linho branco, longo e fluido, carregando um livro antigo de capa dura contra o peito.
— Emanuel, você precisa dar um jeito na sua namorada — disparou Sara, jogando-se no sofá de couro da recepção e cruzando as pernas torneadas. — Ela enlouqueceu de vez. Passou a manhã inteira falando de mortos.
Emanuel desligou a máquina, limpou o excesso de tinta da pele do cliente e pediu que seu assistente finalizasse o curativo. Ele suspirou, retirando as luvas de látex e encarando as duas.
— O que aconteceu agora? — perguntou ele, a voz rouca pelo cansaço, mas mantendo a paciência.
Eduarda se aproximou dele com passos miúdos. Seus olhos castanhos estavam brilhantes, uma mistura de excitação e aquela manha irresistível que ela usava como escudo. Ela se aninhou sob o braço de Emanuel, ignorando o cheiro de tinta.
— Manu... eu descobri uma coisa maravilhosa — sussurrou ela, a voz doce e melancólica. — Você sabe sobre a lenda da Noiva de Paranapiacaba? Aquela que vaga pela neblina esperando por um amor que nunca voltou? E tem o túmulo da noiva espectral no cemitério local... eu preciso ver, Manu. Eu sinto que ela tem algo a me dizer sobre a estética do luto na arte.
Emanuel franziu a testa, sentindo uma pontada de irritação surgir.
— Eduarda, Paranapiacaba é longe, é úmida e, honestamente, é um lugar sombrio demais para você ficar andando por aí. Cemitérios? De novo essa obsessão com noivas fantasmas?
— Não é obsessão, é pesquisa para a faculdade! — mentiu ela descaradamente, fazendo um biquinho e escondendo o rosto no peito dele. — Por favor... eu quero ir amanhã. O clima vai estar perfeito, com muita neblina.
— Nem morta! — exclamou Sara, levantando-se e gesticulando com as mãos perfeitamente manicuradas. — Emanuel, você não vai levar a gente para um vilarejo fantasma no meio da serra para procurar encostos. Eu li sobre esse lugar. Dizem que as pessoas somem na neblina. Eu não investi tanto em silicone para virar alma penada em Paranapiacaba!
Emanuel massageou as têmporas. O contraste entre as duas nunca fora tão gritante. De um lado, Sara, pragmática e morrendo de medo de qualquer coisa que não pudesse ser resolvida com um cartão de crédito ou uma discussão lógica; do outro, Eduarda, que parecia querer se dissolver em uma lenda gótica.
— Eu vou, Manu — disse Eduarda, afastando-se um pouco e cruzando os braços, uma rara demonstração de firmeza. — Se você não me levar, eu pego o trem. Eu vou sozinha.
Emanuel sentiu o sangue subir. A ideia de Eduarda, tão frágil e distraída, andando sozinha por trilhas de trem e vilas isoladas era o seu pior pesadelo.
— Você não vai sozinha a lugar nenhum, Eduarda — disse ele, o tom de voz baixando para aquele registro de autoridade que costumava encerrar discussões.
— Então me leve — desafiou ela, os olhos marejados. — Você sempre diz que quer cuidar de mim, que quer que eu more com você... mas não quer participar das coisas que tocam minha alma.
Sara soltou uma risada nervosa, ajeitando o cabelo loiro platinado.
— "Tocam a alma"? Duda, querida, o que vai tocar sua alma lá é um resfriado ou um espírito obsessor. Emanuel, diga a ela que vamos para o shopping ou para um spa. Qualquer lugar com luz elétrica e sem cadáveres!
— Eu vou para Paranapiacaba — repetiu Eduarda, agora com uma lágrima solitária escorrendo. — Eu preciso visitar o túmulo. É uma promessa que fiz a mim mesma.
Emanuel olhou para a teimosia silenciosa de Eduarda e para o pânico mal disfarçado de Sara. Ele sabia que tinha perdido a batalha no momento em que Eduarda começou a chorar. Ele odiava vê-la assim, e odiava ainda mais a ideia de perdê-la de vista.
— Tudo bem — rosnou Emanuel, jogando o pano de limpeza na bancada. — Nós vamos. Amanhã cedo. Mas se a neblina ficar muito grossa ou se eu achar que é perigoso, nós voltamos na hora. Sem discussões.
Eduarda deu um pulinho, abraçando o pescoço de Emanuel e cobrindo seu rosto de beijos.
— Obrigada, meu amor! Você é o melhor!
— Você só pode estar brincando! — Sara gritou, indignada. — Emanuel, eu não vou! Eu me recuso a pisar em um cemitério de vila ferroviária.
— Você vai sim, Sara — disse Emanuel, voltando-se para ela com um olhar severo. — Eu não vou deixar você sozinha em casa e não vou deixar a Eduarda solta por lá. Se eu vou sofrer com essas histórias de fantasma, vocês duas vêm comigo. É o preço da convivência civilizada que vocês prometeram.
Sara bufou, batendo o pé.
— Eu vou, mas vou levar meu spray de pimenta e um terço. E se algum fantasma encostar no meu cabelo, eu juro que processo esse vilarejo inteiro!
***
O dia seguinte amanheceu exatamente como Eduarda previra: cinzento e pesado. A subida da serra em direção a Paranapiacaba foi marcada pelo silêncio tenso dentro do SUV de luxo de Emanuel. No banco do passageiro, Sara usava óculos escuros gigantes, apesar da falta de sol, e segurava o celular como se fosse um escudo, reclamando da queda constante do sinal de internet. No banco de trás, Eduarda estava em êxtase, observando a vegetação da Mata Atlântica se fechar sobre a estrada.
Quando chegaram à vila, a neblina — o famoso "vibe" do lugar — já havia engolido as construções de madeira de estilo inglês. O cenário era cinematográfico e arrepiante.
— Isso é um cenário de filme de terror — resmungou Sara, descendo do carro e afundando o salto fino na terra úmida. — Que horror! Emanuel, olha essa lama!
— Eu avisei para usar tênis — disse Emanuel, tirando uma mochila do porta-malas. Ele usava botas pesadas e uma jaqueta de couro preta, parecendo o único ali realmente preparado para o ambiente.
Eduarda saiu do carro quase em transe. Ela não parecia sentir o frio que fazia Sara tremer sob o casaco de pele sintética.
— É aqui... — sussurrou Eduarda. — Consigo sentir a melancolia no ar.
— Eu consigo sentir é o cheiro de mofo — rebateu Sara, agarrando o braço de Emanuel com força. — Vamos logo com isso. Onde fica esse túmulo maldito?
Emanuel suspirou, guiando as duas pelas ruas estreitas. Eduarda ia na frente, consultando um mapa desenhado à mão que ela havia tirado de seu livro. Eles passaram pela antiga estação ferroviária, os trilhos enferrujados desaparecendo no branco infinito da névoa. Sara pulava a cada som de apito distante ou rangido de madeira.
— Manu, você ouviu isso? — Sara perguntou, os olhos arregalados. — Parecia um lamento.
— Foi o vento nas frestas das casas, Sara — respondeu Emanuel, embora ele mesmo estivesse achando o lugar estranhamente silencioso.
— Não, foi ela — disse Eduarda, parando diante do portão de ferro do pequeno cemitério na encosta do morro. — A Noiva. Ela sabe que estamos aqui.
— Pelo amor de Deus, Eduarda! — Sara se benzeu três vezes. — Para com essa conversa! Emanuel, faça ela parar!
— Duda, chega de drama — pediu Emanuel, embora sua voz não tivesse a firmeza habitual. O cemitério, com suas lápides antigas cobertas de musgo, era de fato impressionante. — Vamos achar o que você quer e sair daqui.
Eles entraram no cemitério. Eduarda caminhava entre os túmulos com uma reverência quase religiosa, enquanto Sara se mantinha colada às costas de Emanuel, usando-o como escudo humano.
— Ali! — Eduarda apontou para uma estátua de mármore desgastada pelo tempo. Era a figura de uma mulher jovem, com um véu esculpido que parecia se misturar à neblina real.
Eduarda se ajoelhou diante do túmulo, tocando a pedra fria. Ela começou a murmurar algo, os olhos fechados, a expressão de uma pureza que incomodava e fascinava Emanuel ao mesmo tempo.
— Ela morreu de tristeza — explicou Eduarda, voltando-se para eles. — O noivo dela nunca desceu do trem. Ele morreu em um acidente na serra, mas ninguém teve coragem de contar. Ela esperou até o último suspiro.
— Que história alegre para um sábado de manhã — ironizou Sara, embora sua voz estivesse trêmula. — Já vimos, já choramos, agora podemos ir para um lugar que tenha Wi-Fi e champanhe?
De repente, um vento súbito soprou, fazendo as árvores ao redor do cemitério balançarem violentamente. Uma cortina de neblina mais densa deslizou sobre eles, reduzindo a visibilidade a quase zero.
— Emanuel! — gritou Sara, agarrando-se ao pescoço dele. — Eu não vejo nada! Alguma coisa tocou minha perna!
— Calma, Sara! Sou eu, é o mato! — Emanuel tentou desprendê-la, mas ela estava em pânico total.
— Ela está aqui... — a voz de Eduarda veio do meio do branco total, soando distante e etérea. — Ela está feliz por termos vindo.
— EDUARDA! — Emanuel rugiu, a irritação finalmente explodindo. — Pare com isso agora! Você está assustando a Sara e eu já estou perdendo a paciência!
Emanuel esticou o braço e puxou Eduarda pelo pulso, trazendo-a para perto de seu corpo. Agora ele tinha as duas: Sara pendurada em seu pescoço, soluçando de medo, e Eduarda, que parecia estar em outro planeta, com um sorriso sonhador nos lábios.
— Vamos embora. Agora — ordenou ele.
Enquanto caminhavam de volta para o carro, com Sara tropeçando e Eduarda olhando para trás a cada passo, Emanuel sentia-se o homem mais absurdo do mundo. Ele era um tatuador respeitado, um empresário de sucesso, e ali estava ele, no meio de uma vila fantasma, mediando um conflito entre uma loira siliconada que acreditava estar sendo perseguida por encostos e uma morena mística que queria virar melhor amiga de uma assombração.
Ao chegarem ao SUV, Sara se trancou imediatamente no banco de trás, exigindo que Emanuel ligasse o aquecedor no máximo. Eduarda, por outro lado, sentou-se ao lado dele na frente, com uma serenidade irritante.
— Foi lindo, não foi, Manu? — perguntou ela, manhosa, inclinando a cabeça no ombro dele enquanto ele manobrava para sair da vila.
— Foi um teste de estresse, isso sim — respondeu ele, embora tenha relaxado o aperto no volante ao sentir o calor dela. — Você quase matou a Sara de susto.
— Ela é muito sensível — comentou Eduarda com uma pontinha de sarcasmo que raramente mostrava. — Mas a Noiva gostou dela. Viu como o vento soprou quando ela chegou perto?
— EU OUVI ISSO! — gritou Sara do banco de trás. — Emanuel, se essa garota não parar de falar, eu vou saltar desse carro em movimento!
— Ninguém vai saltar de lugar nenhum — cortou Emanuel. — Nós vamos parar no primeiro restaurante decente que encontrarmos na estrada. Eu preciso de uma dose de uísque e vocês duas precisam de um banho de realidade.
— Eu quero fondue — anunciou Eduarda, recuperando sua voz de menina mimada. — Combina com o clima.
— E eu quero um lugar que aceite cartão e que não tenha nenhuma estátua de mármore num raio de dez quilômetros! — completou Sara, retocando o batom com mãos ainda trêmulas.
Emanuel olhou pelo retrovisor e viu Sara tentando recuperar sua postura de "namorada poderosa", embora ainda olhasse desconfiada para a neblina lá fora. Depois, olhou para Eduarda, que já folheava seu livro novamente, como se nada tivesse acontecido.
— Vocês são loucas — murmurou ele, um sorriso involuntário surgindo nos lábios. — As duas.
— Mas você ama a nossa loucura — disse Eduarda, pegando a mão dele e levando-a aos lábios.
— É — concordou Sara, inclinando-se entre os bancos dianteiros para beijar o rosto de Emanuel, tentando recuperar seu território. — Você não saberia o que fazer com uma vida normal, tatuador. Admita.
Emanuel não admitiu em voz alta, mas enquanto dirigia para longe da neblina de Paranapiacaba, ele sabia que elas tinham razão. O caos entre a timidez mística de uma e a vulgaridade confiante da outra era o que mantinha seu coração batendo. Ele só esperava que, na próxima vez, Eduarda escolhesse um tema de pesquisa que envolvesse algo mais vivo.
— Duda? — chamou ele, quando já estavam na rodovia.
— Sim, meu amor?
— Sobre os livros... pode levar todos para casa amanhã. Eu vou mandar instalar aquelas prateleiras que você queria na biblioteca.
Eduarda brilhou.
— Sério? Você não vai mais reclamar que eu ocupo muito espaço?
— Não — disse ele, dando um aperto carinhoso na mão dela. — Eu só quero que, se você for invocar fantasmas, que faça isso debaixo do meu teto, onde eu possa te ver.
— E onde eu possa chamar um exorcista se precisar! — acrescentou Sara, finalmente rindo, enquanto o sinal de internet voltava e ela começava a postar selfies com a legenda: "Sobrevivi ao sobrenatural. #GóticaMasNemTanto".
Emanuel suspirou, o estresse diminuindo. A vida com elas era uma corda bamba, mas a vista, ele tinha que admitir, era única.